HADEBE HADEBE: Deixamos Zuma muito cedo?

 


        Todos esses anos fui criticado e ridicularizado pelo meu apoio incondicional ao ex-presidente Jacob Zuma.
        Talvez seja hoje que eu precise esclarecer as coisas. Meu apoio a ele não era para um indivíduo, mas para ele em sua capacidade como Presidente da República da África do Sul, bem como a postura que tinha assumido em assuntos globais, especialmente na economia.
        
Basicamente, não me preocupei se ele era do Congresso Nacional Africano (ANC) ou não. Eu não me importava com as acusações feitas contra ele, particularmente todas as coisas que diziam que ele estava fazendo ou tinha feito. Isso não era da minha conta.
        Atendendo pelo nome de investidores, comunidade internacional, economias avançadas, Fórum Econômico Mundial, agências de classificação, Bretton Woods, financiadores ou credores, empresas multinacionais, etc., são conhecidos como os "homens invisíveis" que impulsionam a política global, a economia e a cultura. Basicamente, eles estão preocupados em manter o equilíbrio de poder no mundo em termos de avançar os interesses do 'núcleo' (primeiro mundo), da semiperiferia (postos avançados do primeiro mundo) e da periferia (terceiro mundo, ou "banheiro do mundo").
        
Os poderes do mundo têm uma série de ferramentas à sua disposição para cuidar de qualquer pessoa, qualquer coisa que possa interferir em seu controle sobre o mundo. Isso vai de coisas sutis como educação e mídia até questões muito mais sérias, como política e economia. Esses são os verdadeiros donos da captura do Estado. Eles controlam Estados com controle remoto a partir de Davos, Londres e Washington. E os Estados lutam muito para fazer parte deste círculo.
        
O objetivo é criar um mundo desigual que sempre servirá aos interesses dos predadores globais. Anup Shah, da Global Issues, com sede nos EUA, explica: "Uma das muitas coisas que as nações poderosas (através do FMI, Banco Mundial, etc.) prescrevem é que as nações em desenvolvimento devem se abrir para permitir mais importações e exportar mais de suas commodities." É exatamente isso que contribui para a pobreza e a dependência. E isso também explica por que muitos países na África dependem de uma única mercadoria para sua sobrevivência, além de fundos de doações.
        
Como estruturalista no pensamento político e econômico, sempre soube como é difícil desmantelar ou mesmo desafiar o poder das forças globais. Essas forças têm um controle rígido sobre nossos países. Nossa política interna é boa, desde que continue a servir aos interesses deles. Os atores políticos e econômicos locais prestam um serviço de agência aos "homens invisíveis" que governam o mundo. Em suma, a política local é uma extensão da política global, e o mesmo se aplica à economia.
        
Qualquer coisa que não seja sancionada ou aprovada pelos "homens invisíveis" da política mundial e da economia terá como resultado a cabeça de alguém sendo cortada. Assim, todo líder que se levanta para liderar um país em desenvolvimento (semiperiferia e periferia) acaba conhecendo essa dura realidade. Mas há algumas poucas exceções que decidiram olhar para esses "homens invisíveis" nos olhos e desafiá-los.
        
Aqueles que ousaram lhes mostrar o dedo médio foram punidos: Patrice Lumumba (República Democrática do Congo), Hugo Chávez (Venezuela), Thomas Sankara (Burkina Faso), etc. Outros são afastados do poder e ou enfrentam sentenças de prisão decorrentes de acusações espúrias de corrupção, como Lula no Brasil. Eu diria sem medo ou parcialidade que Msholozi⁽¹⁾ se juntou a esses homens desfavorecidos da política global. Mas parece que Zuma entendeu o jogo melhor do que muitos de nós, e isso irritou seus oponentes e os agentes locais dos "homens invisíveis".
        Como resultado, minha sensação é que Zuma entendeu que, a fim de lidar com as difíceis questões que a África do Sul enfrentou após 1994, ele teria de escolher cuidadosamente os amigos que iriam ajudá-lo a enfrentar a ira dos "homens invisíveis". Nesse sentido, ele escolheu se unir à China e à Rússia, bem como à toda a fraternidade do Movimento Não-Alinhado, especialmente aqueles que se distanciavam da maneira como o sistema econômico-político global operava. Ele tinha que fazer isso enquanto mantinha um controle sólido sobre o ANC, caso contrário, não teria durado muito tempo.
        Perfeito ou não, esse é o caminho que Zuma parece ter seguido. Havia a necessidade de desafiar a Grã-Bretanha e seus aliados para poder realizar uma reforma agrária, consertar a estrutura da economia, retomar o poder das empresas de mineração e resolver as questões de política monetária, nacionalizando o Banco da Reserva. Essa posição foi informada nas resoluções que a ANC tomou em sua conferência eletiva de 2017 em Nasrec.
        Como eu disse, não seria uma jornada fácil. Outros que pensavam como ele, como por exemplo, os peronistas na Argentina e o Partido dos Trabalhadores no Brasil, foram forçados a sair do poder para permitir que os predadores globais voltassem a governar seus países. Recentemente, Evo Morales foi retirado do poder em circunstâncias muito curiosas. Irã, Cuba e Venezuela estão sob extrema pressão devido às sanções patrocinadas pelo Ocidente. A China pode estar enfrentando o que pode ser uma guerra biológica, mas isso ainda está para ser confirmado além de qualquer dúvida razoável.
        Sinto que em Zuma tínhamos alguém que havia chegado o mais perto possível de uma provável façanha de se rebelar contra as potências globais. Todo esse tempo eu sabia que a reação seria séria, mas mantive a fé até o fim. Ele foi forçado a sair de sua posição no início de 2018, no que foi classificado como parte de uma disputa política de facções do ANC. Qualquer um que entenda como os "homens invisíveis" conduziram seus negócios desde a derrubada de Salvador Allende no Chile na década de 1970 está ciente de como eles lidam com o que consideram como comportamento despótico.
        Com o ANC procrastinando nas terras e na propriedade do Banco de Reserva Sul-Africano (SARB), espero que esteja ficando mais claro por que a abordagem não-convencional de Zuma sobre política e economia poderia ter sido a melhor para a África do Sul. Por mais lúgubre que isso pareça, aposto meu último centavo que as questões estruturais da economia não serão resolvidas através de processos parlamentares fracos. A ANC não fará nada para "desapropriar terras sem compensação" ou para nacionalizar o SARB. O processo de emenda à Seção 25 da Constituição⁽²⁾ não é o suficiente, mas também foi grosseiramente higienizado.
        Os esquemas em empresas estatais são uma repetição de um filme de países como Gana, Chile, México, etc. O mau crescimento econômico, o alto desemprego e a pobreza crescente têm o objetivo de garantir que todos saibam quem está no comando. O mestre tem poder para puxar o cabo da tomada a qualquer momento, e muitas pessoas sentirão a dor e se encolherão de medo. A consciência política é substituída por salários, grandes mansões e consumo conspícuo. Ninguém ousaria desafiar o estupro mental em curso usando a economia ou a política. Por exemplo, a indignação com Frederik Willem de Klerk e estatais permanecerá confinada nas redes sociais.
        Toda a energia é desperdiçada em Zuma, enquanto o status quo das duas economias permanece intacto. Se Zuma fez exatamente como afirmado neste artigo ou não, não há nenhuma relevância. Seu surgimento na cena política sul-africana abriu portas para muitas pessoas questionarem como as coisas são feitas. Se isso foi acidental ou não, Zuma toma parte do crédito junto com muitos outros que colocaram a nação em um caminho "acordado". Como as coisas estão agora, muitas pessoas entendem discursos nacionais que antes eram considerados um terreno de uns poucos selecionados.
                Por tanto, deduzo que a Era Zuma podem ser considerados como "os nove anos desperdiçados" em alguns setores, mas para os sul-africanos, particularmente os negros, o ganho foi imenso com o que nossa política nacional expôs. Zuma poderia ter escolhido manter a tampa fechada, como seus antecessores, por causa da estabilidade fabricada e do falso progresso. Mas ele não o fez, e nós o agradecemos por isso. Mesmo aqueles que ainda o veem como um criminoso reconhecem que Zuma trouxe algum dinamismo em nosso corpo político nacional.
        O que está ficando cada vez mais claro para todos nós é que a ocorrência do que Thabo Mbeki caracterizou como "duas nações" não acabará enquanto usarmos abordagens convencionais. Falando em uma conferência do Black Management Forum (BMF) em 2003, o ex-presidente Thabo Mbeki classificou a África do Sul como uma nação com "duas economias e dois andares sem uma escadaria de ligação". As tensões entre as duas nações continuarão a existir enquanto os membros da câmara baixa idolatrarem a economia liderada pelos brancos, mesmo com todas as suas más intenções. Trocamos Msholozi por pessoas como F. W. de Klerk e outras pessoas sem noção. Isso mostra o quão longa a estrada à nossa frente está se tornando.
        Zuma está doente, mas alguns estão interessados em vê-lo morto. A prisão é apenas um show à parte de diversão para demonizá-lo enquanto ele ainda estiver vivo. Afinal de contas, após as infrutíferas tentativas de envenená-lo com grandes mentiras, um dia o futuro nos julgará duramente.

        A ominosa ausência da voz radiante que cantou "Awuleth' Umshini Wami" com desenvoltura é perdida tanto no ANC quanto em outros eventos⁽³⁾. Minha opinião, porém, é que Msholozi poderia ter construído uma tropa de jovens líderes inteligentes e fortes prontos para lutar a guerra maior. Pena que muitos jovens escolheram se esconder atrás da etiqueta "preto inteligente". Eles permitiram que a propaganda de desinformação tomasse conta de suas cabeças em vez de tentar entender o que ele estava dizendo.
        Se você perguntar a eles hoje o que está acontecendo hoje em dia, eles estão completamente perdidos no labirinto atual da confusão. Muitos estão perdendo seus empregos em estatais e em outros lugares, porém não sabem o que os atingiu. Buscamos constantemente respostas, algo grande provavelmente acontecerá.
        Além disso, o que não percebemos é que se Jacob Zuma morrer agora, ele pode facilmente tornar-se um símbolo político ou uma espécie de mártir... Talvez um dia consigamos um homem ou uma mulher que seja forte o suficiente para mostrar aos "homens invisíveis" o dedo do meio.
        Podemos parecer deprimidos, mas sabemos que estamos apenas recuperando a força! (Ukehlehla kwenkunzi akusho ukuthi iyabaleka kodwa ithatha amandla).

        Mina Ngithi, Khawuleza, Sheshisa bo!






NOTAS:

(1): "Msholozi" é o nome do clã ao qual o Presidente Zuma pertence, sendo por este nome frequentemente chamado.
(2): A Seção 25 da Constituição da África do Sul diz que, no caso da desapropriação de uma terra, a compensação por esta deve-se dar-se de forma "justa e equitativa". O texto é alvo de ampla discussão jurídica na região, uma vez que a reforma agrária é um dos principais projetos do Congresso Nacional Africano (CNA). Para a resolução do problema, o Partido tenta uma emenda constitucional que permita a desapropriação de terras sem compensação, de forma a mudar a flagrante desigualdade num país que, mesmo vinte e cinco anós após o fim do apartheid, ainda tem a maioria absoluta das terras nas mãos da minoria branca, que durante o regime do aparthaid  proibiu os negros de adquirirem terras, segregando-os em reservas étnicas. Como resultado os negros (80% da população) ocupam apenas 13% do território sul-africano.
(3): "Awuleth' Umshini Wami" (em português, Traga Minha Máquina) é uma canção de guerra em língua nguni cantada pelo antigo grupo insurgente uMkhonto we Sizwe (em português, Lança da Nação) — a ala armada do Congresso Nacional Africano que combateu o apartheid de 1961 a 1994. A música é correntemente associada ao Presidente Zuma, que costuma cantá-la em comícios da Liga Juvenil do ANC.

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