
Desejo aproveitar esta ocasião para expor brevemente algumas de nossas ideias. Sabemos que o imperialismo utiliza este país como alvo para suas manobras. Igualmente sabemos que a Revolução, através de suas diferentes etapas desde julho de 1968 até hoje, segue rigorosamente a evolução que se produz no nível da sociedade iraquiana, no nível do Estado e no nível das soluções entre forças nacionais, assim como a evolução que se está produzindo no seio das forças contrarrevolucionárias e as concepções dessas. Sabemos que os militantes revolucionários têm um método próprio para cada etapa e que o mesmo ocorre com as forças contrarrevolucionárias. Por outro lado, não devemos esquecer que o imperialismo e a contrarrevolução, sobretudo a partir da nacionalização do petróleo e do nascimento da política que surgiu subitamente em 1972, sobretudo para expressar a essência da Revolução⁽¹⁾, desejam rever todos os seus planos anteriores, todos os seus métodos, todas as reservas tradicionais que empregaram nas batalhas de outros tempos, a fim de utilizar as forças de reserva secretas que são tão apreciadas nos conceitos e planos do imperialismo. Utiliza estas reservas unicamente quando aquelas que utiliza para reprimir as revoluções no Terceiro Mundo não bastam para alcançar os fins desejados.
Sabemos que o imperialismo compreendeu, por fim, em 1972 exatamente, que o Iraque Revolucionário havia ultrapassado os limites tradicionalmente tolerados nas revoluções do Terceiro Mundo — ao menos na maioria delas — e em particular naquelas que têm lugar no mundo árabe. Sabemos que o imperialismo e seus agentes consideram que os princípios e as fórmulas empregadas pela Revolução conduziriam a prejudicar seus interesses na região e que existe o risco de produzir em torno do Iraque graves incêndios que afetariam especialmente os interesses petrolíferos fundamentais.
Cuba
Sabemos muito bem que a política seguida em nosso país, seus diferentes aspectos radicais e importantes, foram uma grande surpresa para o imperialismo, ainda que tenha sido surpreendido muitas outras vezes, como por exemplo com a experiência cubana. Se o imperialismo tivesse suspeitado do caminho que tomaria a experiência cubana, com toda certeza teria empregado muito antes suas reservas de segurança, com a finalidade de frear a revolução em Cuba, mas pensou que suas forças de reserva tradicionais bastariam para acabar com a revolução em suas primeiras etapas e impedir o desenvolvimento a que estava destinada. Quando compreendeu que as rédeas se soltavam das mãos foi demasiado tarde para recorrer às suas reservas ocultas: o cajado da revolução era inflexível.
Na atualidade, ainda que o imperialismo recorra a suas reservas de segurança, ele não tem poder para obrigar a Revolução a marchar para trás, a renunciar a seus objetivos e menos ainda para acabar com ela. Existe quem pense que a Revolução não se preocupa muito com o que a rodeia, mas a realidade é que tem os olhos bem abertos e é capaz, em qualquer momento, de esmagar as tentativas de contrarrevolução que possam manifestar-se. É capaz de cumprir seu encargo com valentia e precisão, êxito e lucidez. Tudo que escutamos e lemos não são mais que novas tentativas para resistir à Revolução e esgotá-la moralmente, como, por exemplo, a maneira que se têm explorado os crimes que se produziram recentemente. Esses crimes foram cometidos por traidores, agentes do estrangeiro.
Mas aqueles que se venderam ao estrangeiro não ficaram sem castigo. Ao que me diz respeito não recordo uma só promessa da Revolução que tenha ficado sem cumprir e posso assegurar que os que cometeram esses crimes serão descobertos e sofrerão o severo castigo que merecem. Aqueles que cometem atos semelhantes não são mais que executantes manipulados de forma particular, a favor das difíceis circunstâncias que atravessamos.
Não basta só concluirmos sobre nossas forças, sobre nossas capacidades e nossos projetos e sobre o imperialismo. Devemos nos esforçar por conhecer, observar e estar sempre atentos a seus movimentos. Só deste modo nos será possível seguir a evolução de seus planos, de suas forças, de suas reservas, não só dentro de nossas fronteiras mas também no exterior, e prepararmos assim o resultado. Até 1º de março de 1973, dia em que os monopólios reconheceram a nacionalização, nos servimos de umas ideias, de umas previsões, de umas forças específicas e umas reservas que hoje não são suficientes para enfrentar os novos planos elaborados pelo imperialismo, tal como podemos imaginar. Sabemos que o imperialismo reconsidera a situação para o contra-ataque, depois da surpresa que lhes infringimos com as medidas revolucionárias de 1972 e por esta razão temos preparado forças suplementares que não entram em seus planos. Queremos assegurar a todos os nossos irmãos aqui presentes e de todos os países, que o anti-Allende tenha seu túmulo no Iraque.
O imperialismo pode fazer crer a seus agentes e aqueles que estão na expectativa, que a Revolução passa por um mau momento, mas existem aqueles que pensam que Nadhim Kzar⁽²⁾ era quem garantiria a proteção da Revolução, existem aqueles a quem sua marcha deixou em plena liberdade para arriscar a segurança do país, a todos aqueles dizemos que podem persistir em suas ideias... Não nos inquieta vê-los sonhar, porque seus sonhos não verão o sol.
Estamos convencidos de que as aspirações do povo, as aspirações dos homens de bem, se farão realidade, ao contrário dos sonhos dos traidores pagos pelo estrangeiro.
Autonomia
Não tentamos, por meio desta reunião, conseguir o apoio dos participantes a um partido concreto, nem desejamos amordaçar nenhum grupo, partido ou pessoas, nem impedi-los de dar a conhecer sua opinião em certos meios. Todos sabemos que os camaradas do PDK (Partido Democrático Curdo) apresentaram um projeto, mas não o temos discutido. Este projeto, como pode apreciar-se, está distante do conceito de autonomia. E o que não pode deixar lugar para dúvida é que os projetos devem ser discutidos com o espírito de um povo único. O árabe deverá ter especial atenção em representar o ponto de vista do curdo enquanto pertencente ao povo iraquiano e à pátria iraquiana, assim como ao problema da autonomia. Por sua vez, o curdo deverá representar o ponto de vista de seus irmãos árabes quanto a este problema.
Unidade
Este espírito, queridos irmãos, tem a propriedade de fazer de nós um povo único, afrontando o imperialismo e suas conspirações com um caráter firme e, desta forma, não deixando-lhe ocasião de explorar nossos eventuais erros para infiltrar-se entre nós e tentar criar em nossa região situações anormais que iriam contra a marcha revolucionária geral.
Se tentássemos monopolizar o debate sobre o projeto de autonomia com personalidades nacionais progressistas e independentes árabes, na realidade não teríamos estabelecido nenhuma discussão. E se tentássemos amordaçar a qualquer outro grupo, então discutiríamos o projeto somente entre nós, como independentes e nacionalistas progressistas curdos. De nossa parte, temos especial interesse em discutir o projeto com todos os partidos e com as personalidades patrióticas e progressistas, árabes e curdas, partindo do princípio psicológico e político de que não consideramos o projeto em questão como a fórmula definitiva do projeto de autonomia para o povo curdo no seio da República Iraquiana. Não pensamos, por outro lado, que seja justo julgar alguém em virtude de suas legítimas opiniões. Queria fazer saber a todos os participantes nesta reunião que todas as opiniões, tanto aquelas que podem qualificar-se de extremistas como moderadas, são bem vindas.
Não estamos desejando opiniões que concordem com as nossas ou que sejam opostas às mesmas, o que todos perseguimos é a verdade e esta não se encontrará necessariamente em todos os seus aspectos no projeto que lhes apresentamos. O que buscamos é a verdade. Esse é o objetivo e a finalidade de nossa conversação com vocês e todos os demais.
Debate
De fato, os resultados de nossa reunião anterior contribuíram enormemente para enriquecer o projeto, tanto em seus princípios fundamentais e subsidiários como em sua formulação jurídica. Por tudo isso lhes rogo que procedam a discutir o projeto com toda a liberdade e que expressem suas opiniões sem pensar se elas concordam ou não com as do Partido Baath. Mas esperamos ao mesmo tempo, e estamos seguros disso, que tratarão deste projeto levando em consideração o ângulo de convergência de seus pontos de vista com sua consciência patriótica de iraquianos por um lado e, por outro, com o futuro deste país em que árabes, curdos e minorias são irmãos. O que há de guiarmo-nos fundamentalmente é considerar de que modo deve se construir o futuro do Iraque e como devem ser traçadas as regras que fixarão as relações entre árabes e curdos, as relações dos árabes com a sociedade em que vivem e com o Estado a que pertencem e, do mesmo modo, das relações do curdo membro do nosso povo com o Estado a que pertence. Este é o espírito que deve reinar nas discussões e confiamos desta forma chegar a verdade, não só em seu resultado global mas também em seus detalhes.
No princípio pensamos que nosso projeto representava a melhor forma. Atualmente compreendemos que, quanto aos detalhes, isso não estava certo. As reuniões que temos feito até agora com diferentes personalidades têm nos revelado as falhas existentes em alguns artigos e poderão comprovar, com a discussão, que o projeto apresenta uma nova forma. Não há prova mais clara de nosso respeito pela opinião daqueles nossos irmãos que se esforçaram com verdadeiro patriotismo, que levar em consideração as falhas que nos apontaram e aplicar suas justas interpretações.
Para terminar, quero lembrar-lhes que uma vez finalizados os nossos debates, o projeto será submetido à Direção da Frente, como já havíamos informado. Depois, o projeto da Frente será apresentado ao PDK para ser analisado em um fraternal espírito de camaradagem.
Nação Árabe
Irmãos, não temos pré-julgamento contra nada nem temos a intenção de isolar nenhum grupo ou partido. Até as mais pequenas criaturas nos são hoje necessárias. Isso demonstra a que extremo necessitamos da participação de todos os partidos patrióticos e dos patriotas de boa vontade que, com a experiência, tenham se convertido em teóricos e dirigentes políticos. Não é por debilidade que dizemos que até as mais pequenas criaturas nos são necessárias, mas porque nos temos proposto estudar a confrontação de nossos grandes objetivos como iraquianos, como militantes da nação árabe em seu conjunto. Isto exige de nós princípios que estão à altura de nossas aspirações; exige uma luta tenaz. É com este fim que necessitamos da colaboração de todos e de cada um dos elementos de nossa sociedade. Trata-se de uma necessidade de princípio que não é nem provisória nem contingente.
Quanto ao aspecto político, não pensamos que existam grandes diferenças de opinião sobre os problemas fundamentais, baseando-se no fato de que cada um de nós deseja que se efetive este intercâmbio de opiniões, e dizer que não nos consideramos individualmente curdos ou árabes, mas iraquianos, membros de qualquer dos grupos étnicos, árabe e curdo.
Acredito que nossa concepção sobre o projeto não apresenta grandes divergências. Se o chamamos “projeto de autonomia para nosso povo curdo” poderíamos chamar também, tendo em consideração sua essência, “projeto de autonomia do povo iraquiano, árabes, curdos e minorias”.
Se não partirmos destes princípios, facilitaremos ao imperialismo a ocasião que espera de aprofundar as fissuras nascidas da discriminação para desunir o nosso povo e poder assim urdir suas maquinações para abortar as aspirações do nosso povo.
11 de março de 1970
Queria voltar a falar, embora brevemente do nascimento da Declaração do 11 de março de 1970. Quatro anos depois, no momento em que nos dispusemos a legislar a autonomia, que é o centro da Declaração, se faz necessário conhecer como foi o nascimento dessa Declaração.
Todos recordam o que era a sociedade iraquiana em 1970: as correntes políticas, o peso dos vestígios do passado sobre as relações entre os movimentos políticos patrióticos e, em particular, as relações entre o Partido Baath e o PDK (Partido Democrático Curdo). Todos sabemos que o partido dirigente, o Partido Baath, não era dono ainda por completo de seu papel nas Forças Armadas.
Estas incluíam, em seu comando, alguns elementos que não acreditavam na Declaração de 11 de março de 1970. Estes elementos, cujo número não era desprezível, estimavam que uma declaração desse tipo os colocaria entre a espada e a parede, e os privaria de qualquer meio de autodefesa, levando em conta a confusão que reinava antes de 11 de março no seio da sociedade iraquiana, e o tipo de relações que predominavam.
Combate
A sociedade iraquiana não acreditava ainda na totalidade da Declaração e o Partido se viu obrigado a levar a cabo um duro combate em seu próprio seio e no interior da sociedade para conseguir que a Declaração de 11 de março viesse à luz.
A adoção dessa Declaração, reforçando as bases em que se apoiava o Partido Baath, podia considerar-se como uma aventura pouco comum, segundo os critérios tradicionais e a conjuntura que mencionamos.
Antes disso haviam se estabelecidos alguns contatos com o PDK. Seu porta-voz fez então algumas proposições com o fim de pôr término ao conflito armado. O essencial era o bloqueio econômico que sofriam os combatentes curdos do momento. Nossa sincera resposta a Dara Tawfiq — pois dele se tratava — foi que não era esse o objetivo que os curdos perseguiam com sua luta. Se existia uma intenção real de edificar uma nova relação democrática no seio da sociedade iraquiana e de sanar a falha que se havia produzido, era imprescindível submetermos proposições que expressassem, em sua forma definitiva, todas as aspirações pelas quais se havia combatido.
As mesmas palavras foram repetidas a Azi Sharif na primeira viagem que realizou ao Norte. O diálogo tem continuado com propósito de conseguir que a Declaração seja um reflexo fiel da vontade do povo iraquiano e das forças políticas patrióticas que atuam e operam em seu seio.
Agora completam-se exatamente quatro anos do momento em que se fez pública a Declaração de março de 1970.
Muitas realizações se cumpriram nesses anos, todos sabemos. Mas o caminho percorrido também estava semeado de espinhos, em particular no que se trata da relação com o PDK e as condições excepcionais, e até anormais, podemos dizer, que reinavam no Norte do nosso país. Ali existiam numerosos setores onde nem o poder do Estado nem sua lei podiam intervir para determinar as relações sociais que dominavam. Penso, por outro lado, que nenhum iraquiano ignora este detalhe.
Réplica
Não aceitamos então, conforme o que expusemos brevemente, que a Declaração de 11 de março fosse uma simples réplica modificada da Declaração de 29 de junho, que foi promulgada nos tempos de Bazzaz e que pôs, naquele tempo, fim às hostilidades⁽³⁾. Nossa recusa se baseava na perspectiva de futuro, nos princípios em que acreditamos e nas bases que consideramos justas para construir a sociedade iraquiana pela qual lutamos.
Era, pois, lógico considerar a Declaração de 11 de março como término de todos os fenômenos lamentáveis e anormais que existiam antes desta data. Não obstante, a Declaração era e seguirá sendo válida para criar o tipo de relações patrióticas que tanto as forças políticas como o povo desejam e que concretizará o interesse primordial deste último.
Todos vocês sabem que no curso das reuniões anteriores celebradas no seio da Assembleia nacional, foi derrotada a ideia de discutir sobre a Declaração de 11 de março em seus princípios, sempre que um participante colocava esta pergunta: É indispensável a Declaração de 11 de março? É realmente indispensável estabelecer a autonomia? Não seria preferível aplicar no interior da sociedade iraquiana as leis e princípios reivindicados pelo regime ou pela Frente?
A essas perguntas respondíamos: “Estamos aqui para estudar este problema e todos acreditamos no que está em marcha e na aplicação da autonomia para o povo Curdo”.
Projeto de Lei
À luz destes conceitos nos reunimos como representantes do Comitê Supremo da Frente Patriótica e Nacional Progressista, para pormos em marcha o diálogo sobre o projeto de Lei de Autonomia, que se apresentou em princípio como um esquema de trabalho proposto pela Direção Regional do Partido Baath e que tomou depois a forma definitiva que foi adotada hoje, 11 de março de 1974.
Todas as forças políticas, todos os cidadãos que não estão filiados a nenhum partido, tiveram ocasião de discutir sobre este documento de trabalho. Todas as opiniões foram examinadas com a mesma objetividade, pois sempre tivemos, e conservaremos sempre, um conceito favorável às ideias e opiniões de qualquer patriota iraquiano, filiado ou não a um partido político.
Numerosas foram as ideias trabalhadas no curso dos diálogos mantidos com o PDK. Quando nossos interlocutores não sabiam o que dizer nem como defender suas ideias, diziam que a Declaração havia sido promulgada em 1970, que um largo intervalo havia transcorrido entre esta data e o momento em que discutíamos o projeto e a lei de autonomia, e que neste período a sociedade e as ideias haviam evoluído. Mas, deve a evolução supor forçosamente o abandono dos compromissos assumidos? Esta foi nossa pergunta aos representantes do PDK no transcurso de nosso diálogo.
De nossa parte, admitimos a evolução e acreditamos em toda evolução que nos ajude a avançar. Mas não é admissível que consideremos o conceito de autonomia como uma restrição, ou que lhe convertamos em uma restrição, para abandonar os compromissos contraídos, em especial quando se trata das relações no seio de um único e mesmo povo e dos problemas de que depende nosso futuro, que são os que agora estudamos.
Fazemos aos nossos irmãos do PDK as seguintes perguntas: podemos permitir, em virtude do conceito de evolução, que os representantes de qualquer tendência, ou de qualquer grupo ou indivíduo da sociedade iraquiana, questione a Declaração de 11 de março e a autonomia? Podemos permitir, em virtude desse conceito, que uma tendência procedente da sociedade iraquiana reclame a abolição da Declaração de 11 de março e o processo de autonomia?
Referendo
Isto, naturalmente, não significa que acreditamos na aparição da mencionada tendência nem que autorizássemos sua possível aparição. Tampouco queremos com estas palavras dar a entender que reprimimos, de forma ilegal, as opiniões contrárias às nossas, mas que consideramos que o projeto de 11 de março de 1970 expressava a vontade dos iraquianos. O povo iraquiano referendou implicitamente essa Declaração, como atestaram então suas manifestações de alegria e entusiasmo. Consideramos portanto as interpretações que não entram no marco dos conceitos explícitos da Declaração de 11 de março, como uma ação perigosa para o povo iraquiano e para o futuro do Iraque.
Diálogo
O diálogo foi amplo e concreto. Começou oficialmente em 15 de janeiro de 1974, mas na realidade remonta há muito tempo. As conversações relativas à Declaração, à sua aplicação e ao seu objetivo — a autonomia — começaram em 11 de março de 1970 e continuou sem interrupção até agora, e, tal como vamos expor na continuação, centravam-se especialmente nos princípios fundamentais que determinam o conceito de autonomia. Ainda que o diálogo não tivesse jamais o caráter direto do problema que acabo de expor, as propostas e contrapropostas submetidas se centravam essencialmente neste ponto.
Um exemplo tomado deste diálogo nos permite clarear as divergências de opiniões que suscitou. Dissemos, há alguns instantes, que este diálogo havia se desenvolvido com alguns representantes do PDK, durante uma reunião que teve lugar na data indicada, no edifício da Assembleia Nacional, na presença de Habib Mohammed Karim, Secretário do PDK e outros representantes do partido. O porta-voz, deixemos claro constar para a história, era Mohammed Mahmud Abderrahman. Eu mesmo estava presente pela Frente Patriótica, junto com Makram Talabani, Ghanim Abdeljalil e alguns camaradas do Partido Baath e do Partido Comunista Iraquiano.
Assim como estavam representados os nacionalistas progressistas pelo doutor Hisham Shawi e Abdellatif, e os curdos independentes por Ihsan Sherzad, Fu’ad Aref e alguns outros.
As ideias expostas em primeiro lugar afirmavam que as circunstâncias haviam evoluído e que longo período de tempo havia transcorrido entre a Declaração de 11 de março e a discussão que teria lugar em relação à autonomia. Se disse também que se existia incompatibilidade entre as propostas do PDK e o texto e o conteúdo da Declaração de 11 de março, elas deviam ser inseridas nesse marco para prévia retificação.
Fizemos constar ante os camaradas do PDK que discutiríamos as proposições segundo o espírito dos textos e dos conceitos da Declaração e que o tema da discussão devia limitar-se a estes conceitos, não deixando lugar a outro tipo de interpretação sobre o texto da Declaração.
Em seu pronunciamento de abertura Habib Mohammed Karin disse que numerosos povos haviam conseguido sua entrada nas Nações Unidas. A resposta foi que não estávamos discutindo sobre os povos representados nas Nações Unidas, mas sobre o destino de um povo único; o projeto de autonomia e não um projeto de criação de um novo Estado no Iraque. O porta-voz apresentou suas desculpas e afirmou que não era isso o que tinha querido dizer, embora nós pensássemos que na realidade esta havia sido sua intenção.
O PDK recebeu o projeto da Frente em 12 de dezembro de 1973 e a primeira reunião entre representantes da Frente e do PDK foi em 16 de janeiro de 1974.
O fato é que o diálogo continuou. A última reunião, que chamamos reunião ampliada, pois contou com a assistência de todos os representantes, devia acontecer em 2 de março, mas nos vimos surpreendidos pela ausência dos representantes do PDK.
A Frente havia decidido que a Lei de Autonomia fosse promulgada no prazo previsto, ainda que o diálogo não houvesse conduzido a uma convergência de opiniões com o PDK e apesar de que não houvesse se concretizado o desejo deste partido de comungar com os outros partidos e as forças nacionais, sobre a proclamação pública do projeto de autonomia em forma de lei na data prevista.
Todos vocês têm em suas mãos o texto da lei, e estou convencido de que já o examinaram. Consideramos que representa o essencial da Declaração de 11 de março de 1970. Estamos convencidos, baseando-nos nas particularidades intrínsecas do povo e as circunstâncias específicas que atravessa, assim como o exemplo que outros povos semelhantes ao nosso nos têm proporcionado, que esta lei expressa realmente a autonomia.
Fundamentos
A discussão continuou sobre a fixação dos limites administrativos da Região Autônoma. Nossa posição se baseava no fato de que a determinação desses limites, tal como nós o entendíamos, devia fazer-se tendo em conta os seguintes fundamentos: Os limites devem estar determinados pela presença e densidade relativa da minoria nacional que desfrutará a autonomia. Este é o ponto essencial que delimitará a Região, a condição que a mesma siga formando parte integrante do Estado e do território nacional. Não consideramos que a fixação dos limites administrativos seja uma separação absoluta, uma separação que signifique isolamento, ou que implicaria a exclusão dos curdos da comunidade iraquiana e seu confinamento em um setor que os estaria proibido abandonar. Também não consideramos que a autonomia signifique separar os iraquianos não-curdos da Região Autônoma, de uma forma absoluta, tal como mencionamos anteriormente. Entendemos por autonomia a integração total, mas com um território delimitado onde se exerceriam os direitos nacionais, nos marcos da soberania do Iraque, de acordo com as considerações tanto do presente como do futuro.
Grupos étnicos
A propósito, é evidentemente impossível controlar todos os membros do grupo étnico no que concerne à autonomia, a fim de fixá-los como parte definitiva da Região Autônoma. Para expor mais claramente nossa ideia, tomemos como exemplo a realidade concreta que formamos na reunião. Ela estava composta por iraquianos pertencentes a dois grupos étnicos principais e por algumas minorias. Isto é precisamente a comunidade iraquiana. O cidadão iraquiano árabe está presente em Carbala e Arbil. Do mesmo modo há cidadãos iraquianos curdos em Quircuque e cidadãos iraquianos curdos em Baçorá. Até é possível que o conjunto de curdos repartidos no Iraque, aparte o Curdistão, seja mais importante que o conjunto de curdos de qualquer outra região mista. É admissível que pensemos que a autonomia é o controle de todo aquele cidadão membro do grupo étnico que desfrutará da mesma e da fixação dos limites administrativos sobre esta base? Se nos baseássemos nesse conceito, seríamos incapazes de fixar os limites administrativos da Região Autônoma.
Pretextos históricos
Esta é a observação principal que quisemos fazer constar na discussão sobre a fixação dos limites administrativos. Nossos interlocutores, em situação de aperto, buscaram pretextos históricos, recorrendo ao fato de que, historicamente, em tal região haviam vivido os curdos e de que em outra também houveram curdos em outros tempos. Protestamos contra esta lógica e argumentamos que era impossível recorrer à história para delimitar a Região autônoma.
Em uma sociedade e em um Estado únicos, é preciso ter em conta o peso demográfico do grupo étnico a que se concede a autonomia, ainda que historicamente não se encontrassem naquele lugar.
Se consideramos a história, a história antiga, vemos que esta lógica de controlar a sombra de cada cidadão para determinar as fronteiras políticas internacionais foram substituídas por acordos internacionais. Seria absurdo que os árabes reclamassem hoje como sua uma Espanha que lhes pertenceu em outros tempos, e o mesmo ocorre com qualquer outro território que no passado foi ocupado pelos árabes e que depois deixou de pertencer à nossa grande Pátria.
De qualquer forma, o que exigimos é que as discussões tenham por finalidade proteger nossa unidade e nosso futuro, reforçar nossa confiança e unir nossas aspirações, seguindo uma via eleita em função de nossos interesses presentes e futuros ao mesmo tempo”.
NOTAS:
(1): Em 1972 a Revolução nacionalizou o petróleo, e sua aliança com a União Soviética tomou forma em um tratado. Igualmente, lançou uma campanha centrada sobre os agentes do imperialismo na região, em primeiro lugar Arábia Saudita e Irã.
(2): Nadhim Kzar foi o chefe de Segurança Interna do Estado e instigador do complô de 30 de junho de 1973.
(3): A Declaração de 29 de junho foi promulgada sob o regime reacionário de Abdul Rahman Aref, sendo Abd al-Rahman al-Bazzaz o primeiro-ministro. Nada em suas cláusulas correspondia seriamente à palavra de ordem do PDK — “Democracia para Iraque, Autonomia para o Curdistão”. Não obstante, este partido a subscreveu.
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