(A maior parte desta reportagem foi publicada em 1973 e 1974. Em 1974 saiu em livro da Editorial Horizonte, de Lima, Peru e uma edição ampliada em Milão, Itália em 1975. Os fundos arrecadados serviram para a atenção aos refugiados).

O golpe de Estado no Chile, a 11 de setembro de 1973, contra o governo constitucional de Salvador Allende Gossens, inaugurou uma das ditaduras mais sangrentas de nosso continente. Durou quase 20 anos (1973-1990) e teve a participação descarada de empresas privadas e de organismos estatais estadunidenses e brasileiros. Deixou um saldo de 2.095 mortos, 1.102 desaparecidos, em torno de 60 mil presos e torturados, inclusive em campos de concentração e, centenas de milhares de refugiados políticos e econômicos espalhados pelo mundo. Extraoficialmente, no entanto, o número de mortos e desaparecidos beira os 50 mil.
O golpe instituiu uma ditadura cívico-militar comandada pelo general Augusto José Ramón Pinochet Ugarte. O que se podia esperar dele estava escrito em seus livros que serviam de fundamento para a doutrina geopolítica das Forças Armadas do Chile. Escreveu que: “Enquanto os dolicocéfalos loiros produziam filósofos, pensadores, artistas, dentre outros; quando a mesma zona foi ocupada pelos braquicéfalos celtas-eslavos não houve tal auge intelectual”⁽¹⁾.
Ele entendia que “as raças de um estado devem ser estudadas e analisadas pelo geopolítico para ver: se ela é uma raça perfeitamente harmonizada com o período político-econômico do Estado; se é necessário trazer emigrantes para que esta corrente seja favorável ao Estado e que ela se enraíze no território, mesclando seu sangue com a aborígene, para melhorar o valor racial da população”⁽²⁾.
Um panfleto espalhado pelas ruas de Santiago por um helicóptero militar, nos idos de setembro de 1973 dizia: “Morador patriota: denuncie seu vizinho estrangeiro”.
Tal como o general Golbery do Couto e Silva, geopolítico e estrategista dos militares golpistas brasileiros, Pinochet entendia que os estados subdesenvolvidos do continente devem subordinar sua segurança aos conceitos de segurança hemisférica da grande potência do Norte⁽³⁾.
Para Pinochet: “Os Estados Unidos, jovem país de grande potencialidade econômica, estão em condições de exercer um controle político econômico indireto sobre as grandes extensões mundiais. Sua geopolítica trabalha na base destas possibilidades, para alargar sua esfera de influência que hoje têm no âmbito mundial”⁽⁴⁾.
As teorias de Pinochet previam uma guerra com a Argentina por disputa nas fronteiras do território austral. Preparando-se para a guerra, instalou uma fábrica de gás Sarin, criado na Alemanha de 1938. Como não havia guerra, utilizou-a para assassinar sua própria população.
As doutrinas militares produzidas pelos oficiais que comandaram as forças armadas latino-americanas no pós guerra, elaboradas no âmbito da Junta Interamericana de Defesa, sob o guarda-chuva do TIAR — Tratado Interamericano de Assistência Recíproca — corolários da Doutrina Monroe, delegaram ao Comando Sul dos EUA a função de Estado Maior, ou seja, a formulação estratégica, conformando-se com a função operacional, ou seja, de gendarme dos interesses estadunidenses.
Essas teorias militares coincidem com as teorias econômicas de intelectuais servis como Fernando Henrique Cardoso, Roberto Campos e outros brasileiros que sustentaram a teoria de dependência, que em simples palavras dizia que o nosso atraso e a falta de capital nacional só poderia ser superados com a subordinação das políticas econômicas e monetárias à grande potência do norte.
Imediatamente após o golpe de 11 de setembro de 1973, vieram os Chicago Boys e teve início as grandes mudanças na política econômica que se abre totalmente para o livre mercado e à especulação financeira, as privatizações e a concentração do capital. Houve uma quebradeira geral de empresas, o desemprego subiu para 20%, isso apesar de dois milhões de chilenos emigrados, seja por razão política seja por motivo econômico, ausência de oferta de trabalho. Somente para o Brasil vieram mais de 200 mil chilenos em busca de trabalho. Aqui vieram poucos por razões políticas.
Dreyfus registra que em 1978 o Grupo Cruzat-Larrain, com o Banco Hipotecário y Fomento, controlava 37 das 250 maiores empresas do país e Javier Vial, controlava 25, além da revista Ercília. Privatizaram tudo, inclusive a Previdência da qual 70% passou para as mãos de Larrain.
Só no segundo decênio da Ditadura a economia começa a estabilizar. O cobre foi e continua sendo o principal suporte da economia. A Codelco, estatal do minério de cobre, continua sendo a maior produtora, mas, entraram e estão operando as grandes transnacionais, como a Phelps Dodge, estadunidense, e a Sumitomo, japonesa, para explorar novas jazidas. O setor mineiro responde entre 6% e 8% do PIB e a exportação de minério entre 30% e 80% do total exportado. Tal variação é comum no mercado de commodities monopolizado por umas poucas trades. O Chile continua grande exportador de frutas frescas e de pescado.
Com Pinochet, a política econômica adotada foi aplaudida pela imprensa conservadora de todo o mundo como modelo de êxito do neoliberalismo proposto pelo Consenso de Washington. Nem os mortos, nem o sacrifício dos trabalhadores, nem a descarada corrupção que dominava nas esferas oficiais importava para esses meios. Hoje os herdeiros de Pinochet disputam a imensa fortuna que o ditador conseguiu amealhar nos paraísos fiscais a custa de favores, corrupção e servilismo absoluto às diretrizes da potência hegemônica. Disputa com a Justiça e as entidades de direitos humanos que lutam por reaver o tesouro para o Estado chileno.
A escalada
Allende, do Partido Socialista, fora eleito pela aliança Unidade Popular (UP), da qual faziam parte também o Movimento de Ação Popular Unitária (MAPU), o Partido Comunista do Chile (PCCh) e a Esquerda Cristã (IC). O golpe de Pinochet foi a culminação de uma escalada que teve início ainda nos anos 1960, quando Allende disputou a eleição com Eduardo Frei Montalva. Prossegue na eleição seguinte, de 1970, através da operação FUBELT, articulada pela CIA para evitar a posse de Allende. Documentos que comprovam a participação do Departamento de Estado e da CIA foram desclassificados 25 anos depois, em relatórios apresentados ao Congresso estadunidense.
No dia 25 de outubro de 1970 foi assassinado o general René Schneider numa tentativa de sequestro com o objetivo de tumultuar o processo e impedir que o presidente fosse confirmado pelo Congresso no dia 27. O tiro saiu pela culatra, pois a morte do general criou tal comoção que facilitou a confirmação de Allende. Entre o assassinato de Schneider e o 11 de setembro de 1973, outras três tentativas de golpe fracassaram. O êxito foi alcançado com o emprego do mesmo método utilizado no Brasil em 1964: atuação psicossocial utilizando os meios de comunicação e a corrupção. A articulação dos empresários nacionais com os estrangeiros se dava por entidades coordenadas pelos Estados Unidos. O desfecho se dá com consumação da aliança entre a Democracia Cristã (DC) e o Partido Nacional (PN).
Importância da mídia
Em 1968, no seu livro Geopolítica, Pinochet escrevera: “Foi Adolf Hitler o primeiro que compreendeu a importância extraordinária da ação psicológica, expressando em sua obra “Minha Luta” (Mein Kampf): “A propaganda revolucionária desempenhará no futuro o papel que tem a cortina de fogo da artilharia, como preparação para o ataque da infantaria. Suas tarefas serão derrotar psicologicamente o inimigo antes que entrem em ação seus exércitos”.
Da teoria à prática, o papel desempenhado por El Mercurio de Agustín Edwards, serve de paradigma de como os EUA e os oligarcas serviçais manipulam os meios para preservação de seus interesses. Os hearings do Senado estadunidense comprovam que a CIA encaminhou 1,5 milhão de dólares a Edwards para “ajudá-lo” a impedir a posse de Allende. Além do dinheiro da CIA, Edward recebeu ajuda dos bancos, entre os quais o First National Bank, que perdoou suas dívidas, houve depósitos feitos por empresas em sua conta na Suíça. Ele próprio tinha seu banco, o Banco Edwards.
O Mercurio, jornal diário fundado em 1827, da família Edwards, o mais conservador e reacionário, teve importante papel, financiado pelos EUA, na condução do processo de desestabilização desde a década de 1960. Edward editava também La Segunda — jornal sensacionalista fundado em 1931, e Últimas Notícias — fundado em 1902. Tinha ligações diretas com o Latin America Concil e com a CIA.
O Mercurio patrocinava as reuniões do Club de los Lunes, que todas as segundas-feiras reunia empresários e políticos conspiradores. As pessoas-chave dessa articulação eram Raul Silva Espejo e Fernando Leniz, diretores do Mercurio, Arturo Fontaine, subdiretor, e Álvaro Puga, da CIA, que se encarregava das campanhas psicológicas do jornal.
“El Mercurio é importante. É um espinho cravado nas costas de Allende. Ajuda a manter alta a moral das forças opositoras” declarou Willian Jordan, assessor do secretário de defesa Henry Kissinger. A CIA, em memorando datado de 1972, justifica a ajuda dizendo que o jornal “publica quase diariamente editoriais com críticas ao governo e atua como centro de agrupação da oposição”.
A recompensa, registrada por Altamiro Borges em "A Ditadura da Mídia", foi generosa: “Durante a ditadura a corporação prosperou e hoje possui quatro jornais nacionais, 21 diários regionais e a rede de rádios FM Digital”.
Com o golpe de Pinochet a mídia independente desapareceu do Chile. Antes de 1973, quando havia democracia, circulavam jornais de linha política bem diversificada:
- El Siglo — diário do Partido Comunista Chileno (PCCh).
- Última Hora — diário do Partido Socialista (PS).
- Puro Chile — periódico de esquerda.
- Clarín — periódico de esquerda
- La Prensa — da Democracia Cristã (DC).
- La Tercera de la Hora — periódico fundado em 1950.
- La Tribuna.
- Picó Cañas.
- La Época — fundado em 1987 pela Democracia Cristã (DC).
- El Mercurio.
No Chile, dos dez diários da capital Santiago, quatro pertencem a grupos ligados ao capital financeiro e bancário; um à igreja católica e os outros são ligados a grupos pertencentes aos antigos partidos políticos.
Na Argentina, Uruguai, Equador, Colômbia, e em toda a América Central, os principais jornais pertencem a famílias tradicionais contrárias a qualquer transformação social e ligadas aos interesses econômicos estadunidenses ou transnacionais. Também os principais jornais da Venezuela e do México estão na mesma situação. Com raríssimas exceções, quase nada escapa a essa regra.
Uma comissão de investigação do Senado estadunidense foi convocada em 1976 para apurar denúncias de que a CIA estaria ultrapassando os limites em intervenções em outros países. Presidida pelo senador Frank Church, apurou que realmente o diário El Mercurio recebeu milhões para fazer a campanha contra Allende. Segundo o escritor Hernán Uribe, a CIA tinha infiltrados até na diagramação do jornal.
O Chile de Allende
Cobri parte da campanha para as eleições presidenciais de 1970 no Chile. Era a quarta vez que Allende se candidatava e havia chance de vencer. Em uma das reportagens publicadas pelo Diario Expreso, eu iniciava dizendo ter visto a cara do fascismo. O fato é que a cada manifestação de uma ou de outra candidatura era evidente uma sociedade dividida. Entrevistei muita gente e li muito sobre o Chile nas décadas de 1960-1970. E escrevi muito. Grande parte foi publicada no jornal Expreso e outra parte no livro "Chile: Anatomia de um Golpe". Queria entender. Parecia-me incrível que um processo como o liderado por Salvador Allende pudesse ter tanta resistência no seio da sociedade. Pela primeira vez se lhe dava oportunidade de ser dona de seu próprio destino, de usufruir das riquezas naturais do país. Claro que eu tinha informação sobre a marcha da conspiração, mas a neurose coletiva que dominou a classe média só podia ser explicada por uma ideologia mais que reacionária, fascista, com grande conteúdo xenófobo e racista. Anos depois, eu viveria esse mesmo drama no Peru.
Nas eleições de 1964 os EUA apoiaram fortemente a campanha para eleger Eduardo Frei Montalva, da Democracia Cristã e conseguiram barrar Allende, tendo sido gastos na campanha mais de 20 milhões de dólares aportados pelo Council e pela CIA. Os EUA seguiram apoiando o governo de Frei e a CIA seguiu operando com toda liberdade. Entre 1964 e 1969 a CIA realizou pelo menos 20 operações especiais no Chile, segundo os hearings do Congresso. Quando se inicia a campanha de 1969 tudo já estava armado.
Quando começou a campanha sucessória de 1969, Kissinger aprovou que se fizesse todo o possível e se utilizasse todos os recursos necessários para evitar que ganhasse Salvador Allende, que concorria pela Unidade Popular (UP), e para garantir a vitória de Jorge Alessandri, do Partido Nacional (PN). Também estava no páreo o Radomiro Tomic da Democracia Cristã (DC).
Allende ganhou no voto popular mas como não obteve maioria teria que ser confirmado pelo Congresso. Desespero nas hostes fascistas. Tentaram corromper o Congresso para que não dessem posse ao presidente eleito. Como não conseguiram, no dia seguinte à posse iniciaram a desestabilização. Kissinger tinha medo da vitória de Allende. Temia principalmente a repercussão que isso poderia ter na Europa e de que causasse uma expansão da URSS no hemisfério.
A campanha, neste segundo turno, foi feroz. Diante da iminência da vitória da UP, indicada nas pesquisas e confirmada nas urnas, num esforço de última hora, revelado por Dreifuss, foram importados pela CIA vinte e três jornalistas de pelo menos dez países para contribuir no esforço de propaganda contra Allende. Juntamente de diversas pessoas vinculadas à CIA em Santiago, produziram mais de 700 artigos às vésperas das eleições no Congresso.
Allende ganhou as eleições mas o fascismo ganhou a guerra que se iniciou no mesmo dia da posse do Presidente socialista. A direita chilena, com seus aliados externos, estava decidida a arrastar o país à guerra civil. Entendiam que se tratava de salvar seus privilégios a qualquer custo, até mesmo o custo de arrasar com o país. Aliás, à direita pouco importa o país. Sabe que seus privilégios estarão sempre assegurados pelo Império da vez. Se o povo é obstáculo a seus desígnios, dane-se o povo.
A participação da Democracia Cristã e do ex-presidente Eduardo Frei é um fato incontestável e isso facilitou a aceitação do golpe pelos meios de comunicação. Já em 1970, Frei tinha conhecimento da conspiração para impedir a posse de Allende. O major reformado Juan Diego D’ Avila, braço direito do chefe da conspiração, Roberto Viaux Marambio, afirmou que Frei pediu aos conspiradores que o mantivessem informado, porém, distante da ação: “É preciso manter meu perfil de democrata a qualquer custo”. Rechaçando a qualificação de "momios", tentando manter a imagem de “defensores da democracia”, na verdade a DC foi, desde o início, a principal força opositora à Unidade Popular. E, juntamente com o Partido Nacional, os terroristas da Frente Nacionalista Pátria e Liberdade (PyL), a ITT-CIA e os agentes do capitalismo, integrou o comando da subversão.
O desenvolvimento da sociedade chilena, no século XX, manteve a tradição de massacre das populações nativas, estímulo à imigração europeia — franceses, alemães — e uma economia com base na exploração dos recursos minerais. As Forças Armadas tiveram forte influência prussiana. Minério, frutas e o abundante pescado permitiam certa tranquilidade social, particularmente em Santiago, uma capital com pretensões de ser europeia.
Os massacres de operários, a caça às bruxas ocorridas no Chile após o 11 de setembro, nada tem de original. É a maneira do sistema se impor. Matança e terror; terror e horror. Tem sido assim na Argentina, na Bolívia, no Brasil, no Peru... e, no Chile é quase uma constante: o massacre de Santa Maria de Iquique, em 1907, custou a vida de 3.600 pessoas — trabalhadores, mulheres, velhos e crianças; o seguinte foi em Ranquil. No governo de Jorge Alessandri houve o massacre da população de José Maria Caro e, no período de Frei, o massacre de Puerto Montt, em 1968. Na Bolívia também ocorreram vários, porém, o que deixou mais triste recordação foi o da Noite de San Juan, que exterminou com um acampamento mineiro na região de Oruro, ordenado pelo ex-presidente René Barrientos. Na Argentina, a mais recente massacre foi o de Trelew.
A mineração foi responsável pela Guerra do Pacífico, de 1879 a 1883, que envolveu Chile, Bolívia e Peru, vencida pelo Chile. Empresas “chilenas” exploravam minas em Antofagasta (Bolívia), em Tarapacá, Tacna e Arica (Peru). Terminada a guerra, o Chile tem o maior exército e a maior esquadra do continente. Forças Armadas que haviam sido desenvolvidas sob a influência e treinamento da Prússia e da França se apropriaram de Antofagasta, deixando Bolívia sem litoral; além de tomarem boa parte do território ao sul do Peru.
A partir da Segunda Grande Guerra se dá o alinhamento praticamente incondicional do Chile com os EUA. Em 1946, Gabriel Gonzáles Videla, eleito por uma frente de esquerda, para manter-se no poder se submete aos EUA. Em 1948 prescreve o Partido Comunista e, na caça às bruxas, invalida os registros eleitorais de mais de 30 mil pessoas. Nessa época Salvador Allende era senador e compartilhava da paranoia que a Argentina pretendia incorporar o Chile. Para garantir os interesses das mineradoras massacrou mineiros em greve e perseguiu quem se opunha. O poeta Pablo Neruda teve que fugir para o exílio.
Durante a Segunda Guerra Mundial os EUA constroem uma base aérea em território chileno e começam a reformar as Forças Armadas para fazer a cabeça dos oficiais. Com a adesão do Chile ao Tratado Interamericano de Assistência recíproca — o famigerado TIAR, ou Tratado do Rio de Janeiro de 1947 — através dos programas de assistência militar acordados em 1952 começam a fornecer material bélico e recursos.
Na perversa lógica do sistema, não importa o extermínio de trabalhadores. Ao contrário, com isso, e com o exílio forçado, se resolve o problema do desemprego. Em substituição se incorpora às massas marginadas um preço de mão de obra mais barata. Se em determinado momento falta mão de obra especializada, importa-se de outros países. Sempre há uma solução para manter os privilégios. No Brasil é nossa herança maldita do modelo escravagista e predador de índios.
Os mapuches, desde que os espanhóis chegaram ao Chile, não se deixaram exterminar nem colonizar. Para as oligarquias dominantes e as grandes empresas o povo mapuche tem sido um grande problema, pois não baixam a guarda. Em 2010 denunciaram que a transnacional Endesa-Enel invadiu seu território para aproveitar água do lago Neltume, prejudicando a lavoura indígena. “Endesa deve compreender que os seres humanos não são donos da natureza, mas sim parte delas e que o dinheiro e o lucro não podem ficar acima dos direitos dos povos”. Quando refizemos este capítulo, maio de 2011, 34 mapuches estavam presos já há dois anos e haviam passado 70 dias em greve de fome, por se oporem à presença das multinacionais. Os povos milenares originários de nossa América estão dando lições de vida e sobrevivência para a sociedade do capital e do lucro.
Com o governo de Allende, 60% das terras irrigadas e 50% do total das terras agrícolas foram desapropriadas e entregues a pequenos agricultores e à cooperativas. Com Pinochet, após 1973, 30% das terras voltaram a seus antigos proprietários. O programa de assistência aos camponeses foi abolido assim como o controle da água. A filiação aos sindicatos tornou-se voluntária, bem ao gosto do esforço pela desregulamentação do mercado de trabalho exigida pelas multinacionais.
É certo também que os métodos de trabalho desestabilizadores da CIA e outros serviços de inteligência abundam na prática da infiltração. Há hoje comprovação de muitos casos de lideranças rebeldes que eram assalariadas. E outros que incitados por agentes faziam o jogo deles inocentemente, acreditando mesmo que estavam no bom caminho.
Valdemiro Montesinos, durante a Revolução de Velasco Alvarado no Peru se fazia passar por revolucionário e estava na folha de pagamento da CIA.
No início de 2011, a mídia mundial se concentrou em mostrar o resgate de 33 mineiros que estavam soterrados na mina San José no norte do Chile. Um grande show televisivo para atrair o grande público. Do presidente ao operador das máquinas e os mineiros salvos, todos grandes heróis da Pátria. Nenhuma palavra na grande mídia sobre a realidade vivida pelos mineiros chilenos. O fato é que 39 desastres fatais por ano ocorrem nas minas privatizadas, e a mina San José já havia sido fechada em 2007 por falta de segurança.
As villas miseria (favelas), que no governo do Allende haviam sido transformadas em bairros operários com toda dignidade, voltaram a proliferar. A pobreza com suas sequelas de desnutrição, mortalidade infantil, analfabetismo, se expande no Chile do NAFTA e do neoliberalismo. E esse Chile é o exemplo que os Estados Unidos querem que seja seguido.
Não bastasse o NAFTA, que é o mesmo que o retorno ao colonialismo, em fevereiro de 2010, o povo chileno foi vítima de uma dos piores terremotos da sua história. 8.8 na escala Richter. 723 mortos, 56 desaparecidos, dois milhões de prejudicados, 4 mil escolas, 200 mil moradias, um de cada três hospitais, sete aeroportos, quatro portos e mais de 30 milhões de dólares em perdas. Isso uniu o povo chileno, animado no esforço de restauração de seu país. Oxalá essa união e esse entusiasmo sirva para recolocar o Chile numa rota chilena.
Para enfrentar essa situação, está Presidente o empresário neoliberal Sebastian Piñera, da Renovação Nacional (RN) em coligação com a União Democrata Independente (UDI), unindo empresários e oligarcas na Aliança pelo Chile (anteriormente Coalizão pela Mudança), uma criação de Jaime Guzmán, ideólogo de Pinochet.
O governo da Unidade Popular, presidido por Salvador Allende, conseguiu em pouco tempo, tais transformações que colocaram em xeque a sobrevivência da sociedade de consumo com base na total dependência das economias hegemônicas.
Allende teve tempo para desmontar o aparato golpista que estava montado desde 1964, quando disputou com Frei a eleição, e que depois tentou por todos os meios impedir sua posse na eleição vitoriosa de 1970. Não o fez porque confiava nos militares, particularmente nos comandantes do Exército.
Já no início de 1972 o Estado controlava as riquezas naturais e as indústrias básicas do País, fundamentalmente o cobre. O latifúndio havia sido praticamente eliminado. O Estado controlava 30% do crédito, 85% das exportações e 45% das importações. Se havia reduzido o desemprego e aumentado o nível de consumo das famílias de menor ingresso. O novo programa de Saúde Pública havia reduzido a mortalidade infantil, através de várias campanhas sanitárias e de nutrição, como a distribuição de ½ litro de leite diário a cada criança com até 14 anos. Em 1971 o PIB havia crescido 8% contra uma média de 2.7% entre 1969 e 1970.
Os organismos internacionais reconheceram que Chile tinha apresentado o maior índice de crescimento nos últimos anos na América Latina, o que comprovava que a escassez de produtos de consumo era provocada artificialmente. Por um lado, o Imperialismo recrutava quadros nas Forças Armadas, em continuação ao que haviam iniciado a 4 de novembro de 1970, conforme as instruções da ITT-CIA. Por outro lado, tratava de desprestigiar ante a opinião pública os dirigentes políticos de esquerda.
O Acordo de Cartagena (Pacto Andino), subscrito em 1969 por Colômbia, Equador, Peru, Chile e Bolívia, por inspiração da CEPAL, conhecido como Grupo Andino, em dezembro de 1970 aprovou um regime comum para o capital estrangeiro e outro para a remessa de lucro. Os investimentos teriam de ter 51% de participação nacional e os lucros serem remetidos no limite de 14%.
Durante o governo de Allende, o Chile, juntamente com Cuba, Peru e Panamá, conformou uma frente de luta democrática e anti-imperialista nos foros internacionais, com destacada atuação no Movimento dos Países Não-Alinhados. Lutava-se por um maior equilíbrio e justiça no intercâmbio comercial mundial.
A amizade chileno-cubana foi evidenciada em 1971 durante visita de Fidel Castro ao Chile. De 10 de novembro a 4 de dezembro Fidel percorreu praticamente todo o território chileno, pronunciou mais de um discurso por dia além de entrevistas e coletivas com jornalistas. Horrorizadas com o júbilo popular manifestado, a direita organizou em Santiago o primeiro “panelaço”.
Os defensores do capitalismo selvagem, desesperados diante do desenvolvimento do programa da UP decidiram empreender o máximo esforço para conseguir o retorno ao controle dos centros de decisão. Para isso formaram uma grande frente de direita integrada pela Democracia Cristã, o Partido Nacional, a Sociedade de Fomento Fabril (SOFOFA), a Cia de Estudos Sociais Econômicos e Culturais (Codesec), a CIA, os agentes do capital estrangeiro e os grupos paramilitares fascistas. Tudo isso sob a coordenação do Instituto Privado de Investigações Econômicas e Sociais — IPIES — entidade congênere do IPES brasileiro. Recebiam recursos dos partidos Democrata Cristão da Alemanha e da Itália. Tal como fizeram no Brasil, organizaram as mulheres, promoveram marchas e os barulhentos “panelaços”.
Toda a ação da reação se desenvolveu, curiosamente, coincidente com os planos de subversão da ITT-CIA, denunciados pelo jornalista Jack Anderson, do Washington Post. O plano consistia em:
- Provocação da deterioração da situação econômica;
- Ação psicológica através dos meios de comunicação;
- Trabalho divisionista nas Forças Armadas;
- Preparação de grupos paramilitares.
O plano foi seguido a risca. Paralisou-se o investimento privado, desviando capitais para a especulação e o mercado negro. Foi sabotada a produção e se criou um desabastecimento artificial, mas real, para reforçar o “fantasma da fome por culpa dos comunistas”.
Agências de publicidade dos EUA e do Brasil, coordenadas pelo Council, tiveram papel importante para as ações psicossociais de desestabilização da sociedade chilena, preparando e distribuindo materiais e recursos, justificados como anúncios das grandes empresas. Destaca-se nesse objetivo a Mccann Erickson e sua subsidiária Marplan.
O conteúdo centrava na desqualificação do Estado como gestor da propriedade e exaltava a propriedade privada. Dinheiro da CIA financiava a veiculação de programas na Rádio Liberación, que era distribuído para as emissoras do interior. A Agência de Informação dos Estados Unidos (USIA) coadjuvava esse trabalho distribuindo material para os jornais, especialmente para o Canal 13, televisão da Universidade Católica.
A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) interagia com os grandes jornais do continente garantindo cobertura “fiel” aos fatos. Durante a campanha de Allende, o presidente da SIP era nada menos que Agustin Edward, o chefe do clã dono do Mercurio e, a partir de 1973, assumiu a direção outro chileno, Raul Silva Espejo, diretor do Mercurio.
Articulação golpista
O grupo fascista Pátria e Liberdade (PyL) foi formado já em 1970 tendo como uma das tarefas fundamentais recrutar oficiais das Forças Armadas e entre os Carabineiros do Chile. Nessa tarefa teve grande importância o Centro de Ex Cadetes e Oficiais da Armada, organizado pelo coronel Cristián Labbé, protagonista da rebelião de 1972 e o jornalista Federico Willoughby-MacDonald, assalariado da CIA. Esse Centro treinou, em 1972, 400 pessoas para ações terroristas urbanas. Willoughby, como prêmio, em 1973 ganhou o posto de assessor de imprensa de Pinochet. O Pátria e Liberdade tinha um plano terrorista elaborado e financiado pela CIA através de Keith Wheelock, que viria a ocupar o posto de secretário da Embaixada dos EUA em Santiago. Wheelock aparece como artífice de outros golpes de estado na página 540 do livro “Who’s Who in the CIA” de Julius Mader.
O chefe da CIA para o hemisfério ocidental era J. C. King e o diretor John McCone. A Casa Branca autorizou a CIA a financiar a campanha na qual foram gastos 2.6 milhões e outros três milhões na campanha anti-Allende. Entre 1970 e 1973 a CIA recebeu em torno de 8 milhões de dólares. Muito dinheiro quando lembramos que no desvalorizado Chile isso valia cerca de 40 milhões de pesos e que com três mil dólares se comprava uma casa ou apartamento.
O envolvimento da Embaixada e do pessoal estadunidense era ostensivo. Não eram poucos e estavam bem equipados para o que viesse. Segundo o New York Times, em 1973 eram 1.100 homens. Até agosto de 1973, o embaixador era Edward Kerry que então foi substituído por Nathaniel Davis, com mais prática de ações desestabilizadoras, tendo participado dos golpes na Guatemala. Faziam-lhe companhia na Embaixada experientes agitadores com passado marcante:
- John W. Iseminger, do serviço secreto do Exército, com passagens por Bolívia e Guatemala, encarregado de informações;
- Daniel Arzal, também do serviço secreto do Exército, com serviços prestados em Bogotá, Montevidéu e Phnom Penh, conselheiro político;
- Raymond Warren, da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) e do Departamento de Estado, com serviços prestados em Caracas e Bogotá, como primeiro secretário;
- Frederick Latrash, do serviço secreto da Marinha, serviu no Departamento de Estado, com serviços prestados em Calcutá, Nova Deli, Amman, Cairo e Caracas, como primeiro secretário;
- John Tipton, do Departamento de Estado, com serviços prestados no México, Guatemala e La Paz, como segundo secretário.
O envolvimento dos EUA se dava também através dos contatos diretos entre os oficiais das forças armadas dos dois países. O general Carlos Prats admitiu que o golpe foi coordenado através da Missão Naval estadunidense em Valparaíso, e que a Marinha e a Aeronáutica do Chile operavam com os sistemas de comunicação dos EUA.
Em 1972 as associações de empresários já haviam consolidado a ofensiva contra o governo. A articulação se dava através do IPEI, que desempenhava no Chile as mesmas funções que o IPES no Brasil, integrado com o CRF e o Council.
A greve indefinida do transporte de carga contou com apoio escalonado do comércio e das associações profissionais. León Villarín, líder dos caminhoneiros em greve, apontado como agente da CIA, era filiado ao Iadesil — Instituto Americano para o Desenvolvimento do Sindicalismo Livre, com sede nos EUA. E ficou provado que a CIA financiou os caminhoneiros em greve. Mais de 100 sindicalistas foram enviados pela AIFL à Virgínia para fazerem cursos e receber treinamento e, regressando ao Chile, se engajavam como profissionais nas organizações dos trabalhadores.
O Iadesil se dedica a formar dirigentes sindicais em toda a América Latina para se oporem “a ameaça de infiltração castrista”. Na época o Iadesil recebia recursos do Fundo Kaplan, intermediário financeiro da CIA, da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), de das grandes empresas multinacionais — entre elas ITT, Grace, Rockefeller, Shell, Standard Oil, United Fruit e a Kennecott. Esta última, proprietária das mais importantes minas de cobre no Chile. Depois de ser nacionalizada não cessou de criar problemas para o governo. Chegou a embargar um carregamento de cobre na Europa e bens do Estado chileno nos EUA, causando sérios prejuízos. O cobre constituía 50% dos ingressos de divisas.
Ao mesmo tempo em que os partidos políticos de direita desenvolviam intenso proselitismo e obstruíam as iniciativas do governo, os jornais realizavam uma bem orquestrada campanha contra a “legitimidade” do governo. O Mercurio, dos mais tradicionais do Chile, chegou a afirmar que “o golpe inicial ocorreu antes: esta atitude violenta não seria mais que o contragolpe”. Através de editoriais, o jornal dava instruções para os golpistas. O Mercurio, segundo os documento da ITT, recebia orientação da USIS, o serviço de informações da Embaixada dos EUA. Posteriormente, com a desclassificação dos documentos da CIA, em 1998, comprovou-se que o jornal recebia grandes quantidades de dólares e que o USIS “ajudava” nos editoriais e outros artigos de opinião.
No dia 11 de setembro ocorre o golpe. O Palácio de La Moneda é bombardeado, o Presidente Allende morre combatendo e se desata no Chile a mais brutal repressão de que se tem notícia em Nossa América. Havia nessa época cerca de cinco mil brasileiros asilados no Chile, que junto de outros tantos argentinos, uruguaios e bolivianos lotaram o Estádio Nacional de prisioneiros políticos. Oficiais brasileiros, acompanhados de agentes da CIA e da DINA, o serviço de inteligência chileno, participavam de interrogatórios e torturas a brasileiros presos. O cantor e compositor chileno Victor Jara foi um dos barbaramente torturados e fuzilados no Estádio Nacional, assim como o tenente Vânio de Matos, combatente da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) brasileira.
Ao citar a violenta repressão no Chile não se pode deixar de mencionar o movimento de solidariedade desencadeado por todas as partes, particularmente a solidariedade do Presidente peruano Velasco Alvarado e do panamenho Omar Torrijos.
Na semana de 20 de setembro, a revista Time publica entrevista com o general Pinochet, que anuncia que o Chile restituirá a seus proprietários estadunidenses certas minas e indústrias expropriadas pelo governo de Allende. Uma semana mais tarde, o ministro de Relações Exteriores reiterou essa intenção anunciando que a “possibilidade está aberta” para renovar negociações sobre as compensações às companhias cupríferas dos EUA por suas minas nacionalizadas. Das palavras aos fatos. Todo o complexo da indústria petroquímica foi devolvida à Dow Chemical ao mesmo tempo que se devolviam mais de uma centena de indústrias do setor de propriedade social, fundamentalmente têxteis, eletrodomésticos, farmacêuticos, cerâmica, etc. Em novembro o governo começa a devolução aos antigos proprietários das fazendas inferiores a 40 hectares, devolvendo mais de 500 no primeiro mês.
The Brazilian Connection
Que a direita estava pronta para desencadear uma guerra civil nunca foi segredo no Chile. O próprio Presidente Allende, bem como muitos jornais, denunciava isso diariamente. Não obstante, viu-se que só com denúncias não se detém uma guerra, uma invasão, uma agressão imperialista.
Roberto Thieme, secretário-geral do Pátria e Liberdade, depois de estar asilado na Argentina e no Paraguai, reapareceu em Santiago em julho de 1973 para anunciar que seu movimento passava à clandestinidade. Reafirmou a liderança do advogado Pablo Rodriguez, que havia formado a organização com dinheiro da CIA, e anunciou o início imediato das ações. Ações terroristas, evidentemente. Para isso deu ordens aos quadros para obedecerem estritamente o manual de clandestinidade. Os fatos comprovam que eles souberam preservar suas forças e que eram muitos.
Na Argentina, Thieme organizou um comando terrorista com fascistas chilenos contando com o apoio da organização fascista argentina Movimento Nacionalista Tacuara. Os fascistas chilenos também criaram na Argentina um Fundo da Liberdade, e atuaram associados ao movimento Nova Força, dirigido por Alvaro Alsogaray, ex-ministro de Juan Carlos Ongania, presidente de 1966 a 1970. Desse fundo também participaram o ex-presidente da Sociedade Nacional de Agricultura, Benjamín Matte e o ex-presidente da Sociedade de Fomento Fabril (SOFOFA), Orlando Sáenz, ambos chilenos membros do Pátria e Liberdade.
No México, o diário El Dia e a revista Siempre revelaram que a reação chilena dedicou muita atenção à organização de uma rede de apoio fora do País, integrada por grupos paramilitares. Coube papel importante nessa tática os grupos do Equador, para onde haviam emigrados cerca de 100 mil chilenos insatisfeitos. Seguem em ordem de importância os grupos fascistas criados na Argentina, Bolívia e também no Brasil.
Washington, jan. 7 (AP) – O matutino “The Washington Post” assevera que grupos privados brasileiros prepararam e deram apoio financeiro ao movimento de resistência civil que precipitou o golpe militar contra o regime do presidente chileno Salvador Allende... Em nota intitulada “The Brazilian Connection”, diz que o engenheiro Glycon de Paiva, vinculado a um instituto dedicado a luta anticomunista, e Aristóteles Drummond, identificado como credor de um grupo paramilitar, “são dois dos brasileiros que admitem que ajudaram aos inimigos de Allende. Outros grupos privados e econômicos forneceram armas, dinheiro e assessoria política”...
A cronista Marlise Simmons diz que Glycon de Paiva manifestou que: "depois que Allende chegou ao poder alguns empresários chilenos vieram pedir assessoria. Expliquei como deviam atuar os civis para preparar as condições para o golpe militar. A receita existe e se pode assar a torta quando se queira. Foi feito no Brasil e de novo no Chile".
O grupo foi identificado como sendo o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), “fundado em 1961 por Gilberto Hubes, um rico empresário brasileiro, junto com outros poderosos aliados, como centro de planificação da derrubada do governo brasileiro infiltrado pelos comunistas”. Isso é uma alusão aos regimes dos presidentes Jânio Quadros e João Goulart.
O Post diz que “de 1961 a 1964 o IPES organizou, financiou, coordenou e serviu de ponte entre empresários e as Forças Armadas brasileiras antes do golpe. Seu secretário executivo era o general Golbery do Couto e Silva. Outro de seus fundadores e figuras chaves foi Paiva, que também assessora várias empresas estadunidenses e multinacionais” (de um telegrama da AP de 7 de janeiro de 1974).
Na entrevista, Paiva reconhece ter recebido em seu escritório a dois chilenos aos quais descreveu as minúcias da conspiração brasileira. Com a frieza de um técnico, informou que "existe uma receita para isso. Basta misturar a massa, admitindo imediatamente que os ingredientes são muito caros, sendo necessário muito dinheiro". Com relação a esse ponto, a jornalista cita declarações de um fogoso emedebista carioca, conhecido pela multiplicidade de suas relações, Aristóteles Drummond, que teria servido de pombo correio levando dinheiro para ações políticas.
“Com a elegância e a seriedade que o fizeram conhecido nos meios técnicos e políticos brasileiros, Glycon de Paiva reconheceu, em declarações a Maurício Dias, de Veja, a autenticidade da reportagem do Post, um dos mais respeitáveis e bem informados órgãos de imprensa do mundo”.
“A singular indiscrição que ronda a Brazilian Connection alcança pontos ainda mais surpreendentes. O testemunho secreto dado pelo diretor da CIA, William Colby e seu principal assessor, Frederick Dixon Davis, à Câmara de Representantes dos EUA, a 11 de outubro de 1974. Bombardeado por perguntas sobre a participação de indústrias brasileiras, ligadas a companhias multinacionais no golpe contra Allende, depois de algumas respostas evasivas, respondendo a uma pergunta do deputado Dante Fascel, Davis foi mais claro: Há evidências de cooperação entre grupos de empresários do Brasil e de Chile. Não obstante, isso constitui apenas uma pequena proporção da ajuda financeira. A maior parte desse apoio financeiro foi conseguido internamente, no Chile”.
A conexão brasileira desempenhou importante papel na captação de recursos e na organização dos golpistas, e, claro, no “saber fazer”. Glycon de Paiva se gabava: “Vimos como ela funcionou no Brasil e agora novamente no Chile”. Glycon de Paiva tinha como sócio em seus negócios o chileno Luiz Fuenzalida. Jack Wyant, dirigente do Council no Brasil, garantiu a contribuição dos associados brasileiros, estadunidenses e multinacionais sediados no Brasil. Os grupos paramilitares, apoiados pelo IPES, como o Movimento Anticomunista (MAC), de Faustino Porto, e o Grupo de Ação Patriótica (GAP), de Aristóteles Drummond, forneceram dinheiro, armas e treinamento para o Pátria e Liberdade de Pablo Rodríguez.
Participação da CIA
O jornalista Tad Szulc, do New York Times, denunciou que, em um testemunho anterior a um subcomitê do Senado, o ex-diretor da CIA, Richard Helms, revelou que “a CIA tinha destinado 400 mil dólares para apoiar órgãos jornalísticos opositores a Allende”.
O Congresso Nacional da América Latina (NACLA), organismo especializado na investigação sobre ingerência dos EUA na América Latina, publicou artigo no dia 3 de outubro de 1974, em Nova York, em que revela a existência de “uma equipe de golpe de Estado” da CIA no Chile, e cita os seguintes agentes:
O embaixador estadunidense em Santiago, Nathaniel Davis, que integrou o Escritório de Serviços Estratégicos (OSS), antecessor da CIA, ganhou prestígio como especialista anticomunista quando chefiou o Escritório de Assuntos Soviéticos do Departamento de Estado no período álgido da Guerra Fria. Também desempenhou funções de direção nos Corpos de Paz, no Chile, durante o período imediato a eleição de Eduardo Frei em 1964, com o apoio da CIA. Operou na Guatemala, junto com Deane Hinton em 1968-69, durante a intensificação do chamado Programa de Pacificação, em que foram assassinadas 20 mil pessoas. Entre 1968-71 Davis foi um bom amigo dos comandantes de polícia e políticos guatemaltecos quando chefiava a missão estadunidense. Hinton, por sua vez, em 1969 foi transferido da Guatemala para o Chile. Depois, em Washington, chefiou o Conselho de Política Econômica Internacional, organismo que teve a responsabilidade de afogar economicamente o governo da UP.
Frederick Latrash e Raymond A Warren, também agentes da CIA envolvidos no golpe contra Allende, atuaram antes na derrubada do governo Arbenz na Guatemala. Outro dessa mesma equipe, James E Anderson, participou na invasão de Santo Domingos em 1965. Também participaram Harry Shlaudeman, segundo chefe da missão estadunidense no Chile, com ativa participação na República Dominicana na mesma época. Além desses integraram a equipe também Arnold M Isaacs, John B Tipton, Joseph F Mcmanus e Keith W Wheelock.
A NACLA ressalta que essa equipe, além de ter operado no Chile, participou nas ações na Guatemala em 1954, no Brasil em 1964, na Bolívia em 1971 e no Uruguai em 1973. Além desse pessoal especializado, os EUA ajudaram financeiramente o golpe diretamente através de sua Embaixada em Santiago e por outros canais. Chile recebeu, em 1972, uma ajuda militar no valor de 7 milhões de dólares.
Por último, por uma inexplicável coincidência, quando se produz o golpe no dia 11 de setembro, estava apresente em águas territoriais chilenas uma frota da Marinha de Guerra dos EUA que participava da Operação Unitas e, três dias depois de ter sido chamado a Washington o embaixador Davis, para prestar contas. Garcia Marquez diz que a intervenção militar começou a gestar-se desde finais de 1969 entre companheiros de armas de EUA e Chile.
Aviões estadunidenses participantes dessas “manobras” é que bombardearam com precisão o Palácio de La Moneda e que tentaram afundar um barco mercante cubano que descarregava em Valparaíso. O barco escapou do bombardeio graças a incrível perícia de seu comandante, o brasileiro Thales Godoy. Bastante avariado o barco foi conduzido à águas peruanas e pode ser reparado no porto de Callao para então seguir viagem. A história do almirante Thales Godoy, herói brasileiro e herói cubano, ainda não foi contada.
Participação de empresas
O golpe de 11 de setembro contra Salvador Allende no Chile, durante o governo de Nixon, tendo Kissinger como secretário de Estado, foi também uma decisão empresarial. Bob Woodward dá o nome de um dos protagonistas: Donald Kendall, dirigente do Council e amigo de Nixon, presidente-executivo da PepsiCo, tinha uma engarrafadora no Chile e não suportava a ideia do país ser socialista. Mobilizou o Council e seu amigo Richard Helms, na época diretor da CIA. No mesmo dia Nixon chamou Helms, Kissinger, John Mitchell e Edward e ordenou acabar com a farra chilena.
O Council, fórum dos executivos das multinacionais com sede nos EUA, teve papel protagonista também no Brasil de 1964, mobilizando recursos e orientando de um lado as agências de publicidade e de outro os meios de comunicação.
René Dreifuss, em "A Conquista do Estado", revela que, segundo o ex-embaixador estadunidense Edward Kerry, o que houve foi uma repetição das técnicas empregadas no Brasil dez anos antes, com efeito devastador encetada por empresários locais e estrangeiros pertencentes ao Council. Destaca-se a atuação de Gilbert Huber Jr, líder do IPES, sócio de Luis Fuenzalide, agente destacado na articulação da conspiração contra Allende.
Um relatório elaborado por John Plank, da Universidade de Connecticut para o Council em 1971, justifica as agressões promovidas pelos EUA nos anos 1950 com o argumento de que "se não tivessem ocorrido, a América Central e o Caribe estariam sob o comunismo". Diz mais adiante que a lição de Cuba é que não se pode permitir a “sobrevivência de movimento insurrecional por mais insignificante que seja”. Acrescenta ainda que a lição da ascensão marxista com Allende no Chile "é que as sociedades latino-americanas, por mais politicamente sofisticadas que pareçam, não merecem confiança como em jogo político livre. Se um Allende pode ser eleito no Chile, o que pode acontecer com países politicamente menos desenvolvidos?"
O secretário de Estado William Rogers, em reunião com executivos da ITT, Ford, Anaconda, Ralston Purina, First National City Bank, Bank of America e outros, afirmou alto e bom som que “o governo de Nixon é um governo de empresas. A sua missão consiste em proteger negócios americanos”. Resultado, suspenderam os programas de ajuda, exceção da militar que subiu de 800 mil dólares em 1969 para 12 milhões em 1971. Cortaram os suprimentos de créditos dos bancos inclusive dos bancos multinacionais como BID e outros.
No Chile, nenhuma outra empresa ultrapassou o comportamento da ITT — International Telephone & Telegraph. Na época o executivo no Chile era Jack Neal, também diretor do Council, que havia servido no Departamento de Estado. Criada em 1920, rapidamente, através de aquisições, situou-se, nas décadas de 1960 e 1970, entre os maiores conglomerados empresariais do mundo, com mais de 350 empresas, 150 das quais nos EUA e faturamento superior a 17 bilhões de dólares anuais. O conglomerado chegou a empregar mais de 380 mil trabalhadores em 70 diferentes países. A partir de 1995 dividiu-se em três companhias independentes: ITT Corporation, com foco em hotelaria e jogos, ITT Hartford, operadora de seguros, e ITT Industries, incorporando numerosas indústrias.
Para se ter uma ligeira ideia da amplitude da atuação da ITT enumeramos alguns dos campos de atuação que complementam a área de telefonia:
Imóveis — Levitt and Son;
Lâmpadas — Claude;
Rádios — Oceanic;
Freios para veículos — Alfred Pvef;
Limpadores de parabrisas — Sociedade Alemã SWF;
Televisores — Euroset;
Presunto — Smith Jeald;
Pão — ITT Continental Breakers;
Fibras sintéticas — ITT Rayniere;
Vidros — Pensilvânia Glass Sand Corporation;
Adubos e alimentos congelados — Morton Frozen Food;
Aluguel de autos — Avis Rent a Car;
Seguros — Harfer Fire Insurance;
Academia para secretárias — Pigier;
Editoras — Bobbs Merril;
Hotéis — Sheraton;
Restaurantes — Kinziespeak and Shoap House.
Esse verdadeiro monstro multinacional interferiu nos assuntos internos de quase todos os países do mundo. Colaborou com Hitler, durante o III Reich, ajudou o genocídio imperialista no Vietnam, e desempenhou papel decisivo para derrocar o Presidente Allende, não sem antes ter ajudado significativamente a conspiração contra o Presidente João Goulart no Brasil.
A descrição das atividades da ITT no Chile está contida em um informe elaborado por altos executivos da empresa a seus superiores e que foi parar nas mãos do jornalista Jack Anderson que o publicou no Washington Post. O informe compreende 32 documentos que revelam como a ITT tentou impedir que Allende fora ratificado presidente pelo Congresso e, diante do fracasso dessa tentativa, como foi planejado o golpe que culminaria com o bombardeamento do palácio presidencial e a morte do presidente.
NOTAS:
(1): PINOCHET, Augusto. Geopolitica: Diferentes Etapas para el Estudio Geopolitico de los Estados. 1ª Edição. Santiago, Chile: Instituto Geográfico Militar, 1968.
(2): Ibidem.
(3): SILVA, Golbery do Couto. Geopolítica do Brasil. 2ª Edição. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1967.
(4): PINOCHET, Augusto. Op. cit.
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