
Monteiro Lobato escritor, Monteiro Lobato pensador, Monteiro Lobato empreendedor e realizador: sob qualquer desses aspectos, o grande morto apresenta facetas inúmeras que merecem, como têm merecido, análise e a justa homenagem que todos lhe tributam. Mas há ainda mais em Monteiro Lobato, alguma coisa que o sintetiza melhor que outro traço qualquer de sua invulgar e tão rica personalidade: refiro-me a Monteiro Lobato, homem de caráter. E com isso não pretendo apenas prestar-lhe minha homenagem, mas também, para edificação de todos nós, destacar o que de mais precioso, a meu ver, ele deixou em seu acervo para a posteridade: o exemplo magnífico de uma inflexibilidade de ação e pensamento que encontra muito poucos paralelos. Exemplo inestimável, porque muito necessitamos dele.
Compare-se Monteiro Lobato com os homens de sua geração, com seus amigos e companheiros de jornada literária. Contem-se nos dedos aqueles que, no momento das grandes definições, sobrenadaram nesse oceano de transigências e acomodações que nos cerca, e em que o Brasil se afoga nos nossos dias: os dedos de uma só mão seriam demais. Desapareceram todos, sumiram; ou antes, aparecem talvez ainda, mas à custa do prêmio que lhes valeram suas concessões. São os peixes daquele oceano. Alguns pequeninos, sardinhas humildes à cata de iscas microscópicas; outros monstruosos, tubarões e baleias rechonchudas passeando sua importância havida à custa quem sabe de quantos "arranjos".
Ter-lhes-ia faltado o talento de Monteiro Lobato? Seria uma interessante tese de psicologia essa de explicar o aviltamento intelectual por uma insuficiência de talento a ser suprida com outros elementos. Tal insuficiência seria então uma causa. Eu diria antes que é efeito. Não é sem riscos, e tão pouco sem consequências graves, que um homem de pensamento malbarata o que de mais precioso ele tem, e que é precisamente esse pensamento; que lhe retira o fio cortante, que o embota com concessões de toda ordem. Cada transigência, toda acomodação de ordem financeira, social ou outra qualquer, representa uma amputação do espírito; não há talento, não há inteligência por mais vigorosa que seja, capazes de resistir muito tempo a uma tal mutilação continuada e sistemática das fontes vivas da inspiração e da produção intelectual.
Mas por que ocuparmo-nos com essas múmias que são hoje quase todos os antigos companheiros de Monteiro Lobato, e que mesmo quando vivas, há muito já se enterraram? Não é por elas que as referi aqui. Foi apenas para ressaltar a personalidade do grande morto, e pôr um relevo o que nessa personalidade mais contribuiu para seu brilho invulgar e sua magnifica trajetória pela vida. E foi também para com esse contraste tão chocante, recolher o que afirmei acima ter sido o seu mais precioso legado.
O caráter de Monteiro Lobato! Quantos não precisariam hoje inspirar-se nesse exemplo, não apenas em benefício próprio (isso é assunto íntimo que a cada um pertence), mas para o bem do nosso país e da comunidade dos brasileiros. Tivessem-no sempre os intelectuais brasileiros frente aos olhos, e não assistiríamos por certo ao triste espetáculo que é quase a regra, na grande maioria deles, de talentos e inteligências esterilizados pela preocupação de resguardar pequeninos interesses e miúdas ambições.
Procure-se hoje, nos grandes embates da opinião brasileira, na discussão dos problemas fundamentais da nossa nacionalidade, a posição e a participação dos chamados intelectuais brasileiros, com tão poucas e honrosas exceções. Não as descobrimos. Está claro que não me refiro àqueles que se passam francamente, de armas e bagagens, para o campo da traição dos interesses do povo de nosso país. Falo daqueles (felizmente ainda a maioria) que, honra lhes seja feita, conservam o suficiente de dignidade para recuar diante do último passo da capitulação que ainda lhes custa dar. Sua capitulação toma outro aspecto: o da dissimulação. Fecham os olhos, recusam-se, sob os mais variados e fúteis pretextos, a encarar a realidade que os cerca. Encerram-se numa torre de marfim onde não lhes chega o vozerio da rua, o palpitar da conturbada vida em que hoje mergulhamos.
Observe-se o que se passa. O Brasil, como aliás o mundo, atravessa um desses momentos culminantes na evolução da humanidade em que se jogam os destinos de todos os homens. Que papel estão representando nossos intelectuais nesse embate tremendo do qual sairá um futuro de duração imprevisível? Que fazem eles que deveriam ser os guias e conselheiros do momento, que deveriam iluminar com seu pensamento e suas deiasa difícil jornada em que estamos empenhados? Discutem psicanalise aplicada aos aborígenes da Oceania e outros assuntos de igual importância para o bem estar da humanidade. Divagam em torno de temas literários e estéticos e de esdrúxulos problemas filosóficos. Em nome de não sei que "pensamento puro", fogem do concreto e se conservam, em qualquer assunto, nos domínios suprassensíveis das teses e abstrações. Na realidade, estão-se escondendo da vida e do mundo, refugiando-se lá onde não correm, ou pensam não correr o mínimo risco. Mas por isso também se esterilizam. E talvez eles mesmos muitas vezes não o percebam. Nunca abundaram tanto entre nós, como agora, assuntos dos mais estranhos, de nomes complicados, e desenvolvidos numa fraseologia de desesperar o mais complicado professor germânico. Um observador desprevenido e ingênuo verá nisso um índice incontestável de progresso cultural. Nada disso, mesmo porque não se trata senão de repetições, de jogo de palavras com ideias emprestadas; de uma pseudociência de segunda quando não de terceira ou quarta mão. É "prudência", é busca de segurança (ou o que se julga ser segurança) numa época de insegurança geral.
E por isso é tão importante relembrar homens como Monteiro Lobato que nunca se preocuparam com essa "segurança"; que sempre olharam de frente para o mundo e a vida. Enfermo, no limiar da morte que logo o colheria, Monteiro Lobato, contando já embora com toda uma existência de lutas, ainda não esmorecera, ainda procurava aperfeiçoar e completar sua obra. Criador imortal de Jeca Tatu, dá aos brasileiros mais essa outra figura simbólica do nosso camponês: Zé Brasil. E fê-lo, sabendo que o fazia, à custa de mais ódios, mais vindictas e perseguições. Um dos pioneiros da campanha do petróleo, a que já dedicara alguns dos melhores anos de sua vida, retorna à luta quando soa a hora decisiva do grande embate, decidido como sempre, e arrostando mais uma vez as iras do que existe de mais poderoso no Brasil e no mundo. Batalhador incansável em todas as causas em que se jogaram interesses de nosso país, arrosta novos riscos para trazer sua generosa solidariedade e conforto moral a vitimas da reação policial que outros, com mais responsabilidade e obrigações; preferiram tolerar. A Monteiro Lobato pouco importavam as consequências desses gestos; tornavam-se nele irreprimíveis e quase automáticos sob o estímulo de um caráter que não conhecia desfalecimentos.
Esse foi Monteiro Lobato. Esqueça-se o Brasil de sua obra literária; seria um terro imperdoável; seria um vácuo, impossível de preencher, no que de mais precioso existe em nosso patrimônio cultural. Mas não se esqueça nunca daquilo que Monteiro Lobato deixou de totalmente insubstituível: o exemplo de seu caráter.
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