
Nós não vamos nos limitar em anexar a Crimeia. Isso é uma certeza. Ontem a reunião com a Crimeia foi uma vitória para nós. Hoje isso é uma coisa infinitamente pequena. As proporções aumentam. Os povos da Sul e Leste da Ucrânia estão acordando gradualmente. É exatamente aquela “demorado em arrear” e “suave em cavalgar” (velho provérbio russo).
Todo o importante ainda está por vir. Nós não esperamos uma vitória rápida. Tudo será acertado. Agora nós somos testemunhas de uma nova realidade política, é por isso que tudo adquire um significado especial. Este não é um empreendimento técnico, não é uma barganha. Isto é a história em si mesma. A luta pela Ucrânia – é uma luta para a reunificação dos povos eslavos. Hoje está claro que esta reunião deve ser geograficamente diferente. A Galícia e outras áreas pró-ocidentais, assim como uma grande parte de Kiev, não almejam a União. Nós entendemos isso. Nós não arrastaremos ninguém pela força. Mas nós não deixaremos e nem trairemos os nossos. No entanto, para tudo você tem que lutar e se esforçar para criar uma nova realidade política e histórica.
Importante: O poder na Novorossiya (Nova Rússia - novo estado pró-russo que está em processo de ser criado no momento no Sul e Leste da ex-Ucrânia, também chamado de Ucrânia da Margem-Esquerda) deve ser limpo. Livre de qualquer traço de oligarquia – incluindo russa ou pró-Rússia. Kiev começou a Revolução, mas lá tudo acabou com snipers dos EUA, russofobia suja e exigências para aceitar a Ucrânia na OTAN. Mas tudo poderia ter sido diferente. Oligarcas, magnatas, burocratas corruptos deixaram todos fartos. Se Kiev e Maidan tivessem se rebelado contra eles, sem a OTAN, sem a porca suja Nuland, sem os manipuladores da CIA e a nojenta russofobia, ainda não seria certo em qual lado nós estaríamos hoje. Maidan foi inicialmente por algo bom. Provavelmente. Mas manipulação e a ignorância geral do povo de Kiev (como explicar tudo isso, talvez por um nível baixo de cultura...) transformou tudo em em farsa suja e sangrenta. Mas quando na Praça de Independência apareceu o assassino louco e maníaco russofóbico Sanya Billy com armas automáticas era um sinal irrevogável, uma espécie de última sentença. Ainda havia tempo para escapar daquilo, mas isso não ocorreu. Os Kievanos falharam a revolução. Os gritos de “Rússia” agora na Ucrânia significam o mesmo que “morte aos oligarcas”, “liberdade”, “justiça”. Todas as regiões da Ucrânia não devem agora ser dirigidas por protegidos pró-Rússia, senão as mais honestas, decentes e heroicas pessoas que tiverem o apoio direto do povo. Esta é a democracia direta, sem farsa, mediação ou manipulação. Governadores do povo propostos espontaneamente em algumas cidades do Leste da Ucrânia são uma ideia brilhante! Esta é a verdadeira Democracia. E o que a Rada Kievana [parlamento ucraniano] iria opor a isso? – governadores-oligarcas (Taruta, Poroshenko, o Líder da Congresso Judaico Europeu, Igor Kolomoyskiy...)! O Espírito revolucionário da Maidan vence na verdade no Leste da Ucrânia. Nem mesmo na Crimeia, mas no Leste! Gubarev contra Taruta. Rogov contra o bastardo Kolomoyskiy. Esta é a Revolução – nacional, social e tudo imediatamente! Em Kiev a Revolução falhou, na Novorossiya ela está começando. Em Kiev ela foi pró-EUA, no Sul e no Leste da Ucrânia anti-EUA. Isso explica a cobertura dos fatos no Ocidente.
É hora de pensar o que nós faremos em Kiev. É necessário preparar uma nova força. Não necessariamente pró-Rússia. Uma força eslava. Anti-OTAN, anti-oligárquica, uma força realmente popular. Agora nós devemos entender se todos os nacionalistas estão inteiramente engajados pela CIA, oligarquia e russofobia não natural, ou se há alguns dentre eles que podem avaliar a realidade criticamente e objetivamente. Em todo caso, é óbvio que nesta composição, o suposto governo (junta) será demolido antes das eleições. Em tais circunstâncias é impossível conduzir qualquer eleição, já que metade da população ucraniana está deixando o antigo país e criando uma nova entidade política (Malorossiya - Pequena Rússia). Pretensões de preservar as antigas fronteiras da Ucrânia são irrealistas. Nós precisamos de novas pessoas que entendam o que aconteceu e que o aconteceu, aconteceu irreversivelmente e que estejam prontas a se adaptarem rapidamente a novas condições. É na verdade nessas circunstâncias que o Maidan pode se tornar nossa aliado. Se você retirá-la [da vertente] pró-Americana, e de provocadores neonazistas que estão movendo rapidamente para o governo (que o povo Ucraniano certamente logo derrubará), o Maidan se torna um centro político interessante. Mas que vai arrumá-la. O Maidan pode, por exemplo, retirar os vampiros como Taruta e Kolomoyskiy do governo e escutar publicamente os argumentos de Paul Gubarev, dos governadores populares de Donetsk, que foram ilegalmente detidos por mercenários. Devem perguntar aos líderes da junta sobre o incidente com os snipers. Podem convidar políticos russos e figuras públicas para aclararem suas posições e suas visões sobre o futuro da Ucrânia. Nenhuma autoridade russa ou líder sério vai conversar com a junta ou com cretinos neonazistas, mas com o povo de Kiev e com o Maidan, por que não? Sendo assim, Kiev não está livre das contas. Não pode ser equiparada com a junta. Existe a junta e existe Kiev. Ela também não é a oradora responsável pela totalidade da Ucrânia da Margem-Oeste, principalmente pela parte de Kiev que está na margem-leste (!). Mas o Maidan é uma entidade política em uma situação emergencial. Agora que está claro que as pessoas foram assassinadas por agentes da CIA e do Mossad, e não por Yanukovich, a história toda parece diferente. Foram os líderes da junta que, por parte de seus mestres americanos, mataram ”centenas”, mandando-as para o outro mundo (para o céu ou não é uma pergunta aberta).
Para o Ucrânia da Margem-Direita também é necessário preparar um projeto político. Chervonaya (Vermelha) Rus. República Ucraniana Ocidental. Muito atraente. Muito carinhoso. Ela também pode não estar com pressa de dar as boas vindas à OTAN, já que isso causará problemas territoriais com os Sub-Cárpatos habitados por certos grupos antigos e particularmente radicais pró-Rússia da etnia Russiny. Mas de qualquer modo, este poderia ser um estado compacto puramente ucraniano, com sua própria língua, sem minorias étnicas ou linguísticas. Um projeto sólido. Seria ainda melhor se este país se tornasse parte do bloco eslavo comum. Mas isso é decisão do povo da Galícia. Ao mesmo tempo, isso iria satisfazer os maiores sonhos dos atuais ultranacionalistas. O povo russófono e as pessoas mentalmente normais iriam logo deixar esse lugar. E então seria possível a todos os ucranianos de "raça pura" se comunicar livremente na sua própria língua e mesmo colocar por todos os lados monumentos a Shukhevych, Bandera, Petlyura ou mesmo Hitler. Da perspectiva da pós-modernidade, tal Estado tem todo o direito de existir. Então lá Yarosh, o líder do Pravyi Sektor, poderia se tornar Presidente, Dmitro Karchinski, chefe do movimento anarco-nacionalista poderia se tornar Ministro da Cultura e o idiota maníaco Sanya “Billy” Musychko o Promotor Geral ou o chefe do Ministério do Interior . Eu estou sendo completamente sério, a propósito. É uma boa ideia. No próximo estágio histórico este enclave Ocidental-Russo de peculiar insanidade pós-moderna pode muito bem vir a existir.
No entanto, nossa revolução não irá parar na Ucrânia Ocidental. Ela deve ir mais fundo na Europa. Este é o aspecto mais interessante: com o Maidan em Kiev, os EUA abriaram a Caixa de Pandora na Europa. E ela não pode mais ser fechada. Kissinger corretamente disse que o putsch na Praça da Independência de Maidan mostra a Putin o que o está aguardando (Bolotnaya [praça palco de protestos contra o governo russo em 2012], Echo de Moscou [estação de rádio opositora ao governo russo] e outros suínos atlantistas domésticos na própria Rússia, a quinta coluna). Mas... é uma ameaça não apenas a Moscou. É uma ameaça também para a Europa – incluindo a Alemanha, a França, a Itália e todo o resto. Uma vez que os EUA aprenderam a manipular seus cumplices neonazistas, eles podem facilmente repetir o acontecido em qualquer outro país europeu. E eles VÃO REPETIR. Amanhã ou mais tarde. Então já que agora a situação deles está extremamente ruim, é mais provável que seja amanhã.
A Europa enfrenta uma Revolução em ambos os casos: se nós, russos, ganharmos e se nós pararmos em algum lugar por pressão da OTAN. Se nós ganharmos, nós começaremos a expansão da ideologia libertadora (contra os americanos) na Europa. É o objetivo do Eurasianismo completo – Europa, de Lisboa a Vladivostok. O Grande Império Eurasiano Continental. E nós o construiremos. Isso significa que a Revolução Europeia será uma Revolução Eurasiana. Este é o nosso último horizonte. E cada passo vitorioso (desde manter a integridade da Rússia no confronto com os separatistas chechenos nos anos 2000 até a libertação da Ossétia do Sul e da Abcásia em agosto de 2008 e até agora na Crimeia em março de 2014) – é um passo em direção à Revolução Europeia. Que será realizada pelo Homem do Destino.
Agora o Segundo caso, se nós (Deus nos livre) pararmos. Então a pressão na Ucrânia e o conflito político e civil em seu território e sua repercussão irão se alastrar pela própria Europa. Também será uma Revolução, mas mais próxima àquela que aconteceu no Maidan. Ou seja, ela será salpicada de neonazismo à la Breivik [terrorista neonazista norueguês que assassinou 77 pessoas] e terá a conivência de certos grupos e movimentos identitários. Nos anos recentes na Europa, o Sistema (a oligarquia financeira global e os EUA) mostraram que queriam claramente usar este elemento para uma desestabilização radical da Europa. Se na Ucrânia a energia do Maidan era a russofobia dos neonazistas ucranianos, sem a qual o Maidan não iria adquirir uma forma tão radical de encenar um golpe, na Europa o mesmo combustível de ódio se tornará o ódio dos nacionalistas pelos imigrantes, pelo Islã e pelos LGBT's. E, da mesma forma, o ódio dos imigrantes, muçulmanos e LGBT’s contra a população nativa representada pelos neonazistas. Agora o apoio de alguns identitários europeus (muitos, mas não todos) ao Pravyi Sektor está claro – eles possuem os mesmos objetivos estruturais e o mesmo mestre. Deste modo, neste caso também, a Revolução está esperando pela Europa.
Aleksandr Gelyevich Dugin é um escritor, professor, filósofo, sociólogo e analista político russo. É PhD em Filosofia e doutorado em Sociologia pela Universidade de Rostov do Don. Foi fundador do Partido da Eurásia e, junto a Eduard Limonov, do Partido Nacional Bolchevique. Foi chefe do Departamento de Sociologia das Relações Internacionais da Faculdade de Sociologia da Universidade Estatal de Moscou M. V. Lomonosov de 2009 a 2014, onde também lecionou. Também professor honorário da Universidade Nacional da Eurásia L. N. Gumilyov (ENU) e da Universidade do Teerã, no Irã, professor convidado da Universidade Federal do Sul, em Rostov, e por fim, pesquisador sênior na Universidade de Fudan, em Xangai, na China. Foi também editor-chefe da TV Tsargrad. Na política, foi conselheiro de Gennadiy Seleznyov e de Sergei Naryshkin, ex-presidentes do estado de Duma, na Rússia.
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