ALEXANDRE WEFFORT: Entender Cuba e seus inimigos

 


        A agressão norte-americana a Cuba é demasiadamente conhecida (mas insuficientemente reconhecida), feita sem qualquer pejo moral ou intenção de maior ocultamento. O bloqueio, imposto a Cuba pelos Estados Unidos, desde 1960, é uma das condicionantes de maior peso a considerar na análise da sociedade cubana e dos últimos eventos.
        Um documento (datado de 1998 e hoje de acesso público) publicado pela “National Security Research Division” da RAND Corporation, instituição de pesquisa ligada aos meios militares norte-americanos, coloca como único objetivo a mudança de regime, ou seja, o abandono da via socialista seguida por Cuba, estabelecendo uma metodologia para alcançar aquele propósito.
        A abordagem é de âmbito sistêmico, tendo como propósito a promoção da mudança (eufemisticamente apelidada de “reforma”) do sistema socialista, com vista a um retorno ao capitalismo. São consideradas três categorias analíticas: pré-condições estruturais, aceleradores e liderança. Citando:

  • Pré-condições estruturais consistem em pelo menos quatro elementos: 
    • um período prolongado de declínio econômico; 
    • decadência social; 
    • ampliação do fosso tecnológico com os concorrentes; 
    • aumento dos fluxos de informação. 
  • Aceleradores incluem o seguinte: 
    • choques externos imprevistos; 
    • avanços tecnológicos que ameaçam o poder do regime; 
    • sinais de fraqueza do regime (que vão desde distúrbios populares, aumento de atores da sociedade civil ou críticas abertas de dentro, combinadas com uma resposta fraca do regime a tais eventos)⁽¹⁾.
  • O elemento-chave apontado pela RAND para o desencadear de um processo de mudança política foi sempre colocado na questão da liderança carismática de Fidel Castro.

        Deve-se reter um conceito: “choques externos imprevistos” e, na tipificação deste, uma referência ao fim do embargo dos EUA e, depois de incentivar uma maior abertura da economia cubana em relação a mecanismos de mercado em moldes capitalistas, o afirmar de uma nova linha-dura por parte do presidente norte-americano (como, aliás, aconteceu com a administração de Trump), com a criação de perturbações ao processo encetado (frustrando expectativas criadas), a "atos provocatórios da comunidade exilada" (nomeadamente, em Miami) ou a "renovado isolamento internacional" (como aconteceu em relação ao Brasil com as provocações de Bolsonaro, levando à retirada de Cuba do programa Mais Médicos).
        As condições do bloqueio, agravadas por Donald Trump, mantiveram-se nos tempos de pandemia da Covid-19, e continuam sob a administração J. Biden, prejudicando a aquisição de suprimentos vários, inclusivamente, seringas para a vacinação.


O descontentamento

        É nestas condições que vimos emergir a manifestação de descontentamento social (na sequência da crise energética, decorrente do bloqueio norte-americano, e da crise econômica pela contração abrupta do turismo, decorrente da pandemia que a todos assola), prontamente apoiada em recursos poderosos de manipulação de informação nas redes sociais. E uma circunstância explica o momento: a necessidade, por parte da administração norte-americana, de atenuar o impacto político da sua derrota na ONU; no dia 7 de julho de 2021, a Assembleia Geral das Nações Unidas voltou a exigir o fim do embargo norte-americano a Cuba, aprovando uma resolução à qual apenas os próprios EUA, Brasil e Israel se opuseram (os que se abstiveram foram Colômbia e Ucrânia).
        Reza a notícia: "Depois de um ano de pausa devido à pandemia de covid-19, Cuba trouxe mais uma vez às Nações Unidas a sua habitual denúncia do embargo, que desde 1992 é aprovada anualmente com apoio maioritário da comunidade internacional"⁽²⁾. Ou seja, por mais de 30 vezes, consecutivamente, a comunidade internacional condena o bloqueio imposto pelos EUA a Cuba. 
        Mesmo assim, vemos em alguma imprensa (por jornalistas que deviam ter um mínimo sentido de deontologia profissional) a atitude negacionista confrangedora. Em estilo pseudojornalístico já característico, a natureza ideológica do bloqueio norte-americano é regurgitada pelo pequeno escrivão local: “Cuba volta a provar que o comunismo só leva à miséria e à ditadura. Bem podem ter médicos extraordinários que até esses passam fome com um sistema econômico que vai contra a natureza humana”⁽³⁾.
        Que o autor das linhas citadas não tenha entendido a enormidade amoral da conjugação que produziu ao referir a natureza extraordinária dos médicos cubanos, com a fome que cegamente atribui ao sistema social que promove, desde 1960, a formação desses mesmos médicos (e dizê-lo num país como Portugal, que se debate com a falta de médicos no Sistema Nacional de Saúde), ignorando as razões da comunidade internacional em condenar (mais uma vez) o bloqueio norte-americano, só se compreende no quadro de uma total ausência de capacidade analítica ou de uma total ausência de ética.
        Não se espera que o exemplo das “Brigadas Médicas Cubanas Henry Reeve, organização de médicos especializados em situação de extrema pobreza, desastres e epidemias graves, que, através de seu compromisso humanitário, social e ético, desenvolveu ações na área da saúde em diversos países, com foco na população mais necessitada dos quatro continentes”⁽⁴⁾ colha algo na consciência de quem se encontra gostosamente intoxicado. Mas é necessário não silenciar.
        A última condição estabelecida na metodologia explanada pela RAND (aumento de atores da sociedade civil ou críticas abertas de dentro, combinadas com uma resposta fraca do regime a tais eventos) não se cumpriu: a resposta aos acontecimentos foi forte, não apenas nas manifestações de rua, mas no debate e na busca de resposta aos problemas reais, como refere o presidente cubano Díaz-Canel: “Vivemos nestes dias de ódio transbordante nas redes sociais, não tão redes ‘sociais’, que têm sido a companhia permanente de pais e filhos nestes longos meses de pandemia, a ponto de muitos passarem mais tempo ligados à rede que conectados à família; aquela família que, com a unidade, pode ser invulnerável perante tudo o que a ameaça. Uma mãe disse-me ontem que a sua filha adolescente perguntou, com lágrimas nos olhos, se era Cuba, quando viu as imagens dos atos de violência que algumas das suas amigas compartilharam no Facebook. Os donos dessas redes, os ditadores dos seus algoritmos, como bem denuncia um documentário recente⁽⁶⁾, abriram ao ódio, sem o menor controlo ético, as comportas das suas poderosas plataformas”. 



NOTAS:

(1): GONZALEZ, Edward e SZAYNA, Thomas S. "Cuba and Lessons from Other Communist Transitions. A Workshop Report". RAND, National Security Research Division, Washington, D.C., 1998. (Acesse).
(2): ONU PEDE FIM DE EMBARGO A CUBA COM OPOSIÇÃO DE EUA E DE ISRAEL. Diário de Notícias, 23 de Junho de 2021. Internacional. (Acesse).
(3): ROSA, Luís. "Quando os comunistas fazem o povo passar fome". Observador, 20 de julho de 2021. Opinião. (Acesse).
(4): Brigadas Médicas Cubanas Henry Reeve. (Acesse).
(5): «¡VAMOS A PONERLE CORAZÓN A LA OBRA COMÚN!» (+VIDEO). Granma, 18 de julho de 2021. Discursos de Díaz-Canel. (Acesse).
(6): Pode se referir ao documentário intitulado “The War on Cuba”, da autoria de Oliver Stone (Acesse).

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