
Se tem uma coisa que uma análise historiográfica consistente do fenômeno das bandeiras (e não só do Borba Gato) tem que ter, é não superestimar os relatos de jesuítas.
Muito além do interesse de conversão, boa parte dos jesuítas usavam a mão de obra indígena de forma "servil". Em alguns contextos excepcionais de forma que poderia lembrar um trabalho servil "terceirizado".
Em miúdos: jesuítas poderiam receber pagamentos ou "contratos" para prestação de certos serviços braçais que a própria mão-de-obra indígena é quem realizava tal serviço. Isso tudo muito antes do surgimento do trabalho assalariado terceirizado como o compreendemos hoje.
A maioria dos bandeirantes eram mamelucos brasilíndios, alguns dos quais arraigados no próprio "paganismo" dos povos tupis (ou seja, eram "brasilíndios brutais" com bem menos elo com a Igreja do que os jesuítas), e que herdavam rivalidades de guerra de seus próprios ancestrais indígenas (ou alguém acha que o Cacique Tibiriçá era um "santo"?).
Boa parte desses "rivais indígenas" poderiam ser tanto "absorvidos" entre os brasilíndios paulistas (similar ao que ocorria nos próprios contextos "intraindígenas"), quanto poderiam ser escravizados.
E aí é que os jesuítas entram. As bandeiras de apresamento não eram criticadas pelos jesuítas apenas por conta de uma questão "humanística", mas por que os jesuítas viam nos bandeirantes um risco "concorrente" direto no uso da mão de obra indígena.
"Se nós, jesuítas, fornecemos mão de obra indígena indígena servil... E se os bandeirantes comercializam indígenas capturados... Como ficamos nós?"
Havia um conflito de interesses muito direto e concreto.
E, obviamente, os próprios jesuítas tinham muito mais domínio da escrita e do português que os bandeirantes (que tinham o tupi geral como língua dominante, ainda que pudessem chegar a aprender o português) e assim, os próprios jesuítas poderiam legar muito mais fontes documentais e relatos escritos ao presente do que os seus "concorrentes" das bandeiras.
Não atoa é que vai ter jesuíta adjetivando bandeirantes de "demônios brutais" e entre vários outros termos notavelmente depreciativos. E não atoa que a maior parte dos relatos que depõem contra os bandeirantes são dos próprios jesuítas.
Admitir a brutalidade bandeirante? Correto. Mas acreditar que os relatos jesuítas são as melhores fontes sobre o tema? Bem...
Em sua maioria os jesuítas faziam isso pelos seus interesses econômicos diretos, e também para comover a coroa espanhola. Notem que após o "Tratado de Madrid" a maioria absoluta dos relatos dos jesuítas praticamente sumiram! Coincidência? (risos)
Se esse for o tipo de parâmetro que devemos usar, imagine o que as comunidades indígenas rivais do Cacique Tibiriçá diriam sobre ele?
Imagine o que os indígenas que chegaram a ter atrito com o Quilombo dos Palmares não poderiam dizer sobre Zumbi?
O que centenas de etnias africanas não poderiam dizer sobre etnias rivais em contextos pré-coloniais da África?
Ou até o que os chineses não diriam de Genghis Khan?
É lógico que todas essas fontes e "versões" devem ser visitadas e mensuradas num estudo. Mas superdimensioná-los ou tornar essas perspectivas (que são demasiadas passionais ou "interesseiras") como a única régua de nossa crítica, é municiar nossos próprios inimigos com argumentos e armas que certamente serão usadas contra nós.
Ou vocês melhoram os argumentos e critérios de análise, ou vocês vão acabar adotando parâmetros que servirão para uma "caça às bruxas" até mesmo contra as próprias "referências populares". Zumbi, Lampião, Antônio Conselheiro, Tibiriçá, Sepé...
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