ZDRAVKO STOJKOSKI: O Jogo no Dia em que Tito Morreu

 
       Quarenta anos atrás, em 4 de maio de 1980, os clubes de futebol Hajduk Split e Estrela Vermelha de Belgrado jogavam uma partida pelo Campeonato Iugoslavo de Futebol no Estádio Poljud, casa do Hajduk, quando se espalhou a notícia de que Josip Broz Tito, o líder comunista do país visto por alguns na época como "o maior filho das nações e nacionalidades iugoslavas", faleceu. A informação oficial foi anunciada em rede nacional na tarde daquele domingo em uma declaração emocionante causando tristeza e desespero generalizados em todo o país.
        Os jogadores de futebol do Hajduk e do Estrela Vermelha receberam a notícia juntamente com quase 50.000 torcedores no Estádio Poljud naquela noite de domingo, em 4 de maio de 1980, pouco antes do intervalo. Em um momento, um político importante de Split e então presidente do Hajduk entrou na cabine de comentários e disse ao comentarista de rádio para interromper a transmissão porque ele tinha algo importante para anunciar. Ao mesmo tempo, o árbitro foi sinalizado para interromper o jogo. Os jogadores e funcionários foram imediatamente alinhados no meio do campo quando a informação chocante foi anunciada nos alto-falantes na frente dos participantes atordoados.
        O líder de 88 anos da República Socialista Federativa da Iugoslávia já estava em estado crítico há certo tempo e o pior era esperado para acontecer mais cedo ou mais tarde. Apesar disso, a magnitude do anúncio chocou a todos no estádio deixando-os no primeiro momento imóveis e em descrença. Testemunhas afirmam que todo o estádio foi dominado por um silêncio impossível. Em seguida, as pessoas nas arquibancadas começaram a gritar e soluçar, algo que imediatamente passou para os jogadores e árbitros em campo. E, em um momento a multidão começou a cantar uma canção dedicada a Tito: "Druže Tito mi ti se kunemo da sa tvoga puta ne skrenemo" (Camarada Tito, juramos a você que nunca vamos nos desviar do seu caminho).
        Havia muito simbolismo naquela partida. Hajduk foi o único grande time na Iugoslávia que sobreviveu à Segunda Guerra Mundial por sua recusa em jogar na liga de futebol da Itália fascista. Todas as outras grandes equipes pré-guerra foram dissolvidas e novas foram criadas em vez disso, incluindo o Estrela Vermelha e Partizan, Dínamo de Zagreb, Vardar Skopje, etc. Portanto, Hajduk sempre foi visto como uma equipe partidária e Split como uma cidade antifascista. O encontro entre as duas equipes representou algo como "A Iugoslávia em um pequeno pacote", um duelo entre times croatas e sérvios com árbitros bósnios e jogadores também vindos de diferentes nacionalidades em todo o país. No momento, todos eles estavam unidos em sua dor. Como de fato foi a situação com a esmagadora maioria da população em toda aquela multiétnica e multi-religiosa Federação.
        
Muitos anos depois, alguns atores relembram suas experiências daquela noite, bem como, o período em que as pessoas da região agora dividida viviam juntas. Algumas memórias contam a mesma história, outras diferentes.
        O futebolista macedônio Boško Đurovski, que fez parte da equipe do Estrela Vermelha de Belgrado naquela partida memorável, acredita que "aqueles que dizem que não choraram por Tito estão simplesmente mentindo". "Foi um momento terrível. Todos sabíamos que Tito estava prestes a morrer, mas a notícia que nos pegou em campo quebrou a todos. Chorei como chuva. A vida era boa na época de Broz e ninguém se importava se alguém fosse macedônio, croata, sérvio, esloveno ou bósnio. Nunca mais teremos esse senso de unidade. É por isso que me lembro das minhas lágrimas pelo Tito e não tenho vergonha delas", afirmou Đurovski em uma ocasião.
        O lendário atacante do Hajduk, Zlatko Vujović, tem pensamentos semelhantes. "Há gravações, fotos, vídeos. Não há como escapar da história, nem há razão para isso. Meu irmão Zoran caiu de joelhos em luto. Eu também chorei muito. Sentamos lado a lado com todos os jogadores de ambas as equipes. Foi difícil para todos nós."
        Mas, o atacante sérvio do Estrela Vermelha Dušan Savić tem memórias ligeiramente diferentes. Segundo ele, quando a partida foi oficialmente interrompida, o técnico do Estrela Vermelha, Branko Stanković, ficou irritado e no início não queria que a partida fosse adiada porque acreditava que "dominávamos o Hajduk". "No começo eu sorri", lembrou Savić em uma entrevista. Quando perguntado sobre o momento em que recebeu a notícia sobre a morte de Tito, ele disse: "Acho que naquele momento o medo prevaleceu do que seria amanhã, porque por décadas nos ensinaram que a vida não seria possível sem ele e que ele é a única coisa que vale no país. Só mais tarde percebi o lado real do governo do Tito, da Liga dos Comunistas e de todo aquele bloco... mas, houve bons momentos, porque quando você é jovem, tudo parece bom", diz Savić.
        Durante os últimos anos de vida de Tito, a Iugoslávia entrou na prolongada crise econômica que só se aprofundou ao longo dos anos. A economia iugoslava foi afetada pelo aumento dos preços nos mercados mundiais, pela queda da produtividade, pelas constantes restrições e pelo crescimento contínuo de sua dívida externa. Tudo isso e muito mais levou também à crise política. De acordo com as últimas mudanças constitucionais de 1974,a Federação foi em grande parte descentralizada com um governo central relativamente fraco e a maior parte do poder efetivo nas mãos de suas unidades federativas – as Repúblicas.
        Assim, ao contrário das proclamações públicas de que as pessoas seguiriam o caminho traçado por seu querido líder – as promessas que muitas vezes eram entoadas nos estádios de futebol – bem como as alegações de que "depois de Tito, ainda haverá um Tito", a situação na sociedade era bem diferente. 
        As crescentes crises políticas e econômicas durante a década de 1980, gradualmente, levaram à ascensão dos sentimentos nacionalistas e secessionistas entre as massas. E os estádios de futebol eram um solo fértil para sua expressão aberta. Outro fenômeno que ocorreu na época foi a mudança de atitude e a cultura dos fãs. Um número crescente de jovens e rebeldes torcedores de futebol seguiu os padrões ocidentais – exemplos da Inglaterra, Itália etc. – e começou a se organizar em grupos de fãs que agora eram capazes de expressar mais abertamente sua atitude. Assim, os torcedores mais dedicados do Estrela Vermelha de Belgrado começaram a se chamar 'Delije', seus principais rivais do Partizan eram cada vez mais conhecidos como 'Grobari', os torcedores do Dínamo Zagreb criaram um grupo chamado 'Bad Blue Boys', os fãs do Vardar se chamavam 'Komiti', os Hajduk's eram 'Torcida', e assim por diante.
        Com o tempo, a maioria desses grupos tornou-se abertamente antagônica entre si. Sob a situação política existente, muitos membros foram ainda mais politizados e caíram sob a influência de ideologias nacionalistas e histórias mitológicas. A maioria dos torcedores radicais tinha antecedentes criminais e, mais ainda, alguns deles tinham contatos com os elementos dos Serviços de Segurança do Estado, ainda poderosos. Tal situação explodiu exatamente dez anos depois em outra partida "épica" envolvendo equipes croatas e sérvias.
        Em 13 de maio de 1990, pouco antes do início do derby entre Dínamo Zagreb e Estrela Vermelha de Belgrado no Estádio Maksimir, em Zagreb, eclodiram-se grandes tumultos envolvendo hooligans de ambos os lados. O eco desses eventos supera o campo de futebol, novamente. Muitos ainda acreditam que foi um dos eventos desencadeantes que levaram à dissolução final e, mais tarde, ao conflito militar na antiga Iugoslávia. Mas essa é outra história, embora igualmente triste.





Zdavko Stojkoski é um historiador e professor macedônio. É graduado em História na Universidade São Cirilo e Metódio de Skopje e mestre em Estudos Culturais no Instituto de Literatura Macedoniana.

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