RAUL CARRION: Lenin e os "compromissos" na luta de classes



        O Brasil vive momentos de grande acirramento da luta de classes, o que faz com que novos contingentes de homens e mulheres se integrem ao combate, muitas vezes carentes de uma maior experiência política. Ao mesmo tempo, as circunstâncias altamente mutáveis e a correlação de forças momentaneamente desfavorável exigem de todos nós grande argúcia e habilidade tática, para enfrentar a ofensiva das forças conservadoras e de direita.
        Frente a essa difícil situação — que exige manobras, recuos, concessões, busca de aliados (mesmo que instáveis) para enfrentar os ataques dos inimigos e passar à contraofensiva — observa-se o surgimento de opiniões estreitas e sectárias que, caso prevaleçam, podem nos levar à derrota nesse difícil enfrentamento. “Nenhum compromisso!”, “Nenhum acordo!”, “Nenhuma tratativa com os que vacilam!” são algumas das “frases altissonantes” que surgem frequentemente e se apresentam como a expressão mais avançada e consequente da luta…
        Nesse contexto, impõe-se relembrar os ensinamentos do grande revolucionário russo Vladimir Ilich Ulyanov Lenin, que em diversos momentos examinou os inevitáveis “compromissos” no processo da luta de classes. Em 1918, respondendo aos autoproclamados “comunistas de esquerda”, que criticavam os bolcheviques por terem assinado com a Alemanha o Tratado de Paz de Brest-Litovsk, imposta pela superioridade militar alemã, Lenin afirmou: “nossos comunistas ‘de esquerda’ […] não sabem pensar na correlação de forças, não sabem ter em consideração a correlação de forças. Nisso reside o cerne do marxismo e da tática marxista”⁽¹⁾. “Aceitar o combate, quando ele é manifestamente vantajoso ao inimigo e não a nós, constitui um crime e para nada servem os políticos da classe revolucionária que não sabem ‘manobrar’, que não sabem concertar ‘acordos e compromissos’ a fim de evitar um combate com toda certeza desfavorável”⁽²⁾.
        Nesse mesmo ano, criticando a “fraseologia esquerdista”, arrematou: “A frase revolucionária costuma ser frequentemente o mal de que sofrem os partidos revolucionários nas circunstâncias em que fazem a ligação, a associação e o entrelaçamento dos elementos proletários e pequeno-burgueses e quando o curso dos acontecimentos revolucionários mostra importantes e bruscas mudanças. A frase revolucionária é a repetição das consignas revolucionárias sem ter em conta as circunstâncias objetivas da virada nos acontecimentos, que ocorrem na situação do momento. Consignas magníficas, atraentes e embriagadoras, mas desprovidas de base: essa a essência da frase revolucionária”⁽³⁾.
        Em 1920, fazendo um balanço de mais de dois anos e meio de poder proletário na Rússia e visando combater as posições “esquerdistas” que proliferavam no nascente movimento comunista internacional, Lenin escreveu “Esquerdismo: A Doença Infantil do Comunismo”, onde analisa, primeiramente, as causas do surgimento do esquerdismo: “os revolucionários muito jovens e inexperientes, assim como os revolucionários pequeno-burgueses, inclusive de idade muitos respeitável e de grande experiência, consideram extraordinariamente ‘perigoso’, incompreensível e errôneo ‘autorizar os compromissos’”⁽⁴⁾.
        A seguir, Lenin distingue entre “compromissos” necessários — impostos pelas condições objetivas e por uma correlação de forças desfavorável — e “compromissos” que significam traição: “Todo proletário conhece greves, conhece ‘compromissos’ com os odiados opressores e exploradores, depois dos quais os operários tiveram que voltar ao trabalho sem haver conseguido nada ou obtendo a satisfação parcial de suas reivindicações. Todo proletário, graças ao ambiente de luta de massas e de acentuado aguçamento dos antagonismos de classe em que vive, observa a diferença existente entre um compromisso imposto por condições objetivas […] — compromisso que em nada diminui a abnegação revolucionária nem a disposição em continuar a luta dos operários que o contraíram —  e, de outra parte, um compromisso de traidores que atribuem a causas objetivas o seu vil egoísmo […] sua covardia, seu desejo de ganhar a boa vontade dos capitalistas, sua falta de firmeza ante as ameaças e, as vezes, ante as exortações, as esmolas e os afagos dos capitalistas”⁽⁵⁾. 
        Ou seja, Lenin não justifica todo o tipo de “compromisso”, mas indica o equívoco de rejeitar os “compromissos” em todas as circunstâncias, colocando a necessidade de analisá-los de forma concreta, caso a caso, examinando se contribuem ou prejudicam a luta: “A conclusão é clara: rechaçar os compromissos ‘por princípio’, negar a legitimidade de todo compromisso em geral, qualquer que seja, constitui uma puerilidade que inclusive é difícil levar a sério. O político que queira ser útil ao proletariado revolucionário deve saber distinguir os casos concretos de compromissos que são precisamente inadmissíveis, que são uma expressão de oportunismo e de traição, e dirigir contra tais compromissos concretos toda a força da crítica, todo o fio de um desmascaramento implacável e de uma guerra sem quartel. […] Há compromissos e compromissos. É preciso saber analisar a situação e as circunstâncias concretas de cada compromisso ou de cada variedade de compromisso. Deve-se saber distinguir o homem que entrega aos bandidos a sua bolsa e as suas armas, para diminuir o mal causado por eles e facilitar a sua captura e execução, do que dá aos bandidos a sua bolsa e as suas armas, para participar na divisão do botim”⁽⁶⁾.
        E conclui com a necessidade de utilizar todo o tipo de contradições no seio das classes dominantes e o absurdo de renunciar a qualquer acordo ou compromisso no processo da luta: “toda a história do bolchevismo, antes e depois da Revolução de Outubro, está cheia de casos de manobra, de acordos e de compromissos com outros partidos, incluídos os partidos burgueses! Fazer a guerra para derrotar a burguesia internacional — uma guerra cem vezes mais difícil, prolongada e complexa que a mais encarniçada das guerras correntes entre Estados — e renunciar de antemão a toda manobra, a explorar os antagonismos de interesses (ainda que só sejam temporários) que dividem nossos inimigos, renunciar a acordos e compromissos com possíveis aliados (ainda que sejam provisórios, inconsistentes, vacilantes, condicionais) não é, por acaso, algo indizivelmente ridículo? […] A tática acertada […] deve consistir em utilizar essas vacilações e não, de modo algum, em desdenhá-las; para utilizá-las há que fazer concessões aos elementos que se inclinam em direção ao proletariado — no caso e na medida exata em que o fazem — e, ao mesmo tempo, lutar contra os elementos que se inclinam em direção à burguesia. […] Quem não compreende isso, não compreende nem uma palavra de marxismo nem de socialismo científico contemporâneo, em geral”⁽⁷⁾.
        Trazendo esse debate para os dias de hoje, ressalta a necessidade de termos em conta e sabermos explorar as contradições existentes entre o capital produtivo brasileiro — na indústria, nos serviços e na agricultura, interessado na ampliação do mercado interno e no desenvolvimento da economia nacional — e o grande capital especulativo e usurário — estreitamente vinculado ao capital internacional, fictício e produtor de juros —, que extrai a sua “mais-valia” mediante juros extorsivos e através dos mecanismos da dívida pública. Os primeiros não desejam o retorno ao projeto neoliberal — agora em uma versão ainda mais exacerbada —, situação que abre a possibilidade de pontos de convergência com o campo popular. Essas contradições também se expressam nos diferentes partidos, principalmente de centro, do que o PMDB é a expressão mais evidente.
        Daí a miopia de considerar que “Cunha, Temer, Padilha, Renan Calheiros, são tudo farinha do mesmo saco”, confundindo inimigos jurados — como Eduardo Cunha, o PSDB, o DEM — com setores vacilantes do PMDB e das próprias classes dominantes, negando a possibilidade de qualquer aliança ou compromisso com eles. O que condenaria, de antemão o campo democrático e popular a uma derrota diante da raivosa ofensiva da direita neoliberal. Pois “só se pode vencer um inimigo mais poderoso tencionando todas as forças e aproveitando obrigatoriamente com o maior zelo, minuciosidade, prudência e habilidade toda fratura entre os inimigos, toda contradição de interesses entre a burguesia dos distintos países, entre os diferentes grupos ou categorias da burguesia no interior da cada país; é preciso aproveitar também as menores possibilidades de obter um aliado de massas, ainda que seja temporário, vacilante, instável, pouco seguro, condicional”⁽⁸⁾.
        Para enfrentar o golpe em andamento e retomar as mudanças progressistas no Brasil, não se pode pretender voltar para traz, pois o ciclo iniciado em 2003 cumpriu o seu papel e esgotou-se. É preciso olhar para frente! Impõe-se a construção um novo consenso, capaz de unificar o conjunto das forças antineoliberais, apontar para a retomada do desenvolvimento do País, fortalecer a soberania nacional, aprofundar a democracia e garantir os direitos dos trabalhadores e do povo. O que nunca será alcançado com posturas “esquerdistas”, sectárias e pueris que repudiam qualquer “compromisso” no processo da luta de classes.





NOTAS:

(1): LENIN, V.I. El infantilismo “izquierdista”y el espíritu pequeñoburgues (1918). In: LENIN, V. I. Obras Escogidas, Vol. 2. Moscou: Editorial Progresso, 1960, p. 745.
(2): LENIN, V.I. La enfermedad infantil del “izquierdismo” en el comunismo (1920). In: LENIN, V. I. Obras Escogidas, Vol. 3. Moscou: Editorial Progresso, 1961, p. 420.
(3): LENIN, V.I. Acerca de la frase revolucionaria (1918). Moscou: Editorial Progresso, 1976, p. 18.
(4): LENIN, V.I. La enfermedad infantil del izquierdismo en el comunismo, Idem, p. 411.
(5): LENIN, V.I., Idem, p. 412.
(6): LENIN, V.I., Idem, pp. 385-386.
(7): LENIN, V.I., Idem, pp. 414-418.
(8): LENIN, V.I., Idem, pp. 414-415.

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