JOSÉ CARLOS RUY: Câmara Cascudo, um escritor amazônico


         “O melhor do Brasil é o brasileiro” — o autor desta frase foi um escritor que dedicou sua vida e extensa obra a conhecer intimamente o povo de nossa terra, e ajudá-lo a conhecer sua alma: Luís da Câmara Cascudo que, neste 30 de dezembro, completaria 120 anos de idade: ele viveu entre 1898 e 30 de julho de 1986.

         Escritor fértil, autor de mais de 200 títulos, entre livros e livretos, ele poderia ser chamado de “escritor amazônico”, pela extensão de sua obra que supera, segundo uma contagem, o número de 8.500 páginas.

         Páginas que registram o folclore (é autor do melhor dicionário do folclore já escrito no Brasil), as lendas, crendices e superstições dos brasileiros, sejam indígenas, negros, mestiços — do povo em geral (ele tinha a ambição de registrar todas elas em livro). Mas sua área de interesse vai muito além, e inclui o estudo do Brasil holandês do século XVII, os falares do povo, uma excelente história da alimentação, com fortes incursões pela influência indígena e africana, um saborosíssimo “Prelúdio da Cachaça”, vários estudos da história de seu estado, o Rio Grande do Norte — uma lista de obras que poderia ser interminável (os principais títulos estão relacionados ao final).

         Numa entrevista ao jornal “A Província”, de Natal, disse: “Queria saber a história de todas as cousas do campo e da cidade. Convivência dos humildes, sábios, analfabetos, sabedores dos segredos do Mar das Estrelas, dos morros silenciosos. Assombrações. Mistérios. Jamais abandonei o caminho que leva ao encantamento do passado. Pesquisas. Indagações. Confidências que hoje não têm preço”.

         A posição política do Professor Jagunço, como era carinhosamente chamado por muitos, seria considerada estranha hoje, quando o Brasil está dominado por radicalismos de direita fortalecidos desde o golpe de Estado de 2016. Ela chama a atenção para a complexidade destas definições num país como o Brasil. Foi um conservador por influência da oligarquia potiguar da qual sua família fazia parte, embora não fosse rica. Assim, nos primeiros anos do século foi monarquista. Não aceitando a influência marxista que crescia no Brasil, na década de 1930 aderiu ao integralismo de Plínio Salgado, tendo sido alto dirigente daquela facção em seu estado. Mas logo se desencantou com o autoritarismo daquela corrente. Da mesma forma como, avesso ao fascismo, na Segunda Grande Guerra apoiou a luta dos democratas contra aquelas ditaduras que ameaçavam o mundo. Em 1964, fiel às suas ideias anticomunistas, não se manifestou contra o golpe militar, mas protegeu conterrâneos seus perseguidos pela ditadura.

         A estranheza que esta posição pode provocar decorre da visão em branco e preto das posições dos intelectuais brasileiros, sem lugar para nuances.

         Nesse sentido é preciso considerar que tantos pensadores nacionalistas, entre os quais Câmara Cascudo se destaca, mas podem ser relacionados nomes célebres como o cardeal D. Helder Câmara e o filósofo Roland Corbisier (entre tantos que passaram pelo integralismo), talvez tenham sido movidos pela questão nacional, pela paixão pelo Brasil, que é evidente no caso de Câmara Cascudo. Durante décadas vigorou a tese conservadora de que, no caso de uma revolução democrática e socialista, o Brasil cairia sob o domínio de uma potência estrangeira, a União Soviética. Foi a defesa contra esta pretensa ameaça que, com certeza, moveu pensadores que prezavam a defesa da soberania brasileira. Como hoje existem personalidades que, sendo conservadoras, são democratas e portadoras do sentimento nacional. Mesmo hoje, quando a União Soviética não existe mais e a direita raivosa tenta insuflar o temor da ameaça cubana ou venezuelana.

         Aqui há uma lição a ser extraída dos ensinamentos de Câmara Cascudo: há democratas conservadores, que amam o povo, registram suas manifestações, defendem a soberania do Brasil. O mundo não é branco e preto, ensina Cascudo, mas de múltiplas nuances.

         Algumas obras do mestre:

  • Alma Patrícia, Crítica Literária (1921).

  • Joio — Crítica e Literatura (1924).

  • Conde d’Eu (1933).

  • O Homem Americano e seus Temas (1933).

  • O Marquês de Olinda e seu Tempo (1938).

  • Vaqueiros e Cantadores (1939).

  • Antologia do Folclore Brasileiro (1944).

  • Lendas Brasileiras (1945).

  • Contos Tradicionais do Brasil (1946).

  • Geografia dos Mitos Brasileiros (1947).

  • História da Cidade do Natal (1947).

  • Os Holandeses no Rio Grande do Norte (1949).

  • Literatura Oral no Brasil (1952).

  • Cinco Livros do Povo (1953).

  • Dicionário do Folclore Brasileiro (1954).

  • História do Rio Grande do Norte (1955).

  • Geografia do Brasil Holandês (1956).

  • Tradições Populares da Pecuária Nordestina (1956).

  • Jangadeiros (1957).

  • Superstições e Costumes (1958).

  • Dante Alighieri e a Tradição Popular no Brasil (1963).

  • História da Alimentação no Brasil — Vol. 1 (1963).

  • História da Alimentação no Brasil — Vol. 2 (1967).

  • Folclore no Brasil (1967).

  • Coisas que o Povo diz (1968).

  • Prelúdio da Cachaça (1968).

  • Locuções Tradicionais no Brasil (1970).

  • Ensaios de Etnografia Brasileira (1971).

  • Sociologia do Açúcar (1971).

  • Tradição, Ciência do Povo (1971).

  • Movimento da Independência no Rio Grande do Norte (1973).

  • História dos Nossos Gestos (1976).

  • Superstição no Brasil (1985).

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