
Os comunistas do Rio Grande do Norte fizeram um jornal, A Liberdade, impresso nas oficinas da Imprensa Oficial do Estado, localizada na rua Junqueira Ayres, Ribeira.
Só circulou uma edição. Há raros exemplares do jornal redigido pelos poetas Othoniel Menezes e Benilde Dantas. Othoniel era cafeísta e foi muito amigo do meu pai, Manoel Genésio Cortês Gomes, que também foi cafeísta antes de entrar no integralismo.
Benilde era do Partido Comunista do Brasil (PCB) e foi o mentor de uma tentativa de descarrilamento de um trem que levava dezenas de integralistas de Natal para Ceará-Mirim, meses antes da chamada Intentona Comunista de novembro de 1935.
Os dois estavam irmanados na Aliança Nacional Libertadora (ANL), uma frente política que reuniu pessoas de várias tendências para dar suporte ao PCB, integrante da Internacional Comunista, sediada em Moscou, na antiga União Soviética, cujos dirigentes enviaram Luís Carlos Prestes, o lendário Cavaleiro da Esperança, para deflagrar a revolução comunista no Brasil.
Bom, eu desejo mesmo é veicular o texto do Hino da Aliança Nacional Libertadora que era cantado pelos comunistas e aliados nos comícios realizados em Natal e no interior, principalmente em Mossoró, Macau e Areia Branca, onde tinham muitos adeptos. Os seus adversários, os padres e os integralistas, chamavam os comunistas de “adeptos do credo de Moscou”. Mas o fato é que fizeram o hino com música do Hino da República, com a seguinte letra:
Nosso povo que vive oprimido
Já não pode sofrer tanto dor,
É preciso fazer do gemido
Uma voz de esperança e amor.
Nosso peito há de ser a muralha
Contra quem explorar a nação;
Este povo que luta e trabalha,
Quer justiça, quer terra, quer pão.
Aliança! Aliança!
Contra vinte ou contra mil
Mostremos nossa pujança,
Libertemos o Brasil.
Quem trabalha há de ser o mais forte,
No calor deste céu sempre azul,
Das douradas caatingas do Norte
Às ridentes cochilas do Sul.
Nós faremos o “Sigma” em pedaços,
Não queremos emblema tão vil,
A serviço dos grandes ricaços,
Contra os pobres de todo o Brasil.
Aliança! Aliança!
Contra vinte ou contra mil
Mostremos nossa pujança,
Libertemos o Brasil.
Camponês, operário, soldado
Marinheiro, nós somos irmãos!
Caminhemos assim, lado a lado,
Apertando ,a cantar, nossas mãos.
Esse canto é preciso que brade,
Que não cesse o clamor dessa voz:
No Brasil há de haver liberdade
Conquistada na rua por nós.
Aliança! Aliança!
Contra vinte ou contra mil
Mostremos nossa pujança,
Libertemos o Brasil.
Transcrito de A Liberdade, página 3, de 27 de novembro de 1935. A letra do hino da ANL se refere ao Nordeste como Norte, conforme a designação da época e promete destroçar o emblema — o Sigma (letra grega que significa soma) da Ação Integralista Brasileira (AIB), criada pelo escritor Plínio Salgado, e conquistar o poder nas ruas. Ocorreu o contrário: a insurreição foi precipitada em Natal por agentes da polícia e pelo Tenente Aluízio Moura, segundo alguns pesquisadores, isto é, a revolta foi derrotada nos combates e não obteve apoio de camponeses, operários e marinheiros, apenas de militares do Exército de Natal, Recife e Rio de Janeiro.
Mas fizeram história. Os comunistas foram os primeiros a pegarem em armas para derrubar o regime de Getúlio Vargas, ainda em fase constitucional, pois as eleições estavam previstas para serem realizadas em 1938.
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