(Este texto é a transcrição de discurso do Presidente Getúlio Vargas na solenidade da hora da independência, em 7 de setembro de 1953.)
Neste dia glorioso, o maior da nossa História, venho partilhar convosco das esperanças que o Sete de Setembro sempre nos trás, reacendendo na alma dos brasileiros a flama do amor à Pátria. São esperanças que havemos de ver realizadas pela força desse amor, com a graça de Deus. O profundo sentimento de civismo, que hoje se afervora e que nos une fraternalmente, acima de controvérsias e divergências, acima das classes, dos partidos, das cobiças e das paixões individuais, deve ser mobilizado para as grandes causas e para os supremos interesses do país.
Não basta cultuarmos os heróis e os estadistas que evocamos nesta data inspiradora, como figuras tutelares da Nação. Temos de lhes seguir o exemplo. Da sua obra deriva para nós a mais dia das responsabilidades — a de justificar perante os outros povos, pela civilização criada através do trabalho, o precioso bem que usufruímos, com o nosso viver de homens livres, na posse de imenso território, pleno de riquezas. Construindo para o futuro é que dignificaremos no presente a herança inestimável do passado.
O Brasil anseia pela redenção econômica, imprescindível complemento de sua independência política. Urge congraçar todos os esforços para essa difícil mas promissora conquista. Que não se desviem para dissídios estéreis, nem esmoreçam nos pessimismos entorpecentes, as energias de que tanto precisamos para incentivar iniciativas, desenvolver as técnicas, abrir novos horizontes ao fecundo trabalho. Só pelo intensivo aproveitamento e pela valorização integral dos nossos recursos, num clima de confiança e de estímulo, superaremos as dificuldades que decorrem do nosso vertiginoso e desordenado progresso. Muitas das próprias deficiências que nos afligem constituem sinais indisfarçáveis da nossa vitalidade. Resultam do crescimento do país, das suas indústrias, das suas cidades. Essa prodigiosa aceleração de ritmo na existência nacional acumulou, em apenas alguns anos, graves e complexos problemas que demorariam décadas, ou talvez séculos, para surgir noutras terras de lenta evolução.
Assim, a crise que atravessamos não é a de um corpo debilitado, mas a de um jovem organismo que se agiganta. Pagamos em provações atuais o preço da prosperidade vindoura. Propiciar o seu advento, por amplas medidas, planejadas para efeitos certos e duradouros, tem sido a preocupação dominante do Governo, que prefere servir aos reclamos verdadeiros do País, às suas necessidades fundamentais, a satisfazer a impaciência dos que, frívola ou tendenciosamente, pleiteiam soluções efêmeras e enganosas, de caráter imediatista.
Rendo a minha homenagem ao estoicismo do povo simples e humilde que, embora o mais sacrificado pelas agruras da hora presente, sabe compreender que não pode operar-se por um milagre repentino a obra de aparelhar o País para a nova fase do seu desenvolvimento
Empenhado nessa tarefa, que exige perseverança, desprendimento e coesão das forças nacionais, o Governo não faz uma política de classes, mesmo quando procura atenuar as injustiças e as desigualdades sociais. Também não faz uma política de partidos ou de regiões, porque vê o Brasil como uma unidade, uma soma dos esforços de todos.
Assim devemos cooperar, de ânimo superior, nestes dias de árdua preparação para a nossa grandeza futura.
Não ajudam a Nação os que dela se aproveitam para lucro fácil, nem servem o Governo os que dele se utilizam para as conveniências egoístas.
Saberemos coibir a ganância e a especulação, como não acobertaremos a corrupção e o favoritismo. Onde quer que repontem, puniremos os culpados, sem temer aqueles que, ao impulso de rancores e explorações facciosas cuidam de atirar as pedras do escândalo.
Anunciei que governaria de portas abertas, voltado de olhos e ouvidos para o Povo. O Governo aprecia, portanto, as críticas da imprensa, como uma forma de colaboração e as denúncias da opinião pública, como um sinal de vitalidade democrática. É preciso entretanto assinalar que não estão construindo para o Brasil, nem servindo aos seus interesses, os que espalham a suspeição e a desconfiança, os que procuram desacreditar as nossas instituições, os que na depravação da linguagem tentam subverter o princípio da autoridade, os que perturbam a paz e a tranquilidade de que necessitamos para trabalhar e produzir.
Sofre mais a essência do regime do que as pessoas investidas do poder público com as campanhas de calúnia e difamação que invocam a defesa da democracia, como pretexto para a insídia e a malevolência.
A fonte legítima do poder é a vontade do Povo, expressa nas urnas. Não se iludam os aventureiros da política ou os profissionais da desordem: já passou a época em que o veredito popular era fraudado pelo recurso solerte das atas falsas ou violentado pelos golpes de força.
No grande dia de hoje recebi da população da Capital da República as demonstrações mais carinhosas de afeto e de entusiasmo, que profundamente me comoveram e me alentaram. Não eram as manifestações dos afortunados e bem vividos, mas as do povo anônimo das ruas, daquele que luta para sobreviver e que sua o suor de sangue de todos os dias. Se Cristo nos disse que devemos amar ao próximo, também nos devemos aproximar daqueles que mais sofrem e merecem o nosso amor.
Se a lição dos anos vividos no serviço da Pátria me assegura serenidade ante as incompreensões, as injustiças e os ultrajes, lastimo entretanto, que se procure dificultar o trabalho construtivo do País e comprometer a confiança do Povo nos seus dirigentes, quando, mais do que nunca, se impõe a união nacional
Foi essa coesão de espíritos e de forças que nos permitiu debelar as maiores crises de nossa formação. A unidade é o signo da nossa História.
Inspiremo-nos hoje no exemplo dos gloriosos fundadores da Nação, para que não nos falte, como a eles não faltou, a consciência de que nenhum motivo de competição partidária, nenhum ressentimento pessoal, deve sobrepor-se aos sagrados interesses do Brasil.
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