DANIEL ALBUQUERQUE : Retroescavadeira e "autodefesa" dos milicianos?


        Acho engraçado que tem uma galera que se diz pacifista e humanista, mas só na hora de pensar na retroescavadeira, que não iria atropelar ninguém, apenas derrubou o portão, e deu ré. Olha que engraçado, esses supostos humanistas e pacifistas não se indignam que o senador, quando tomou o tiro, estava com seu veículo rural parado, já estacionado após a derrubada do portão. Ninguém foi atropelado, nem seria.
        Essas análises são ridículas, e colaboram, por exemplo, com a tese de "legítima defesa emocional" para agentes públicos proposta por Sérgio Moro em seu tão criticado pela esquerda "Pacote anticrime", que diz que, mesmo que um agente de segurança não tenha sua integridade materialmente ameaçada, este poderia ter pena de homicídio extinta caso se sentisse emocionalmente ou psicologicamente ameaçado.
        Precisamos esclarecer que, mesmo inconstitucional, tal movimento grevista, ligado a bases políticas e apoio à Bolsonaro, seus candidatos à vereador e prefeitos, já havia conseguido um aumento de 40%, de forma que a maior parte dos trabalhadores da segurança pública do Estado, mal ou bem legítimos em reivindicar melhores salários, deixaram de aderir a greve, sobrando apenas os mais próximos de oportunistas e demagogos da extrema direita e da milícia.
        O que se seguiria dali? Cid Gomes atropelaria todos os policiais? Óbvio que não. Só quem não viu todos os vídeos, e não leu sobre a situação poderia pensar isso.
        Cid Gomes chegou em Sobral e foi recebido por milhares de populares que estavam com medo, aterrorizados pela brutalidade e o arbítrio imposto aos locais pelos policiais militares amotinados, que armados e encapuzados impediram comércios de abrir, e pessoas de circularem, dando por exemplo, esculacho em trabalhadores comuns de Sobral. Os populares queriam o fim do motim e de suas agressões. Isso, claro, parece não importar para tais pacifistas e humanistas.
        Cid propôs que, já que tais policiais estavam em motim, a população (com ele incluso) formasse grupos de autodefesa, por isso tantas pessoas com camisas de cor amarela e laranja que foram disponibilizadas pela prefeitura de Sobral para essa patrulha popular. A proposição de Cid, era que esse grupo de autodefesa popular patrulhasse Sobral durante a greve para impedir que comércios fossem fechados, e garantir a livre circulação dos populares, e que também retomassem a área militar ocupada pelos amotinados.
        Quem acha que o Senador do PDT iria "atropelar" os milicianos tem um parafuso a menos. O Senador, e outras autoridades constituídas, iriam apenas quebrar o portão do quartel e entrar com os populares uniformizados de amarelo e laranja, parte do grupo popular de autodefesa formado, para retomar a área militar ilegalmente ocupada. Será que não ocorreu a nenhum desses supostos amigos da classe trabalhadora, que parecem se coçar para apoiar o motim miliciano, o que levou milhares de populares a aceitar engajarem em tal ato? Será que eles, assim como o Cid, não estavam indignados com o que foi feito contra o povo de Sobral pelos amotinados?
        Ainda bem que a opinião desses liberais fantasiados de defensores do povo, daqueles que em tom de superioridade elitista dizem "fico do lado da briga", não contam para quase nada. Fico com a população de Sobral nessa. No final de um dos vídeos do ocorrido, é possível ver populares (mais de um) dizendo à Cid Gomes, já baleado, sangrando: "Você é um herói, Cid"
        Talvez seja um pouco demais, um exagero personalista do momento. Mas naquele dia, Cid Gomes foi um herói para a população de Sobral e de quebra demonstrou o que pensam, e como opera a demagogia e o discurso, de alguns supostos defensores do povo nas redes. Na internet, e na aparência, eles são "Resistência", vão "lutar contra a extrema direita", mas só se for com petição "Avaaz" ou ato "Lula Livre", se for pra fazer algo que peite a extrema-direita materialmente, aí já é demais.
        Só faltou terem feito um monumento e uma vigília em homenagem ao coitado do portão derrubado.

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