JAMES CONNOLY: Socialismo e Nacionalismo Irlandês

(Este texto foi publicano em 1897 no periódico L'Irlande Libre, em Paris, na França)



        A vida pública da Irlanda tem estado, geralmente, tão identificada com a luta pela emancipação política que, como era de esperar, o aspecto econômico da situação só recebeu por parte dos nossos historiadores e homens públicos uma atenção muito escassa.
        O socialismo científico é baseado na verdade contida nesta proposição de Karl Marx: "A dependência econômica dos trabalhadores em relação aos monopolistas dos meios de produção é o alicerce da escravatura em todas as suas formas, o motivo de quase toda a miséria social, o crime moderno, a degradação mental e a dependência política". Assim, esse falso exagero das formas puramente políticas que envolveu na Irlanda a luta pela liberdade, deve parecer aos socialistas um inexplicável erro por parte de um povo tão duramente esmagado como o irlandês.
        Mas o erro é mais aparente do que real.
        Apesar da reacionária atitude dos nossos líderes políticos, a grande maioria do povo irlandês sabe muito bem que, uma vez conquistada essa liberdade política pela qual lutam com tanto ardor, teria que ser utilizada como um meio de redenção social antes de que o seu bem-estar fosse garantido.
        Apesar do ocasional exagero dos seus resultados imediatos, devemos lembrar que, graças a lutarem decididamente, como fizeram por esse definido objetivo político, os irlandeses estão a trabalhar nas linhas da atuação estabelecidas pelo socialismo moderno com uma condição indispensável para o sucesso.
        Desde o abandono do desafortunado insurreicionismo dos primeiros socialistas, que concentravam exclusivamente as suas esperanças no triunfo final de uma sublevação com luta nas barricadas, o socialismo moderno, confiando no método mais lento, mas mais seguro das urnas, dirigiu a atenção dos seus partidários para a conquista pacífica das forças do governo em interesse do ideal revolucionário.
        A chegada do socialismo só pode acontecer quando o proletariado revolucionário, em possessão das forças organizadas da nação — o poder político do governo —, consiga construir uma organização social consoante o avanço natural do desenvolvimento industrial.
        De outra parte, o esforço cooperativo apolítico deve infalivelmente sucumbir face à oposição das classes privilegiadas, entrincheiradas detrás das muralhas da lei e o monopólio. Este é o motivo de que, ainda que sendo de um ponto de vista econômico profundamente conservador, o nacionalista irlandês, inclusive com o seu falso raciocínio, seja um agente ativo da regeneração social, na medida em que tenciona dotar de plenos poderes sobre o próprio destino um povo que, na prática, é governado em interesse de uma aristocracia feudal.
        A seção do exército socialista a que eu pertenço, o Partido Socialista Republicano Irlandês⁽¹⁾, nunca quer ocultar a sua hostilidade para com aqueles partidos puramente burgueses que dirigem na atualidade a política irlandesa.
        Mas, ao inscrevermos na nossa bandeira um ideal a que eles também rendem homenagem de palavra, não temos intenção de aderirmos a um movimento que pode desvalorizar a bandeira do socialismo revolucionário.
        Os partidos socialistas de França opõe-se aos meramente republicanos sem deixarem de amar a república. Do mesmo jeito, o Partido Socialista Republicano Irlandês quer a independência da nação ao tempo que rejeita adaptações aos métodos ou o recurso a argumentos dos nacionalistas chauvinistas.
        Como socialistas, não estamos imbuídos de ódio nacional ou racial pela lembrança de que a ordem política e social sob a qual vivemos foi imposta aos nossos pais com a espada; de que, durante setecentos anos, a Irlanda resistiu esta injusta dominação estrangeira, de que a fome, a peste e o mal governo fizeram desta ilha ocidental quase que um deserto e espalharam os nossos compatriotas exilados por todo o mundo.
        A relação de factos que acabei de mencionar não pode hoje em dia inspirar ou dirigir as energias políticas da classe operária militante da Irlanda; não é esse o alicerce da nossa resolução de libertar a Irlanda do jugo do Império Britânico. Reconhecemos, antes, que durante todos esses séculos, a grande maioria do povo britânico não teve existência política nenhuma, que Inglaterra estava política e socialmente aterrorizada por uma classe governante numericamente pequena; que as atrocidades que foram perpetradas contra a Irlanda são apenas imputáveis à ambição sem escrúpulos dessa classe, cobiçosa de se enriquecer à custa de homens indefesos; que, até a atual geração, a grande maioria do povo inglês viu negada a voz no governo do seu próprio país; que é, portanto, manifestamente injusto acusar o povo inglês dos passados delitos do seu governo; e que, no pior dos casos, só poderíamos acusá-lo de uma apatia criminosa por se submeter à escravatura e permitir que o convertessem num instrumento de coerção para a escravização de outros. Uma acusação tão aplicável ao presente quanto ao passado.
        Mas, embora evitemos basear a nossa ação política numa hostilidade nacional herdada e desejemos antes a camaradagem com os trabalhadores ingleses do que olhá-los com ódio, e queiramos, com os nossos precursores, os Irlandeses Unidos de 1798⁽²⁾, que os nossos ressentimentos fiquem enterrados com os ossos dos nossos predecessores, há que dizer que não há partido na Irlanda que acentue mais, como princípio essencial da sua fé política, a necessidade de separar a Irlanda de Inglaterra e de a tornar absolutamente independente. A olhos dos ignorantes e dos insensatos, isto pode parecer inconsistente, mas tenho certeza que os nossos irmãos socialistas de França reconhecerão logo a justiça do raciocínio sobre o qual essa política assenta.

  • Achamos que "a emancipação económica do trabalhador requer a conversão dos meios de produção em propriedade comum da sociedade". Traduzido para a linguagem comum e para a prática da política atual, isto ensina-nos que o necessário caminho a percorrermos para o estabelecimento do socialismo requer a passagem dos meios de produção das mãos dos proprietários privados para as das organizações públicas diretamente responsáveis pelo conjunto da comunidade.
  • O socialismo tenciona, pois, em interesse da democracia, fortalecer a ação popular em todas as organizações públicas.
  • As organizações representativas na Irlanda expressarão mais diretamente a vontade do povo irlandês do que se essas organizações residirem na Inglaterra.

        Uma república irlandesa será, pois, a depositária natural do poder popular, a arma da emancipação popular, o único poder que mostrará à plena luz do dia todos esses antagonismos de classe e todos esses marcos económicos que hoje ficam escurecidos pela neblina do patriotismo burguês.
        Nisto não há uma pitada que seja de chauvinismo. Desejamos é manter com o povo inglês as mesmas relações políticas que com os povos francês, alemão ou de qualquer outro país; a maior amizade possível, mas também a mais estrita independência. Irmãos, mas não companheiros de cama. Desta maneira, inspirados por um outro ideal, guiados pela razão e não pela tradição, seguindo um curso diferente, o Partido Socialista Republicano Irlandês chega à mesma conclusão que o mais irreconciliável nacionalista. O poder governamental de Inglaterra sobre nós deve ser destruído, as ligações que nos unem a ela devem ser quebradas. Tendo aprendido da história que todos os movimentos burgueses acabam num pacto, que os burgueses revolucionários de hoje se convertem nos conservadores de amanhã, os socialistas irlandeses rejeitam negar ou perder a sua identidade com aqueles que apenas entendem parcialmente o problema da liberdade. Só tentam a aliança e a amizade de aqueles homens que, amando a liberdade em si própria, não temem seguir a sua bandeira quando é alçada pelas mãos da classe operária, que é a que mais precisa dela. Os seus amigos são aqueles que não duvidariam em seguir esse estandarte de liberdade e em consagrar as suas vidas ao serviço dela, até se tal levasse à terrível arbitragem da espada.



Notas:

(1): Partido Socialista Republicano Irlandês foi um partido fundado por James Connolly em 1896 e desmantelado em 1904, sendo sucedido pelo Partido Socialista da Irlanda.
(2): A Sociedade dos Irlandeses Unidos, inspirada na Revolução Americana e na Revolução Francesa, se rebelaram em 1798 contra o Reino Unido, travando um confronto contra a coroa (que, por sua vez, reuniu milícias protestantes e mercenários hessianos), durando exatamente quatro meses, com o fracasso da rebelião 

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