GEORGES GASTAUD & DANIEL ANTONINI:

(Este texto é datado do ano de 2006 e o publicamos hoje em decorrência do aniversário de 10 anos da morte do Presidente iugoslavo Slobodan Milosevic).



        Os meios de comunicação acabam de anunciar, com um atraso estranhíssimo, a morte na prisão do antigo Presidente da Iugoslávia, Slobodan Milosevic. Fica-se assim a saber assim que o ex-Presidente, aprisionado pela "justiça" revanchista da OTAN, travestida na forma de "comunidade internacional", teria sido encontrado morto na sua cela várias horas após o seu falecimento, cujo anuncio tardio foi feito primeiro sem qualquer comentário, nomeadamente sob o formato inusitado de "não-desmentido" pelas autoridades neocoloniais de Belgrado.
        Sabe-se também que o Tribunal Penal Internacional por várias vezes recusou a liberdade provisória a este homem gravemente doente. Estranha justiça, decididamente em relação àquela que prevalece na União Europeia: a justiça francesa que rapidamente libertou o colaborador nazista Maurice Papon, há pouco deu uma amostra de sua "humanidade" maior para com este criminoso contra a humanidade, assassino dos manifestantes comunistas de Charonne, do que o TPI ao serviço da Nova Ordem Europeia em relação a um antigo dirigente comunista, "culpado" de ter defendido a unidade do seu País e o seu direito inalienável a não ser anexado pela UE.
        Ainda: ao que tudo indica, há uma semana, uma das principais testemunhas sérvias no processo de Milosevic teria se suicidado. Cada vez melhor!
        O que é certo é que Milosevic fazia mais do que resistir aos seus pretensos "juízes", denunciando os criminosos bombardeamentos da OTAN sobre Belgrado, a ocupação da Iugoslávia pelos exércitos americano, alemão, inglês e francês. Ele denunciava igualmente a privatização total da economia sérvia, o lançamento no desemprego de milhões de operários, a destruição das aquisições sociais herdadas da antiga República Socialista Federativa da Iugoslávia, o desmembramento "étnico" da Sérvia e da Iugoslávia, a próxima partição sob influência ocidental da Sérvia-Montenegro... O processo de Milosevic chegava ao ponto fixado pelos "acusadores", momento em que o processo do ex-Presidente levava à confusão do TPI e dos seus comanditários euro-atlânticos.
        O Polo do Renascimento Comunista na França (PRCF) tem um julgamento nuançado acerca de Milosevic. Por um lado, Milosevic acreditou ser bom, no momento da tempestade contrarrevolucionária que destruiu a URSS e as democracias populares, participar ativamente na autodissolução da Liga dos Comunista da Iugoslávia e do Partido Comunista Sérvio, para aliar-se a elementos sérvios nacionalistas e ultranacionalistas, com o fim proclamado de preservar a unidade sérvia e iugoslava. Ora, alguns destes ultranacionalistas cometeram terríveis exações na guerra civil tal como os ultranacionalistas croatas, bósnios e kosovares que desencadearam unilateralmente movimentos separatistas. É evidente que o PRCF condena todos os crimes de guerra, quaisquer que eles sejam e de onde quer que venham, mas o seu julgamento caberá por direito ao povo iugoslavo e não aos "juízes" instituídos pelos criminosos da OTAN, do Vaticano e da RFA.
        Foram com efeito estas grandes potências "virtuosas" que desencadearam a guerra civil interétnica reconhecendo a secessão unilateral dos senhores fascizantes da Croácia a fim de ampliar a esfera de influência da Grande Alemanha e do Vaticano em prol da reclericalização da Europa de Maastricht...
        Na realidade, não foi para julgar imparcialmente o conjunto dos criminosos de guerra que foi aberto o processo do TPI a pedido do novo Santo Império romano-germano-americano. Nem tampouco para julgar o atentado criminoso contra a soberania iugoslava que constitui a atual ocupação dos Balcãs pelo imperialismo americano, francês e alemão que se rivalizam para partilhar o País entre si sob a cobertura da ingerência humanitária e com a benção da ONU. De fato, à sombra do "Processo Milosevic", os principais criminosos de guerra não-sérvios e os massacradores da OTAN que partilham o País entre si com os seus fantoches separatistas estão em liberdade ou... abertamente no poder nos microestados resultantes do estilhaçamento iugoslavo sob sua influência.
        Sem entretanto aprovar em tudo a linha política que foi a sua, o PRCF saúda a atitude digna de Milosevic face àquela perseguição política. Apesar da doença e da impossibilidade de se tratar no exterior, Milosevic enfrentou os recolonizadores do seu país despedaçado.
        O PRCF exige portanto a dissolução do TPI, o respeito à soberania iugoslava, a saída da OTAN e das tropas francesas da Iugoslávia, o respeito dos direitos de todos os povos da ex-RSFI, inclusive no Kosovo onde os sérvios são "depurados etnicamente" pela máfia do UCK (Exercito de Libertação do Kosovo), o julgamento pela Iugoslávia independente de todos os criminosos de guerra, chefes de Estados ocidentais e generais da NATO. O PRCF está solidário com os trabalhadores iugoslavos confrontados com regressões sociais maciças, assim como é solidário com os comunistas iugoslavos que combatem a ocupação da OTAN na base do patriotismo federal e socialista e do internacionalismo proletário, recusando o chauvinismo "étnico", instrumento de divisão nas mãos do supranacionalismo europeu e do imperialismo americano.
        A "justiça dos vencedores" ocidentais é decididamente cada vez mais opaca. Ao ver como acabou o "Processo Milosevic", os observadores do "Processo Saddam Hussein" em Bagdá têm razões para perguntar quanto tempo ainda será preciso para encontrar o antigo dirigente iraquiano morto na sua cela devido a uma parada do coração descoberta tardiamente... após o oportuno suicídio das suas testemunhas de acusação...

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