
A Bolívia pode muito bem ter crescido em indicadores macroeconômicos e microeconômicos, trazendo prosperidade para seu povo, mas se o povo não tem consciência de que esse bem-estar se deve a um fator ideológico que impulsionou certas políticas públicas, como a nacionalização de seus recursos, ele não saberá valorizar ou preservar estas conquistas.
Após as tentativas infrutíferas dos Estados Unidos de subjugar os governos de Cuba, Nicarágua e Venezuela, através de bloqueios e invasões militares, o império chegou à conclusão de que a ameaça externa era contraproducente, pois exacerbava o nacionalismo e, assim, a compactação do governo com seu povo, resultando na formação de milícias populares.
Evo Morales expulsou a DEA⁽¹⁾, fechou a Embaixada dos Estados Unidos, nacionalizou empresas multinacionais, impôs a necessidade de visto aos norte-americanos que desejassem entrar na Bolívia e modificou a Constituição, o que lhe permitiu impor novas regras ao investimento estrangeiro, além de repatriar diversas jazidas minerais, complexos gasíferos e usinas hidrelétricas.
A Bolívia começou a experimentar uma melhoria invejável em sua economia e foi o país que mais cresceu na América Latina. A própria imprensa direitista convencional utilizou esta imagem para seus próprios interesse, com a Bolívia sendo o governo da esquerda boa, enquanto a Venezuela era o governo da esquerda má.
Ao mesmo tempo, o governo boliviano trabalhou arduamente em questões como a luta contra o colonialismo, imperialismo, racismo e machismo. O vice-presidente García Linera disse que o trabalho da superestrutura era fundamental e apelou à criação de uma hegemonia cultural e política em favor do socialismo.
Porém, quando a Bolívia atinge a estabilidade econômica, o governo acaba por negligenciar o plano subjetivo, pois imaginavam que construir obras e ter uma boa taxa de crescimento eram o suficiente para que o povo continuasse a apoiá-los, então abandonaram a luta das ideias.
A dormir sobre os louros⁽²⁾, Morales ultimamente tem dedicado os seus esforços a incursões mais frequentes na política internacional, estabelecendo acordos com países como China e Rússia, acabando por descuidar-se na política interior.
A CIA percebeu essa vulnerabilidade ideológica não só nas pessoas, mas também no alto comando dos militares e policiais, e não é que a CIA seja tão forte quanto parece, pois seu sucesso depende da quantidade de felipillos⁽³⁾ que o país possui .
Como entender que a Venezuela, bloqueada economicamente, isolada, ameaçada militarmente com uma invasão e com uma brutal conspiração da mídia internacional, tenha resistido e vencido, ao contrário da Bolívia? Simplesmente, Maduro e Chávez consideravam que as Forças Armadas eram insuficientes para resistir e vencer uma agressão em grande escala, também porque podiam ser infiltradas, então tiveram que organizar militarmente o povo e doutriná-lo para neutralizar o inimigo externo e até mesmo interno.
Hoje a Venezuela tem três milhões de milicianos⁽⁴⁾ e o Império decidiu cessar temporariamente a agressão. Morales não entendia assim, pelo contrário, cometeu o erro de Allende — longe de armar o povo, o desarmou.
Assim, o golpe de Estado teve todo o vento a seu favor, pois para que a Polícia e o Exército solicitassem a renúncia de Morales, teriam de ter sido necessariamente violados ideologicamente, o que demonstra o bom trabalho desenvolvido pelas organizações de serviço da linha de frente da CIA.
Para coroar o triunfo, a OEA (Organização dos Estados Americanos) sempre desempenhou seu papel pró-imperialista, foi a primeira a induzir dúvidas — sugeriu um segundo turno, insinuando uma fraude que posteriormente afirmou ter ocorrido, e recomendou novas eleições, desejando a renúncia ou o assassinato de Morales.
Mesmo assim, agora Evo foi derrubado, mas não derrotado e, conforme previsto por Túpac Katari, ele retornará e será milhões.
NOTAS DA EDIÇÃO:
(1): A Administração de Fiscalização de Drogas, tradução de Drug Enforcement Administration (DEA), é um órgão policial federal dos Estados Unidos de repressão e combate, tanto doméstico quanto estrangeiro, ao narcotráfico. Costuma marcar presença em países latino-americanos com considerável produção de entorpecentes, como Colômbia, Bolívia e México.
Felipillo serviu de interprete do Imperador inca Atahualpa quando este foi capturado por Pizarro. No entanto, maliciosamente traduziu de forma imprecisa as falas entre os dois, chegando ao ponto de atribuir a Atahualpa falas ofensivas ao catolicismo e aos espanhóis. Acredita-se que, ao ter sua trama descoberta por Diego de Almagro (a quem, inclusive, também traiu e conspirou para seu assassinato), foi capturado e desmembrado por cavalos amarrados a diferentes partes de seu corpo.
(4): Os milicianos venezuelanos são os membros da Milícia Nacional Bolivariana da Venezuela, um ramo oficial das Forças Armadas Nacionais da República Bolivariana da Venezuela. Não deve ser confundido com os grupos paramilitares criminosos brasileiros que atuam principalmente no Rio de Janeiro. A palavra "milícia" aqui tem o sentido de um grupo armado autônomo, sendo porém auxiliar das Forças Armadas e se reportando diretamente ao Presidente, ao ministro da Defesa e ao Comando Estratégico Operacional.
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