BEN NORTON: Yaku Pérez, candidato "ecossocialista" golpista apoiado pelos EUA, ajuda a direita no Equador
A eleição presidencial do Equador em 7 de fevereiro foi concluída com surpresa: a contagem rápida publicada pelo Conselho Nacional Eleitoral do País parecia mostrar um candidato pouco conhecido chamado Yaku Pérez Guartambel em segundo lugar, garantindo uma vitória por pouco sobre o candidato de direita Guillermo Lasso, um banqueiro com influência significativa no País.
A maioria das pesquisas previa que a corrida presidencial se resumiria a dois candidatos presidenciais, que dificilmente poderiam ser mais diferentes: de um lado estava o banqueiro conservador Lasso, que tinha o apoio das elites equatorianas e dos Estados Unidos, e havia disputado a presidência sem sucesso duas vezes antes; enquanto do outro estava um jovem economista de esquerda, Andrés Arauz, que segue os passos do ex-Presidente socialista Rafael Correa e quer retornar à sua Revolução Cidadã.
Mas, embora as pesquisas mostrassem consistentemente que ele estava em terceiro lugar, Yaku Pérez permaneceu na corrida até o final. E ao contrário de Lasso, Pérez não reivindicou fidelidade à direita; ele dirigiu o que foi anunciado como uma campanha ambientalista progressista.
Pérez, líder indígena do partido equatoriano Pachakutik, pretendeu ser a verdadeira opção de esquerda na eleição, condenando Arauz e o movimento socialista correísta que ele representa por serem insuficientemente puros. Mas o histórico político de Pérez sugere que ele é um cavalo de Troia para os inimigos mais ferrenhos da esquerda.
O apoio que Pérez aparentemente tem da Embaixada dos Estados Unidos reflete seu papel duvidoso. Imediatamente após a eleição, quando o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) do Equador ainda não havia publicado oficialmente os resultados determinando quem iria ao segundo turno presidencial em abril, Pérez disse que a Embaixada dos EUA o ligou e garantiu que ele seria o segundo candidato.
Pérez atacou violentamente outros movimentos progressistas da América Latina, apoiando golpes de direita apoiados pelos Estados Unidos visando Bolívia, Brasil, Venezuela e Nicarágua, e demonizou os Governos de esquerda desses países como “racistas”.
Suas visões políticas fundem críticas ultraesquerdistas e anarquistas aos estados de esquerda existentes com uma agenda política objetivamente de direita. E sua oposição ao poder do Estado é profundamente oportunista. Embora Pérez critique duramente a China, ele simultaneamente declarou que “não pensará duas vezes” antes de assinar um acordo comercial com os Estados Unidos.
A ideologia ostensivamente progressista de Pérez está cheia de contradições. Enquanto o candidato correísta Arauz propôs dar mil dólares em cheques para um milhão de famílias da classe trabalhadora equatoriana, Pérez atacou o plano alegando que os cidadãos pobres gastariam todo o dinheiro em cerveja em um dia.
E, apesar de criticar o atual Governo do Equador e protestar contra seu Presidente de direita Lenín Moreno — que tem um índice de aprovação de apenas 8% e, portanto, é politicamente venenoso para todos os candidatos eleitorais do País —, Pérez anteriormente elogiou o líder corrupto e autoritário como “um bom homem”.
Outro líder indígena no Equador, Leônidas Iza, advertiu publicamente que ativistas de direita e membros do partido conservador CREO, do banqueiro Guillermo Lasso, fazem parte do grupo próximo de Pérez e o estão aconselhando.
O partido de Yaku Pérez, o Pachakutik, se identifica como “ecossocialista” e afirma representar as comunidades indígenas do Equador. Mas, como o candidato que o representa, o partido emprega a retórica de esquerda para ocultar objetivos retrógrados.
O Pachakutik está intimamente ligada a ONGs financiadas por Washington e pelos Estados-membros da União Europeia. Os líderes do partido foram treinados pelo National Democratic Institute (NDI), financiado pelo Governo dos EUA, uma instituição da CIA que opera sob os auspícios do National Endowment for Democracy (NED).
O NED lista publicamente mais de US$5 milhões em doações para ONGs no Equador apenas nos anos de 2016 a 2019. Muito desse dinheiro financiou grupos de oposição anti-Correa, como o Pachakutik e seus aliados.
O Pachakutik é o braço político da confederação indígena CONAIE, que ajudou a liderar protestos contra o ex-Presidente Correa do Equador, formando uma aliança silenciosa com os oligarcas de direita do País em uma tentativa de desestabilizar e derrubar o Presidente socialista.
Na verdade, a CONAIE e o Pachakutik desempenharam um papel significativo em uma violenta tentativa de golpe de Estado em 2010, apoiada pelos Estados Unidos, apoiando a polícia traidora que se voltou contra o governo correísta eleito, sequestrou o Presidente e esteve perto de remover Correa do poder de forma não democrática.
Em 2012, um cofundador do Pachakutik e ex-líder da CONAIE, Auki Tituaña, chegou ao ponto de formar uma aliança aberta com o candidato presidencial de direita Guillermo Lasso, anunciando que ele concorreria como vice-presidente do banqueiro. Em resposta, a CONAIE o expulsou.
A CONAIE tem divisões internas, algumas mais à direita e outras mais à esquerda. Os líderes da CONAIE, Leônidas Iza e Jaime Vargas, ajudaram a liderar os protestos de outubro de 2019 contra as reformas neoliberais impostas pelo Presidente em exercício Lenín Moreno. Pérez visivelmente não era um líder dessas manifestações antineoliberais. Mas, em geral, a CONAIE tem sido uma voz expressiva de oposição ao correísmo.
Lasso não é ameaçado pela retórica “ecossocialista” de Pérez e Pachakutik; ele parece bem ciente de que o rótulo é uma trama de marketing. O banqueiro declarou publicamente antes da votação de 7 de fevereiro de 2021 que, se Pérez chegasse a um segundo turno, Lasso apoiaria Pérez de bom grado para derrotar os correístas.
O endosso do banqueiro não é surpreendente quando se considera que, em 2017, antes de mudar seu nome de Carlos para Yaku, o próprio Pérez apoiou a candidatura presidencial de Lasso.
Os laços do Pachakutik com Washington são extensos. Um de seus ex-membros mais proeminentes é Fernando Villavicencio, um jornalista equatoriano que liderou uma campanha de desinformação contra o jornalista Julian Assange, divulgando alegações desacreditadas, mas profundamente prejudiciais sobre o editor do Wikileaks, por meio do principal jornal britânico The Guardian.
O ativismo anti-Correa de Villavicencio também parece ter sido financiado pelo National Endowment for Democracy do Governo dos Estados Unidos. Villavicencio atuou como assessor do membro da Assembleia Nacional do Pachakutik, Cléver Jiménez, que ajudou a liderar a tentativa de golpe de 2010 contra Correa. Yaku Pérez fez uma manifestação pública em apoio a Villavicencio e Jiménez quando Correa os processou por difamação por espalharem notícias flagrantemente falsas sobre ele.
O Pachakutik tem até ligações com o Conselho Eleitoral Nacional do Equador (CNE), que dirige as eleições e que foi assumido e profundamente politizado pelo Governo Moreno, apoiado pelos EUA. Depois de expulsar todos os funcionários pró-Correa do CNE, Moreno escolheu um ex-membro do Pachakutik da Assembleia Nacional, Diana Atamaint, para servir como presidente do conselho eleitoral.
Sob a liderança de Atamaint, o CNE levantou muitos obstáculos para impedir que o movimento de esquerda correísta pudesse participar livremente nas eleições, bloqueando a tentativa de Correa de concorrer à Vice-Presidência e até banindo o partido político de Andrés Arauz.
Antes de ingressar no Pachakutik e ser nomeado chefe do principal órgão eleitoral do Equador, Atamaint trabalhou com o Banco Mundial, uma instituição notória apoiada pelo Governo dos EUA que impôs uma terapia de choque neoliberal devastadora na América Latina. Atamaint supervisionou as iniciativas do Banco Mundial em seu país, incluindo o chamado “Projeto de Desenvolvimento para Povos Indígenas e Negros do Equador”.
As táticas do Pachakutik ecoam as do Movimento de Renovação Sandinista da Nicarágua (MRS), outro partido marginal apoiado pelos EUA que desempenhou um papel de liderança em uma violenta tentativa de golpe em 2018 contra o Governo sandinista democraticamente eleito da nação centro-americana. Como o Pachakutik, o MRS é apoiado pelo Governo dos EUA e trabalha em estreita colaboração com ONGs financiadas pelo Ocidente. Ambos os grupos agem como se fossem críticos de esquerda dos movimentos populares de esquerda, quando na realidade eles formam alianças políticas de fato com oligarcas de direita.
Depois, há a esposa de Pérez, Manuela Picq, uma acadêmica franco-brasileira, ela mesma uma proeminente ativista anticorreísta e oponente de governos esquerdistas na América Latina, deportada por Correa em 2015. Seu trabalho de oposição no Equador foi bancado por ONGs financiadas por governos ocidentais.
Embora ela seja hoje uma especialista liberal em estudos de sexualidade e gênero, Picq trabalhou anteriormente para o Governo do Partido Republicano na Flórida e esteve envolvida em negociações malsucedidas de um acordo comercial neoliberal dos EUA na América Latina, que os líderes da esquerda condenaram como “colonial”.
As táticas de Pérez, sua parceira Picq e seu partido Pachakutik refletem outra campanha na América do Sul que explorou ostensivamente forças ultraesquerdistas em nome de fins de direita.
Durante os preparativos para o golpe apoiado pelos EUA contra o Governo socialista democraticamente eleito da Bolívia em 2019, ONGs que afirmavam apoiar causas ambientalistas participaram de uma operação de desinformação para demonizar o então Presidente Evo Morales, o primeiro presidente indígena na história da Bolívia, ele mesmo forte defensor das proteções ambientais.
Ativistas de mudança de regime de organizações financiadas pelos Governos dos Estados Unidos e da Europa acusaram o Governo Morales de alimentar incêndios na Floresta Amazônica, que estavam mais concentrados no Brasil, onde o Presidente de extrema direita Jair Bolsonaro orgulhosamente se autodenominou “Capitão Motosserra”.
Yaku Pérez e Pachakutik desempenham um papel semelhante no Equador, atacando pela esquerda as forças populares de esquerda, abrindo espaço para o avanço da direita.
Como na Bolívia, onde grupos ambientais ocidentais como o Extinction Rebellion ajudaram a apoiar o Golpe de 2019 com base em preocupações verdes, os autodeclarados anarquistas da organização ostensivamente progressista estão enchendo Pérez de elogios.
O Extinction Rebellion faz coro em seu elogio à figura marginal de pseudoesquerda com grupos de lobby corporativos de direita como a Sociedade das Américas e o Conselho das Américas (AS/COA), que é financiado por empresas de combustível fóssil destruidoras do planeta, fabricantes de armas, e bancos que têm interesse em tentar impedir os correístas de voltar ao poder.
Apoio da “esquerda” para golpes de direita na América Latina
Yaku Pérez Guartambel diz que quer que os equatorianos usem menos carros e plantem mais árvores. Com fotos de campanha frequentemente mostrando ele andando de bicicleta em comícios, a imagem de Perez parece personalizada para apelar à sensibilidade dos ativistas verdes ocidentais.
Pérez é especialmente crítico do movimento correísta por sua dependência do extrativismo. Ele propôs o fim da mineração no Equador e uma restrição à extração de petróleo.
O Equador é um País em desenvolvimento, anteriormente colonizado e, portanto, relativamente pobre em comparação com as nações imperialistas do Norte Global. Mas tem uma vantagem: grandes reservas de petróleo e minerais.
Esses recursos foram essenciais para o programa político e econômico de Correa e seus seguidores, que os usaram para turbinar o desenvolvimento do Equador, financiar programas sociais populares e investir bilhões de dólares em saúde universal, educação de alta qualidade e infraestrutura avançada.
No entanto, a suposta aparência progressista do programa político de Pérez termina em suas políticas ambientais. Quando se trata de política internacional, ele se mostrou profundamente direitista.
E enquanto Pérez usa sua herança indígena Kañari para reivindicar representar as comunidades indígenas do Equador, muitos deles na verdade são fortemente contrários a ele e seu partido. A indignação indígena contra Pérez cresceu especialmente quando ele apoiou o golpe militar apoiado pelos EUA na Bolívia em novembro de 2019.
Em outubro de 2020, o partido de Evo Morales, de maioria indígena, Movimento ao Socialismo (MAS) venceu as eleições com uma vitória esmagadora, derrotando o regime golpista apoiado pelos EUA. Diversos líderes indígenas equatorianos foram convidados para a posse do Presidente do MAS, Luis Arce, mas Pérez não. Quando questionado sobre o motivo, ficou claro que Pérez foi rejeitado por ter apoiado o golpe.
Mesmo antes da violenta operação de mudança de regime, Pérez era um severo crítico de Morales, acusando a ele e a Correa de “autoritarismo, machismo, extrativismo e populismo”. Pérez se recusou terminantemente a reconhecer a legitimidade do Governo de Evo.
Em 2017, Pérez atacou Evo novamente, tuitando: “Sua ignorância é enciclopédica. Evo é biologicamente indígena; em termos de identidade, ele se embranqueceu e se colonizou e não sente ou entende a cosmovisão nativa”.
Depois de apoiar o golpe, Pérez silenciou-se sobre a Bolívia, nada dizendo como a junta, liderada por fundamentalistas cristãos racistas, que massacrou manifestantes indígenas que eles desumanizaram como “satânicos”. Mas o golpe na Bolívia não é a única campanha de mudança de regime liderada pelos EUA na América Latina que Yaku Pérez apoiou.
Em novembro de 2016, Pérez elogiou o golpe soft apoiado pelos Estados Unidos que tirou do poder o Governo de esquerda do Partido dos Trabalhadores (PT) do Brasil, enquanto endossava uma campanha direitista do lawfare que tinha como alvo a progressista Presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner.
Pérez também pediu abertamente que o Presidente de esquerda Correa, do Equador, e o presidente socialista da Venezuela, Nicolás Maduro, fossem derrubados. “A corrupção acabou com os governos Dilma [Rousseff] e Cristina”, tuitou Pérez com aprovação. “Agora só falta Rafael Correa e Maduro caírem. É só uma questão de tempo”.
Pérez condenou os governos socialistas de Correa no Equador e Maduro na Venezuela como “coloniais, etnocidas e racistas”. E denunciou os governos eleitos de esquerda na Venezuela e na Argentina como “autoritários, extrativistas e corruptos”: “Não houve governo no Equador tão colonial, etnocida e racista quanto o de Rafael Correa, e seu sucessor será algo como Maduro na Venezuela”.
Isso se deve ao fato de Pérez ter fomentado laços íntimos com Washington, ao mesmo tempo em que promoveu sua agenda em seu país. Antes de concorrer à Presidência, Pérez serviu como Prefeito da província de Azuay, no Equador, cuja capital, Cuenca, se tornou um importante centro para expatriados dos Estados Unidos.
Comunidades inteiras de norte-americanos existem em Cuenca, falando apenas inglês e pagando tudo em dólares americanos (que tem sido a moeda oficial do Equador desde a dolarização de 2000, após um colapso econômico de 1999 supervisionado pelo ex-ministro da Economia Guillermo Lasso, agora a principal direita candidato de ala nas eleições de 2021).
Em junho de 2019, no momento em que o novo representante do governo Donald Trump no Equador, Michael J. Fitzpatrick, fazia o juramento, Pérez divulgou seu encontro com o embaixador dos Estados Unidos em Cuenca. Um mês depois, Pérez participou de uma celebração do Dia da Independência nos Estados Unidos, novamente dando as boas-vindas ao novo embaixador dos EUA. Ele posou para uma foto sorrindo em frente a uma bandeira americana iluminada. Durante sua campanha presidencial, apesar de obter pouco apoio do público equatoriano, Pérez encontrou uma audiência ansiosa dos embaixadores da França e da Alemanha.
A CONAIE e o Pachakutik não representam todas as comunidades indígenas do Equador. Existem grandes divisões políticas e algumas organizações e líderes comunitários apoiam o correísmo. Os Estados Unidos têm um histórico de apoio a organizações indígenas específicas para dividir as comunidades indígenas. Essa estratégia está longe de ser nova. Durante a guerra terrorista de Washington na Nicarágua na década de 1980, por exemplo, a CIA apoiou líderes da comunidade Miskito da Nicarágua para minar o Governo revolucionário sandinista.
O WikiLeaks negou veementemente o relatório, chamando-o de invenção total e lançando um fundo legal para processar o Guardian pela história. O jornal The Guardian removeu a assinatura de Villavicencio do artigo, mesmo quando o ativista equatoriano se gabou no Twitter de que ele havia sido um coautor e a aparente fonte das alegações questionáveis.
Villavicencio saiu do Pachakutik em 2017. Na eleição de 2021, ele era candidato à Assembleia Nacional pelo Partido Socialista do Equador, de centro-esquerda, outro grupo marginal anti-Correa que rompeu oficialmente todos os laços com o marxismo, se autodenominando social-democrata, e muitas vezes se aliou à direita.
De acordo com seu currículo profissional, Picq trabalha desde 2015 com a Front Line Defenders, uma ONG fundada pela União Europeia, vários governos da Europa Ocidental, Taiwan, as fundações da Open Society do bilionário anticomunista George Soros e a agência da CIA, a Fundação Ford.
O trabalho de Pérez e Picq mostra como os governos ocidentais podem usar ativistas ultraesquerdistas, acadêmicos e ONGs para defender seus interesses imperiais, desestabilizando os Estados socialistas na América Latina sob o pretexto de supostamente proteger o meio ambiente, as comunidades indígenas e os direitos humanos.
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