
Robert Mugabe, o Presidente do Zimbábue, preside um dos tesouros minerais mais ricos do mundo, a região do Grande Dique, com uma faixa geológica que atravessa todo o território do nordeste ao sudoeste. O motivo real da piedosa preocupação da Administração Bush durante estes últimos anos pela situação dos direitos humanos no Zimbábue não se deve à suposta fraude na eleição de Mugabe ou às expropriações realizadas nas fazendas dos colonos brancos. O que parece ser seu pecado tem mais a ver com suas tentativas de escapar da dependência e do servilismo neocolonial anglo-estadunidense e buscar um desenvolvimento econômico nacional independente do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Seu pecado autêntico parece ser o fato de que tem se voltado para uma nação que oferece créditos governamentais e empréstimos brandos sem condicionamentos, para o desenvolvimento econômico: a República Popular de China.
O Presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, é um homem muito, muito mau. Isso é o que todos deduzimos quando lemos os jornais ou escutamos os pronunciamentos de George W. Bush, do anterior Primeiro-Ministro britânico Tony Blair e, mais recentemente, de Gordon Brown. Acusam-lhe de ser um ditador; de que expropriou, frequentemente com violência, as fazendas dos brancos como parte de uma reforma agrária; proclamam também que forçou sua reeleição mediante o voto fraudulento e a violência, e que tem arruinado a economia do Zimbábue.
Porém, se Robert Mugabe merece estar na lista de honra de “vilões” de Washington junto com Fidel Castro, Saddam Hussein, Milosevic, Ahmadinejad e Adolf Hitler, não é essa a razão pela qual Washington e Londres têm feito da mudança de regime no Zimbábue a prioridade número um de sua política para a África.
O legado de Cecil Rhodes
Zimbábue é o nome do que se chamou Rodésia durante a era do imperialismo britânico de um século atrás. O nome de Rodésia provinha do estrategista imperial britânico e mineiro Cecil Rhodes, fundador das bolsas Rhodes para Oxford, e autor de um plano para que a Rainha de Inglaterra exercesse seu controle privadamente sobre uma imensa zona africana que iria desde Egito à África do Sul. Cecil Rhodes criou a Companhia Britânica da África do Sul, seguindo o modelo da Companhia das Índias Orientais, junto com o seu sócio, L. Starr Jameson, da Jameson Raid, de tão infausta lembrança, para explorar as riquezas minerais de Rodésia. Controlava o que se denominou depois de Rodésia do Norte (Zâmbia) e Rodésia do Sul – Niassalândia. O modelo implicava que o governo britânico assumiria todos os riscos para defender militarmente o saqueio de Rhodes, enquanto este e seus banqueiros londrinos, sobre tudo Lord Rothschild, que era um sócio muito chegado, levariam todos os lucros do negócio.
Rhodes, um experimentado geólogo, sabia bem que havia uma falha geológica notável que ia desde a desembocadura do Nilo, no Golfo de Suez, em direção ao sul a través do Sudão, Uganda, Tanzânia, do que hoje se chama Zimbábue, até chegar à África do Sul. Rhodes tinha instigado já várias guerras para conseguir o controle dos diamantes de Kimberley e o ouro de Witwatersrand na África do Sul. E havia descoberto esse fenômeno geológico na década de 1880, junto com exploradores de empresas alemãs. E o chamaram de Vale do Grande Rifte.
Rodésia, do mesmo jeito que a África do Sul depois das sangrentas guerras bôeres, foi ocupada por colonos brancos para assegurar os futuros lucros minerais para os interesses aliados da Cidade de Londres, principalmente os da poderosa família Oppenheimer e suas empresas de ouro e diamantes na região.
Em 1962, quando a África viveu o impulso pela libertação nacional do domínio colonial – uma onda calculadamente apoiada pela “potência não colonial” de Washington – Rodésia foi um dos últimos bastiões, junto com a antiga colônia britânica da África do Sul, de domínio do Apartheid branco. Os brancos na Rodésia constituíam só 1-2% da população total, por isso seus métodos para se manter no poder eram absolutamente desapiedados.
O Primeiro-Ministro da supremacia branca, Ian Smith, preferiu declarar em 1965 a independência de Rodésia em relação à Grã-Bretanha antes que chegar ao mais leve compromisso para compartilhar o poder com os nacionalistas negros. A Grã-Bretanha conseguiu sanções comerciais das Nações Unidas para forçar a Smith a dobrar os joelhos. Apesar das sanções, Smith teve um considerável apoio por parte dos interesses comerciais conservadores em Londres. O britânico Tony Rowland, chefe do conglomerado mineiro Lonrho, assegurou o grosso de seus benefícios africanos das minas de cobre de Rodésia e das empresas sob o regime de Smith. A Cidade de Londres sabia muito bem das riquezas que guardava Rodésia. A questão era como assegurar um controle duradouro. Os patrocinadores de Smith na Rodésia tinham pouco interesse em entregar tudo a Londres.
O Departamento de Estado dos EUA, assim como Londres, é consciente dos imensos minerais e outras riquezas do Zimbábue. Num recente informe sobre o país se afirma: “O Zimbábue conta com ricos recursos minerais. As exportações de ouro, asbestos, cromo, carvão, platina, níquel e cobre poderiam levar um dia a uma recuperação econômica… O país está ricamente dotado de uma bolsa de gás metano que está ainda por explorar. Com atrativos internacionais como as Cataratas Vitória, as ruínas de pedra do Grande Zimbábue, o Lago Kariba, e uma imensa vida selvagem, o turismo tem sido historicamente um segmento importante da economia e tem contribuído para a entrada de divisas. Porém, o setor se contraiu de forma aguda desde 1999, devido à imagem internacional de decadência do país” (sic).
Ultimamente ficou muito claro que enquanto o tenaz Mugabe controle as coisas, os sócios comerciais preferidos do Zimbábue não são os anglo-estadunidenses, mas os chineses. Esse parece ser o pecado maior de Mugabe. Não está seguindo o programa traçado por George W. Bush e seus amigos. Seu pecado real parece ser o de ter se voltado para o Oriente, em vez do Ocidente, em busca de ajuda econômica e para investimentos.
Retrocedendo à julho de 2005, enquanto Tony Blair apertava ainda mais as sanções contra o Zimbábue, Mugabe foi a Pequim para se reunir com os altos dirigentes chineses, onde, segundo se informou, solicitou um empréstimo de emergência pelo valor de 1 bilhão de dólares e pediu que se incrementasse a participação chinesa na economia.
Em 2007, o governo chinês doou maquinaria agrícola ao Zimbábue pelo valor de 25 milhões de dólares, incluindo 424 tratores e 50 caminhões, como parte de um empréstimo de 58 milhões de dólares ao governo do Zimbábue. A administração de Mugabe tinha anteriormente expropriado as fazendas de propriedade branca e entregado aos negros, sendo o maquinário danificado durante o processo. Em troca do equipamento e dos empréstimos, o governo do Zimbábue enviará 30 milhões de quilogramas de tabaco para a República Popular de China.
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