O napalm é uma invenção norte-americana. O napalm “foi inventado durante uma investigação ultrassecreta de 1942, numa colaboração entre a Universidade de Harvard e o Governo dos EUA”⁽¹⁾. Em 1952, a agência de patentes dos EUA imitiu o certificado 2.606.107 para “géis incendiários” e tornou a exata fórmula do napalm acessível para o mundo inteiro.
“Militares dos EUA utilizaram uma substância conhecida como napalm durante o período de 1965 a 1972, na Guerra do Vietnã; o napalm é uma mistura de poliestireno plástico, benzeno e gasolina. Esta mistura cria uma substância gelatinosa que, quando incendiada, adere a praticamente qualquer coisa e queima até dez minutos. Os efeitos do napalm no corpo humano são insuportavelmente dolorosos e quase sempre causam a morte às suas vítimas”⁽²⁾.
A acusação de “ataque com napalm” evoca imagens terríveis destinadas a chocar. Em 1945, bombardeiros B29 dos EUA despejaram 32.300 kg de napalm sobre Tóquio, no Japão, numa só hora⁽³⁾. Estima-se que 100.000 homens, mulheres e crianças japonesas morreram na tempestade de fogo resultante. Washington considerou ter sido um enorme sucesso os 10 dias de bombardeamentos com napalm sobre as principais cidades do Japão. Os EUA também usaram napalm na Coreia do Norte, com consequências devastadoras para o seu povo na década de 1950⁽⁴⁾. Washington despejou 32.557 toneladas de Napalm sobre o Vietnã.
O uso mais recente de napalm por parte dos EUA ocorreu durante a Guerra do Iraque, em 2003, quando “dezenas de bombas de napalm foram lançadas perto de pontes sobre o Canal de Saddam e o Rio Tigre, no sul de Bagdá”, segundo um artigo do Independent. No mesmo artigo, um comandante norte-americano da Marin Air Group 11, afirma: “Nós bombardeámos com napalm as imediações de ambas [as pontes]”, disse o Coronel James Alles, comandante da Marine Air Group 11. “Infelizmente, havia pessoas por lá… dava para vê-las no vídeo [do cockpit]. Eles eram soldados iraquianos. Não é uma maneira muito agradável de morrer. Os generais adoram napalm. Tem um grande efeito psicológico”.
De acordo com Robert M. Neer, autor de “Napalm: An American Biography”, os países que já usaram napalm, além dos Estados Unidos são: “Grécia (a primeira utilização desde a Segunda Guerra Mundial), França, Grã-Bretanha, Portugal, as Forças das Nações Unidas na Coreia, Filipinas, Vietnã do Sul e Vietnã do Norte (com lança-chamas), Cuba, Peru, Bolívia, Israel, Egito, Turquia, Índia, Iraque, Nigéria e Brasil”. A Síria não é mencionada.
Neer continua, explicando que a ONU proibiu o uso do napalm contra “concentrações de civis” sob o Protocolo III da Convenção da ONU sobre Armas Convencionais de 1980. Os EUA assinaram o protocolo quase trinta anos depois de ele ter sido adotado pela Assembleia Geral, em 21 de janeiro de 2009. Foi o primeiro dia completo de Obama como Presidente dos EUA. A ressalva é que “os EUA poderão não cumprir o tratado, a seu critério, se tal puder salvar vidas civis”. Considerando apenas quantas vidas civis foram destruídas pelo desenvolvimento do napalm por parte dos EUA, é difícil imaginar um cenário no qual napalm possa ser benéfico para civis… mas a conclusão é que “devemos confiar nos EUA para tomar essa decisão em nosso nome e em nome dos civis, seja qual for a situação ”.
A narrativa do napalm sírio
A narrativa das “armas químicas” tem feito perdurar o conflito na Síria, com os alegados ataques sendo atribuídos quase inteiramente ao Governo sírio, ao Exército Árabe Sírio e à Rússia. A guerra de informação de sete anos tem sido muito feroz, com meios de comunicação pró-OTAN, think tanks e autoproclamados peritos, como Eliot Higgins e Bellingcat, fazendo tudo o que é possível para reforçar a narrativa de que “a culpa é da Síria”.
Se nos déssemos ao trabalho de mapear as alegações de uso armas químicas em cada área ocupada por terroristas em vias de ser libertada pelo Exército Árabe Sírio⁽⁵⁾, veríamos claramente a correlação entre as alegações e a pressão sentida pelas facções terroristas quando o Exército Árabe Sírio se aproximam das suas posições. Por outras palavras, à medida que o Exército Árabe Sírio se aproxima da vitória e da libertação de civis sírios, é suposto acreditarmos que o Exército usaria armas químicas contra civis em zonas urbanas, cada vez mais densamente povoadas, à medida que os terroristas retiram-se para uma cada vez mais diminuta área de combate, levando consigo civis como escudos humanos e como reféns.
Esta parece ser uma tática de propaganda empregada pelas facções terroristas para ganhar tempo, garantir um cessar-fogo e pedir uma Zona de Exclusão Aérea e uma intervenção “humanitária” adicional da aliança de guerra-golpismo. Um cessar-fogo permite que os militantes se organizem e se rearmem. Sabemos que ataques terroristas com armas químicas contra a população civil do oeste de Alepo⁽⁶⁾ nunca receberam a mesma atenção por parte dessas mesmas nações “humanitárias”. Pior, esses ataques foram amplamente ignorados. Portanto, é razoável concluir que essa choradeira de “armas químicas” é uma tática projetada para proteger os interesses dos Estados-membros da OTAN que ocupam o território sírio.
Apenas precisamos retroceder um pouco em nossa memória, até agosto de 2013, e ao extraordinário relatório da BBC Panorama sobre o “bombardeio com algo parecido com napalm sobre escolas”⁽⁷⁾ em Urem al-Kubra, na província de Alepo — “Saving Syria’s Children”.
O jornalista independente Robert Stuart, forense e magistralmente desmontou esta reportagem⁽⁸⁾, que mais não é que um teatro de guerra orquestrado pela BBC para aumentar a intervenção militar britânica na Síria, coincidindo com o momento da votação de David Cameron no Parlamento para se juntar aos EUA na campanha de bombardeios na Síria “para impedir o uso de armas químicas” pelo Governo sírio (é claro)⁽⁹⁾. Este relatório da BBC apareceu imediatamente após o alegado ataque com armas químicas em Ghouta, em agosto de 2013, que foi imediatamente atribuído ao Governo sírio. Desde então, essa alegação foi desacreditada por vários analistas e especialistas independentes.
Este suposto ataque, relatado pela BBC Panorama, foi naturalmente acompanhado pelo já familiar testemunho que efetivamente apela ao mundo que intervenha e bombardeie em prol da “paz”: “Querida ONU, você está apelando à paz, você está pedindo paz. Que tipo de paz você está pedindo? Está vendo isso ou não? O que mais você precisa ver?” — de um artigo do Telegraph dessa altura⁽¹⁰⁾.
Voltando a Ghouta, que está agora 90% livre dos muitos grupos terroristas que desde 2012 ocuparam este subúrbio do leste de Damasco, temos assistido a um aumento de alegações sobre ataques com armas químicas, à medida que o Exército Árabe Sírio têm fechado o cerco aos enclaves terroristas. A maior parte dessas alegações foram divulgadas pelos Capacetes Brancos⁽¹¹⁾, uma filial da Al-Qaeda.
Arsenal de armas químicas dos terroristas de Ghouta
Sharmine Narwani, um jornalista e analista de geopolítica, esteve em Ghouta libertada há algumas semanas atrás, no momento em que foi descoberto um laboratório de armas químicas nos terrenos agrícolas entre Shifouniyeh e Douma⁽¹²⁾. Vejam o que diz Narwani sobre o “desinteresse” da mídia ocidental acerca cesta descoberta: “É estranho o desinteresse da mídia, visto que as autoridades dos EUA parecem prontas a realizar ataques militares contra a Síria, país que afirmam ter usado armas químicas contra populações civis. Estas acusações continuam por ser provadas e são muitíssimo controversas, com outras partes argumentando que opositores do Governo têm usado a narrativa de armas químicas como forma de provocar uma intervenção militar dos EUA contra a Síria. Assim sendo, talvez não seja tão estranho que um laboratório químico descoberto no epicentro de uma grande batalha estratégica sobre a Síria esteja sendo ignorado por um dos lados. No final, é bem provável que apenas um lado venha a estar certo sobre quem está usando armas químicas na Síria. É por isso que um dos lados ficou calado quando este laboratório foi descoberto”.
| Crianças à porta de um centro de fabricação de armas químicas em Erbin, Guta. |
Eu tive uma experiência semelhante há dois dias atrás, no dia 6 de abril de 2018. Ia numa viagem de meios de comunicação estrangeiros rumo aos setores libertados do Ghouta, na companhia do Exército Árabe Sírio. Muitos dos jornalistas da mídia ocidental queixaram-se em ser acompanhados por aquilo que eles consideram “seguranças” mas, pela minha experiência pessoal, ninguém é proibido de cobrir nenhuma história que considere importante nas áreas que visitam.
Destacada apoiante da narrativa de guerra “humanitária” golpista, a CNN também viajou comigo, através do seu correspondente Frederick Pleitgen, com sua camerawoman e seu tradutor. Não vi sua atividade ser restringida de forma alguma. Pelo contrário, tinham liberdade total de ação nas áreas limpas de minas terrestres, bombas caseiras e armadilhas deixadas pelos grupos terroristas que partiram. A presença do Exército é necessária em qualquer distrito recentemente libertado, pois há sempre riscos inerentes, e agradeço que eles se importem o suficiente com a nossa segurança para estarem conosco nestas viagens e para fornecer respostas a quaisquer perguntas que tenhamos.
| O local de fabricação de armas químicas (à direita) em Erbin, Ghouta Oriental, 6 de abril de 2018. |
Entramos no distrito de Erbin e nos foi mostrada uma fábrica de bombas e uma instalação de armas químicas, ambas ao nível do solo, e não parte dos elaborados sistemas de túneis que abrigavam hospitais terroristas e depósitos de equipamentos, entre outros elementos do aparato militar terrorista.
Foi-nos dito que boa parte do edifício ainda não tinha sido limpo de minas e de armadilhas, de modo que fomos aconselhados a nos mantermos por perto e a não vaguear por aí. Alguns dos sacos contendo ingredientes químicos ainda estavam armadilhados e, portanto, não foi possível mexer neles de forma a se poder ver melhor os rótulos. Estava muito escuro, também, mas fiz o meu melhor para fotografar tudo o que lá vi.
Por entre os documentos encontrados neste laboratório improvisado estavam instruções para a fabricação de granadas de napalm e indicações sobre a melhor forma de misturar os componentes. Eu não quero publicar estas instruções passo por passo, mas mostrarei parte do caderno nas minhas fotos. Há também notas manuscritas demonstrando como tornar a granada mais mortal, adicionando pregos e fósforo branco à granada para garantir que o efeito incendiário dure mais tempo e seja mais intenso. No caderno está escrito que esta mistura é conhecida, em termos militares, pela sigla OB2.
| As formulações nos foram totalmente explicadas pelo guia que nos foi designado, e que estava presente quando esta instalação de armas químicas foi descoberta durante a operação de limpeza pós-libertação. |
Fomos informados de que outro documento encontrado no local explica como calibrar os morteiros para atingir coordenadas de geolocalização específicas em Damasco e na zona rural circundante:
| Um saco do composto químico RDX. Erbin, Ghouta Oriental. |
Juntamente com esses ingredientes químicos que serão mostrados na galeria de fotos no final deste artigo, havia caixas com roquetes destinados a serem enchidos com químicos e com componentes explosivos. Pelo menos uma caixa contendo esses mísseis especiais ainda estava armadilhada, de acordo com o nosso guia, e por isso não pudemos examiná-la de perto:
No dia 23 de março, por exemplo, o órgão de propaganda do Catar, Al-Jazeera, publicou um artigo com este título: “Dezenas de pessoas são queimadas até a morte em ataques da Síria contra Ghouta”. No artigo, o testemunho dos Capacetes Brancos foi aceito sem ser questionado, apesar de seu histórico de encobrimento de crimes e atrocidades cometidos por facções terroristas (lideradas pela Al-Qaeda) contra civis sírios: “Fontes no local e equipes de resgate da Defesa Civil da Síria, um grupo de resgate voluntário também conhecido como Capacetes Brancos, disseram na sexta-feira que pelo menos 37 vítimas morreram queimadas depois que ataques aéreos com gás napalm atingiram um abrigo na cidade de Irbin”.
Pessoas com quem falei, em Erbin, disseram-me que facções terroristas teriam realizado os ataques contra civis naquele distrito para depois culpar o Governo, o Exército Sírio e a Rússia.
O uso de armas químicas e a subsequente histeria e sensacionalismo da mídia corporativa servem apenas ao Ocidente imperialista e seus asseclas na Síria: as facções terroristas.
Devemos também relembrar que, no dia 28 de fevereiro de 2018, o representante permanente da Síria na ONU, em Nova Iorque, Dr. Bashar Al Jaafari, informou que no dia 20 de fevereiro a Turquia “transportou barris de cloro para produção de armas para as cidades de Idlib controladas por terroristas turcos. Uma escola foi transformada num depósito para essas armas químicas. Os terroristas estão se preparando para usar essas armas em larga escala e acusar a Força Aérea Síria. A conspiração deverá coincidir com a octogésima sétima reunião do Conselho Executivo da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), que tem início em 13 de março”⁽¹⁵⁾.
Por outras palavras, as mentiras dos meios de comunicação corporativos estão se tornando cada vez mais flagrantes, à medida que o Exército Árabe Sírio e seus aliados marcham implacavelmente em direção à libertação total e final de Ghouta, que há muito tempo é reconhecida como um reduto estratégico para Israel, prejudicando efetivamente a capacidade de defesa aérea de Damasco e mantendo pressão sobre o Governo sírio e o seu povo, graças a uma diária punição coletiva de civis com bombardeamentos terroristas indiscriminados, morteiros, etc. Mas não por muito mais tempo.
NOTAS:
(1): THOMPSON, Mark. "Napalm: A True American Tale". Time, 11 de abril de 2013. Nation. (Acesse).
(2): NAPALM & AGENT ORANGE. The Vietnam War. (Acesse).
(3): STRELTHORST, Tom. "Napalm's death". Prospect, 24 de abril de 2013. Art & Books. (Acesse).
(4): O'CONNOR, Tom. "What War With North Korea Looked Like in the 1950s and Why It Matters Now". Newsweek, 4 de maio de 2013. (Acesse).
(5): KIMBALL, Daryl e DAVENPORT, Kelsey. "Timeline of Syrian Chemical Weapons Activity, 2012-2021". Arms Control Association. Fact Sheets & Briefs. (Acesse).
(6): BEELEY, Vanessa. "EXCLUSIVE: REAL Syria Civil Defence Describe Terrorist ‘Double Taps’ and Chemical Weapon Attacks in Aleppo". 21st Century Wire, 26 de março de 2018. (Acesse).
(7): PANNELL, Ian. "Syria: Agony of victims of 'napalm-like' school bombing". BBC News, 30 de setembro de 2013. Panorama. (Acesse).
(8): Fabrication in BBC Panorama 'Saving Syria's Children'. (Acesse).
(9): SYRIA CRISIS: CAMERON LOSES COMMONS VOTE ON SYRIA ACTION. BBC News, 30 de agosto de 2013. (Acesse).
(10): SYRIA: FOOTAGE OF 'NAPALM' INCIDENT EMERGES. The Telegraph, 30 de agosto de 2013. (Acesse).
(11): BEELEY, Vanessa. "The White Helmets Are Committing Acts Of Terror Across Syria". MintPress News, 6 de setembro de 2017. (Acesse).
(12): NARWANI, Sharmine. "Terrorist capabilities laid bare in an Eastern Ghouta chemical lab". RT, 16 de março de 2018. (Acesse).
(13): RDX. Wikipedia (en). (Acesse).
(14): OFFICIAL SOURCE: USING CHEMICAL ALLEGATIONS IN DOUMA IS BLATANT ATTEMPT TO HINDER ARMT'S ADVANCE. SANA, Damasco (Síria), 7 de abril de 2018. (Acesse).
(15): WOOD, Miri. "Syrian Ambassador Jaafari Condemns Flawed UN; Warns of Chemical Attack Plot". Syria News, 1 de março de 2018. (Acesse).
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