JOÃO QUARTIM DE MORAES: A causa de Milosevic também é nossa


        Indignados profissionais e outros tartufos que pululam na ampla gama do espectro político que vai dos fascistas (assumidos ou camuflados) aos neoliberais e social-democratas.
        O objetivo maior do prolongado massacre balístico era desmantelar o que restava da Iugoslávia, que vinha sendo desmembrada desde 1991, com as secessões da Eslovênia e da Croácia, ambas patrocinadas, ao arrepio da constituição federal, pela Alemanha do reacionário Hellmutt Kohl⁽¹⁾. Formada em 1945 no ímpeto da heroica vitória dos partisans comunistas, que haviam, praticamente sozinhos, derrotado e expulso as tropas nazistas e desbaratado o regime  colaboracionista do torturador profissional Ante Pavelic, chefe dos “ustashes” (organização terrorista dos fascistas croatas, protegidos por Hitler, por Mussolini e pela Hungria, cujo currículo incluía o assassinato do rei Alexandre e do ministro francês Barthou)⁽²⁾, a República Federativa Popular, Socialista e Autogestionária da Iugoslávia, agrupava seis repúblicas confederadas, dos eslovenos, dos sérvios, dos croatas, dos macedônios, dos bósnios e dos montenegrinos, com autonomia, no interior do território destas repúblicas, para minorias nacionais, albanesas, búlgaras e outras.
        Para perfazer sua obra de destruição, os neoliberal-imperialistas utilizaram, de maneira sistemáti­ca, o método inau­gurado pelos nazistas na aldeia de Guernica durante a guerra civil espanhola: tri­turar por via aérea uma aldeia indefesa para quebrar a moral da po­pulação apavorada. Utilizaram também bombas de urânio “empobrecido” e de fragmentação (em Nis e em Korisa, aldeia do Kosovo, onde foram mortas, a 14 de maio, cerca de cem pessoas), condenadas pela ONU, em resolução de agosto de 1996, como intrinsecamente criminosas.
        A tortura é hedionda, mas eficaz. O povo sérvio reagiu com coragem e dignidade às primeiras vagas de bombardeios arrasadores. Formou até muralhas humanas para impedir a destruição das pontes sobre o Danúbio. Mas novas sessões de bombardeio (de “pau-de-arara” coletivo) foram quebrando a resistência dos menos decididos. Mais os cadáveres e escombros se ampliavam, mais o medo e o desespero abriam brechas na coragem dos sérvios. Desde o início dos bombardeios, os operários da fábrica Zastava (maior fabricante de automóveis e caminhões da Iugoslávia) dormiam no local de trabalho, formando um permanente “escudo humano”. Enviaram à OTAN, via Internet, a mensagem intitulada “Esperando as bombas”, em que esclareciam estar protegendo “38.000 empregos diretos e 60.000 indiretos”. Em 9 de abril, a fábrica foi desintegrada por um míssil humanitário. Mais de cem trabalhadores foram mortos ou gravemente feridos. Daí por diante, compreensivelmente, o número de voluntários para os “escudos” foi diminuindo. As garras da harpia M. Albright (secretária de Defesa, melhor dizendo, de Ataque de Clinton) garantiam morte certa para quem se atrevesse a defender com seus próprios corpos os alvos prováveis da bestialidade imperial⁽³⁾.
        Os furiosos bombardeios só cessaram quando as tropas sérvias abandonaram o Kosovo, parte integrante do território de seu país, deixando seus compatriotas remanescentes entregues a toda sorte de vexames e violências por parte dos kosovares albaneses sedentos de revanche. Policiais da OTAN, principalmente da metrópole imperial (FBI), em vez de proteger os sérvios, já que em princípio ao menos, a vida de um sérvio devia valer tanto quanto a de um kosovar, escarafunchavam freneticamente os locais onde pensavam ter farejado cadáveres de alegadas vítimas do “ditador” Milosevic. Enquanto as forças de ocupação da OTAN procediam a suas frenéticas escavações em busca de provas nunca encontradas dos massacres mentirosamente atribuídos ao presidente sérvio, os kosovares albaneses retornados partiam para a desforra, desencadeando sua vingança contra a minoria sérvia, espancando, torturando, massacrando aldeias inteiras. 
        Faltava derrubar o governo do Partido Socialista Iugoslavo e capturar Milosevic. Em qualquer país, há sempre uma minoria de calhordas prontos a lamber as botas de um invasor. Tão logo manifestaram-se os sintomas de que a Sérvia estava suficientemente arrasada sob as bombas dos “humanistas” da OTAN, um bando de liberais da “quinta coluna” local prontificou-se a executar o trabalho sujo de destituir o governo de resistência patriótica e negociar a capitulação. Em setembro de 2000, certos de que, com a infraestrutura econômica destruída pelos mísseis da OTAN e a sociedade sufocada pelo bloqueio internacional imposto pelos governos imperialistas, parcela importante do corpo eleitoral os acompanharia na via da colaboração com os agressores, os colaboracionistas uniram-se em torno da candidatura presidencial do advogado Vojislav Kostunica, um liberal disposto a se pôr de joelhos diante dos invasores e lhes executar as ordens. Ele chegou na frente de Milosevic, mas não obteve os 50% dos votos necessários para ser eleito no primeiro turno. A Justiça Eleitoral marcou o segundo turno para 8 de outubro. Contando, entretanto com o sólido apoio dos mísseis e do dólar imperiais, seus partidários recusaram a decisão e, no dia 5 de outubro, mobilizaram em Belgrado (capital da Sérvia e do que restava da Iugoslávia), uma multidão persuadida de que a servidão voluntária seria mais vantajosa do que os sofrimentos a que o país estava submetido. A manifestação, que adquiriu a dimensão de um levante contrarrevolucionário, atingiu seu objetivo maior: derrubar o “ditador” Milosevic. 
        Do alto de uma sacada do prédio da prefeitura de Belgrado, Kostunica abriu seu discurso triunfante proclamando: “Boa noite, Sérvia libertada”. Era preciso a hipocrisia de um lacaio e a falta de caráter de um camundongo para falar em libertação quando o território da própria pátria estava ocupado por tropas estrangeiras. Evidentemente, a mediática imperialista justificou e comemorou o ato de força alegando que a contagem dos votos tinha sido fraudada. Uma alegação que vale tanto quanto as de que milhares de albaneses tinham sido massacrados no Kosovo. Poucos anos mais tarde, mentira semelhante (de que Saddam Hussein tinha acumulado armas de destruição em massa) serviria de pretexto para arrasar e ocupar o Iraque. 
        A queda de Milosevic precipitou a agonia do grande projeto do Marechal Tito, veterano do Komintern, combatente em defesa da República Espanhola, chefe da resistência ao fascismo e à ocupação nazista da Iugoslávia e grande fundador da República Socialista Confederada dos Eslavos do sul. Croata como Tito e, sobretudo ardoroso patriota iugoslavo, Emil Vlajki compôs duas obras, "The new totalitarian society and the destruction of Yugoslavia" (Ottawa, Legas, 1999) e "Demonization of Serbs" (Ottawa, Revolt, 2001), em que desenvolve, como anunciado no subtítulo desta (“western imperialism and media war criminals”), enérgico e extremamente bem documentado libelo contra os celerados que intoxicaram a opinião pública ocidental para apresentar a destruição da Iugoslávia como uma exigência do que chamam “comunidade internacional”, mas que não passa da “cosa nostra” do Império do dólar⁽⁴⁾.


Partisans, Comunistas

        No dia 25 de março de 1941, culminando uma política de aproximação com a Hungria, a Alemanha e a Itália, Cvetkovic, presidente do Conselho de ministros do reino da Iugoslávia, proclamou em Viena a adesão ao Pacto Tripartite, o Eixo. Havia entretanto patriotas, mesmo na cúpula do poder monárquico. O general Simovic, chefe do Estado-maior do Exército, depôs o príncipe Paulo, regente do trono e formou, em 28 de março, um governo de união nacional, decidido a permanecer na paz e desenvolver relações de amizade com os vizinhos, notadamente com a União Soviética, com a qual se dispôs a assinar um tratado de cooperação. Um documento divulgado por ocasião do processo de Nuremberg⁽⁵⁾, descreve quão furibundo ficou o insigne celerado-chefe da cruz gamada perante esta altiva manifestação de independência: "Convém tomar todas as medidas necessárias para esmagar a Iugoslávia militarmente e enquanto Estado; não haverá nem memorando nem ultimato; o ataque ocorrerá tão logo  estejam terminados os  preparativos e deverá ser efetuado com rigor implacável; a tarefa da aviação é destruir a capital, Belgrado, por meio de ataques ininterruptos”. 

        Os pilotos alemães esmeraram-se no cumprimento das ordens do Führer. No final de março de 1941, Belgrado foi arrasada pelos bombardeiros da Luftwaffe,  operando a partir da Bulgária e da Hungria, cujos governos eram lacaios do III Reich. Os soldados iugoslavos bateram-se corajosamente, mas a superioridade material dos hitlerianos  era incontrastável⁽⁶⁾. No dia 13 de abril, eles entraram em Belgrado. No dia 17, o governo real capitulou.  Referimos anteriormente que com a invasão da Iugoslávia pelas hordas hitlerianas, os “ustashes” tinham criado, à sombra protetora do III Reich, o germano-nazistófilo Estado Livre da Croácia, cuja principal liberdade consistia na carta branca conferida à polícia política para torturar os militantes da resistência, especialmente os comunistas.
        
Cinquenta e oito anos depois, em março de 1999, a Luftwaffe do IV Reich, agora na mais modesta condição de integrante de uma força maior, sem ostentar, portanto, o emblema hitleriano, participou da obra de destruição tanto de Belgrado quanto do resto da já muito desmembrada Iugoslávia. A comparação pode parecer exagerada. Mas comparar é discernir o que têm em comum situações diferentes. O IV Reich não se confunde com o III, assim como o III (de Hitler) não se confunde com o II (de Bismarck), nem  estes com o I (que se perde nas brumas medievais). Mas, para os que sucumbiram sob as bombas, o fato de que tenham sido lançadas em nome da OTAN e não no da Luftwaffe não chega a fazer muita diferença.
        
A direção oficial da criminosa operação coube a um certo Solana, “eurocrata” espanhol exercendo o cargo de secretário-geral da OTAN. Ignoramos o que este estafeta do comando bélico anglo-estadunidense pensa do generalíssimo e insigne carniceiro Francisco Franco, seu compatriota, que durante quase quarenta anos submeteu o povo espanhol (durante os últimos vinte com a cumplicidade da OTAN), a uma sombria e atroz ditadura reacionária clerico-fascista. Mas o cinismo vulgar de sua justificação do massacre balístico é um insulto à inteligência: “Ele (Milosevic)  se nega a conter as ações violentas em Kosovo e a negociar de boa fé”⁽⁷⁾. Boa fé? Parece-nos, antes, ironia triste, além de torpe. A Iugoslávia que Solana e sócios destruíram foi fundada pelo croata Josip Broz Tito, que antes de se ter tornado comandante do exército guerrilheiro, organizou, em nome do Komintern, as célebres Brigadas Internacionais que, com mais coração do que armas, defenderam a Espanha republicana do fascismo militar, apoiado por Mussolini e Hitler.
        
Foi sob a direção de Tito que no dia 22 de junho de 1941 o bureau político do  Comitê Central do  Partido Comunista da Iugoslávia reuniu-se em Belgrado, aprovando o manifesto "Aos Povos da Iugoslávia", que conclamava os patriotas a resistir de armas na mão aos ocupantes. O grego Michel Raptis, dito Pablo, o maior nome do trotskismo após o do fundador epônimo deste movimento⁽⁸⁾, até por isso pouco suspeito de complacência em relação a um partido “stalinista”, assim sintetizou a epopeia dos comunistas iugoslavos: "O Partido Comunista Iugoslavo foi reorganizado em 1937 por Tito, quando retornou da Espanha. Todavia, até a  ocupação da Iugoslávia pelos alemães, este partido permaneceu bem fraco. Rankovic, que preparou o relatório sobre o trabalho de organização do Partido Iugoslavo no Quinto Congresso, informou que o número de membros do partido por ocasião da Quarta Conferência Nacional,  realizado em outubro de 1940 em Zagreb, onde foi eleito um novo Comitê Central de 29 membros, era de 6.000 (membros do) partido e 15.000 (membros da) Juventude. Mas em alguns meses, após o  partido ter lançado sua luta armada contra  as forças de ocupação, o número de seus membros tinha já dobrado. […] No final da guerra, o partido contava com cerca de 141.000 membros, e o número subiu para 468.000 em 1º de julho de 1948. O desenvolvimento da Juventude não foi menos impressionante: 1.415.000 membros inscritos. A composição social do partido era em média a seguinte: cerca de 30% de operários, de 15% de intelectuais e 55% de camponeses. O desenvolvimento do partido durante a guerra  ocorreu principalmente no exército de partisans, que chegou, ao que consta, a reunir cerca de 300.000 combatentes, camponeses pobres e operários, dirigidos pelo  Partido Comunista⁽⁹⁾.


Um Cesto de Ostras

        Um dos mais dantescos episódios de Kaputt, estupendo fruto literário fecundado no charco sangrento e putrefato da 2ª Grande Guerra por um dos mais cativantes escritores italianos do século XX, o célebre Curzio Malaparte, transcorre na Iugoslávia e tem por herói Ante Pavelic, que, com a invasão da Iugoslávia pelas hordas hitlerianas, criou, à sombra protetora do III Reich, o Estado Livre da Croácia.
        Corria o mês de abril de 1941. Malaparte viajava de Belgrado a Zagreb, onde Ante Pavelic, “Poglawnick da Croácia”, “reinava com seus bandos de ustashes”. Em todas as aldeias haviam sido afixados nos muros e paredes grandes retratos seus, acompanhados dos manifestos, proclamações, editos do novo “Estado Nacional Croata”⁽¹⁰⁾. Eclodia a primavera. Do Danúbio e do Drávia subia “uma bruma transparente, cor de prata”. Na encosta das colinas, vinhedos e trigais “confundiam-se num jogo de luzes e sombras sob o sedoso azul do céu”. As estradas enlameadas obrigaram-no a pernoitar em Ilok, entre Novi Sad e Vucovar. No único albergue,  jantavam, em torno da mesa coletiva, “camponeses armados, policiais ostentando no peito distintivos croatas por cima de uniformes sérvios e alguns refugiados[…]”. Terminado o jantar, os viajantes sentaram-se na varanda do albergue. “O Danúbio brilhava sob a lua; víamos desaparecer e reaparecer, entre as árvores, as luzes dos  rebocadores e das barcaças[…]. Era a hora do toque de recolher. Patrulhas de camponeses amados batiam na porta dos judeus para o controle vespertino, chamando-os pelo nome com voz monótona. As portas estavam marcadas pela estrela de Davi pintada com tinta vermelha⁽¹¹⁾. Os judeus se mostravam na janela dizendo: "Estamos aqui, estamos em casa". Os camponeses respondiam: "Dobro!, dobro!"⁽¹²⁾, golpeando a terra com a coronha de seus fuzis[…]”.
        Exausto, à meia-noite Malaparte foi dormir. Dormiu mal. Pela janela aberta via a lua erguer-se suavemente acima das árvores e dos telhados. Na fachada da casa de frente, sede dos ustashes de Ilok, exibia-se um enorme retrato de Ante Pavelic. “O Poglawnik encarava-me com seus grandes olhos negros, profundamente cravados numa testa baixa, dura e teimosa. Sua boca era larga, lábios espessos, nariz reto e carnudo, vastas orelhas. Jamais teria imaginado que um homem pudesse ter orelhas tão grandes, tão compridas. Elas desciam-lhe até o meio da cara, ridículas e monstruosas […]”. De madrugada, uma  companhia da Honved (polícia militar húngara) passou sob a janela, entoando seu canto “triste e cruel”.
        Malaparte reencontrou ambos, o retrato do orelhudo Hitler da Croácia e os policiais húngaros, no mercado de Vucovar. O retrato perseguiu-o até o gabinete do retratado, instalado em Zagreb, num palácio da cidade velha. Ao dar de cara com o próprio, pareceu-lhe encontrar “um velho amigo”, conhecido “desde um tempo imemorial”. Observou de perto sua cara achatada, “de traços duros e grosseiros”, da qual emanava “um ar de estupidez indefinível”. Explicou-o “por suas enormes orelhas que, vistas de perto, pareciam ainda maiores, mais ridículas, mais monstruosas que em seus retratos”.
        Meses depois, voltando da frente russa, de onde enviara reportagens perigosamente imprudentes para quem já passara cinco anos nas prisões de Mussolini (em síntese, mostrara porque a Rússia iria ganhar a guerra), cansado e doente, parou de novo alguns dias em Zagreb para descansar. Na noite da chegada, conversando com um amigo croata no salão do Café da Esplanada, foi descoberto pelo empavonado comandante P., ex-capitão do exército imperial austríaco, que se tornara chefe de gabinete do Poglawnik e nesta qualidade o intimou cordialmente a visitar o dono do poder local na manhã seguinte. “Vou colocar  seu nome na lista de audiências: o Poglawnik terá prazer em revê-lo”. E em voz baixa, como se estivesse fazendo uma amorosa confidência, acrescentou: “Grande, grande prazer!” .
        Ao entrar no gabinete, onde já estivera na visita anterior, Malaparte por pouco não se chocou com a mesa. “É um  sistema que inventei” explicou Pavelic sorridente, apertando-lhe a mão. Alguém que entrasse aqui com intenções criminosas, ao se chocar com a mesa e dar bruscamente de frente comigo,  ficaria desconsertado e se trairia. É um método oposto ao de Hitler e de Mussolini, que deixam entre eles e seus visitantes o espaço vazio de uma sala imensa”. Enquanto ele falava, o visitante observava as profundas mudanças fisionômicas que sofrera. Só a voz se mantivera grave, musical, extremamente doce. “Voz de um homem simples, bom, generoso”. Já as orelhas “tinham emagrecido prodigiosamente”. Observando “suas grossas mãos peludas, sua fronte baixa, dura, cabeçuda, suas orelhas monstruosas”, Malaparte sentiu “uma espécie de piedade por aquele homem simples, bom, generoso, rico de um sentimento humano tão delicado”. É que a situação política, desde sua anterior visita, tinha se agravado singularmente. “A revolta dos camponeses crepitava em toda a Croácia, de Zemun a Zagreb. Uma profunda, uma sincera dor, escavava a fisionomia pálida […] do Poglawnik. Como ele deve sofrer, pensei, esse coração de ouro!”.
        A conversa foi interrompida pela chegada do representante diplomático de Mussolini, Raffaele Casertano. Entrou imediatamente: estava em casa.  A conversa girou em torno da atualidade. “Os bandos de partisans⁽¹³⁾, de noite, atacavam até nos subúrbios de Zagreb. Mas os fiéis ustashes de Pavelic logo poriam fim a essa incômoda guerrilha”. “O povo croata”, dizia este, “quer ser governado com bondade e com justiça. Eu estou aqui para garantir a bondade e a justiça”.
        Enquanto ele falava, Malaparte observava um cesto de palha colocado sobre a mesa. A tampa estava levantada: via-se que o cesto estava cheio de frutos do mar. Pelo menos foi esta sua primeira impressão. “Pareciam ostras, mas retiradas de suas cascas, como vemos às vezes em grandes bandejas, nas vitrinas de Fortnum and Mason, em Picadilly, Londres”. Casertano, perguntou, dando-lhe uma piscada de olhos: “Que tal uma bela sopa de ostras?” Malaparte perguntou se eram ostras da Dalmácia. O Poglawnik destampou de vez o cesto e, mostrando aqueles frutos do mar, aquela massa de ostras viscosa e gelatinosa, respondeu “com um sorriso, seu bom sorriso cansado: — É um presente de meus fiéis ustashes; são vinte quilos de olhos humanos”. Arrancados dos partisans e de outros comunistas prisioneiros.



Quando o futebol reproduz a política

        Não há de ser coincidência: o reacionário midiático francês Bernard-Henri Lévy (que se fantasiou de “revolucionário” em maio de 1968, mas logo, com seu compadre André Glucksmann, foi recrutado pela direita, da qual se tornou um bem adestrado cão de guarda), após ter sido um dos mais histéricos propagandistas do bombardeio “humanitário” da Sérvia, insultando com arrogância quem ousasse tomar a defesa de Milosevic, publicou em julho passado, no auge dos bombardeios israelenses no Líbano, um artigo profundamente humanitário no Le Monde, não para chorar as dezenas de crianças libaneses carbonizadas pelo facho-sionismo e sim para compadecer-se do sofrimento dos habitantes de Haifa, vítimas dos mísseis lançados pelos “terroristas” do Hezbollah.
        Na mesma linha de pensamento, George Bush, chefe do Comando Supremo do Crime Político Organizado em escala planetária, celebrou no recente massacre balístico do Líbano, empreendido com hitleriana crueldade pelos israelenses, o combate ao “fascismo islâmico”. De Islã não sei se ele entende, mas de fascismo, ele é melhor ainda na prática do que na teoria.
        Não me incluo entre os que buscam a todo preço analogias entre o futebol e a política, mas, na Copa do Mundo de 2006, a derrota de seis a zero sofrida pela seleção da Sérvia e Montenegro perante a Argentina (cujo desempenho, embora não tão apático quanto o do Brasil, ficou bem aquém das expectativas) serve de triste emblema para as muitas outras e infinitamente mais graves derrotas que balizam a criminosa destruição da Iugoslávia pelo bloco imperialista da OTAN e que culminaram no covarde massacre balístico da Sérvia sob o pretexto “humanitário” de proteger os albaneses do território sérvio do Kosovo. Foi muito difícil aos jornalistas honestos, que não alugam o córtex cerebral nem uivam com as lobas e lobos da mediática imperialista, fazer ouvir sua voz no alarido da propaganda bélica, empenhada em completar pela intoxicação mental a obra dos mísseis da OTAN.
        Após ter participado, ao lado de seus congêneres, da campanha de calúnias que ajudou a quebrar a espinha dorsal da resistência sérvia, Financial Times, eminente expressão periodística da insolência britânica, publicou um comentário entre bem humorado e debochado⁽¹⁴⁾ sobre o desempenho da efêmera seleção da Sérvia e Montenegro, cujo nome não passava de um atestado de óbito: representava os destroços da Iugoslávia, um Estado que não mais existia. (No dia 21 de maio, um mês antes da Copa, num plebiscito de resultado previsível, os montenegrinos tinham dado o tiro de misericórdia na Iugoslávia moribunda, separando-se da Sérvia).
        O tema do comentário é o “prêmio” criado por jornalistas do próprio Financial Times para a pior equipe da Copa do Mundo. Na de 1998, a “Best of the Worst” foi a equipe estadunidense. Na de 2002, a da Arábia Saudita. Em 2006, Arábia Saudita, Ucrânia e Togo mostraram-se fortes candidatos, aquela, sobretudo, que de qualquer modo, já ganhou título vitalício de persistente mau futebol. Mas ela, assim como a Ucrânia, estavam numa chave em que, além da Espanha (que derrotou a Ucrânia por quatro a zero, habilitando-a a disputar a taça da pior equipe), figurava também uma terceira equipe fraquinha, a da Tunísia. As recíprocas fraquezas se neutralizaram, impedindo que os candidatos a “Best of the Worst” exibissem todas suas virtualidades e que o time saudita levasse o bicampeonato dos piores. Ademais, Togo, embora tenha perdido as três partidas que jogou, merecia circunstâncias atenuantes, que o jornal explica em tom condescendente:  
        “Escolher Togo seria cruel. Normalmente, não deveria haver complacência, porque nossos juízes são selecionados por sua desumanidade. Mas esta era a primeira Copa do Mundo de Togo e por isso faltava-lhe um mau atributo decisivo, a saber a recusa de aprender com a experiência”.
        Por isso tudo, o “prêmio” coube à Sérvia e Montenegro, “que seguiram ao pé da letra o paradigma balcânico”. Aqui o deboche dos jornalistas britânicos se torna desfaçatez. O termo “balcanização” designa a política, adotada pelas grandes potências europeias desde o século XIX, de “estimular” a criação de uma poeira de microestados impotentes e submissos. A criação do Uruguai pelo imperialismo britânico, para servir de Estado-tampão entre o Brasil e a Argentina, bem como a do Panamá, arrancado à Colômbia pelos imperialistas estadunidenses, são aplicações do mesmo método em nosso continente. Para medir a indecência da caçoada que se permitiu o prestigioso jornal dos financistas, vale recordar que Tony Blair, um dos principais artífices da nova balcanização, justificou os sucessivos e mortíferos bombardeios da OTAN sobre a TV e demais emissoras sérvias, que provocaram a morte de dezenas de jornalistas e outros trabalhadores, com o notabilíssimo argumento de que elas faziam propaganda do governo iugoslavo, portanto, opunham-se à nova balcanização imperialista.
        À guisa de conclusão, reforçando sua candidatura a “Best of the Worst” da máquina de propaganda do imperialismo neoliberal, os articulistas do Financial Times, após lembrar que os jogadores iugoslavos eram conhecidos como os “brasileiros da Europa”, pondera  que o “colapso” (entendamos, o assassinato) da Iugoslávia “já criou muitos times fracos, inclusive o da Croácia, e daremos boas vindas mais adiante ao do Montenegro. Qualquer nova partilha territorial — um dia quem sabe a República do Povo do Sudoeste de Nis e Posto de Gasolina — e a supremacia da Arábia Saudita pode terminar de vez. A Sérvia ganhou nosso prêmio. Se (os sérvios) quiserem, podem rejeitá-lo, classificando-o de provocação ocidental”.
        Na lógica da insolência, não basta caçoar. É preciso tripudiar. Os articulistas, nesta peroração final, explicitam aquilo que até o leitor mais obtuso já tinha entendido. Ao caçoarem do futebol sérvio, estavam também caçoando do povo sérvio, cuspindo no túmulo da Iugoslávia socialista. Ou haveria outra interpretação para a chacota a respeito da futura “República do povo do sudoeste de Nis e Posto de Gasolina”? Teriam cometido apenas um ato falho, tirando Nis do inconsciente coletivo dos crimes de guerra britânicos? (Esta pequena cidade da Sérvia, juntamente com a aldeia de Korisa, foi devastada pela OTAN com bombas de urânio “empobrecido” e de fragmentação⁽¹⁵⁾). O deboche sobre a “República do Povo” elimina esta hipótese. Eles estão se referindo, através da derrota futebolística, a uma derrota política incomensuravelmente mais importante: a destruição do último reduto do campo socialista no Leste europeu, da última consequência política da heroica vitória do Exército Vermelho e da resistência comunista ao nazi-fascismo. Disse bem o inglês Eric Hobsbawm: em 1991 a burguesia perdeu o medo…
        
Enfim, ao falarem de “brasileiros da Europa”, os jornalistas do Financial Times nos fazem pensar no brasileiro Jean Charles de Menezes, executado sumariamente e sem razão alguma no metrô de Londres pela polícia criminosa de Blair.



Rottweilers e Ratazanas

        Derrubado pela contrarrevolução que tomou o poder em Belgrado no dia 5 de outubro de 2.000, Milosevic tentou rearticular a resistência patriótica aos patifes que se escondiam sob fraseologia "democrática".
        Urgia tirá-lo da cena. Um punhado de rábulas encarregou-se de responsabilizá-lo pelas mais disparatadas irregularidades financeiras, inclusive de ter provocado “danos à economia sérvia” quando do surto de hiperinflação no início dos anos 1990. É preciso um cerebelo de eunuco político para falar em “danos” inflacionários num país cuja infraestrutura produtiva acabara de ser arrasada pelos rottweilers do imperialismo. Mas um bom eunuco sempre diz “sim senhor”. Intimaram Milosevic a se apresentar à polícia. Ele desdenhou essa vulgar manobra dos “lacaios da OTAN”, como os chamava, para prendê-lo, avisando que não iria. Militantes do Partido Socialista Sérvio vieram, armados, ajudá-lo a resistir em sua casa, num subúrbio de Belgrado. A tropa de choque do ministro do Interior, Dusan Mihajlovic, foi rechaçada à bala ao tentar tomá-la de assalto. Mas o primeiro-ministro Zoran Djindjic tinha recebido ordens da embaixada estadunidense para prender rapidamente Milosevic e entregá-lo a seus carrascos. Mandou atacar de novo, até que, após vários tiroteios, num tipo de batalha que neoliberais e asseclas gostam de travar (toda a polícia especial sérvia contra um punhado de militantes socialistas cercados), logrou cumprir a tarefa na noite de sábado, 31 de março de 2001, para domingo 1º de abril. 
        Esse Djindjic, chefe do Partido Democrático (sic), promovido a primeiro-ministro da Sérvia após a vitória da contrarrevolução, confirmou ser uma das piores ratazanas que prosperaram nas ruínas de seu próprio país. Merece figurar, ao lado de Lech Walesa e de Vaclav Havel, entre os mais insignes e empedernidos reacionários da vitoriosa contrarrevolução no Leste europeu. A Polônia, graças a Walesa, é hoje um bastião da mais obscurantista reação clerico-fascistóide; o tcheco Vaclav Havel, um dos mais raivosos neoliberais do planeta, tem se especializado em vomitar impropérios contra Fidel Castro. Nenhum deles, entretanto, nem seus congêneres búlgaros, romenos etc. chegou ao poder aproveitando o desalento provocado pela destruição da infraestrutura de seu país, como foi o caso dos sérvios Kostunica e Djindjic, aquele revestindo de frases melífluas seu torpe ofício de traidor; este, mais quadrado, cumprindo com desenvoltura o trabalho sujo de esbirro do imperialismo.
        Relatando o episódio do ponto de vista dos esbirros da OTAN, o jornalista Steven Erlanger (atualmente chefe do escritório do The New York Times em Jerusalém) compôs algumas frases que merecem ser incluídas em qualquer antologia da hipocrisia midiática. “Djindjic […] deseja assegurar que a justiça seja feita no sentido mais amplo e que a Sérvia não perca a ajuda externa necessária para melhorar as vidas dos eleitores que se voltaram contra Milosevic no ano passado”. Se respeitasse um pouco a inteligência do leitor, o periodista teria se servido da conjunção “ou”, não da “e”. Com efeito, ou bem o facho-liberal Djindjic estava preocupado com a mais ampla justiça (noção tão clara e confiável quanto a de “justiça infinita” que seria preconizada pelo celerado George W. Bush, que acabara então  de chegar à presidência no lugar de Clinton, o tartufo), ou bem com a “ajuda externa” (cerca de US$ 50 milhões, além de empréstimos do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial).
        A justiça é lenta, mas os gringos tinham pressa: o governo Bush, prossegue o referido articulista, precisava mostrar ao Congresso estadunidense que “as autoridades de Belgrado estavam cooperando o suficiente com o tribunal de crimes de guerra de Haia, nas questões de direitos humanos e no acordo Dayton de 1995, que colocou fim à guerra na Bósnia”.  Bush e seu bando não são conhecidos por um apego especial à causa dos direitos humanos. Não há, pois de ter sido esta a inspiração da mensagem que mandou seu embaixador entregar “aos líderes de Belgrado”⁽¹⁶⁾, com a seguinte ordem: “Prenda Milosevic”. Entretanto, o jornalista foi sincero (ou tolo?) o bastante para esclarecer que “Washington não especificou sob quais acusações Milosevic deveria ser preso, nem insiste para que ele seja transferido imediatamente para Haia”. Tratados, pois com aquela falta de cerimônia de milionário texano, sem perder tempo com argumentos e outros floreios, os “líderes de Belgrado”, abanando a cauda ao som da voz do dono, cumpriram as ordens recebidas. Inteira razão tinha Milosevic ao tratá-los de “lacaios da OTAN”.
        Dois meses depois, a despeito do mentiroso Kostunica ter reiteradamente afirmado que Milosevic seria “julgado” na Sérvia, ele foi entregue aos agentes da OTAN, sem nenhuma decisão judicial que autorizasse sua extradição e  entregue aos carcereiros do subserviente Tribunal Internacional de Haia e encarcerado na Holanda, onde travaria seu último combate.



O Exemplo de Dimitrov

        Vale a pena relatar as circunstâncias desse processo, não só para traçar um paralelo com o que terminou com a morte de Milosevic, mas também para relembrar que os comunistas foram os mais decididos e corajosos adversários do nazi-fascismo. Mesmo porque a máquina de propaganda imperialista, alimentada pelos “cientistas políticos” do dólar, do Pentágono e da CIA (entre os quais se incluem eminentes pensadores de todos os matizes do liberalismo, de Hayek a Hannah Arendt), empenha-se em assimilar o comunismo ao nazi-fascismo, apresentando-os como espécies do gênero “totalitarismo”. Esse termo, forjado por Mussolini e assumido, em sentido positivo, por seus partidários, nomeadamente pelo filósofo reacionário Gentile, para caracterizar a peculiar “visão fascista do mundo”, foi transposto com sentido pejorativo ao arsenal de propaganda da “guerra fria”⁽¹⁷⁾ com o explícito objetivo de desqualificar a União Soviética, pouco lhes importando estropiar descaradamente os mais gritantes fatos históricos, a começar o de que o fascismo e mais tarde o nazismo constituíram respostas contrarrevolucionárias ao avanço do movimento operário, principalmente comunista. A indústria sionista do holocausto contribui para essa impostura ao restringir a denúncia dos crimes nazistas à perseguição dos judeus, a qual só começou a atingir escala de genocídio a partir de 1940, quando comunistas e social-democratas, primeiros inquilinos dos campos de concentração, tinham sido liquidados. Isso não diminui em nada o horror do martírio imposto aos judeus. Mas os vinte e sete milhões de soviéticos que morreram na luta contra as hordas hitlerianas devem cair no esquecimento?
        Dimitrov já tinha atrás de si uma larga e dura trajetória militante quando foi preso em Berlim, em 9 de março de 1932⁽¹⁸⁾. Em 1902, com vinte anos, aderiu ao Partido Operário Social-Democrata Búlgaro (POSDB). Em 1903, acompanhou o fundador do Partido, Dimitri Blagoev, o mais importante dirigente marxista de sua época nos Bálcãs, na formação da ala revolucionária (socialista de esquerda) do POSDB. Em 1909, foi eleito membro do Comitê Central do Partido e em 1913, deputado na Assembleia Nacional da Bulgária. A vaga internacional de entusiasmo suscitada pelo triunfo da Revolução Russa de outubro 1917 repercutiu com especial profundidade entre os búlgaros, até por razões histórico-culturais. (Diferentemente dos poloneses, anti-russos há muitos séculos, os eslavos do sul receberam apoio decisivo do Czar e da opinião russa, inclusive com envio de voluntários, em suas lutas de libertação contra o império otomano). O XXII Congresso do POSDB, ala socialista de esquerda (Sofia, 25 a 27 de maio de 1919) decidiu aderir sem reservas à Internacional Comunista, modificando consequentemente o próprio nome para Partido Comunista. Nas eleições legislativas búlgaras de 22 de abril de 1922, a aliança do partido camponês (União Agrária) e do comunista obteve 74% dos sufrágios.
        Entretanto, faltava consistência ao governo formado pelo partido camponês (União Agrária), com apoio dos comunistas e confiança entre as duas forças que o compunham. Stramboliiski, da União Agrária, que chefiava o governo desde o final de 1919, temendo ser ultrapassado por seus aliados, hesitava em tomar medidas enérgicas para deter as manobras contrarrevolucionárias da burguesia.
        Naquele momento, a vaga revolucionária do proletariado europeu já estava entrando em refluxo. Na Alemanha e na Hungria, levantes revolucionários tinham sido esmagados. No norte da Itália, durante o “biênio vermelho” (1919-1920), os operários haviam tomado as fábricas, os camponeses e proletários agrícolas ocupado fazendas, mostrando que não necessitavam dos capitalistas para dirigir a produção. Suprema insolência que os magnatas da indústria, os latifundiários, os banqueiros e outros milionários ansiavam por castigar.  Compreende-se que tenham não somente subvencionado a contrarrevolução, mas também apoiado ou pelo menos aprovado, em 1922, a Marcha sobre Roma, que valeu a Mussolini, à frente daquele grotesco desfile enquadrado por seus arditi e outros espancadores e terroristas profissionais, o convite do Rei Vittorio Emanuele III para formar um novo gabinete. O sinistro palhaço, macaqueando poses de imperador romano e envergando o título de Duce, não tardou a instaurar sua ditadura terrorista.
        Estimulada pelo sucesso de tantas contrarrevoluções, a reação búlgara não conteve sua sanha. Na noite de 9 de junho  de 1923, enquadrado por veteranos de guerra, notadamente os 10.000 russos do barão Pyotr Nikolayevich Wrangel⁽¹⁹⁾, um movimento sedicioso desfechou um golpe de Estado, derrubando o governo Stamboliysky e massacrando ministros e deputados agrários. O Partido Comunista cometeu o erro gravíssimo de permanecer de braços cruzados. Tsankov, chefe do governo golpista, não cometeu o erro oposto. Após desmantelar a União Agrária, voltou-se contra o movimento sindical. No dia 12 de setembro, desencadeou furiosa operação policial, prendendo mais de 2.000 militantes, fechando clubes operários, gráficas, confiscando fundos e arquivos do Partido Comunista etc. O Partido respondeu imediatamente por uma insurreição, dirigida por Dimitrov e por Vassil Kolarov. Batismo de fogo dos comunistas búlgaros, ela foi lançada com forte ímpeto e suscitou inumeráveis atos de heroísmo popular. Mas a superioridade de recursos bélicos da reação acabou se impondo. Dimitrov logrou organizar a fuga dos destacamentos vermelhos que não tinham sido aniquilados, livrando-os das garras de Tsankov e preservando-os para os combates futuros, que não tardariam muito.    
        Condenado duas vezes à morte (desperdício jurídico, já que morremos uma vez só), pelos rábulas da ditadura militar criptofascista, Dimitrov passou a atuar em tempo integral, a partir de 1923, no Comitê Executivo da Internacional Comunista, do qual se tornou um dos mais proeminentes dirigentes.
        Nessa condição, dez anos depois, ele estava clandestino na Alemanha, onde o marechal Hindenburg, último presidente da moribunda República de Weimar, vinha de nomear chanceler o conhecido extremista de direita Adolf Hitler, abrindo aos nazistas as portas do poder. A novidade da situação política explica porque a clandestinidade de Dimitrov não era tão rigorosa: estava habituado à polícia de Weimar, não à dos celerados da cruz gamada. Preso em 9 de março de 1933 em Berlim, foi imediatamente acusado de “tentar mudar a estrutura de Estado da Alemanha pela violência” (em evidente contraste com os métodos pacíficos, humanitários e legalistas dos nazistas) e, sobretudo “de ter incendiado o Reichstag”. Entrementes, a polícia já havia agarrado, nas cercanias do local, logo depois do atentado, o holandês Marinus van der Lubbe, ex-militante do Partido Comunista de seu país. Torturado pela Gestapo, confessou ser autor do incêndio, negando, entretanto, que se tratava de um plano comunista. Não obstante, Hermann Goering, presidente do Conselho da Prússia, mandou prender os principais dirigentes do Partido Comunista Alemão (KPD). Dimitrov, naquele momento, viajava num trem que ia de Munique a Berlim, sem ter a mais pálida ideia do que ocorria no Reichstag. O que explica a facilidade com que caiu nas garras da Gestapo.



Os Porões e o Palco

        Talvez algum leitor se lembre da série de três artigos que consagrei, em meados de 2004, ao poeta comunista armênio Missak Manuchian. Não conheço a língua armênia, li apenas alguns de seus poemas em francês. Como a grande maioria dos de minha geração da anterior), soube quem ele tinha sido através de “L’affiche rouge” (O cartaz vermelho), um dos mais belos e entranháveis poemas da literatura francesa do século XX, em que outro poeta, o comunista francês Louis Aragon, pôs em versos, onze anos depois, a carta-testamento pungente escrita por Manuchian na manhã de 24 de fevereiro de 1944, dirigida a Melinê, sua amiga, mulher e camarada, logo antes de ser conduzido, junto com vinte e dois companheiros de seu grupo de combate, ao Mont Valérien, onde a Gestapo, coadjuvada por colaboradores locais, fuzilava os militantes da resistência antinazista.
        Dimitrov não era poeta, mas tinha dois pontos importantes em comum com Manuchian e Aragon: era comunista e militante antifascista. Com Manuchian, ademais, teve em comum a experiência de ser réu num tribunal nazista. Notei, a propósito do processo da “rede Manuchian”, que os nazistas a tal ponto gostavam de grandes espetáculos, que mesmo num país ocupado e já com a guerra praticamente perdida no Leste (onde recuavam em passo acelerado diante da vitoriosa contraofensiva do Exército Vermelho), não quiseram perder a ocasião de montar uma peça de propaganda contra a Resistência, apresentando-a como obra de terroristas estrangeiros. Diferentemente do que ocorria nos “interrogatórios” no fundo dos porões da Gestapo, o comando nazista conferiu inusitada publicidade às audiências, transformando o procedimento judicial, que durou três dias, em grande espetáculo. A imprensa foi convidada: cerca de trinta jornais franceses e estrangeiros estavam representados. Os serviços de propaganda alemães enviaram uma equipe de cinema. Estimulando a xenofobia, o antissemitismo e o anticomunismo da opinião pública, a rádio e os jornais do governo fantoche pró-nazista instalado em Vichy retomaram o tema do “judeu-bolchevismo, agente do banditismo”. O objetivo, evidente, foi enfatizado pelo presidente da corte marcial: “expor à opinião francesa a que ponto sua pátria está em perigo”.
        Onze anos antes, os nazistas, que haviam então acabado de chegar ao governo, mas ainda não tinham tomado todo o poder, deram também grande publicidade ao processo de Dimitrov. Hitler explicou porquê, quando, acompanhado de sócios do alto comando nazista, veio contemplar o Reichstag em chamas, na noite de 27 de fevereiro de 1933. Logo ao chegar diante do incêndio, comentou: “Ein Zeichen von Himmel!” (um dom do céu). Ele próprio, com efeito, com autorização do marechal Hindenburg, último presidente da República de Weimar, que vinha de nomeá-lo chanceler, havia convocado eleições gerais para o dia 5 de março. Os nazistas e seus aliados da direita precisavam de maioria de dois terços para  reformar radicalmente a Constituição. Durante a campanha eleitoral os partidos de esquerda foram constantemente agredidos pelas tropas de choque da cruz gamada, além de terem sido prejudicados por medidas discriminatórias tomadas pelo governo, notadamente suspendendo por uma ou duas semanas jornais social-democratas e comunistas (Vorwärts, Rote Fahne) e até o liberal Berliner Tageblatt.
        Graças ao dom trazido pelo céu na noite de 27 de fevereiro, Hermann Goering pôde usar todos os recursos policiais que seu cargo de presidente do Conselho da Prússia lhe punha à disposição para criar, por meio de uma vaga de prisões de dirigentes da oposição (a começar de Ernst Torgler, dirigente da bancada comunista no Reichstag), o ambiente eleitoral propício aos nazistas. Mesmo assim, estes não obtiveram mais do que 43,9% dos votos, os quais, somados aos da direita tradicional, chegavam a 52%, o que não bastava para reformar radicalmente a Constituição. Apesar do terrorismo de Estado, dos assassinatos de militantes operários, cujos cadáveres, como os de Rosa Luxemburgo e Liebknecht, apareciam boiando nos rios, os comunistas elegeram 81 deputados. Mas os celerados da cruz gamada já estavam fortes o suficiente para reformar a Constituição por meio de seus métodos preferidos, notadamente quebrando ossos (uma especialidade da Gestapo) ou atirando à queima-roupa para matar.
        Os deputados comunistas não chegaram a exercer seus mandatos. Foram presos à medida que se apresentavam para assumi-los. Os sindicatos social-democratas, que sempre lançavam manifestos a favor dos candidatos de seu partido, tinham resolvido, desta vez, agir “prudentemente”, “liberando” o voto dos militantes. Esperando conseguir melhor tratamento do que o reservado aos comunistas, chegaram a reproduzir em sua imprensa trechos dos discursos de Hitler, para mostrar que era possível chegar a algum acordo. Tiveram logo de perder as ilusões. Após anunciar, no dia 1º de maio, que “a revolução nacional” tinha começado, o Führer mostrou aos cordeiros que é inútil querer negociar com os lobos: no dia 2 de maio, em ação simultânea em todo o território alemão, suas tropas de choque se apoderaram dos bens de todas as organizações operárias; no dia 10, foi a vez dos bens do Partido Social-Democrata: prédios, gráficas, fundos etc. e, no dia 18, enfim, o da “formidável rede de cooperativas de produção e consumo, orgulho do socialismo alemão”, na expressão de Antonio Ramos Oliveira, em sua excelente história da Alemanha⁽²⁰⁾. Dirigentes sindicais social-democratas que tinham ocupado altos cargos, nomeadamente Leipart e Grassmann, levados à prisão de Ploetzensee, sofreram humilhações bem no estilo da calhordice hitleriana: foram obrigados a cantar o hino Horst Wessell, a dar vivas a Hitler e a dar pulos de palhaço.
        Ramos Oliveira descreveu concisamente o que ocorria na Alemanha naquele momento: “O terror chegava então a seu ápice. Dois milhões de alemães caminhavam para os campos de concentração e os cárceres. As hordas das SA⁽²¹⁾ tinham enfim o domínio das ruas. Judeus, social-democratas, comunistas, liberais, estavam presos nas tenazes dos nazistas, que não respeitavam nem sexo nem idade. O mundo descobriria logo com horror aquilo que deveria saber desde o começo”⁽²²⁾.
        Esse era o sombrio contexto em que Dimitrov foi preso e conduzido a julgamento. Desde o início, lutou obstinadamente por um objetivo que pode parecer desmesurado, mas estava à  altura de sua firmeza de caráter e de sua inteligência política: converter o planejado processo contra o Partido Comunista em processo contra o nacional-socialismo. Esse prop
        “Soube da notícia do incêndio do Reichstag pelos jornais, na manhã de 28 de fevereiro, no trem de Munique a Berlim […]. Vi pela primeira vez o nome e a fotografia do “incendiário” nos jornais alemães […]. Jamais o vi ou encontrei em minha vida. Como comunista sou por princípio oposto ao terrorismo individual […] esses atos são incompatíveis com os princípios e métodos comunistas do trabalho de massa […]. Tenho a profunda convicção de que o incêndio do Reichstag só pode ser obra de insensatos ou dos mais ferozes inimigos do comunismo, que, por este ato, quiseram criar uma atmosfera favorável ao esmagamento do movimento operário e do Partido comunista na Alemanha”⁽²³⁾.
        Ao longo do processo, manteve a mesma atitude. Reproduzimos passagens do estenograma da audiência de 26 de setembro de 1933, à qual Dimitrov foi trazido na qualidade de cúmplice do holandês Van der Lubbe. Entende-se sua preocupação em pôr em evidência essa mentira descarada:

        Dimitrov: Queria protestar contra a adulteração de que foram objeto minhas palavras reproduzidas na imprensa fascista.
        O Presidente: […] O senhor não está com a palavra. Decido eu qual o momento das declarações.
[…]
           Dimitrov: Constato que estou privado da possibilidade… 
        O Presidente: Silêncio! O senhor não pode constatar nada aqui. Dirija-se a seu defensor!
            Dimitrov: Assumo minha própria defesa!
        O Presidente (dirigindo-se a Van der Lubbe) Por que o senhor provocou esses três incêndios?
        Van der Lubbe (após um longo silêncio, responde através do intérprete): Por razões pessoais.
           O Presidente: O que o senhor quer dizer com isso?
        Van der Lubbe: Eu mesmo não o sabia. (No entanto, esclarece o editor das "Oeuvres Choisies" de Dimitrov, consta no processo que Van der Lubbe declarou ter ateado fogo no Reichstag “para incitar os operários a fazer uma revolução enquanto não fosse tarde demais[…]”). 
          O Presidente: Esse fato não devia expressar um protesto público contra o capitalismo? (Van der Lubbe permanece em silêncio).
        Dimitrov: É inexplicável que Van der Lubbe tenha podido fazer depoimentos tão pormenorizados diante do huiz de instrução e agora, na audiência pública diante do tribunal, ele se cale […].
        O Procurador supremo e o Presidente (interrompendo-o): O senhor não está aqui para construir nenhuma hipótese […]⁽²⁴⁾.



O Pior Incendiário Não Foi o Pirômano

        Tão tenaz é a intoxicação mental imposta pela ditadura mediática do capital a tudo que concerne à União Soviética, que mesmo intelectuais honestos, com razoável cultura política e alguma simpatia pelo marxismo não encontram mais forte argumento para condenar a política externa do Estado soviético do que o pacto nazi-soviético de 1939, ocultando que constituiu a réplica, estrategicamente lógica, ao pacto liberal-nazista de 1938, concluído em Munique, entre Daladier, Chamberlain (chefes de governo respectivamente da França e da Inglaterra), Mussolini e Hitler, ao qual foi entregue a Tchecoslováquia, mais precisamente a Boêmia-Morávia e a Eslováquia (onde se instalou uma autoridade vassala de Hitler). O governo soviético, a despeito do tratado de defesa mútua que havia assinado com o governo tcheco, foi mantido fora das negociações anglo-franco-ítalo-alemãs.
        Ressalvada a boa fé de alguns que não estudaram nada e apenas repetem o que lhes disse o último guru anticomunista a que deram eram ouvidos, qualquer estudo sério sobre a diplomacia das grandes potências europeias entre 1936 e 1939 põe a nu a perfídia da diplomacia francesa e britânica, que se recusavam, recorrendo aos mais torpes artifícios, a concluir uma aliança militar defensiva com a URSS. É que, na verdade, estavam empenhadas em dirigir contra ela os ânimos guerreiros do expansionismo nazista.
        Em contraste com essas manobras dos círculos dirigentes da burguesia europeia, taticamente espertas — mas estrategicamente estúpidas, já que contribuíram decisivamente para os planos de Hitler, permitindo-lhe levar adiante, em ritmo acelerado, o rearmamento alemão — os comunistas, que desde o início dos anos 1920 vinham enfrentando o fascismo, infligiram aos nazistas, em seu próprio terreno e no ano mesmo em que eles tinham chegado ao poder, sua primeira derrota política. O processo de Dimitrov, com efeito, mostrou com que firmeza os dirigentes do Komintern se comportavam quando caíam nas mãos do inimigo, mas sobretudo comprovou perante a opinião internacional (composta em larga medida, é verdade, do pior tipo de cego, o que não quer ver) que os próprios nazistas tinham incendiado o Reichstag, manipulando um doente mental, o holandês Marinus Van der Lubbe.  Apoiamo-nos uma vez mais na "Historia Social y Política de Alemania, 1800-1950" de A. Ramos Oliveira, para tirar as conclusões a partir dos dados oferecidos pelos próprios técnicos da polícia alemã e confirmados no processo:
  • O incêndio começou em vários lugares ao mesmo tempo. Van der Lubbe era pirômano. Tinha já provocado três pequenos incêndios desde que chegara a Berlim. Mas não era mágico. Dois minutos e cinco segundos após ter entrado no Reichstag, o corpo central do edifício já estava em chamas. Incêndio demais para um tresloucado só.
  • A quantidade de combustível (gasolina principalmente) utilizada foi enorme,  sem comparação com a que Van der Lubbe tinha levado.
  • Todas as portas do Reichstag foram imediatamente bloqueadas pela polícia, que só prendeu Van der Lubbe. Prova de que agiu sozinho, a despeito dos fortíssimos indícios em contrário? Não: a polícia não bloqueou uma galeria subterrânea de calefação que punha em contato o subsolo do edifício com o palacete do presidente do Parlamento da Prússia, cargo ocupado então por um certo Hermann Goering. Por ali passaram os incendiários e para lá fugiram cumprida a sinistra empreitada.
        Megalômano, como tantos outros oligofrênicos, o pobre Van der Lubbe achou que tinha feito tudo sozinho. Contribuiu assim, involuntariamente, para camuflar a ação dos verdadeiros incendiários. Condenado à morte e rapidamente executado, morreu sem saber que tinha sido apenas um inocente útil⁽²⁵⁾. Ou, como disse Dimitrov em carta de 12 de outubro de 1933, dirigida ao presidente da IV Seção Penal da Corte do Reich: “Van der Lubbe nesse processo pode ser chamado o Fausto do incêndio do Reichstag e, sem a menor dúvida, por trás dele movia-se então o Mefisto do incêndio do Reichstag. Mefisto desapareceu e o miserável Fausto ficou só diante da Corte do Reich”⁽²⁶⁾. É altamente provável que Dimitrov, em seu foro íntimo, estivesse já convencido de que o Mefisto em questão se chamava Hermann Goering. Mas dizer isso, naquele momento, sem qualquer prova material, só iria prejudicar sua defesa. Soaria como provocação.
        Dentre os muitos momentos dignos de registro no processo de Dimitrov, os mais célebres são os de seu confronto com Goering, que compareceu na qualidade de testemunha, com o objetivo de se exibir ao mundo inteiro esmagando o prisioneiro comunista. Este, juntando a audácia de quem se considerava homem morto, ou no melhor dos casos, inquilino perpétuo dos campos de concentração, a um insuperável talento de polemista alimentado por inteligência incomum, estragou a festa do presidente do Conselho e ministro do Interior da Prússia. Concordamos com Ramos Oliveira: "A conduta do revolucionário búlgaro causou assombro.  Tamanha audácia salvou Dimitrov, porque num par de dias sua figura atraiu para si a atenção universal e ficou mais difícil para os nazistas eliminá-lo sem escândalo. Dimitrov se considerava perdido […] conhecendo o que o esperava, decidiu antecipar-se à crueldade nazista pondo no ridículo o sistema e Goering"⁽²⁷⁾.
        Goering compareceu no tribunal no dia 4 de novembro de 1933. Desde o início de seu depoimento, Dimitrov passou à ofensiva, mostrando as contradições entre as declarações do Mefisto e os depoimentos de outras testemunhas. Este, derrotado na batalha da inteligência,  não tardou a mostrar o porrete. A Dimitrov, que insistia na mais do que suspeita rapidez com que, apenas declarado o incêndio, haviam começado as prisões de comunistas, vociferou, desfazendo-se do verniz de compostura: “[…] eu estava convencido de que era preciso buscar os criminosos em vosso (dirigindo-se a Dimitrov) partido. (Ameaçando Dimitrov com o punho e berrando): Vosso partido é um  partido de criminosos e deve ser suprimido!”. Sem se intimidar, Dimitrov elogia a União Soviética e diz que os melhores filhos do povo alemão são comunistas. Goering berra mais alto: “Vou lhe dizer o que o povo alemão sabe. […] que o senhor se conduz aqui de maneira insolente e que o senhor veio aqui para tocar fogo no Reichstag. […] O senhor não passa de um malfeitor que deve ser enforcado bem alto com corda curta”. O Presidente da Corte retira a palavra a Dimitrov. Enquanto os policiais o agarravam, este ainda teve tempo de perguntar a Goering (que continuava berrando: “Fora, celerado!”): tem ainda tempo de interpelar: “O senhor provavelmente tem medo de minhas questões, senhor Presidente do Conselho”. O outro replica, furibundo: “Presta atenção, toma cuidado, vou acertar as contas assim que V. sair da sala de audiência! Celerado!”⁽²⁸⁾.
        Também Goebbels, que assumira o Ministério da Propaganda do gabinete chefiado por Hitler, compareceu ao tribunal para prestar depoimento no dia  8 de novembro. Entre outras questões e ponderações, Dimitrov observou ao depoente que  terrorismo era uma especialidade dos nazistas: “Durante o outono de 1932, quando Papen e, depois dele, Schleicher, foram chanceleres do Reich, toda uma série de ataques e atentados com explosivos foi cometida. Houve processos e pronunciaram-se condenações à morte para certos nacional-socialistas”. Goebbels tenta sair pela tangente: “É possível que provocadores tenham sido enviados […] ao seio do partido (nazista) para cometer tais atentados”. Dimitrov lembrou então que Hitler tinha felicitado solene e ostensivamente membros de seu partido condenados à morte por assassinato e que, logo ao chegar à chefia do governo, decretou anistia geral para todos os nazistas presos por terrorismo. Goebbels respondeu que seu governo não podia deixar na prisão “homens que, arriscando a vida e a saúde, tinham travado a luta contra o perigo comunista”5. Mesmo raciocínio, no fundo, que o das autoridades estadunidenses ao libertar o arquiterrorista Posadas Carriles⁽²⁹⁾.   


NOTAS DO AUTOR:

(1): Dentre as denúncias desta guerra covarde e criminosa publicadas naquela ocasião no Brasil, menciono o encarte (que organizei junto com o companheiro Marcos Del Roio) de Novos Rumos, nº 31, 1999, que contém, entre outros, o notável artigo de Domenico Losurdo “Belgrado como Stalingrado: o imperialismo estadunidense e o desmembramento da Iugoslávia”, bem como dois artigos publicados em Crítica Marxista nº 9, 1999: uma análise de João Roberto Martins sobre a “diplomacia dos porta-aviões” e um outro artigo de Losurdo sobre o mesmo tema, “Panamá, Iraque, Iugoslávia: os Estados Unidos e as guerras coloniais do século XXI”.
(2): A direita terrorista croata, conduzida pelo coronel Ivan Pertchevitch e pelo advogado Ante Pavelic, preparou vários atentados contra o rei Alexandre, não porque era rei, mas porque era sérvio. Em 9 de outubro de 1934, em Marselha, quando efetuava visita oficial à França, foi assassinado pelo terrorista macedônio Vlado Chernozemski, manipulado pelos croatas. No atentado morreu também Louis Barthou, ministro francês das relações exteriores, cuja política centrava-se no esforço para isolar diplomaticamente a Alemanha nazista. (Aproximou-se da União Soviética com esse intuito).  
(3): Retomo aqui passagens do artigo “Grandeza e Agonia da Iugoslávia”, que publiquei no referido encarte de Novos Rumos.
(4): Uma cronologia, cujo marco zero é o ano de 1986 e o marco final a derrubada de Milosevic, relembra os principais episódios do lento, gradual e implacável esquartejamento do que foi seu país. Ver, em especial, as páginas 22 a 30.
(5): Citado por Gilbert Badia, Histoire de l’Allemagne contemporaine, vol., II, Paris, Éditions Sociales, 1964, p. 153.
(6): A Dinamarca, valente para provocar islâmicos, sequer fingiu esboçar uma reação à ocupação nazista. No dia 9 de abril de 1940, as tropas da cruz gamada instalaram-se tranquilamente no país.
(7): Cf. O Estado de São Paulo de 25 de março de 1999.
(8): Mais conhecido pelo pseudônimo “Pablo”, Raptis prestou corajoso apoio à FLN (Frente de Libertação Nacional) argelina na luta pela independência nacional. Preso em Amsterdã por participar de uma operação de falsificação de dinheiro combinada ao contrabando de armas para os patriotas da FLN, transformou sua defesa, seguindo o exemplo do “stalinista” Dimitrov, numa ardorosa denúncia das atrocidades cometidas pelo colonialismo francês. O texto desta denúncia está em "Quatrième Internationale" nº14, novembro de 1961. Após quinze meses de prisão, Pablo foi libertado graças a uma campanha internacional lançada por Jean-Paul Sartre. Após a vitória da guerra de libertação nacional, Pablo foi nomeado ministro do governo revolucionário argelino. No início dos anos setenta ajudou muitos exilados brasileiros, entre os quais me incluo.
(9): Michel Pablo, “The Yugoslav Affair (August 1948)”, Fourth International, Vol.9 No.8, December 1948, pp.235-242. Transcribed & marked up by Einde O’Callaghan para Marxists’ Internet Archive. A tradução para o português é nossa. O tema central deste artigo de Pablo é a ruptura de Stalin com Tito.
(10): O relato resume o capítulo 13 de Kaputt, “Um cesto de ostras”,  título que retomamos em epígrafe. As passagens entre aspas são de Malaparte.
(11): Intervencionistas alemães acusaram os sérvios de ter colocado um “S” em suas casas no Kosovo para se distinguir dos albaneses. Imputar a outros povos os crimes cometidos por seu próprio povo é uma velha impostura que a intoxicação mediática ajudou a voltar à moda. Foram os fascistas croatas,  como testemunha Malaparte, que introduziram o método alemão na Iugoslávia. Quanto ao Kosovo, os traficantes de droga do ELK (Exército de Libertação do Kosovo), protegidos pela força de ocupação da OTAN, mostraram, para massacrar sérvios indefesos, a “valentia” que lhes faltou  na hora de enfrentar um combate frontal.
(12): Equivale ao nosso “tudo bem”.
(13): O termo italiano “partigiano”, bem como o francês “partisan”, corresponde a “guerrilheiro”, designando notadamente as formações de combate que resistiram aos nazistas e fascistas. Quando os exércitos estadunidenses conquistaram a Sicília em 1943, serviram-se da máfia para  reprimir os “partigiani” comunistas. São célebres (para os comunistas da velha guarda) os versos de um canto da heroica resistência soviética, que reproduzo em francês, ignorante que sou da língua russa: “À l’appel du grand Staline Se levaient les partisans”.   
(14): “Serbian disunity clinches best of the worst”, Financial Times 26-6-06.
(15): Em Korisa, foram mortas, em 14 de maio de 1999, cerca de cem pessoas. Tais bombardeios, ordenados por Clinton, Blair e parceiros, violaram resolução da ONU, de agosto de 1996, que classificou de intrinsecamente criminoso o uso destas armas de destruição em massa. A OTAN, de resto, promoveu muitos outros bombardeios mortíferos de escolas, hospitais, embaixadas, pontes, instalações elétricas, etc.
(16): 
“Autoridades”, “líderes de Belgrado” não são, nesse contexto, meros chavões jornalísticos. Em particular, chamar de “líderes” aqueles tristes personagens que aceitam ordens transmitidas pela Embaixada do país que destruiu o seu é contribuir para uma falsificação histórica.
(17): 
Domenico Losurdo reconstituiu com irrefutável precisão analítica a lenta transmutação que Hanna Arendt imprimiu à noção de totalitarismo para adaptá-la ao arsenal ideológico da guerra fria. Ver "Crítica Marxista", nº 17, 2003.
(18): 
Apoiei-me, nas informações históricas que seguem, em "Oeuvres Choisies" em três volumes de Dimitrov (Sofia-Presse, 1972) e em "Précis d’histoire du Parti communiste bulgare", obra coletiva (Sofia-Presse, 1978).
(19): 
Wrangel sucedera a Denikin no comando do Exército Branco e em 1921 combatera os sovietes a partir de suas bases na Criméia, até ser expulso de lá pelo glorioso Exército Vermelho. Recebido em Constantinopla, então ocupada por seus protetores britânicos, transferira-se para a Bulgária, sempre prestando serviços à contrarrevolução.
(20): A. Ramos Oliveira, Historia social y política de Alemania, 1800-1950. Publicado no Mexico, Fondo de Cultura Econômica, 1952, p. 241 
(21): As SA (Sturm Abteilung, seção de assalto) eram unidades do braço armado do Partido nazista.  Foram criadas por Ernst Röhm, parceiro de Hitler desde o início dos anos 1920. Röhm levou a sério a demagogia anti-capitalista do Führer, ao qual os grandes trustes (o mais generoso foi o grupo Thyssen) forneciam parte substancial das finanças do Partido. Em 1934, após um ano no poder, Röhm exigiu que se cumprisse o artigo 11 do programa nazista: “supressão das rendas que não procedam diretamente do trabalho intelectual ou manual e abolição completa da servidão dos juros”. No dia 30 de junho, pressionado por seus benfeitores da indústria pesada, Hitler dissolveu as SA, prendeu Röhm pessoalmente e entregou-o à nova guarda pretoriana do poder, as SS (Schutz-Staffel=esquadrões de proteção) que o fuzilaram no ato.
(22): A. Ramos Oliveira, ib., p.241.
(23): George Dimitrov, Oeuvres Choisies, volume I, Sofia-Presse, 1972, p. 383.
(24): Dimitrov, ib., pp. 398-399.
(25): A. Ramos Oliveira, op.cit., pp.236-237.
(26): Georges Dimitrov, Oeuvres Choisies, volume I, Sofia-Presse, 1972, pp. 406-407.
(27): A. Ramos Oliveira, op.cit., pp. 238-239.
(28): Resumimos Dimitrov, Oeuvres Choisies, ib., pp. 415-420.
(29): Resumimos ib. pp. 421-429.

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