MAHDI DARIUS NAZEMROAYA: Politização da investigação sobre a Associação Mutual Israelita Argentina — Pretexto para uma mudança de regime?


        A história tem um jeito estranho de se repetir. Hoje a Argentina está passando por processo semelhante ao acontecido logo depois da queda de Boris Yeltsin, nos anos que se seguiram a 1999, quando Vladimir Putin assumiu o poder, tomando seu lugar no Kremlin como presidente da Federação Russa. Enquanto tenta se safar do jugo estrangeiro, o governo da Argentina em Buenos Aires tem consolidado seu poder econômico e político.
        No entanto, o governo argentino tem sofrido a oposição ao mesmo tempo do velho regime e da oligarquia que colaboram, ambos, com os Estados Unidos. Tais forças fazem oposição cerrada contra os maiores projetos nacionais, como a renacionalização de grandes companhias e o fortalecimento do Poder Executivo. Dessa forma, o confronto entre a Presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner e seus oponentes são similares aos confrontos entre o Presidente russo Vladimir Putin com os oligarcas e políticos russos que querem subordinar a Rússia a Wall Street e Washington, assim como à Europa Ocidental, grandes centros financeiros.
        Não se perde uma oportunidade de enfraquecer o governo argentino. A presidente Fernandez de Kirchner chegou mesmo a acusar publicamente seus oponentes domésticos e os Estados Unidos e trabalharem em conjunto para a mudança de regime. Quando o Daesh ou “Estado Islâmico” ameaçou matá-la em 2014, ela aludiu ao fato de que a ameaça veio na realidade dos Estados Unidos, já que Washington é a entidade que procura fazê-la desaparecer, assim como é quem está por trás do Estado Islâmico e suas brigadas terroristas na Síria e no Iraque⁽¹⁾.


A morte de Alberto Nisman

        O último capítulo da luta do governo argentino começou em janeiro de 2015. No mesmo dia em que Israel matou o general da Guarda Revolucionária iraniana Mohammed Allahdadi dentro da Síria, o antigo promotor especial Alberto Nisman foi morto por um tiro disparado no lado de sua cabeça no banheiro de seu apartamento fechado em 18 de janeiro de 2015⁽²⁾. Nisman tinha investigado o atentado a bomba em 1994 contra um edifício de propriedade da AMIA — Asociación Mutual Israelita Argentina por um período de dez anos. Em 2003 fora nomeado para a tarefa pelo Presidente Nestor Kirchner, o marido já falecido da atual presidente.
        Alguns dias antes, ele tinha feito acusações contra a Presidente da Argentina, Cristina Fernandez de Kirchner e seu ministro do Exterior Hector Timerman, ele mesmo um judeu. Nas palavras do New York Times, Nisman havia “lançado graves acusações”, afirmando “que funcionários iranianos teriam planejado e financiado o ataque; que o Hezbollah, aliado do Irã no Líbano o havia executado; e que a Presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, e seus principais assessores tinham conspirado para encobrir o envolvimento iraniano como parte de um acordo para o fornecimento de petróleo do Irã para a Argentina”⁽³⁾.
        Tendo fugido da Argentina após a morte de Nisman, o jornalista judeu Damian Pachter jogou lenha na fogueira desde Israel tendo mesmo escrito um artigo para o Haaretz que não foi apoiado por ninguém, mas mesmo assim muito citado, no qual busca polemizar com o governo argentino. O artigo de Pachter faz a Argentina parecer um país que vive à sombra do nazismo alemão ou de algum regime fascista. Vejam alguns de seus comentários:

  • Não tenho ideia de quando voltarei para a Argentina. Aliás, nem sei se quero voltar. O que eu sei é que o país no qual nasci não é mais o lugar feliz sobre o qual meus avós costumam contar histórias.
  • A Argentina transformou-se em um lugar escuro dominado por um sistema político corrupto. Ainda não entendi direito tudo o que me aconteceu nas últimas 48 horas. Mas nunca imaginei que meu retorno para Israel aconteceria desta forma⁽⁴⁾.
        Antes de seguirmos em frente, deve ser acrescentado que nos dez anos de investigação de Alberto Nisman, ele nunca chegou a acusar o Irã ou o Hezbollah. Acrescente-se que foi revelado que Nisman consultou frequentemente os Estados Unidos sobre o caso AMIA e que foi frontalmente acusado por Roland Noble, antigo presidente da International Criminal Police Organization (INTERPOL) de ser um mentiroso em relação a muitas das acusações que fez sobre o caso AMIA⁽⁵⁾.
        A morte de Alberto Nisman foi noticiada como suicídio. No entanto, o momento em que a morte se deu é muito suspeito. Ele faleceu apenas algumas horas antes de depor no Congresso Argentino. O governo argentino disse que o que aconteceu na realidade foi um homicídio destinado a prejudicar o governo. Essa assertiva se tornou plausível tendo em vista que a morte de Alberto Nisman está sendo usada para fins políticos, como munição para a tentativa de remoção do governo argentino.


A quinta coluna na Argentina

        O jornal The Guardian publicou um artigo em 27 de janeiro de 2015 onde relata que a morte de Alberto Nisman aconteceu “depois de uma luta acirrada” entre o governo argentino e uma importante “agência de inteligência, o que foi revelado depois da morte suspeita de Nisman, tendo a presidente acusado espiões desonestos que tentam solapar o seu governo”. A partir da reportagem, alguns pontos importantes podem ser notados, entre os quais os que segue:

  • Funcionários do governo acusaram diretamente alguns espiões que eles dizem que trabalhavam junto com Nisman e ao qual forneciam gravações de escutas.
  • Entre eles estava Antonio Stiuso, o qual até o mês passado era o diretor geral de operações para interceptação dos adversários políticos da Presidente. Foi demitido quando a Presidente Cristina descobriu que ele estava trabalhando em conluio com Nisman na construção de um caso contra ela. Acredita-se que esteja agora nos Estados Unidos.
  • Em um discurso em cadeia de televisão — que pronunciou a partir de uma cadeira de rodas depois de recente acidente — Fernandez criticou também Diego Lagomarsino, o qual foi acusado na segunda feira de ter fornecido ilegalmente uma arma para Nisman.

        O que se conclui de todas as informações acima é que a segurança e a inteligência argentina desenvolvem operações destinadas a derrubar seu próprio governo. Acrescente-se que Antonio Stiuso e Nisman estavam trabalhando secretamente para estabelecer um caso que possibilitasse a remoção de Kirchner do poder.
        A quinta coluna está presente na Argentina. Note-se que muitos dos indivíduos envolvidos neste caso são elementos que restaram do período de ditadura militar na Argentina, a qual colaborava intimamente com os Estados Unidos. Isso pode explicar porque se acredita que Stusio tenha voado para os Estados Unidos. Além disso, este é o motivo que levou o governo argentino a iniciar uma investigação sobre as atividades de vários agentes da polícia federal que estavam monitorando Nisman e porque decidiu substituir a Secretaria de Inteligência (SI — anteriormente Secretaria de Inteligência do Estado ou SIDE) por uma nova agência federal de inteligência. “Todas essas coisas me levaram a tomar a decisão de remover agentes que atuam desde antes da implantação da democracia”, afirmou a própria Kirchner.
        “Nós precisamos trabalhar em um projeto para a reforma do sistema de inteligência da Argentina a fim de clarificar um sistema que hoje não está a serviço dos interesses nacionais”, declarou a presidente Kirchner sobre as reformas. Kirchner revelou ainda que a SI estava trabalhando para minar seu governo e anular um acordo que a Argentina tinha assinado com o Irã. O jornal Buenos Aires Herald escreveu que a Presidente Kirchner asseverou que “desde o instante em que foi assinado o Memorando de Entendimento com o Irã sobre o episódio do atentado contra a AMIA em 1994, você pode notar que o acordo vem sendo bombardeado a partir da SI (Secretaria de Inteligência)”⁽⁶⁾.
        A Argentina é um front da guerra global de múltiplo espectro e a AMIA não passa de um pretexto.
        O caso AMIA foi politizado em dois fronts. Um deles é a luta interna e o outro está no campo das relações internacionais. Um grupo de oligarcas argentinos estão usando o caso AMIA para retomar o controle sobre o país, enquanto por outro lado os Estados Unidos estão usando o caso AMIA como mais uma ferramenta adequada, como aconteceu com os fundos abutres, para pressionar a Argentina e interferir em seus assuntos internos.
        As opiniões estão se radicalizando dentro da Argentina enquanto os ataques são cada vez mais duros. A morte de Alberto Nisman está sendo usada pelos adversários políticos do governo argentino para demonizá-lo. A oposição está até se referindo a Nisman como um mártir na luta pela democracia e liberdade no país, que supostamente estaria sendo conduzido para um regime cada vez mais autoritário.
        O confronto político na Argentina sobre o atentado contra a AMIA reflete uma realidade muito mais grave. O Irã não é o único alvo a ser atingido com a polarização sobre o caso AMIA. Nem se trata de procurar justiça para as vítimas do atentado. China, Rússia, Cuba, Brasil, Venezuela, Equador, Bolívia e uma série de outros países independentes também são alvos do que é na realidade uma guerra que se trava entre os EUA e os países soberanos que resistem à influência dos Estados Unidos.
        O objetivo final dos Estados Unidos é retomar sua influência perdida na Argentina, redirecionar suas relações comerciais e controlar sua política externa. Isto inclui o fim das medidas lançadas por Buenos Aires no sentido de retomar o controle sobre as Malvinas (Falklands) da Inglaterra. As Malvinas estão situadas em uma região rica em recursos energéticos no Atlântico Sul.
        Além da guerra por recursos que incluem as reservas de energia, a guerra de múltiplo espectro lançada pelos Estados Unidos contra seus rivais vai cada vez mais em direção a um assalto à agricultura do qual resultará a desestabilização dos preços dos alimentos e eventualmente a fome. Além de uma ainda não explorada reserva de petróleo e gás natural, a Argentina é uma potência agrícola. Controlar Buenos Aires seria útil para os Estados Unidos.




NOTAS:

(1): NAZEMROAYA, Mahdi Darius. "Eagles of Empire and economic terrorism: Are vulture funds instruments of US policy?". RT, 24 de outubro de 2014. (Acesse).
(2): CALATRAVA, Almudena. "Supporters doubt Argentine prosecutor killed self". Associated Press, 20 de janeiro de 2015. (Acesse).
WATTS, 
Jonathan. "Argentinian government moves to dissolve domestic intelligence agency". The Guardian, 27 de janeiro de 2015. (Acesse).
(3): KERSHNER, Isabel. "Journalist Who Reported on Argentine Prosecutor’s Death Flees to Israel". The New York Times, 26 de janeiro de 2015. (Acesse).
(4): PACHTER, Damian, "Why I fled Argentina after breaking the story of Alberto Nisman’s death". Haaretz, 25 de janeiro de 2015. (Acesse).
(5): EX INTERPOL HEAD ROLAND NOBLE: WHAT PROSECUTOR NISMAN SAYS IS FALSE, Buenos Aires Herald, 18 de janeiro de 2015. (Acesse).
(6): CFK ANNOUNCES PLAN TO DISSOLVE SI INTELLIGENCE SERVICE. Buenos Aires Herald, 26 de janeiro de 2015. 

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