
“O sonho dos dirigentes totalitários tornou-se realidade. A partir de agora, e tendo por agentes aqueles que dominam o mundo com uma tecnologia altamente sofisticada, é possível (sem qualquer risco e custo humano) atacar, destruir e, finalmente, derrotar um determinado país simplesmente por ataque aéreos. [...] Sem qualquer força que possa se opor à Comunidade Internacional, que compreende e lidera 15% da população mundial, acabou por transformar-se num vampiro capaz de matar dia e noite sem a mínima possibilidade de ser contido. Quase todo dia surgem novos resultados mortais desta política nos “países não-racionais”: Ruanda, Bósnia, Turquia (contra os curdos), Sudão, Chechênia, Timor-Leste, Salvador, Guatemala, Iraque, Iugoslávia (incluído Kosovo). Nesse contexto, as Nações Unidas são um corpo morto [...]. Após milhares de anos de desenvolvimento de uma racionalidade que aparentemente objetivava um mundo unificado baseado nos direitos humanos fundamentais, a modernidade tornou-se tema de alguns poucos que exercem a dominação mundial sem escrúpulos e com uma força brutal. A Idade da Pedra reaparece em sua versão mais sofisticada”.
Assim se abre, na tradução de Newton Ramos de Oliveira, uma versão sintética de The New Totalitarian Society, livro publicado em 1999 por Emil Vlajki, croata por parte de pai e judeu por parte de mãe, mas sobretudo um internacionalista no melhor sentido do termo: não um cosmopolita “globalizado”, mas um amigo da humanidade em sua concretude, principalmente dos povos oprimidos, destroçados pelo novo tipo de holocausto cuja eficiência foi experimentalmente comprovada no Iraque e na Sérvia. A análise que então ofereceu põe em evidência o indecentemente hipócrita e covarde massacre balístico promovido, em nome dos “direitos humanos”, pelos valentões do Pentágono e seus cães de guarda da OTAN. “Não há registro na história mundial deste tipo de cinismo que, em nossa época, ocorre na Iugoslávia.” Depois dos sérvios na Croácia e dos muçulmanos da Bósnia, as vítimas agora são cerca de um milhão de albaneses e oito milhões de sérvios que estão sob os ‘humanitários’ ataques aéreos da OTAN.”
Vlajki sustenta que embora “a meta estratégica principal” dos imperialistas fosse “destruir [...] uma aliada (a Sérvia) da (futura e forte) Rússia”, eles também queriam “impedir que os muçulmanos entrem na Europa através da Bósnia e/ ou da ‘Grande Albânia’”. Assim, para a Comunidade Internacional, a ameaça à estabilidade da região tem sido os muçulmanos da Bósnia e Kosovo e os sérvios da Croácia, Bósnia e Montenegro. [...]. Durante a primeira onda de guerras, a Comunidade Internacional ajudou a Croácia a livrar-se de 400 mil sérvios que estavam instalados na região de Lica, Zagreb e Eslavônia (foi a pior limpeza étnica que ocorreu nesta guerra suja, 1992-1995). Ao mesmo tempo, [...] permitiu que croatas e sérvios eliminassem um grande número de muçulmanos na Bósnia e que os muçulmanos eliminassem cerca de 150 mil sérvios de Saravejo. Por fim, pelo acordo de Dayton, os sérvios da Bósnia foram obrigados a cortar todos os vínculos com a Sérvia e os muçulmanos foram neutralizados pela Confederação Muçulmanos-Croatas”
Manipulando todos os povos da região, lançando uns contra os outros, ocupando a Albânia [...], estabelecendo bases na Macedônia e, enfim, diante da recusa da Iugoslávia em consentir na presença de tropas estrangeiras no Kosovo, parte integrante de seu território, encorajando os albaneses que lá viviam a exigir independência, os “humanistas” da OTAN criaram um cenário catastrófico que lhes serviu de pretexto para massacrar a Sérvia e transformar toda a região em protetorado.
No livro mais recente, "Demonization of Serbs", Vlajki desenvolve, como anunciado no subtítulo (“Western imperialism and media war criminals”), enérgico e extremamente bem documentado libelo contra os celerados que intoxicaram a opinião pública ocidental para apresentar a destruição da Iugoslávia como uma exigência do que chamam de Comunidade Internacional, mas que não passa da cosa nostra do Império do dólar. Uma cronologia, cujo marco zero é o ano de 1986 e o marco final, a derrubada de Milosevic em outubro de 2000, relembra os principais episódios do lento, gradual e implacável esquartejamento do que foi a República Socialista Confederada dos Eslavos do Sul (p.22-30).
Copiosa documentação desmascara, conforme a concisa expressão de Raquel Moraes reproduzida na contracapa, o “falso humanismo” estadunidense. Vlajki vincula-o à “nova sociedade totalitária”, em que a indústria da mentira globalizada fabrica, até nos pormenores, as “notícias” que domesticam a opinião pública. A eficácia da intoxicação midiática, entretanto, não é absoluta. A anestesia moral dos cidadãos do chamado “Ocidente” não resistiria, como não resistiu nos Estados Unidos durante a guerra suja no Vietnã, ao acúmulo de baixas do lado da OTAN. Graças, entretanto, ao método de guerra próprio a impérios moralmente obesos, mas detentores das mais terríveis armas de destruição maciça, os desfibrados eunucos que combatem apertando botões e posando para as câmeras da televisão conseguiram minar a coragem do povo sérvio com um dilúvio de mísseis, além de armas condenadas pelas convenções internacionais, como as bombas de fragmentação e de urânio “empobrecido”. “Como os Estados Unidos ousam comparar outros povos com os nazistas?”, pergunta Vlajki, lembrando, entre muitos outros, os fatos de que “os primeiros campos de concentração da era moderna foram as reservas dos Estados Unidos para os índios; [...] a esterilização de gente socialmente ‘indesejável’ foi corrente nos Estados Unidos muito antes de Hitler”, como também o foram “os maciços experimentos de horror biológico” (p. 178).
No que concerne aos índios, vale também lembrar que as duas principais armas utilizadas na destruição da Iugoslávia sob pretexto de impedir a “limpeza étnica” dos albaneses foram os mísseis Tomahawk e os helicópteros Apache, nomes de duas tribos “pele-vermelha” exterminadas pelos estadunidenses no século XIX. Insuperável descaramento do Império do dólar!
As raras perdas humanas do beligerante vencedor foram devidas a acidentes provocados por sua própria torpeza. Assim, a cruel ironia que vitimou soldados das tropas inglesas de ocupação, atingidos quando efetuavam vistoria numa escola de Kosovo, por criminosas bombas de fragmentação lançadas por seus próprios colegas. Teve razão Fidel Castro ao classificar a destruição da Iugoslávia como “a guerra mais covarde de todos os tempos”.
Comprovando a completa instrumentalização da máquina imperialista de “notícias”, "Demonization of Serbs" mostra que quanto mais criminosos e letais se revelavam as consequências do massacre balístico de 1999, maior era o empenho dos mandantes do genocídio e de seus prepostos “midiáticos”, treinados para morder quem o dono manda, em jogar sobre os ombros de Milosevic e dos patriotas sérvios a responsabilidade pela atroz tragédia. A demonização dos sérvios veio justificar a destruição da Sérvia.
Dessa robótica unanimidade neoliberal participaram também os “comunicadores” da periferia. Não somente, entre nós, os da imprensa assumidamente de direita, como O Estado de S. Paulo, mas também aqueles habituados a cortejar a sensibilidade cultural espontânea do intelectual médio, como a Folha de S. Paulo, que só trata Milosevic de “ditador”, mas bajulou vergonhosamente, anos a fio, a ditadura militar brasileira, com especial carinho pelo presidente Médici.
Sequestrado e vendido por centenas de milhões de dólares aos esbirros da OTAN pelo atual primeiro-ministro da Sérvia, Zoran Djindjic, do Partido Democrático (sic), Milosevic, com a dignidade e a coragem de que carecem seus desafetos, declarou firmemente que não iria recorrer a advogado de defesa, porque o Tribunal Penal Internacional de Haia, para onde o levaram, é ilegal. Foi criado pelo Conselho de Segurança da ONU, dominado pelo Império do dólar e seus satélites e não pela Assembleia Geral da ONU. Só julga os adversários do Departamento de Estado imperial.
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