GETÚLIO VARGAS: Carta-Despedida


           Deixo à sanha dos meus inimigos o legado da minha morte.
        Levo o pesar de não haver podido fazer, por este bom e generoso povo brasileiro e principalmente pelos mais necessitados, todo o bem que pretendia.
        A mentira, a calúnia, as mais torpes invencionices foram geradas pela malignidade de rancorosos e gratuitos inimigos numa publicidade dirigida, sistemática e escandalosa.
        Acrescente-se a fraqueza de amigos que não me defenderam nas posições que ocupavam, a felonia de hipócritas e traidores a quem beneficiei com honras e mercês e a insensibilidade moral de sicários que entreguei à Justiça, contribuindo todos para criar um falso ambiente na opinião pública do país, contra a minha pessoa.
        Se a simples renúncia ao posto a que fui elevado pelo sufrágio do povo me permitisse viver esquecido e tranquilo no chão da Pátria, de bom grado renunciaria. Mas tal renúncia daria apenas ensejo para com mais fúria, perseguirem-me e humilharem. Querem destruir-me a qualquer preço. Tornei-me perigoso aos poderosos do dia e às castas privilegiadas. Velho e cansado, preferi ir prestar contas ao Senhor, não de crimes que não cometi, mas de poderosos interesses que contrariei, ora porque se opunham aos próprios interesses nacionais, ora porque exploravam, impiedosamente, aos pobres e aos humildes.
        Só Deus sabe das minhas amarguras e sofrimentos. Que o sangue de um inocente sirva para aplacar a ira dos fariseus.
        Agradeço aos que de perto ou de longe trouxeram-me o conforto de sua amizade.
        A resposta do povo virá mais tarde….


Getúlio Dornelles Vargas (1882) foi presidente do Brasil de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954. Seu primeiro mandato iniciou-se pela liderança na Revolução de 30 que pôs fim à República Velha, mantendo-se no poder através de um golpe de Estado em 1937 que instaura o Estado Novo, sendo deposto por outro golpe em 1945. Em seu segundo mandato foi eleito pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB-antigo), porém suicida-se em 1954 antes de ser deposto novamente por um golpe militar. Formado em Direito na UFRGS, trabalhou como promotor público antes de ser eleito deputado estadual do Rio Grande do Sul em 1909 a 1913 e de 1917 a 1924 pelo Partido Republicano Riograndense (PRR). Foi deputado federal pelo Rio Grande do Sul também pelo PRR de 1924 a 1926 e ministro da Fazenda de 1926 a 1928. Também foi presidente (governador) do Rio Grande do Sul de 1928 a 1930 e senador da República pelo Rio Grande do Sul entre 1946 e 1951 pelo PTB, partido que fundou. Foi inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, em 15 de setembro de 2010, pela lei nº 12 326, sancionada pelo presidente Lula.

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