ELIJAH MAGNIER: A mão colonial nos distúrbios iraquianos

 


        Os últimos dias demonstraram que o Oriente Médio está longe de ser imunizado contra uma guerra entre os Estados Unidos e o Irã. O conflito estende-se agora ao Iraque, onde mais de cem pessoas foram mortas e milhares ficaram feridas durante os movimentos de protesto que emergiram em Bagdá e numerosas cidades de maioria xiita do sul do país como Amara, Nassíria, Bassorá, Najaf e Karbala. Manifestações do mesmo tipo poderão estender-se a Beirute e outras cidades do Líbano, tendo em conta a afinidade das reivindicações econômicas nos dois países. A crítica situação econômica do Oriente Médio é um terreno fértil para levantamentos suscetíveis de conduzir a um caos generalizado.


Um precário equilíbrio

        O Iraque é um caso especial desde a ocupação do país pelos Estados Unidos em 2003, devido à sua posição de aliado simultâneo do Irã e de Washington. Até ao momento, o primeiro-ministro Adel Abdel Mahdi tem-se apoiado no artigo 8º da Constituição, que preconiza a manutenção de um equilíbrio entre o Iraque e os seus aliados e os países vizinhos, tentando evitar que a Mesopotâmia se torne um campo de batalhas entre países em conflito como os Estados Unidos e o Irã ou a Arábia Saudita e o Irã.
        Apesar dos esforços dos responsáveis de Bagdá, a deterioração da situação econômica no Iraque criou no país uma situação semelhante à de outros países do Oriente Médio que viveram a chamada “Primavera Árabe”. Tirando partido de reivindicações legítimas devidas à precarização do emprego e à corrupção endémica, os levantamentos internos foram manipulados para fazer cair regimes e fragilizar Estados, como foi o caso da Síria em 2011. Países regionais e de outras zonas aproveitaram-se das exigências legítimas das populações locais para tentarem impor os seus próprios pontos de vista, conduzindo à destruição completa dos países envolvidos.
        Fontes do gabinete do primeiro-ministro iraquiano afirmaram que: “As últimas manifestações foram planejadas há cerca de dois meses. Bagdá tentou acalmar a situação no país, tanto mais que as reivindicações da população são legítimas. O primeiro-ministro herdou um sistema corrompido desde 2003, quando centenas de milhares de milhões de dólares foram desviados para os bolsos de políticos corruptos. Além disso, a guerra contra o terrorismo não só mobilizou todos os recursos do país como obrigou também o Iraque a contrair empréstimos de milhares de milhões de dólares para reconstituir as forças de segurança e responder a outras necessidades essenciais”.
        Ainda segundo fontes do gabinete do primeiro- ministro: “As manifestações mais recentes deveriam ser pacíficas e eram legítimas, porque as pessoas têm o direito de exprimir o seu descontentamento, as suas preocupações e frustrações. Contudo, o desenvolvimento dos acontecimentos fez aparecer um outro objetivo: 16 membros das forças de segurança foram mortos e pelo menos 43 habitações civis e imóveis do governo ou do partido que o constitui foram incendiados e completamente destruídos. Este tipo de comportamento apropriou-se dos desejos legítimos da população a gerou um resultado desastroso: um caos total no país. Mas quem aproveita com a desordem no Iraque?” 


Provocação detonadora

        As perturbações nas cidades iraquianas coincidem com a tentativa de assassinato do general iraniano Soleimani. Várias fontes acreditam que “a tentativa de assassinato de Qassem Soleimani, que comanda as Brigadas Al-Qods do corpo da Guarda Revolucionária Iraniana, não é pura coincidência e está associada ao que se passa no Iraque”.
        De acordo com as mesmas fontes, “Soleimani estava no Iraque a pedido dos principais dirigentes do país. Ele tem muita influência, tal como os norte-americanos, que têm a sua gente instalada. Os interesses que manipulam os atuais tumultos estavam convencidos de que o desaparecimento de Soleimani iria criar um clima de confusão no Iraque e no Irã propício a um golpe de Estado militar encorajado por forças estrangeiras, na circunstância os Estados Unidos e a Arábia Saudita. No espírito dos atores estrangeiros estava presente a ideia de que matar Soleimani poderia semear o caos e enfraquecer a influência do Irã no Iraque”.


Decisões que incomodam Washington

        As decisões mais recentes do primeiro-ministro Abdel Mahdi tornaram-no extremamente impopular junto aos Estados Unidos. Acusou Israel de ser responsável pela destruição de cinco instalações das forças de segurança iraquianas (Hachd al-Chaabi) e de ter morto um comandante na fronteira do Iraque com a Síria.
        O primeiro-ministro abriu também o posto fronteiriço de al-Qaem, na fronteira do Iraque com a Síria, contra a opinião da embaixada dos Estados Unidos em Bagdá, cujo pessoal expressou o seu descontentamento aos responsáveis iraquianos. Exprimiu a vontade de comprar sistemas defensivos S-400 e outro material militar à Rússia. Abdel Mahdi chegou a acordo com a China para a reconstrução de infraestruturas essenciais do Iraque em troca de petróleo; e fê-lo depois de ter estabelecido um contrato de eletricidade no valor de 284 milhões de dólares com uma empresa alemã e não norte-americana.
        Acresce que o primeiro-ministro iraquiano recusou-se a respeitar as sanções determinadas pelos Estados Unidos, continuando a comprar eletricidade do Irã e autorizando trocas comerciais que injetam elevados montantes na economia iraniana. Por fim, Abdel Mahdi rejeitou o chamado “acordo do século” apresentado pelos Estados Unidos em relação à questão palestiniana e tenta estabelecer uma mediação entre a Arábia Saudita e o Irã, revelando assim que não tem intenção de se conformar com os objetivos e as políticas dos Estados Unidos no Oriente Médio.
        Os responsáveis norte-americanos exprimiram o seu grande descontentamento em relação à política de Abdel Mahdi junto de numerosos responsáveis iraquianos. Os norte-americanos consideram que o seu fracasso em fazer do Iraque um país em confronto com o Irã é uma vitória para Teerã. Contudo, o que o primeiro-ministro tenta fazer é uma coisa completamente diferente. Tenta simplesmente ficar à distância do conflito entre os Estados Unidos e o Irã, mas tem pela frente dificuldades gigantescas.


Divisões na comunidade xiita

        Abdel Mahdi chegou ao poder no Iraque numa altura em que a economia se encontrava em estado catastrófico. Sofreu muito durante o primeiro ano de governo, apesar das reservas petrolíferas iraquianas serem as quartas em importância no mundo; um quarto da população do país — avaliada em 40 milhões de pessoas — vive em situação de pobreza.
        A Marjava — corpo religioso supremo dos Aiatolás na confissão xiita — de Najav conseguiu intervir para acalmar a situação decorrente das manifestações, mostrando capacidade para controlar as multidões. O seu representante em Kerbala, Sayyed Ahmad al-Safi, sublinha a importância de combater a corrupção e de criar uma comissão encarregada de recolocar o país nos trilhos. Al-Safi afirma que é necessário desenvolver reformas sérias e pediu ao Parlamento, sobretudo à “maior coligação”, que assuma as suas responsabilidades.
        A coligação principal, que inclui 53 deputados, está sob influência do líder xiita Sayyed Moqtada al-Sadr, que anunciou, contrariamente ao parecer da Marjava, a suspensão da sua participação do seu grupo nos trabalhos parlamentares. Moqtada apela a eleições antecipadas, que não deverão dar-lhe mais do que 12 a 15 deputados. Al-Sadr, que se desloca entre a Arábia Saudita e o Irã sem ter objetivo estratégico, procura apenas seguir a vaga de descontentamento para extrair vantagens das exigências legítimas dos manifestantes.
        Moqtada e os outros grupos xiitas que hoje dirigem o país, em aliança com os curdos e minorias sunitas, deveriam antes responder às exigências do povo em vez de se esconderem atrás dos que tomam de assalto as ruas para exigir o fim da corrupção, a criação de emprego e uma melhoria da qualidade de vida.
        O primeiro-ministro Abdel Mahdi não possui uma varinha mágica e o povo não consegue esperar muito mais tempo. As reivindicações dos manifestantes são justas, mas eles “não são os únicos nas ruas”. A maioria dos criadores de hashtags nas redes sociais são sauditas. Segundo uma fonte, “é bastante revelador o facto de que as visitas de Abdel Mahdi à Arábia Saudita e a sua mediação entre Riade e Teerão não o imunizaram contra a mudança de regime em Bagdá pretendida pelos sauditas”. O comportamento dos vizinhos do Iraque já deixou perceber claramente ao primeiro-ministro que as relações com o Irão são as mais saudáveis e as mais estáveis. Teerã não conspirou contra ele, ainda que a bandeira iraniana tenho sido a única queimada e espezinhada por alguns manifestantes nas ruas de Bagdá durante os últimos dias de levantamento.


Estados Unidos não desarmam

        A situação econômica crítica do Oriente Médio torna a região mais vulnerável ao descontentamento social. A maior parte dos países sofrem com as sanções impostas pelos Estados Unidos ao Irã e com as despesas astronómicas para se abastecerem com armas norte-americanas. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, faz tudo quanto pode para esvaziar os bolsos dos dirigentes árabes e para fazer do Irã um espantalho, de modo a drenar as finanças dos países do Golfo. A guerra que os sauditas impõem ao Iémen é outro fator desestabilizador no Oriente Médio porque favorece as tensões e os confrontos.
        O Iraque parece encaminhar-se para a instabilidade como uma frente da guerra multidimensional dos Estados Unidos contra o Irã; os Estados Unidos exigem a solidariedade dos países árabes e do Golfo para com os seus planos.
        O Iraque não se submete às exigências norte-americanas. Com o Parlamento e os partidos políticos iraquianos representando a maioria da população, a mudança de regime é improvável, mas os países vizinhos e os Estados Unidos vão continuar a explorar as carências dos cidadãos iraquianos. Não se sabe se Abdel Mahdi conseguirá manter a estabilidade no Iraque. Mas uma coisa está muito clara: A tensão entre os Estados Unidos e o Irã não poupará qualquer país do Oriente Médio. 

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