
Muitos talvez não saibam mas o Irã já teve, sim, um governo nacionalista, cosmopolita, liberal e democrático, que desejava integrar o país à comunidade internacional (mas de forma soberana) e que foi o de Mossadegh.
Mossadegh era um advogado formado em universidades europeias, sendo um líder autenticamente democrático e, raridade no mundo, incorruptível.
Mossadegh, após ser eleito democraticamente, em 1951, instalou um governo laico e secular no Irã e, com maciço apoio popular, nacionalizou a indústria petrolífera do país, bem como adotou as primeiras leis sociais e trabalhistas. Isso o transformou no mais popular líder da história do Irã.
O governo de Mossadegh nacionalizou a indústria de petróleo iraniana em 1951 e foi derrubado por um Golpe de Estado comandado pela CIA. O governo de Getúlio Vargas fez o mesmo, no Brasil, criando a Petrobras e o monopólio estatal do Petróleo. Resultado? Foi derrubado por um Golpe que contou com importante participação dos EUA e dos aliados internos deste (Grande Mídia, UDN, militares, empresários). O suicídio de Vargas e a divulgação da Carta-Testamento provocaram uma gigantesca reação popular, que levou o Golpe à derrota naquele momento (agosto de 1954). E, mais recentemente, o governo Lula nacionalizou o Petróleo do pré-sal (por meio da criação do Regime de Partilha, no final de 2010). Resultado? Tivemos o Golpe de 2016, que destruiu o Regime de Partilha e entregou o petróleo do pré-sal para o capital estrangeiro, sem exigir qualquer contrapartida dos países que serão beneficiados por tal medida. O pré-sal possui uma das maiores reservas do mundo, estimadas em até 176 bilhões de barris de petróleo e de gás natural.
Na prática, Mossadegh foi uma mistura de Dom Pedro I e de Getúlio Vargas do Irã, pois ao nacionalizar a indústria petrolífera ele, de fato, proclamou a Independência do país, pois o petróleo era, virtualmente, a única fonte de geração de riquezas nacional.
E tal como Vargas, Mossadegh também foi o responsável pela criação das leis sociais e trabalhistas da nação iraniana.
Porém, em 1953 o seu governo foi derrubado por um Golpe de Estado amplamente financiado, planejado, organizado e executado pela CIA e também pelo serviço secreto britânico (MI6), tendo o golpe contado com o conhecimento e o apoio de Churchill e de Eisenhower.
Mas justiça seja feita: quando o governo britânico apresentou a Truman, ainda em 1952, a proposta de derrubarem, juntos, ao governo de Mossadegh, o então presidente dos EUA rejeitou a ideia. Foi somente depois que Eisenhower assumiu a Presidência do país, no final de Janeiro de 1953, que o mesmo deu o seu aval para que o golpe fosse levado adiante.
Foi justamente a nacionalização da indústria petrolífera iraniana pelo governo de Mossadegh que desencadeou o Golpe de Estado organizado pelos EUA e pela Grã-Bretanha, pois esta última perdeu o domínio praticamente total que exercia sobre o petróleo iraniano, através da atuação da empresa que, depois, passou a se chamar British Petroleum.
O livro 'Todos os Homens do Xá', de Stephen Kinzer (jornalista do The New York Times), que foi baseado em documentos oficiais do governo dos EUA, conta toda a história deste Golpe, que instalou, com total apoio dos EUA e dos países democráticos do Ocidente, uma ditadura brutal e corrupta no Irã, liderada pelo Xá Reza Pahlevi, e que somente foi derrubada depois de quase 26 anos, em 1978/1979, pela Revolução Islâmica comandada pelo Aiatolá Khomeini.
Tal Golpe foi possível, mostra Kinzer, porque toda a elite iraniana foi subornada pela CIA: políticos, militares, altos funcionários do governo. Até mesmo arruaceiros e lutadores de academias foram pagos para participar do Golpe.
A CIA também chegou a forjar uma manifestação comunista em Teerã, a fim de convencer a população de que o Partido Comunista do país (Tudeh) estava se preparando para promover um Golpe de Estado e tomar o poder, o que era totalmente falso, é claro.
Assim, a CIA pagou para que centenas de pessoas marchassem pelas ruas de Teerã, disfarçadas de comunistas, para convencer os iranianos que um Golpe de Estado comunista estava em andamento no país e que Mossadegh estava envolvido no mesmo.
É verdade que existia um ativo e importante partido Comunista no Irã (o Tudeh, Partido das Massas do Irã) atuando naquela época, mas isso acontecia porque o governo de Mossadegh era democrático. Em seu governo, todas as forças políticas (fossem de direita, centro, esquerda ou mesmo os Aiatolás) podiam atuar politicamente e de forma livre.
Assim, o Irã era, de fato, um país democrático.
Aliás, numa das ironias da história, o livro de Kinzer mostra que os Aiatolás iranianos também foram subornados pela CIA para ajudar a derrubar o governo democrático e constitucional de Mossadegh no Golpe de 1953. E um destes aiatolás chamava-se.... Khomeini, o mesmo que em 1978/79 liderou uma Revolução Islâmica que derrubou a ditadura do Xá Reza Pahlevi e que rompeu relações diplomáticas com os EUA, ao qual o governo passou a chamar de 'Grande Satã'.
É como dizem os espanhóis: Não crie corvos, pois quando eles crescerem irão comer os seus olhos.
Mas o fato concreto é que, em 1953, esses mesmos Aiatolás aceitaram de bom grado o dinheiro do 'Grande Satã', contribuindo fortemente para derrubar o governo democrático e liberal de Mossadegh, influenciando o comportamento de milhões de iranianos que seguiam a sua liderança.
A ditadura do Xá Reza Pahlevi durou quase 26 anos (1953-1979) e era uma das mais corruptas e assassinas do mundo, fato este que nunca impediu que ela recebesse o total apoio do 'Ocidente Democrático' (EUA-Europa Ocidental). Com isso, o regime do Xá Reza Pahlevi passou a ser odiado pelo povo iraniano e, ao longo do tempo, o mesmo acabou descobrindo toda a verdade do envolvimento dos EUA e da Grã-Bretanha no Golpe de Estado que derrubou Mossadegh.
E é por isso que os iranianos passaram a ter uma grande desconfiança em relação aos EUA e ao Ocidente como um todo, pois sabiam que estes instalaram no poder, apoiaram e sustentaram uma ditadura brutal, corrupta e assassina, que foi a do Xá Reza Pahlevi, cujo serviço secreto do país (Savak) ficou mundialmente famoso pelas cruéis torturas que aplicava nos prisioneiros.
Esta é a origem dos conflitos entre o Irã, os EUA e o Ocidente, mas que a Mídia ocidental faz questão de esconder da opinião pública.
Derrubar Mossadegh foi, talvez, a mais trágica decisão que os EUA e o Ocidente tomaram em relação ao Oriente Médio, pois se o governo de Mossadegh tivesse sido bem sucedido, teríamos tido a transformação do Irã num país democrático, liberal, cosmopolita, reformista, com um governo laico e secular. O Irã teria se transformado num país moderno, que serviria de modelo e de exemplo a ser seguido por outros países muçulmanos.
Além disso, Mossadegh se via como um aliado dos EUA e do Ocidente democrático.
Caso estes tivessem optado por apoiar e sustentar o seu governo, teríamos visto a construção de um Irã integrado ao Mundo em vez de um país comandado por Aiatolás extremistas e fundamentalistas e que chamam os EUA de Grande Satã.
Afinal, foi o Golpe de 1953 que, ao derrubar Mossadegh, fez com que a oposição à Ditadura do Xá Reza Pahlevi passasse a ser liderada não mais por um movimento nacionalista, democrático, liberal, reformista laico e secular (o de Mossadegh) mas pelos Aiatolás extremistas e fundamentalistas.
E o resultado de todo o rancor e desejo de justiça que foi acumulado pelos iranianos, durante várias décadas de Ditadura do Xá Reza Pahlevi (cuja família vivia no luxo e que possuía bilhões de dólares, roubados dos iranianos, depositados na Suíça), foi a vitória da chamada 'Revolução Islâmica', em 1979, que colocou no poder o Aiatolá Khomeini, que foi um dos subornados pela CIA na época do Golpe para derrubar o governo democrático de Mossadegh, em 1953.
No lugar de uma Nação moderna, laica, secular, democrática, pluralista, justa e integrada ao mundo, o que temos é um Irã profundamente desconfiado de todas as intenções dos EUA e do Ocidente, pois estes foram os grandes responsáveis pela destruição do único governo verdadeiramente democrático e reformista que existiu na moderna história do Irã, que foi o de Mossadegh.
Aliás, mesmo nos dias atuais, Mossadegh é, ainda, o mais popular líder político da história do Irã, sendo muito mais popular do que o próprio Aiatolá Khomeini.
Portanto, sempre que vejo os governos e a imprensa ocidental atacarem o Irã porque este tem um governo teocrático e comandado por Aiatolás extremistas e autoritários, sem nunca esclarecer o papel desempenhado pelos EUA e pela Grã-Bretanha na derrubada do único governo democrático da história do Irã, eu sinto um profundo asco e desprezo por esta imprensa e por estes governos ocidentais que se dizem 'democráticos'.
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