JOSÉ CALDAS DA COSTA: Jelci, ex-combatente da ditadura, morre de Covid-19 no Rio

 


“Aquele que vem pela estrada da vida,
 levantando a poeira da lembrança,
 montado no corcel da esperança,
 com o olhar firme no horizonte,
 e sonhando um dia ver o jardim florido da justiça social,
 é um verdadeiro revolucionário”.

        Com estes versos encerra-se a narrativa do livro “Caparaó – A Primeira Guerrilha Contra a Ditadura”. Foi a forma como encerrou um dia de entrevistas ao jornalista José Caldas da Costa o capitão paraquedista do Exército Brasileiro Jelcy Rodrigues Corrêa, cassado por um dos primeiros atos do regime de 1964, juntamente com aproximadamente 7.500 militares igualmente expurgados, segundo cálculos da Folha de São Paulo.
        O gaúcho Jelcy Rodrigues Corrêa, que foi um dos dois subcomandantes da Guerrilha do Caparaó, o primeiro movimento armado a se organizar no País contra o governo militar instalado pelo golpe civil-militar, morreu na última sexta-feira (26 de junho de 2020), no Hospital da Beneficência Portuguesa, em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro.
        O ex-combatente da ditadura estava internado desde o dia 29 de maio, diagnosticado com a Covid-19, e passou seu aniversário de 87 anos na UTI, inconsciente, segundo revelações de sua filha Tânia Corrêa. No dia 26, sofreu uma queda brusca de pressão e morreu. Seu corpo foi sepultado no cemitério municipal de Petrópolis. Ele deixa dois filhos, Tânia e Jelcy Júnior, de seu longevo casamento de 67 anos com Maria José, além de cinco netos e cinco bisnetos.
        O jornal Tribuna de Petrópolis registrou a morte de Jelcy, lembrando seu ativismo político e o fato de ter sido um dos fundadores do PDT juntamente com Leonel Brizola, a quem tinha como um dos seus mentores. “Ele era capaz de defender com unhas e dentes aquilo com o que sonhava”, definiu o filho Jelcy Rodrigues Corrêa Júnior, 61 anos, diretor regional da Rede Estadual de Educação, em entrevista ao jornal petropolitano.


Dignidade

        Comandante militar da Guerrilha do Caparaó, Amadeu Felipe da Luz Ferreira, hoje com 85 anos, morando em Londrina, Norte do Paraná, elogiou o ex-colega de farda e de lutas. “Devo muito ao Jelcy e à Maria José. Eu não tinha visitas da minha família e, para quebrar meu isolamento na prisão, era Maria, com aquiescência do Jelcy, quem me visitava na prisão para que eu pudesse sair um pouco da cela. O Jelcy teve uma dignidade fora de série no interrogatório, depois que fomos presos no Caparaó”, disse Amadeu Felipe.
        Hoje também capitão do Exército, após as reparações feitas pela democracia brasileira aos perseguidos das Forças Armadas. Na época da cassação, Jelcy era subtenente e Amadeu Felipe era sargento. “Jelcy sempre preservou a ideia da solidariedade e da amizade e sempre teve atitudes muito dignas. Era um homem de muita força moral, foi um bravo companheiro e um resistente prisioneiro político”, definiu Amadeu Felipe.
        Dos militares expulsos após 64, alguns se organizaram em torno do núcleo jango-brizolista no Uruguai e montaram a resistência armada ao regime, que resultou na Guerrilha do Caparaó, na divisa do Espírito Santo com Minas Gerais e durou aproximadamente nove meses, entre o inverno de 1966 e a madrugada já fria de 1º de abril de 1967, quando o núcleo principal do movimento foi preso por forças da Polícia Militar de Minas Gerais numa área pertencente a Alto Caparaó.
        Jelcy Rodrigues Corrêa nasceu em 10 de junho de 1933, em Santa Vitória do Palmares, no Rio Grande do Sul. Em 1951, já estava no Exército, no Rio de Janeiro. Por seu porte físico, foi escolhido para a guarda presidencial de Getúlio Vargas.
        Detalhes de sua vida e luta, desde a campanha “O Petróleo é Nosso” - passando pelos conturbados anos do governo Juscelino Kubitschek, a Campanha da Legalidade em 1961, empreendida a partir do Rio Grande do Sul pelo, então governador, Leonel Brizola, a militância no Movimento dos Sargentos, até sua expulsão e participação na resistência armada — e a reconstrução da vida após sair da prisão, estão descritos no livro “Caparaó – A Primeira Guerrilha Contra a Ditadura”, publicado pela editora Boitempo (São Paulo - SP) e ganhador do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos em 2007 como melhor livro reportagem publicado no Brasil.

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