
Uma das principais chaves dos debates durante a campanha do referendo foi sobre se a imigração exercia uma pressão descendente sobre os salários. Isto foi discutido de forma proeminente durante os debates na televisão e, se as pesquisas da Ashcroft merecem credibilidade, a segunda razão mais importante dada pelos eleitores favoráveis ao Brexit para a sua escolha de voto era o fato de que a saída da União Europeia "oferecia a melhor chance para o Reino Unido recuperar o controle sobre a imigração e as suas próprias fronteiras”.
Entre os apoiantes trabalhistas e conservadores que votaram favoravelmente ao Brexit, a consideração mais importante foi: “O princípio de que as decisões sobre o Reino Unido devem ser tomadas no Reino Unido”.
Desde o resultado do referendo, as mídias sociais estão cheias de eleitores que reclamam da ignorância e xenofobia dos eleitores da classe trabalhadora do Norte, que deram o controle das fronteiras como principal motivo para votar contra a União Europeia. Mas os temores expressos sobre os efeitos da imigração proveniente do interior da UE eram apenas preconceitos ignorantes, ou refletiriam algo real?
A campanha contra o Brexit, durante os debates televisivos, enfatizou a contribuição que os trabalhadores imigrantes fizeram para a economia e particularmente para o Serviço Nacional de Saúde, apontando que eram trabalhadores duros que pagavam impostos e contribuíam para o tesouro nacional. Mas isso foi espetacularmente perder o ponto. Não se reduz as preocupações das pessoas dizendo que os imigrantes da União Europeia trabalham arduamente. Trabalhadores árduos que aceitam baixos salários tendem a parecer mais uma ameaça do que pessoas que pegam leve.
Será que a concorrência com o trabalho imigrante tende a reduzir os salários reais?
Para testar isso, fiz a regressão da taxa de exploração no Reino Unido em relação ao número de pessoas que chegam ao país a cada ano. A taxa de exploração mede quantos centavos de lucro e juros cada trabalhador gera para seu empregador. Por exemplo, se a taxa de exploração é de 70%, isso que significa que, para cada libra recebida pelos trabalhadores, é gerado 70 centavos de lucro para seus empregadores.
Aqui está um gráfico de dispersão mostrando a relação entre imigração e exploração no Reino Unido desde 1970:
Cada ano é mostrado como um ponto com a posição X sendo o número de imigrantes nesse ano, e a posição Y sendo o lucro em libras produzido por cada libra paga em salários. É bastante claro que nos anos em que a imigração é alta, a exploração é alta. O ano com a menor taxa de exploração de 53 centavos por libra teve 200.000 imigrantes, o ano com a maior exploração, 89 centavos por libra, teve 589.000 imigrantes. No geral, a correlação entre imigração e exploração foi de 75%.
A correlação mede qual porcentagem da variação de uma coisa que é explicada por outra. Isto mostra que 75% da variação na exploração ano a ano, é explicada pela variação na imigração ano a ano.
Agora, a explicação estatística não implica necessariamente em causalidade. Se tivermos uma teoria causal ligada a fenômenos, então a correlação fornece evidências confirmatórias para a teoria, mas você precisa de um modelo causal primeiro.
Bem, há uma teoria que explica porque devemos esperar isto. Ela foi estabelecida no capítulo do Capital de Karl Marx que trata da lei de acúmulo do capital. Ele descreveu um processo no qual períodos de rápida acumulação de capital reduziriam o desemprego, aumentariam os salários e reduziriam a exploração. Isso, ele disse, provocaria uma reação. O acúmulo mais lento aumentaria então o desemprego e permitiria que a exploração aumentasse. Basicamente, quanto mais competição os trabalhadores tivessem daquilo que Marx chamava de Exército de Reserva do Trabalho, maior seria a taxa de exploração e vice-versa.
O que a decisão de Tony Blair de permitir a livre circulação de trabalhadores dos da UE fez foi aumentar drasticamente o tamanho do efetivo do exército de reserva de trabalhadores que competem com os trabalhadores daqui. Isso necessariamente aumentou os lucros às custas dos salários. Quando tanto Trabalhistas quanto Conservadores fingiram que isto não estava acontecendo, pura e simplesmente não se acreditou neles, o que constitui uma razão fundamental para o fracasso da campanha contrária ao Brexit.
Os países que permitem uma imigração fácil podem compensar a tendência de queda da taxa de lucro.
A imigração impulsiona a população trabalhadora de três maneiras:
- Ela compensa direta e imediatamente uma baixa taxa de natalidade. O que não é um problema no Reino Unido, mas é na Alemanha.
- A taxa de atividade dos imigrantes é alta porque eles estão desproporcionalmente em idade de trabalho.
- As famílias de imigrantes tendem a ter taxas de natalidade mais elevadas do que a população natural dos países capitalistas desenvolvidos, de modo que compensam indiretamente a baixa taxa de natalidade destes.
Um crescimento populacional mais rápido aumenta a taxa de lucro através de dois mecanismos distintos. Por um lado, uma expansão mais rápida da força de trabalho aumenta a concorrência por empregos e permite que a taxa de exploração seja aumentada. Em segundo lugar, uma população crescente absorve o capital acumulado, impedindo, ou ao menos desacelerando, o aumento da relação capital/trabalho.
O que vemos no Reino Unido não é alguma idiossincrasia, mas uma tendência geral do capitalismo. A rentabilidade e a exploração são ajudadas pela mão-de-obra em rápido crescimento numérico.
O efeito de uma população em rápido crescimento é mais notório se compararmos uma economia capitalista emergente, como a da África do Sul, com uma economia madura, como a do Japão.
À esquerda podemos ver a tendência da taxa de lucro na África do Sul, à direita a população. A linha sólida à esquerda é a taxa de lucro prevista, obtida pela comparação da acumulação de capital com o crescimento da força de trabalho. A taxa de lucro real é a linha pontilhada. Veja como o alto crescimento populacional dá uma alta taxa de lucro previsto, que é alcançada alguns anos mais tarde. Nessas nações, o capital acumulado a cada ano é insuficiente para acompanhar o crescimento da população, de modo que a relação capital/trabalho cai. Uma relação capital/trabalho mais baixa dá origem a uma taxa de lucro mais alta.
Em última análise, é o sexo que impulsiona o capitalismo. A elevada taxa de lucro no capitalismo sul-africano é impulsionada pela produtividade sexual muito maior das mulheres sul-africanas. A fertilidade sul-africana ainda era de 2,5 em 2008 contra apenas 1,3 no Japão. Mas a África do Sul já está no caminho da maturidade capitalista. A sua taxa de fertilidade em 2008 foi apenas metade da sua taxa de fertilidade quarenta anos antes. Em outros países africanos, a transição demográfica mal está começando. Na Nigéria, a fertilidade em 2008 foi de 5,7 crianças por mulher, na Zâmbia 5,8 por mulher, na Tanzânia 5,6. A África Equatorial é, no início do século XXI, a última esperança de rentabilidade do capitalismo.
Exploração e lucratividade dependem da rápida expansão das forças de trabalho. Se a esquerda continuar a adotar a cantilena 'blairita' de que a imigração não degrada a posição social dos eleitores da classe trabalhadora, cederá cada vez mais uma economia política realista ao UKIP (Partido de Independência do Reino Unido).
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