O editorial da da Executive Intelligence Review (EIR) de número 16 do mês de julho deste ano, escrito por Helga Zepp-LaRouche, coloca a questão que a humanidade enfrenta na sequência da falha e colapso da guerra de vinte anos da OTAN no Afeganistão: "A turbulência estratégica causada pela retirada, do Afeganistão, das tropas da OTAN, oferece uma excelente oportunidade para uma reavaliação da situação, para uma correção da direção política, e para uma nova política orientada para soluções. Há de se enterrar de vez, para nunca mais ser reavivada, a longa tradição de manipulação geopolítica nesta região, na qual o Afeganistão representa, de certa forma, o interface, entre o “Grande Jogo” do Império Britânico durante o século XIX, e o “Arco de Crise” de Bernard Lewis e de Zbigniew Brzezinski. Ao invés disso, todos os vizinhos na região (Rússia, China, Índia, Irã, Paquistão, Arábia Saudita, os Estados do Golfo e a Turquia) têm de ser integrados numa estratégia de desenvolvimento econômico que represente um interesse comum entre os mesmos, um interesse comum de ordem mais elevada, que seja mais atrativo que a continuação de seus respectivos supostos interesses nacionais".
Se, na sequência da retirada das forças da OTAN, o Afeganistão for deixado nas mãos de barões das drogas e seus exércitos, então cada homem, mulher e criança no mundo sentirá o impacto dessa ocorrência, dado o fato de que um Afeganistão desestabilizado continuará a servir de fonte para 80% do ópio no mundo e de santuário para ISIS/Daesh e al-Qaeda.
A única opção que pode prevenir um tal desastre é aquela referenciada por Zepp-LaRouche, e que é também aquela proposta por Lyndon LaRouche (o falecido marido de Zepp-LaRouche), ainda antes de George W. Bush ter iniciado a Guerra do Afeganistão há vinte anos atrás. A proposta é, nomeadamente, a de permitir ao Afeganistão que ponha um ponto final na sua História de “Cemitério de Impérios”, e que se torne o eixo central para uma Nova Rota da Seda expandida, conectando países da Ásia Central (desprovidos de litorais e áreas costeiras) ao oceano, através de uma linha ferroviária Norte-Sul via Cabul e Paquistão, bem como ligações Oriente-Ocidente ao longo do trajeto da antiga Rota da Seda.
As propostas de LaRouche começam com a necessidade de que todos os países da região se reúnam e cooperem com os afegãos, de modo tal a integrar o desenvolvimento de toda a região, em benefício coletivo. Os acontecimentos da última semana abrem um potencial muito real de que tal cooperação e integração sejam possíveis. A retirada militar dos EUA, após vinte anos de uma guerra inútil, destrutiva e letal, desencadeou ações por todas as nações regionais, que se juntaram esta semana numa série de conferências largamente focadas na urgência de levar desenvolvimento real ao Afeganistão.
Estas conferências incluíram a de 13 a 14 de julho, em Duchambé, capitado do Tadjiquistão, um encontro dos ministros das Relações Exteriores da Organização de Cooperação de Shanghai (SCO), que inclui China, Rússia, Índia, Paquistão, e quatro dos “istões” da Ásia Central, tal como dez outras nações, na qualidade de Observadores ou Parceiros de Diálogo. No centro das discussões (incluindo as discussões à margem do encontro), a ideia de que o Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC) pode ser estendido a partir de ramificações da ferrovia que se desenvolve entre a China e o território paquistanês até ao Porto de Gwadar, no Mar Arábico. De Islamabad, capital do Paquistão, a ligação se estenderia para ocidente, através de Pexauar e do Passo Khaibar, até Cabul, no Afeganistão e, depois para norte, com destino à Tashkent, no Uzbequistão. Então, continuaria a se desenvolver até, eventualmente, vir a estabelecer ligação com as ferrovias da Ponte Terrestre Eurasiática, conectando a China à Europa.
Este plano foi lançado em fevereiro, num encontro entre representantes do Paquistão, Afeganistão e Uzbequistão; o encontro chamou ao plano o Corredor Econômico do Passo de Khaibar. Uma proposta foi submetida ao Banco Mundial, embora também seja possível o envolvimento do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) e de outras instituições de crédito asiáticas. Neste contexto, durante esta semana o Paquistão propôs a criação de um banco de investimento da SCO. Paquistão e Afeganistão também acordaram a construção de uma autoestrada que ligue Cabul a Duchambé, Tadjiquistão.
Ainda antes do fórum da SCO, o ministro chinês das Relações Exteriores, Wang Yi, visitou o Turcomenistão — que não é um membro da SCO, mas faz fronteira com o Afeganistão — para consolidar segurança e cooperação energética. O Turcomenistão é o maior fornecedor de gás natural da China, através de uma série de gasodutos que atravessam o Uzbequistão e o Cazaquistão.
Nos dias 15 e 16 de julho, o Primeiro-Ministro paquistanês, Imran Khan, esteve em visita ao Uzbequistão para se reunir com o Presidente Shavkat Mirziyoyev. A Declaração Conjunta que emanou do encontro afirmava que “integração regional e conectividade” é a “pedra angular do desenvolvimento econômico e do progresso”, reiterando apoio ao projeto do Corredor Econômico do Passo de Khaibar.
Também nos dias 15 e 16 de julho, a “Conferência Internacional sobre Conectividade, Desafios e Oportunidades Regionais para a Ásia Central e do Sul” foi realizada em Tashkent, no Uzbequistão, com a presença de representantes de 40 governos da esfera regional e internacional. O Uzbequistão começou a organizar este evento na sequência do lançamento do Corredor Econômico do Passo Khaibar, em Fevereiro. Dilshod Saidjanov, vice-diretor da Agência de Informação e Comunicações de Massa (AIMC) uzbeque, disse à ANI, da Índia: “Desenvolvimento econômico é a forma pela qual o Afeganistão será tornado mais forte e, provavelmente, mais pacífico. Todos queremos melhor desenvolvimento no Afeganistão”.
O desenvolvimento vem antes da política
Será que os EUA se juntarão aos esforços para o desenvolvimento? Lyndon LaRouche, argumentou, celebremente, que a resolução de conflitos intratáveis tem de colocar o desenvolvimento real à frente dos acordos políticos: para que um acordo político possa ser sustido, há primeiro que se dar uma resposta às necessidades de bem-estar econômico que são comuns a ambos os lados. O projeto chinês da Iniciativa do Cinturão e Rota, que é uma evolução da proposta de LaRouche na sequência do colapso da União Soviética para uma “Nova Rota da Seda” que unisse as nações da Eurásia em desenvolvimento partilhado, é baseado nesse princípio.
Porém, os britânicos e o “Partido da Guerra” nos EUA (que abrange a maior parte tanto do Partido Republicano quanto do Partido Democrata) estão trabalhando a todo o vapor para prevenir qualquer envolvimento positivo dos EUA com esta política de desenvolvimento regional. Ao contrário, investem em aumentar a histeria antichinesa, arbitrariamente acusando a China de genocídio e declarando o Cinturão e Rota como sendo uma conspiração malevolente para assumir controle do mundo.
Existe, porém, uma sombra de esperança de que a Administração Biden adote uma abordagem sensata de cooperação para o desenvolvimento. Um comunicado do Departamento de Estado dos EUA de 16 de julho intitulado “Anunciando Apoio Regional EUA-Afeganistão-Uzbequistão-Paquistão para o Processo de Paz e para a Pós-Resolução no Afeganistão”. Essas são, de fato, as nações através das quais o Corredor Econômico do Passo Khaibar passará. O anúncio afirma que “as partes pretendem cooperar para expandir o comércio, construir ligações de trânsito, e fortalecer laços business-to-business”. Os Estados Unidos enviaram representantes importantes à supracitada Conferência de Tashkent ocorrente nos dias 15 e 16 de Julho — o diplomata Zalmay Khalilzad e a assistente do Presidente para a Segurança Interna, Elizabeth Sherwood-Randall. No entanto, não é de todo certo se estão seguindo a política do Departamento de Estado de demonização da China e da Iniciativa Cinturão e Rota, ou se escutaram os apelos das nações da região para uma transformação efetiva do Afeganistão.
De acordo com o canal chinês de notícias CGTN, durante o encontro dos ministros das Relações Exteriores da SCO, o ministro Wang Yi, tanto durante suas apresentações, como durante suas reuniões em privado, pressionou o grupo a encorajar os EUA a juntar-se à reconstrução do Afeganistão. Yi notou que os EUA expressaram recentemente, na sequência da retirada dos EUA e da OTAN, a sua prontidão para ajudar o Afeganistão a manter estabilidade e a conduzir uma reconstrução pacífica, devendo ser encorajados a honrar tais compromissos pelos Estados-membros da SCO.
Este desvio das agora-normais políticas americanas de sanções, guerras e subversão para mudanças de regime, deve ser fortemente encorajado. O envolvimento do Presidente Joe Biden com o Presidente Vladimir Putin, da Rússia, apesar das denúncias e sanções igualmente violentas do Congresso, e de dentro da própria Administração Biden, tanto contra a Rússia como contra a China, pode e deve ser repetida com a China e com o Presidente Xi Jinping. O embaixador do Afeganistão na China, Javid Ahmad Qaem, foi citado no Global Times de 17 de julho: "O único lugar em que os EUA, a China e a Índia podem realmente cooperar — ou, ao menos, que pode ser um ponto de partida para cooperação entre estes rivais, se lhes posso chamar assim — é o Afeganistão".
Um acordo internacional de cooperação com o Afeganistão e com os seus vizinhos para transformar a região num eixo central para o processo global da Iniciativa Cinturão e Rota serviria também de modelo para outros cenários de crise, incluindo as nações arruinadas por conflito, como Iraque, Líbia, Síria, e Iêmen. Este é o princípio da “Coincidência de Opostos” do Instituto Schiller: colocar um ponto final em conflitos aparentemente irreconciliáveis pela oferta de resposta ao princípio de ordem mais elevada, relacionado com os interesses comuns de todos, para a paz através do desenvolvimento. Uma abordagem tão otimista como esta pode parecer impossível; porém, qualquer outra alternativa é impensável. A humanidade ascendeu da Idade das Trevas no passado, criando uma Renascença quando nada menos que isso funcionaria. Os dias de hoje têm de encontrar pessoas armadas com nada menos que a vontade criativa necessária à construção de uma nova Renascença.
| O mapa mostra parte da proposta ferroviária russa. As vias férreas já existentes estão em preto, a ferrovia proposta está em laranja. Estas ferrovias são parte de um corredor de desenvolvimento Norte-Sul (entre Omsk, na Rússia, e Karachi, Paquistão), e intersectam-se ou desenvolvem-se em paralelo com ferrovias planejadas para a Ásia Central e para o Paquistão, sob a égide do Cinturão Econômico da Rota da Seda, uma iniciativa chinesa. |
Comentários
Postar um comentário