(Conto retirado do livro GOG de Giovanni Papini, publicado na Itália em 1931)

Neste mês comprei uma República. Desejo caro que não terá repetição. Era um desejo que tinha há muito tempo e do qual quis me livrar. Imaginava que ser o dono de um país dava mais poder.
A ocasião era boa e o negócio ficou concluído em poucos dias. O presidente estava com a água até o pescoço: seu ministério, composto por seus servidores, estava em perigo. Os cofres da República estavam vazias; impor novos impostos teria sido o sinal para o derrocamento de todo o clã que assumia o poder, talvez de uma revolução. Já havia um general que armava grupos de rebeldes e prometia cargos e empregos ao primeiro que chegava.
A ocasião era boa e o negócio ficou concluído em poucos dias. O presidente estava com a água até o pescoço: seu ministério, composto por seus servidores, estava em perigo. Os cofres da República estavam vazias; impor novos impostos teria sido o sinal para o derrocamento de todo o clã que assumia o poder, talvez de uma revolução. Já havia um general que armava grupos de rebeldes e prometia cargos e empregos ao primeiro que chegava.
Um agente americano que estava ali me comunicou. O ministro da Fazenda correu para Nova York: em quatro dias estávamos de acordo. Antecipei alguns milhões de dólares à República e, além disso, concedi ao presidente, à todos os ministros e aos seus secretários uma remuneração dupla que os que recebiam do Estado. Aumentei (sem que o povo saiba) os impostos e os monopólios. Além disso, o presidente e os ministros assinaram um documento secreto que, praticamente, me dá o controle sobre toda a vida da República. Embora eu pareça, quando vou ali, um simples hóspede de passagem, sou, na verdade, o dono quase absoluto do país. Nestes dias tive que dar uma nova subvenção, bastante forte, para a renovação do material do exército e garanti, em troca disso, novos privilégios.
O espetáculo, para mim, é bastante divertido. As câmaras continuam legislando, aparentemente livremente; os cidadãos seguem imaginando que a República é autônoma e independente e que de sua vontade depende o curso dos acontecimentos. Não sabem que tudo o que eles acreditam possuir (vida, bens, direitos civis) dependem, em última instância, de um estrangeiro desconhecido para eles, isto é, de mim.
Amanhã posso ordenar o fechamento do Parlamento, uma reforma da Constituição, o aumento das tarifas de impostos, a expulsão dos imigrantes. Poderia, se quisesse, revelar os acordos secretos da "patrulha" agora dominante e derrubar com isso o Governo, desde o presidente até o último secretário. Não seria impossível para eu empurrar o país, que tenho em minhas mãos, a declarar guerra à umas das repúblicas limítrofes.
Este poder oculto, mas ilimitado, me fez passar algumas horas agradáveis. Sofrer todas as moléstias e servidões da comédia política é uma fatiga tremenda; mas ser o comediante que, atrás do bastidor, pode se divertir puxando os fios dos fantoches obedientes aos seus movimentos é um trabalho voluptuoso. Meu desprezo pelos homens encontra aqui um saboroso alimento e milhares de confirmações.
Eu não sou mais que o rei incógnito de uma pequena República em desordem, mas a facilidade com que consegui me apoderar dela e o evidente interesse ($$$) de todos os "informados" em conservar o segredo, me faz pensar que outras nações, e bastante maiores e mais importantes que minha República, vivem, sem se dar conta, sob uma análoga dependência de misteriosos soberanos estrangeiros. Sendo necessário muito mais dinheiro para sua aquisição, se tratará, em vez de um só dono, como no meu caso, de um truste (organização), de um sindicato de negócios, de um grupo restringido de capitalistas ou de banqueiros.
Mas tenho teorias suspeitas de que outros países são realmente governados por pequenos comitês de reis invisíveis, conhecidos somente por seus homens de confiança, que continuam representando com naturalidade o papel de chefes legítimos.
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