ANDREW KORYBKO: Ucrânia está sofrendo de morte por desindustrialização

 

        O 30º aniversário da independência ucraniana é um momento sombrio para refletir sobre o que deu errado ao longo dos anos com este país anteriormente promissor. Longe de ser a superpotência industrializada de que seus líderes juraram que estava destinada a se tornar, a nação da Europa Oriental se desindustrializou rapidamente, sofre de uma pobreza abjeta, tem taxas de emigração incontroláveis, é incorrigivelmente corrupta, mergulhada em uma guerra civil não resolvida, amargamente dividida entre os seus grupos étnicos nativos, e dominada por potências estrangeiras. Não havia de ser assim, e é por isso que aprender mais sobre o que aconteceu por lá pode ser muito instrutivo para outros países, a fim de evitar seguir seu mesmo caminho de autodestruição.

        A Ucrânia de 1991 herdou o glorioso legado da industrialização soviética, que foi responsável pela reconstrução do seu rico território após a tragédia da Segunda Guerra Mundial. Foi um dos lugares mais industrializados e prósperos da antiga União Soviética. O seu povo viveu respeitavelmente, e muitos observadores previram que o futuro da Ucrânia seria brilhante. O problema, porém, foi que não controlou os oligarcas que se ergueram das cinzas do colapso soviético. Estes elementos corruptos da sociedade capturaram rapidamente o controle do Estado e lucraram à sua custa, o que, por sua vez, agravou rapidamente as condições de vida das dezenas de milhões de pessoas do País.

        Permitiram que a capacidade industrial do país se desmoronasse, o que fez com que a famosa empresa aeroespacial Yuzhmash se tornasse apenas uma sombra de seu passado, e a única indústria de construção naval de primeira classe da Ucrânia, em Nikolaev e Kherson, deixasse de existir. À medida que o seu povo se tornou mais pobre, tornou-se naturalmente mais desesperado pela mudança, o que o predispôs a cair sob a influência de ideologias ultranacionalistas e liberal-democratas propagadas externamente. Levou algum tempo, mas estes processos acabaram por remodelar muitas das percepções do povo ucraniano sobre o seu país e o futuro que este deveria ter, o que acabou por fazer com que boa parte dele acabasse sendo usado como peões na luta geopolítica do Ocidente contra a Rússia.

        O Ocidente cultivou “revolucionários coloridos” a fim de os acionar sempre que sentir seus interesses ameaçados por certos políticos no poder. A liderança da Ucrânia sempre foi corrupta e ineficaz em governar devidamente o País de forma a romper com seu lento colapso — alguns líderes, entretanto, não foram tão maus comparativamente quanto outros, ou pelo menos não aceleraram este processo tão rapidamente como algumas das alternativas poderiam ter sido. O Ocidente se beneficiou com a desindustrialização da Ucrânia, impulsionada pela oligarquia, porque removeu os concorrentes sérios às suas próprias indústrias e também catalisou a emigração em grande escala que poderia então ser explorada como mão-de-obra barata.

        A única coisa que impediu o súbito colapso da Ucrânia sempre foi o desejo de alguns de seus líderes em manter um certo grau de relações pragmáticas com a Rússia, que foram mutuamente benéficas e ajudaram a amortecer a decadência ucraniana. O povo ucraniano pôde sempre contar com o mercado de trabalho e exportação russo, o que, sem dúvida, estabilizou muitas das suas vidas durante esses tempos difíceis. Da perspectiva ocidental, porém, isto era algo que tinha de ser travado o mais cedo possível para empurrar a Ucrânia para a queda livre econômica. Isto explica porque acionaram seus “revolucionários coloridos” no fim de 2013, após seu líder na época ter hesitado no último minuto em assinar o Acordo de Associação com a União Europeia.

        A rápida sequência de acontecimentos desencadeada por isso levou à onda de terrorismo urbano popularmente conhecido como Euromaidan e a reunificação democrática da Crimeia com a sua histórica Pátria russa, que por sua vez lançaram as bases para a Nova Guerra Fria ocidental contra a Rússia. O resultado foi que os oligarcas corruptos da Ucrânia caíram sob o controle total das forças estrangeiras, que então governavam o País por procuração, a fim de levar a cabo o seu objetivo de desencadear o seu colapso definitivo. A subsequente Guerra Civil Ucraniana no Donbass foi explorada como pretexto para cortar praticamente todos os laços com a Rússia, o que empurrou a Ucrânia ao limite e fez com que as últimas duas décadas e meia de independência parecessem nunca terem existido.

        Nunca antes as divisões internas tinham sido tão agudas entre o seu povo nativo ucraniano e russo. O Governo fantoche estrangeiro que foi instalado após o EuroMaidan abraçou os contraditórios ideólogos do ultranacionalismo e da democracia liberal, o primeiro dos quais se manifestou, sem dúvida, como neonazismo, enquanto o último era apenas superficial e encarnava todos os problemas disfuncionais desse modelo. As políticas discriminatórias do Estado contra a sua minoria nativa russa, combinadas com a criminalização de quase todos os grupos de oposição, criaram um sistema tirânico diferente de qualquer outro na Europa moderna. As eleições ainda são realizadas, mas não são livres e justas, sendo realizadas apenas teatralmente para apaziguar o público ocidental.

        Olhando para trás, é claro ver o que correu mal. A Ucrânia não conseguiu controlar a corrupção, que foi a primeira ameaça à sua segurança nacional. Isto destruiu gradualmente sua economia e tornou seu povo suscetível aos ideólogos propagados externamente, concebidos para agravar a desestabilização. À medida que o País mergulhava em seu lento colapso, seu povo cada vez mais empobrecido, na sua maioria, emigrava ou recorria ao crime, com outros sendo arrastados para movimentos políticos radicais que mais tarde seriam armados e acionados oportunamente. Esse momento chegou quando o ocidente mostrou as garras e quis desencadear o súbito colapso do País, provocando o pretexto de romper completamente Ucrânia e Rússia, como aconteceu depois de 2014.

        Ao perder o seu único parceiro fiável, a Ucrânia entrou em queda livre, tornando-se rapidamente o pior lugar da Europa pela maioria das métricas e equivalente nestes aspectos a uma nação típica do “Sul Global”, apesar do glorioso legado herdado da industrialização soviética. O colapso irreversível de sua indústria e a captura dos bens nacionais por oligarcas controlados por estrangeiros que se venderam aos patrões ocidentais eliminou qualquer base estrutural para a eventual recuperação do País. Seu desenvolvimento está permanentemente prejudicado e incapaz de recuperar seriamente quaisquer de suas grades perdas. Durante todo o tempo, grande parte da população permanece distraída pela estratégia do Governo de dividir e governar, colocando os grupos étnicos uns contra os outros.

        A Ucrânia é simultaneamente uma história premonitória, mas também de um sucesso espantoso, dependendo da perspectiva. Objetivamente falando, nenhuma pessoa patriótica em qualquer parte do mundo desejaria que o seu país enveredasse por semelhante caminho de autodestruição, mas as potências ocidentais consideram hoje em dia a Ucrânia como o modelo perfeito do que idealmente gostariam de exportar para outros países industrializados. Se forças estrangeiras podem cooptar a elite oligárquica corrupta de outros países, então podem facilmente replicar o modelo ucraniano, facilitando a aceitação da sociedade por ideologias propagadas externamente após os empobrecerem rapidamente. Quando isso acontece, podem então preparar-se para tomar o controle do Estado através de uma revolução colorida e transformar esse país na próxima Ucrânia.

        A única forma de defender seu próprio país desta estratégia desonesta é evitar, em primeiro lugar, que se torne tão corrupto, apoiando verdadeiras forças anticorrupção no poder e/ou reunindo forças patrióticas a fim de implementar essa agenda se aqueles que já estão no poder não forem dignos de confiança. Se for demasiado tarde para antecipar isso, então todos os esforços devem ser empreendidos para contrariar pacificamente a crescente revolução colorida dentro do país e assegurar a unidade entre os seus grupos demográficos díspares de modo a evitar o cenário de “dividir para reinar”. Contudo, se a rápida desindustrialização começar, então o país visado poderá estar condenado, uma vez que os processos consequentes poderão ser irreversíveis.

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