FREDERICK WILLIAM ENGDAHL: O ativismo climático e o rastro do dinheiro

 


“Os opressores não favorecem a promoção
da 
comunidade como um todo, mas sim
de líderes 
selecionados”

— Paulo Freire (Pedagogia do Oprimido).


        Clima. Quem diria? As próprias megaempresas e megabilionários por trás da globalização da economia mundial ao longo das últimas décadas, cuja ânsia para garantir alto valor para as ações e forte redução de custos causaram tantos danos ao nosso meio ambiente, seja no mundo industrial seja em economias subdesenvolvidas da África, Ásia e América Latina, são hoje financiadores chefes dos movimentos "grassroots"’ de “descarbonização” da Suécia à Alemanha, aos EUA e para além. São surtos de consciência pesada? Ou podemos estar diante de agenda mais profunda, da financeirização do próprio ar que se respira e muito mais?
        Independentemente se você acredita nos perigos do CO2 e nos riscos do aquecimento global criar a catástrofe global de um aumento de 1,5 a 2 º C na temperatura média nos próximos 12 anos, sempre vale a pena examinar quem está promovendo a atual enxurrada de propaganda e de ativismo climático.


Finança Verde

        Vários anos antes de Al Gore e outros decidirem usar uma jovem sueca para ser o rosto do pôster que promove ação ‘climática’ urgente, ou nos EUA a convocação de Alexandria Ocasio-Cortez para completa reorganização da economia em torno de um New Deal Verde, os gigantes das finanças já celebravam esquemas para canalizar centenas de bilhões de dólares em fundos futuros para investimentos em empresas "climáticas" quase sempre inúteis.
        Em 2013, depois de anos de cuidadosa preparação, um empresa imobiliária sueca, Vasakronan, lançou o primeiro "título verde", a ser comercializado em bolsa, o primeiro "green bond". Na sequência vieram outros, dentre os quais Apple, SNCF e o grande banco francês Crédit Agricole. Em novembro de 2013, a empresa Tesla Energy, de Elon Musk, então afundada em problemas, lançou o primeiro seguro escorado em patrimônio solar. Hoje, de acordo com algo chamado de Climate Bonds Initiative, já são mais de US$500 bilhões que circulam sob a forma de títulos verdes negociados em bolsa. Os criadores desse tipo de título dizem que seu objetivo é conquistar a maior partes dos US$45 trilhões de ativos gerenciados globalmente e que assumiram o compromisso nominal de investir em “projetos amigos do clima” (climate friendly).
        Bonnie Prince Charles, futuro monarca do Reino Unido, juntamente com o Banco da Inglaterra e com as finanças da Cidade de Londres, promoveram “instrumentos financeiros verdes”, liderados pelos green bonds, para redirecionar planos de aposentadoria e fundos mútuos para os projetos verdes. Ator chave na conexão entre instituições financeiras e a Agenda Verde é o conhecido presidente do Banco da Inglaterra, Mark Carney. Em dezembro de 2015, o Conselho de Estabilização Financeira (FSB) do Banco de Compensações Internacionais (BIS), então presidido por Carney, criou a Força-tarefa sobre Informações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD), para assessorar e aconselhar “investidores, instituições de crédito e seguradoras sobre riscos relacionados ao clima.” Sem dúvida, um foco bem esquisito para banqueiros presidentes de bancos centrais.
        Em 2016, a Força-tarefa sobre Informações Financeiras Relacionadas ao Clima, com a City of London Corporation e o Governo do Reino Unido iniciaram a Green Finance Initiative, com o objetivo de canalizar trilhões de dólares para investimentos “verdes”. Os banqueiros dos bancos centrais centrais do Conselho de Estabilização Financeira nomearam 31 pessoas para formar a Força-tarefa sobre Informações Financeiras Relacionadas ao Clima. Presidida pelo financista bilionário Michael Bloomberg, a força-tarefa incluía pessoas-chave do conglomerado JPMorgan Chase; da BlackRock — uma das maiores gestoras de ativos do mundo, com quase US$7 trilhões; do banco Barclays; do banco HSBC, repetidas vezes multado por lavagem de dinheiro de drogas e outros fundos envolvidos com o mercado negro; da seguradora Swiss Re, a segunda maior empresa mundial de resseguro; do banco chinês ICBC; da Tata Steel; da petrolífera ENI; da Dow Chemical Company; da gigante da mineração BHP Billiton; além de pessoas como David Blood da empresa Generation Investment Management LLC de Al Gore. De fato, parece que as raposas estão escrevendo as regras do Novo Galinheiro Verde.
        Carney, do Banco da Inglaterra, também era ator chave em esforços para fazer da Cidade de Londres o centro financeiro global das Finanças Verdes. O chanceler do Tesouro, Philip Hammond, já em fim de mandato, distribuiu em julho de 2019 um documento intitulado “Estratégia da Finança Verde: Finança Transformadora para um Futuro mais Verde”. No documento lê-se que “Uma das iniciativas mais influentes que estão por emergir é a Força-tarefa do setor privado do Conselho de Estabilização Financeira sobre Informações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD), apoiada por Mark Carney e presidida por Michael Bloomberg. Já foi endossada por instituições que representam US$118 trilhões de ativos globalmente.” Parece haver um plano aqui. O plano é a financeirização da economia de todo o mundo, usando o medo e um cenário de fim-de-mundo para alcançar metas arbitrárias como “emissões zero de gases de efeito estufa”.


Goldman Sachs, ator protagonista

        O onipresente banco Goldman Sachs, de Wall Street — que gerou, dentre outros, o presidente Mario Draghi, do Banco Central Europeu, e Carney, presidente do Banco da Inglaterra —, acaba de revelar o primeiro índice global das principais ações ambientais, feito em colaboração com o CPD de Londres, antes chamado Carbon Disclosure Project. O CDP, por sua vez, é financiado por investidores como os bancos HSBC, JPMorgan Chase, Bank of America, Merrill Lynch, Goldman Sachs, American International Group e State Street Corp.
        Os dois novos índices, denominados CDP Environment EW e CDP Eurozone EW, visam a atrair investimentos, sistemas estatais de aposentadorias e pensões como o CalPERS (Sistema de aposentadoria dos empregados do serviço público da Califórnia) e CalSTRS (Sistema de aposentadoria dos professores do Estado da Califórnia) com mais de US$600 bilhões em ativos, para investir no seleto conjunto de alvos. Dentre as empresas mais bem cotadas no índice estão a Alphabet (proprietária do Google), a Microsoft, o ING Group, a Diageo, a Philips, a Danone e, muito convenientemente, o conglomerado Goldman Sachs.


Entram Greta, Alexandria Ocasio-Cortez & Co.

        Nesse ponto, os eventos adquirem um tom cínico, e somos confrontados com ativistas climáticos furiosamente populares e fortemente promovidos, como Greta Thunberg da Suécia ou Alexandria Ocasio-Cortez, 29 anos, de New York e seu "Green New Deal". Por mais sinceras que sejam (ou que fossem) essas ativistas, há uma máquina financeira ativíssima e bem lubrificada que as promove com finalidades de lucro.
        Greta Thunberg é parte de uma rede muito bem relacionada ligada à empresa de Al Gore que está sendo usada cinicamente e profissionalmente por agências como a ONU e a Comissão Europeia e todos os interesses financeiros que estão por trás da agenda climática que está sendo implantada.
        Como a pesquisadora e ativista climática canadense Cory Morningstar documenta numa excelente série de postados (“A Construção do consenso em torno de Greta Thunberg”), a jovem Greta está operando com uma bem tecida rede de agentes ligados ao investidor e extraordinariamente rico aproveitador do clima, Al Gore, presidente do grupo Generation Investment. Seu sócio, ex-funcionário do banco Goldman Sachs, David Blood, como já anotado, é membro da TCFD criada pelo BIS.
        Greta Thunberg e sua amiga climática norte-americana de 17 anos, Jamie Margolin, foram recrutadas como “consultoras e ativistas especiais para a juventude” da ONG sueca We Don’t Have Time (Não Temos Tempo), fundada por seu presidente-executivo Ingmar Renzhong. Renzhong é membro do grupo Líderes da Organização Realidade Climática (CROL), de Al Gore, e integra a Força-tarefa Política Climática Europeia  (ECPTF). Foi treinado em março de 2017 por Al Gore em Denver, e novamente em junho de 2018 em Berlim. O Projeto Realidade Climática, de Al Gore, é organização parceira do We Don’t Have Time.
        A deputada Alexandria Ocasio-Cortez (AOC), que causou furor nos seus primeiros dias no Congresso dos EUA ao propor um “New Deal Verde” para reorganizar completamente a economia dos EUA ao custo de talvez US$100 trilhões, tampouco opera sem orientação profissional. AOC admitiu abertamente que se candidatou a uma cadeira no Congresso por insistência de um grupo chamado Justice Democrats. Em uma entrevista, a deputada afirmou: “Não teria concorrido sem o apoio do Justice Democrats e do Brand New Congress. De fato, não fosse por essas organizações, ambas, que, em primeiro lugar, me pediram que me candidatasse, eu não estaria concorrendo. Essas organizações me telefonaram há um ano e meio…”
        Agora, já eleita, Zack Exley, co-fundador do Justice Democrats é um dos conselheiros de AOC. Exley foi membro da Open Society e recebeu fundos, dentre outros, da Open Society Foundations e da Ford Foundation para criar uma organização da qual nasceu o Justice Democrats para recrutar candidatos ao Parlamento.


A agenda real é econômica

        Os elos que conectam os maiores grupos financeiros do mundo, bancos centrais e empresas globais para o impulso atual a favor de uma estratégia climática radical, na direção de abandonar a economia dos combustíveis fósseis, em favor de uma economia verde vaga, jamais satisfatoriamente explicada, ao que parece, têm menos a ver com qualquer genuína preocupação com tornar nosso planeta ambiente limpo e saudável onde viver. Na verdade, há uma agenda, intimamente conectada à Agenda 2030 da ONU para economia "sustentável", e para encaminhar literalmente trilhões de dólares de novas riquezas diretamente para bancos globais e gigantes financeiros que são, esses sim, o verdadeiro poder hoje mobilizado.
        Em fevereiro de 2019, depois de Greta discursar para a Comissão Europeia em Bruxelas, o então presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker, depois de galantemente beijar a mão de Greta, pareceu estar realmente decidido a agir. Declarou para Greta e para a imprensa, que empregaria centenas de bilhões de euros nos próximos dez anos, para resistir contra o aquecimento global. Juncker propôs que, entre 2021 e 2027, “um, de cada quatro euros gastos no orçamento da União Europeia fosse destinado a ações para mitigar a mudança do clima”. O que o esperto Juncker não disse é que a decisão nada tinha a ver com os pedidos da jovem ativista sueca. A decisão já estava tomada em conjunto com o Banco Mundial há um ano, desde 26 de setembro de 2018, na Cúpula One Planet Summit, com o Banco Mundial, as Fundações Bloomberg, o Fórum Econômico Mundial e outros grupos. Juncker serviu-se espertamente da atenção que a mídia dava à jovem sueca, para promover a sua própria agenda climática.
        No dia 17 de outubro de 2018, dias depois do acordo da União Europeia na Cúpula One Planet, a União Europeia de Juncker assinou um Memorando de Entendimento com a Breakthrough Energy pelo qual corporações-membros do conglomerado terão acesso preferencial a quaisquer financiamentos.

        Entre os membros do Breakthrough Energy estão Richard Branson, da Virgin Atlantic; Bill Gates; Jack Ma, da Alibaba; Mark Zuckerberg, do Facebook; Sua Alteza Real Príncipe Al-Waleed bin Talal, da Arábia Saudita; Ray Dalio, da Bridgewater Associates; Julian Robertson, da Tiger Management; David Rubenstein, fundador do Carlyle Group; George Soros, presidente do Soros Fund Management LLC; Masayoshi Son, fundador do japonês Softbank.
        Que ninguém se engane. Quando as mais influentes corporações multinacionais, os maiores investidores institucionais incluindo BlackRock e Goldman Sachs, a ONU, o Banco Mundial, o Banco da Inglaterra e outros bancos centrais da linha de apoio do Banco de Compensações Internacionais se unem para financiar uma chamada Agenda Verde, chame isso de New Deal Verde ou do que for, é hora de examinar a agenda real, por baixo da superfície das campanhas de ativistas climáticos. O quadro que emerge é um esforço para reorganizar as finanças da economia mundial, usando o clima para tentar nos convencer, a nós, o povo comum, a fazer qualquer sacrifício, até os mais indescritíveis para “salvar nosso planeta”.
        Em 2010, o presidente do Grupo de Trabalho 3, do Painel Intergovernamental da ONU sobre a Mudança Climática, Dr. Ottmar Edenhofer, disse a um entrevistador que “é preciso dizer claramente que redistribuímos de fato a riqueza mundial, com política climática. Temos de nos livrar da ilusão de que a política climática internacional é uma política ambiental. A política climática internacional não tem mais nada a ver com política para o meio ambiente, com problemas de desmatamento ou o buraco de ozônio.” Depois disso, a estratégia da política econômica passou a ser desenvolvida com muito maior desenvoltura.

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