
bastante deprimente o nível do debate historiográfico em que estamos sobre o nosso país. Tentarei dá meus dois pingos de contribuição pra esse debate, que se acalorou um pouco por causa das discussões em torno da estátua de Borba Gato.
E não vou falar somente sobre isso, como também sobre o anti-historiador Narloch e de heróis populares como Zumbi do Quilombo dos Palmares e Lampião do Cangaço.
Da Mistificação Sobre Borba Gato
Primeiro, vamos falar sobre as ditas bandeiras: É fato conhecido que as bandeiras tiveram participação ativa na captura e comercialização de escravos indígenas. É fato conhecido que quando os holandeses “monopolizaram” o tráfico negreiro pra região do dito Brasil holandês, as outras regiões foram compensar isso capturando e comercializando os próprios indígenas escravizados, e é fato inquestionável que inúmeros bandeirantes participaram disto!
O que também é fato, mas estão se esquecendo é: nem todo bandeirante foi necessariamente Navarro e Jorge Velho, e nem as bandeiras necessariamente eram motivadas sempre por isso. Jorge Velho, aliás, foi o bandeirante designado à caçar o Quilombo dos Palmares por, também, interesses pessoais e econômicos (foi um dos maiores recompensados com fazendas e gado por seus "feitos").
Todavia, embora pareça ser uma coisa desconhecida por alguns internautas, “as bandeiras” não se resumiram a esse fenômeno de captura, escravização e comercialização de indígenas.
As bandeiras de Borba Gato não pretendiam comercializar indígenas, e ele não era do ciclo de caça e comercialização de escravos. Ele trabalha com Fernão Dias (seu sogro), quando este último, já mais velho, estava se voltando à busca de "esmeralda" e riquezas minerais, e ele é praticamente, quem "inaugura" as bandeiras de prospecção (que o seu sogro, Fernão Dias, pretendia se voltar mais ao final da vida).
A direita conservadora que reivindica de forma meio estranha os bandeirantes parece mistificar ou até romantizar o fenômeno.
A oligarquia paulista que supostamente defende mais fortemente esse “legado” (geralmente brancos engravatados com o ethos liberal da Faria Lima, os herdeiros mais "modernos" da Oligarquia do Café) defende e chora aos bocados pela queima da estátua de Borba Gato como se ele fosse seu ancestral direto, mas morreriam se soubesse que Borba Gato de branco nada tinha, e era até um tanto "indígena" pro gosto dos europeus (sequer português era o seu idioma dominante).
Na esquerda, apesar de o fazerem de forma bem intencionada (porque resumem ao Borba a "síntese" do fenômeno bandeirante de uma forma quase que integral), também há mistificação ou caricaturizarão. Só que às avessas.
Houve gente que alegou se tratar de um sujeito branco ou português que capturou indígenas e negros e comercializou escravos no interior do país por meio das bandeiras. Como falei, a maior parte do fenômeno das bandeiras ficou conhecido realmente por esses “feitos”, e não há como não lembrar de Navarro, Jorge Velho e de vários outros nomes que se dedicaram quase integralmente a esse tipo de atividade. Mas o que não conseguem responder é o que Borba Gato tinha a ver diretamente com o comércio dos mercadores de escravos indígenas e negros? Porque sequer a gênese das bandeiras essas pessoas tocam completamente.
Se é pra sermos justos: Borba Gato não foi um santo.
Eu realmente não tenho nenhuma “identidade” ligada a este senhor, a sua estátua, ou a coisas derivadas dele. E talvez até por isso eu o consiga enxergar um pouco mais criticamente (sem devaneios ou deslizes passionais).
Borba Gato provavelmente cometeu violências contra quem estava no outro lado dos campos de batalha a qual entrou, provavelmente feriu e violentou das mais variadas formas pessoas inocentes (mulheres, crianças, etc.), entre todo tipo de pessoa ou grupo que ele via como inimigo ou obstáculo de seus objetivos (seja outros brasilíndios, portugueses e indígenas) e entre várias outras atitudes que normalmente se pode atribuir uma “moral duvidosa” (ou abominável, na melhor definição do termo).
Todavia, mais algumas coisas precisam ser ditas:
- Borba Gato não pertenceu ao ciclo de captura e comercialização de indígenas para fins escravistas. Não há algo que o ligue diretamente à isto. E não falo de documentação oficial, mesmo nas várias fontes críticas ao Borba isso não vai ser encontrado (a não ser em afirmações soltas na internet).
- Borba Gato não era português.
- Borba Gato não era branco.
- Borba Gato era “brasilíndio”, há quem lhe atribua ter mais “pé” no povo Tupi paulista do que no povo Luso de Portugal.
- Borba Gato sequer tinha o português como língua dominante, mas sim a língua geral (brasilíndia, que podemos dizer que era “90% Tupi, 10% Portuguesa”).
- Borba Gato era mais mestiço e muito menos branco do que os pardos de hoje em dia.
- Borba Gato, ainda que tendo a índole duvidosa, posturas agressivas, e sendo uma liderança brasilíndia extremamente violenta, usou esses seus “dotes” à uma dita “caça ao Eldorado”, em busca de ouro e jazidas. Por óbvio, qualquer pessoa que eventualmente fosse seu "inimigo" era vista como um obstáculo ao seu “objetivo de glória e riqueza aurífera” (seja de qual etnia for, inclusive se forem inimigos portugueses), ele trataria como um inimigo de guerra e não se poupava em seus métodos (baseados na força das armas e na sua própria brutalidade).
- O que mais “deu renome” a Borba Gato foi o fato dele ser um dos brasilíndios em busca de ouro que mais matou portugueses (e não o que mais "defendeu" portugueses, embora de fato tenha "conciliado" com Lisboa). Eu diria que portugueses são um dos grupos que mais teriam razão de realizar um ato de "desagravo" ao Borba, uma vez que o mesmo ficou conhecido na história (ou em pelo menos parte considerável de sua vida) como um dos maiores "assassinos de portugueses" do Brasil colonial. Óbvio que não fez isso por ser um "anticolonialista consciente", ou algo que o valha, mas sim e unicamente por seus interesses pessoais. Mas ainda assim esse fato é colocado debaixo do tapete em demasia, e é pertinente trazer essas questões à luz do debate.
- Borba Gato passou mais de uma década abrigado em aldeias indígenas do interior do Brasil, do qual ele tinha muito mais proximidade do que os “brasilíndios do litoral” (que lhe considerariam selvagem, “bárbaro”, já que ele era um comedor de raízes, uma pessoa que vivia andando descalço na mata, dentre outros hábitos do gênero). Ou seja, Borba Gato não só tinha menos proximidade (étnica) com portugueses, como também se tornou mais próximo dos indígenas do interior do que os próprios mestiços brasilíndios do litoral paulista. Outra possível explicação para essa ligação tão orgânica destes indígenas com ele e vice-versa é que eles deveriam ser índios que já faziam negócios com os bandeirantes. Ironicamente, muitos dos membros e aliados das bandeiras (até das bandeiras para caçar indígenas) eram também indígenas...
- Devido a esta proximidade orgânica óbvia (além, claro, do uso da força e de vários métodos violentos), Borba Gato ficou abrigado por mais de uma década em aldeias (entre 15 a 17 anos), e até chegou a se tornar Cacique!
O fato de Borba Gato hoje ser lido ou representado como um branco, diz muito sobre o revisionismo histórico que foi feito sobre ele em cima do “mito fundacional” de São Paulo e adjacências, e sobre como a Oligarquia de São Paulo “ressignificou” o nome dele (e as bandeiras em geral). E, à esquerda, parece haver uma mistificação as avessas.
Que Borba Gato é um sujeito ultra “controverso” todos nós sabemos (e daí a necessidade de uma análise crítica dele, e de outras figuras do mesmo período), todavia, por que diabos há toda uma mística de associação automática da figura dele a um “branco mercador de escravos indígenas e capturador de índios”?
Borba Gato era certamente muito mais "indígena" do que os brancos que difundiram isso na internet, e até mais "indígena" que eventuais pardos que fizeram essa dita “análise” do Borba como branco ou como um português.
Na verdade ele figura entre o que há de mais próximo, originalmente, do "brasileiro" e mais especificamente do "pardo brasileiro", que temos hoje em dia no imenso interior rural do país, sobretudo entre as camadas pobres do sertão brasileiro (nem branco, nem completamente indígena), que são a maior parte dos nossos camponeses não-abastados, dos sem-terra, dos pequenos camponeses, etc.
Da Ignorância Generalizada
Eu desconheço esse nível de ignorância histórica sobre as próprias figuras históricas em outros países da América Latina, uma ignorância que existe tanto à direita como à esquerda.
Como Nildo Ouriques falou sobre as estátuas e sobre o passado: as pessoas de países como México e Venezuela usam cotidianamente a História para fazer política. Da direita à esquerda, nestes países, quem não conhece Zapata, Bolívar e outras figuras históricas é incapaz de fazer qualquer coisa em termos de política. Mesmo os políticos mais eleitoreiros da esquerda e da direita parlamentar, nesses países citados, se veem obrigados a adentrar nesse terreno.
Mas no Brasil podemos fazer política à revelia do passado. Nos acostumamos a fazer política sem a História.
Nosso passado é, no máximo, um recurso retórico usado ocasionalmente. Como quando se reclama de forma vaga de alguém que derruba uma estátua; ou como quando desejamos chamar atenção para um assunto por meio da derrubada de uma.
Mas as estátuas aqui não se “movimentam”. As figuras do passado aqui não “andam”. Elas não possuem contexto ou análise (por quem se propõem a defender ou por quem se propõem a criticar), nem as figuras históricas estão ativas como entes vivos na memória do povo (como Zapata está, por exemplo, no México).
Lá os mortos vivem. Lá as estátuas andam. Mal ou bem, de figuras controversas, ou de lideranças mais aclamadas, as personalidades do passado estão densamente presentes no agora!
Mas não no Brasil.
Eu duvido muito que a maioria dos que correram em defesa de Borba Gato conheçam verdadeiramente a vida do bandeirante. Choramingaram sobre um “símbolo paulista" genérico tanto quanto iriam chorar por uma vidraça do Banco Safra, ou por algum ato contra uma Estátua da “Liberdade” das lojas Havan.
E no caso dos que atacaram (ou comemoraram o ato contra Borba), ainda que com boas intenções (porque acreditam estar desprestigiando um colonialista português ou um mercador de escravos), igualmente não estão muito cientes da própria História. Ficariam boquiabertos ao descobrir que não necessariamente um bandeirante vivia desse tipo de "atividade comercial", ou que Borba chegou a ser cacique.
A dura realidade é: Certas lideranças indígenas que, por meio do cunhadismo, ou por meio de outras formas de se firmar alianças, muito provavelmente mataram mais inimigos indígenas do que o próprio Borba Gato (a exemplo de um de seus ancestrais, o Cacique Tibiriçá). Até porque os indígenas NUNCA foram um corpo homogêneo nesse continente, e tinham uma demarcação de classificação étnica (e do que é “inimigo-amigo”) muito diferente do maniqueísmo que você deve ter nos dias de hoje.
Bandeirantes (que são brasilíndios não-brancos) cometeram atrocidades tanto por interesses pessoais (a busca de um "Eldorado") quanto por influência dos interesses do colonialismo (como foi entre os bandeirantes que comercializavam escravos indígenas), tal qual várias lideranças negras e indígenas também cometeram atitudes que são moralmente condenáveis, visando interesses de suas próprias comunidades, interesses pessoais e egoístas, ou o que o valha.
Como exemplos desses últimos casos nós poderemos citar:
- Cacique Tibiriçá e as "guerras intra indígenas" que transitaram de conflitos entre índios para um conflito colonial propriamente dito:Lideranças guerreiras indígenas em aliança com europeus, que já possuíam um "complexo beligerante" indígena voltado a guerrear com outros grupos nativos, foram usados para realizar (ou colaborar com) gigantescos massacres de outros grupos indígenas que eram inimigos seus.Isto era motivado tanto pelos interesses dessas próprias lideranças indígenas, quanto por influência dos interesses coloniais.A forma como o Cacique Tibiriçá, se aliando a jesuítas e portugueses em geral, tratou seus inimigos nativos (isso é, de comunidades indígenas rivais ao Tibiriçá), poderia tranquilamente superar o atos de violência perpetrados por Boba Gato contra os inimigos não-portugueses (índios, brasilíndios e outros) que ele já teve em vida. E isto tudo feito em colaboração com europeus (colaborando, indiretamente também com os interesses deles, ainda que visando os interesses dele enquanto Cacique e os interesses de sua comunidade).
- Francisco Felix, o ex-mercador de escravos que virou herói de ex-escravos regressos em Benim (país africano):
Francisco Felix é um baiano, brasileiro, um 'mulato' que em boa parte de sua vida foi um mercador de escravos (apesar de considerado mulato na época, hoje talvez fosse lido como negro). Em Benim, na África, ele financiou e apoiou com armas a derrubada do governante Adanuzam.
Apesar de sua vida ultra controversa e de um legado nefasto para os povos negros de Benim e do Brasil, Francisco Felix é ovacionado como um herói em Benim, sendo possivelmente até mais lembrado que aquele que derrubou o próprio Adanuzam (Guapê, o meio-irmão do governante derrubado).
Mesmo Francisco Felix tendo agido ativamente (e por interesses econômicos pessoais) no tráfico negreiro, os ex-escravos que saiam do Brasil e retornavam para Benim viam nele um "farol", por ele ser uma uma referência "afro-brasileira" (e estes ex-escravos regressados do Brasil ainda mantinham uma identidade "abrasileirada"), quanto porque o próprio Francisco Felix oferecia "proteção" a estes ex-escravos vindos do Brasil, formando assim uma grande comunidade que até hoje lhe presta reverência.
Essa é a fortíssima comunidade dos "Ajudá" ou "Agudá", de Benim, que possuem muitas referência ao Brasil, como na arquitetura popular, alvenaria de Igrejas, e até no próprio carnaval de rua!
Não acho que devemos fazer um juízo moral ultra superficial sobre um líder negro de Benim, reduzindo ele a unicamente a um “colaborador de branco”. Assim como não devemos fazer juízos morais sobre as centenas de etnias indígenas que fizeram alianças com franceses, portugueses, espanhóis ou o escambau a fim de “se apoiar em europeus” no que viam apenas como a continuidade das guerras “intraindígenas” que já aconteciam no Brasil antes mesmo da chegada dos europeus (e que continuaram a ocorrer depois).
O perigo deste desconhecimento é que:
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