AGUSTÍN LAGE DÁVILA: Os jovens empresários do socialismo em Cuba

 


        Para os revolucionários da minha geração a palavra “empresário” tinha uma conotação moral pejorativa. Os mais velhos associavam-na aos patrões de empresas capitalistas, “a patronal”, na linguagem sindical da época. Para os que vieram depois, a palavra “empresário” também se associava aos negócios sombrios (“bisneros”) do Período Especial.
        Nós estávamos acima de tudo isso: éramos os jovens quadros da Revolução operária e camponesa.
        Mas depois, especialmente quando o desenvolvimento científico-técnico exigiu a criação de novas empresas (conheço algo no setor da biotecnologia) coube a nós próprios sermos “empresários”.
        E assim o fizemos: incorporamos novas empresas, estudamos a competitividade dos novos produtos, concebemos estratégias comerciais de exportação, discutimos preços, gerimos as finanças, impulsionamos o crescimento das utilidade, conduzimos negociações, armamos empresas mistas e muito mais, muito diferente do que faziam os cientistas quando estavam no setor orçamentado.
        Fomos “empresários”, mas fizemos tudo a partir do socialismo e pelo socialismo. O caráter capitalista não está nas formas de gestão empresarial, que têm componentes técnicos, e sim nas formas de propriedade e de apropriação dos resultados do trabalho, cuja essência é ideológica.
        Assim aprendemos a separar nos nossos conceitos e atitudes “a empresa” como unidade econômico-social que integra elementos humanos, materiais e técnicos a fim de oferecer bens e serviços, da “empresa capitalista” cuja função é extrair mais-valia para que seja apropriada pelo dono privado e seus acionistas.
        As empresas socialistas também devem gerar lucros, mas são empresas propriedade de todos e o produto do trabalho é distribuído para todos. E para geri-las bem, no socialismo necessitamos muitos e bons empresários.
        Esta necessidade tornou-se cada vez mais evidente para nós com o decorrer das décadas. Não é que vejamos agora coisas que não víamos antes, é que a economia mundial mudou e a do século XXI não se parece com a do século XX e menos ainda a do século XIX, quando foram firmados muitos dos conceitos clássicos da teoria econômica.
        Mencionemos muito brevemente alguns fenômenos que mudam tudo. A globalização da economia constrói cada vez mais interdependências entre as economias de diferentes países, arma cadeias globais de valor e obriga muitas empresas, mesmo as bem pequenas, a pensar em mercados externos e competitividade global. 
        A crescente conexão entre a ciência e a produção exige maior diversidade de produtos, que são rapidamente substituídos por produtos novos, incrementa o componente dos ativos intangíveis e a gestão do conhecimento na vida da empresa e começa a apagar a velha separação entre o setor orçamentado e o setor empresarial. Também exige a exploração de novas formas empresariais e de gestão, bem como audácia em decisões cujo impacto é pouco previsível.
        A indústria gigante de processos padronizados e direção vertical funcionou bem para a economia industrial do século XX, no capitalismo e no socialismo, mas adapta-se mal às produções dinâmica e flexíveis do século XXI.
        E assim fazem falta empresas novas. A experiência histórica mostra que as novas tecnologias costumam penetrar na economia através de empresas novas. Não é uma experiência longínqua. A biotecnologia cubana (hoje BIOCUBAFARMA) foi montada com empresas que não existiam em Cuba na década de 70.
        Estudos publicados mais recentemente medem a “taxa de nascimento” das empresas em diferentes países e obtêm dados para muitos deles (ainda que variáveis de um país para outro) acima de 10%. Sem que isto seja uma meta, e sim apenas uma referência, temos hoje em Cuba mais de 1800 empresas estatais: uma taxa de natalidade de empresas de 10% suporia a criação de 180 empresas estatais novas a cada ano. Temos os empresários para isso?
        Teremos de criar novas empresas tal como uma vez criámos aceleradamente novas escolas e novos hospitais. Faz parte da imprescindível construção de institucionalidade no projeto social cubano.
        Para continuar a reforçar as conexões entre a ciência e a economia, muitas da novas empresas terão de ser de base tecnológica e terão de ser estatais. As pequenas empresas privadas (e isto é uma experiência de muitos outros países) têm um espaço na economia, mas não costumam lançar projetos a longo prazo e tecnologicamente complexos, que impliquem competitividade à escala global e manejo de incertezas. Essas são funções do Estado na economia. A intensidade tecnológica da produção e as exportações determinarão um equilíbrio otimizado entre propriedade privada e propriedade estatal. Nessa economia de alta tecnologia é onde devem melhor exprimir-se as vantagens do socialismo.
        Vivemos em Cuba um momento de muita criatividade no contexto jurídico da nossa economia. O ordenamento jurídico abre oportunidades, mas depois são as pessoas que têm de conquistá-las.
        Assim, precisamos de muitos jovens que sejam os empresários das empresas socialistas e que se disponham a aceitar os enormes desafios à inteligência e à vontade que coloca a gestão de empresas na era da globalização e da 4ª Revolução Industrial.
        Serão pessoas profundamente comprometidas com Cuba e com seu projeto socialista de soberania e justiça social; que tenham essa combinação especial de humildade pessoal e ambição intensa pelo desenvolvimento da sua organização (não pelo enriquecimento pessoal); que saibam ao mesmo tempo preservar e comunicar os valores essenciais, mas também estimular a mudança e a experimentação; que saibam formular objetivos audazes e motivadores para ao mesmo tempo construir processos e exigir disciplina nos processos e no desempenho cotidiano. Profissionais que brilhem “através do brilho dos seus colaboradores e alunos”, não do seu próprio. Líderes que dirijam com o exemplo, mas também com sua capacidade de comunicar, convencer, entusiasmar e mobilizar a vontade do povo e que construam um ambiente empresarial em que cada trabalhador sinta que cresce a cada dia.
        Temos jovens assim e não são poucos. São a “argila fundamental da obra” que Che Guevara apreciou no seu ensaio de 1965, "O Socialismo e o Homem em Cuba". Não é uma palavra de ordem nem uma ilusão: na BIOCUBAFARMA temos visto emergirem dezenas e podem surgir mais. Jovens empresários do socialismo que sairão do povo, para servir ao povo.
        Àqueles que se animam em enfrentar o desafio com dignidade... “benvindos a bordo”, a luta continua.

Comentários