
Estas foram as palavras utilizadas por Xie Feng, vice-ministro das Relações Exteriores da China, durante conversa com a vice-secretária de Estado dos Estados Unidos (EUA), Wendy Sherman, a mais graduada autoridade norte-americana a visitar o país asiático durante os últimos meses, em preparação a uma eventual cúpula entre os presidentes Xi Jinping e Joe Biden. Xie afirmou que os EUA transformaram a China num inimigo imaginário, pretendem conter seu crescimento sob a crença de que a ascensão chinesa é culpada pelos problemas estruturais norte-americanos.
O fato é que muito pouco mudou com a saída de Donald Trump e entrada de Joe Biden na presidência dos EUA no tocante à China, além da forma. O conteúdo segue praticamente igual. A linha dura com relação a Hong Kong e os direitos humanos fazem parte do discurso norte-americano, além da tentativa de contenção ao avanço global chinês como potência econômica e tecnológica. Os EUA, no entanto, têm visto deteriorar sua relevância, por terem caído na cilada do politicamente correto, na arrogância e na divulgação global, via Hollywood, de valores e princípios deteriorados.
Obama e Trump tentaram minar a ascensão global da China, ao enfatizar a questão Indo-Pacífica e catapultar a Índia a uma posição de liderança regional que lhe é impossível de assumir. Trump adotou um discurso de enfrentamento. Biden tem adotado um discurso de contenção. Contra isto, o chanceler Wang Yi estabeleceu três nãos aos EUA: (I) não deveriam desafiar, difamar e tentar derrubar o socialismo com características chinesas; (II) não deveriam tentar impedir e acabar com o desenvolvimento da China; e (III) não deveriam infringir a soberania da China e prejudicar-lhe a integridade territorial.
Os ataques norte-americanos também têm mirado o presidente Xi Jinping, cuja liderança durante a pandemia lhe rendeu enorme capital político e reconhecimento popular. Grande reformador da China moderna e do seu socialismo de mercado, o presidente Xi tem liderado um país que expande seus tentáculos pelo mundo, com várias iniciativas de projeção de poder. A Nova Rota da Seda é a maior prova dessa ampliação da crescente hegemonia global.
Os dois países estão em momentos muito distintos: um em ascensão, outro em declínio. A diferença é abissal. Além disso, Biden, como Trump, enfrenta uma oposição irascível – muitas vezes sem sentido – em casa. Xi tem o apoio da população satisfeita com os resultados obtidos. Biden é o resultado da democracia, um sistema pautado, nos últimos anos, pelo binômio eleitoral "selecionar e se arrepender". Xi é fruto de um processo de impressionante seleção do mandarinato e do Partido Comunista Chinês, baseado no binômio "selecionar e eleger". Este processo tem colocado à frente do país indivíduos altamente capacitados.
A temperatura inicial das conversas revela que a interação continuará difícil. Mas os dois países se consideram parceiros estratégicos. E ainda se espera que o bom senso prevaleça no longo prazo, e a amizade, mais do que a competição, norteie o relacionamento. A paz mundial depende disso.
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