PEPE ESCOBAR: A máscara da "democracia liberal" cai com um estrondo

 


         No futuro, historiadores escreverão sobre o dia em que a "democracia liberal" ocidental emitiu uma proclamação gráfica: Nós bombardeamos escritórios de mídia e destruímos a "liberdade de imprensa" em um campo de concentração ao ar livre enquanto proibimos manifestações pacíficas sob estado de sítio no coração da Europa .
         E se você se revoltar, será cancelado.
         Gaza se encontra com Paris. O bombardeio da torre al-Jalaa — um edifício eminentemente residencial que também abrigou os escritórios da al-Jazeera e da Autoridade Palestina, entre outros — pela "única democracia no Oriente Médio" — está diretamente ligado à ordem ilegal executada pelo Ministério do Interior de Macron. 

         Para todos os efeitos práticos, Paris apoiou as provocações da potência ocupante de Jerusalém Oriental; a invasão da mesquita de al-Aqsa — efetuada com gás lacrimogêneo e granadas atordoantes; gangues de sionistas racistas assediando e gritando "morte aos árabes"; colonos armados agredindo famílias palestinas ameaçadas de expulsão das suas casas em Sheikh Jarrah e Silwan; uma campanha de bombardeio “em tapete” cujas vítimas letais — em média — são 30% de crianças. 
         As multidões em Paris não se intimidaram. De Barbès à Répúblique, elas marcharam nas ruas — o seu brado de guerra foi “Israel assassin, Macron complice”. Elas instintivamente entendiam que Le Petit Roi — um insignificante funcionário dos Rothschild — havia acabado de destroçar o legado histórico da Nação que cunhou a Déclaration Universelle des Droits de L'Homme. 
         A máscara da "democracia liberal" continuou a cair reiteradamente — com a Big Tech imperial obedientemente cancelando em massa as vozes dos palestinos e dos defensores da Palestina, em conjunto com um kabuki diplomático que só podia enganar aqueles em estado de morte cerebral. 
         No dia 16 de maio, o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês Wang Yi presidiu um debate do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) através de vídeo que foi bloqueado por Washington, incessantemente, ao longo de toda a semana. A China preside CSNU durante o mês de maio. 
         O CSNU não conseguiu sequer chegar a acordo sobre uma mera declaração conjunta. Isso, novamente, porque o CSNU foi bloqueado — covardemente — pelo Império do Caos. 
         Coube a Hua Liming, antigo embaixador chinês no Irã, botar tudo em pratos limpos numa única frase: “Os EUA não querem dar à China o crédito da mediação do conflito Palestina-Israel, especialmente no momento em que a China preside o CSNU”. 
         O habitual procedimento imperial é "conversar", ao estilo mafioso com "ofertas que não podem ser recusadas", com ambos os lados, por baixo da mesa — como o combo que está por trás do Presidente Crash Test Dummy, um sionista declarado, que num terrível tweet da Casa Branca confessou "reafirmar" o seu "forte apoio ao direito de Israel a defender-se". 
         Liming enfatizou, corretamente, que "essa é a razão-chave pela qual qualquer solução ou qualquer cessar-fogo entre Israel, Gaza e demais forças na região seria temporário". 
         Todo o Sul Global é incessantemente bombardeado pela retórica imperial dos "direitos humanos" — desde o vigarista condenado Navalny até os relatórios falsos sobre o Xinjiang. Mas quando há uma catástrofe real de direitos humanos desencadeada pelo bombardeamento em tapete do colonizador aliado do colonialista, como destacou Liming, "a hipocrisia e a duplicidade de padrões dos EUA são mais uma vez revelados". 



Um telefonema pode pôr fim à isto 

         Amos Yadlin é o antigo chefe da Diretoria de Informações Militares das Forças de Defesa de Israel e também antigo adido militar israelense nos EUA. 
         Numa reunião com sionistas sul-africanos, ele admitiu o óbvio: a carnificina sionista contra Gaza pode ser parada pelo Crash Test Dummy da Casa Branca — o qual acaso é, quem diria, um fantoche sionista. 
         Yadlin afirmou que a administração do Crash Test Dummy, ou para ser mais exato, do grupo por trás dele, estava afinando "impaciente" e "não ficaria surpreso se isto tudo acabasse em 48 horas". E mais uma vez ele reforçou o óbvio: "Quando os egípcios pedem a Israel para parar, Israel não quer parar. Mas se os americanos pedirem a Israel para parar, Israel terá de ouvir". 
         A marca registada do Império é a linguagem ambígua no que se refere à "comunidade internacional" — que em teoria abrange a ONU. O bombardeio de propaganda 24 horas por dia que a acompanha aplica-se apenas à variada tripulação de parceiros no crime, minions, lacaios, poodles e vassalos, ignorando imperialmente e/ou mijando nas cabeças de mais de 80% do planeta. Confrontado com a realidade do Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Iêmen, Ucrânia e outros, a "ordem internacional baseada em regras" nem sequer se qualifica como uma piada para retardados. 
         Assim, da próxima vez que avistar algum espécime de sub-zoológico utilizando o argumento de Máxima Estupidez "Israel tem o direito de se defender" Estupidez Máxima, a única resposta possível é disparar fatos como mísseis. 
         Todo ser senciente com alguma consciência sabe que a Palestina enfrenta um projeto colonialista racista que se vangloria de usar suas forças armadas até os dentes contra o povo, detentor de várias bombas nucleares, especializado na prática do terrorismo de Estado. 
         Gaza, no entanto, é um caso particularmente aterrador. População: quase 2 milhões de pessoas. Uma das áreas mais densamente povoadas do planeta. Um verdadeiro campo de concentração ao ar livre, onde não menos de 50% da população é de crianças, uma em cada dez delas sofrendo de atrofia, em grande parte devido à escassez de alimentos provocada pelo bloqueio israelense. O plano militar israelense oficial consiste em permitir apenas alimentos suficientes para que a população sobreviva no limite. 50% da população depende da ajuda alimentar. 
         Não menos de 70% das famílias são de refugiados, os quais foram etnicamente saneados do que é agora o sul de Israel: há aproximadamente 1,46 milhão de refugiados numa população de 1,9 milhão. 
         Gaza tem oito campos de refugiados — alguns deles estão sendo bombardeados neste exato momento. Nunca podemos esquecer que Israel dominou Gaza diretamente do ano de 1967 a 2005 e fez menos do que zero para melhorar suas terríveis condições. 
         Há apenas 22 centros de saúde, 16 gabinetes de serviços sociais e 11 centros de distribuição alimentar, para servirem aproximadamente 1 milhão de pessoas. Não há nenhum aeroporto ou porto: ambos foram destruídos por Israel. A taxa de desemprego é de 50% — a mais alta de todo o planeta. Água tratada está disponível para apenas 5% da população. 
         Mas há a Resistência. Elijah Magnier mostrou como eles já furaram a aura pré-fabricada de invulnerabilidade e de "prestígio" de Israel — e só há um caminho a seguir, pois a velocidade, precisão, alcance e potência dos foguetes e mísseis só tende a melhorar. 
         Em paralelo, num sábio movimento estratégico, o Hamas e a Jihad Islâmica deixaram claro que preferem que o Hezbollah não fique diretamente envolvido — por enquanto —, permitindo portanto que todo o Sul Global se centre na carnificina perpetrada contra Gaza. 



"Uma paisagem de ferro e desolação" 

         “Sociologie de Jerusalem”, de Sylvaine Bulle, é um livro curto mas bastante esclarecedor que mostra como a batalha por Jerusalém Oriental é tão imperativa para o futuro da Palestina quanto a tragédia em Gaza. 
         Bulle concentra-se no "racismo interno" em Israel, diretamente ligado à hegemonia das "elites" sionistas de extrema-direita. Uma consequência-chave tem sido a "periferização" e marginalização da Jerusalém Oriental, atirada para uma situação de "dependência forçada" da Jerusalém Oeste ocidentalizada. 
         Bulle mostra como Jerusalém Leste só existe como "uma paisagem de ferro e desolação", através de uma justaposição de zonas ultradensas e totalmente abandonadas. Os palestinos que vivem nestas áreas não são encarados ou respeitados como cidadãos. 
         Ficou muito pior depois de 2004 e da construção da Muralha — a qual impediu a mobilidade diária dos palestinos que viviam nos territórios ocupados e dos palestinos em Jerusalém. Foi mais uma fratura, com partes de Jerusalém Oriental isoladas do outro lado da muralha e muita gente a viver agora numa verdadeira terra de ninguém. Muitos poucos em todo o Ocidente "democrático liberal" têm alguma ideia de como é que isso é sentido na prática. 
         Os palestinos em Jerusalém Oriental não têm nacionalidade israelense. A maior parte tem passaportes jordanianos. No entanto, agora mesmo os palestinos com nacionalidade israelense estão se rebelando — na maioria dos casos em cidades muito pobres no centro do país. As gerações jovens simplesmente não têm razões para acreditar que pertencem a Israel. 
         Quanto aos esquerdistas laicos israelenses, eles foram "neutralizados" e não têm poder político, pois foram incapazes de integrar as massas trabalhadoras, as quais por sua vez foram completamente capturadas por extremistas religiosos linha-dura. 
         A conclusão de Bulle, expressa com demasiada diplomacia (afinal, estamos na França), é inevitável: o Estado de Israel é cada vez mais judeu e cada vez menos democrático, um regime sionista de facto. Ela acredita que poderá ser possível reconstruir a ligação entre a identidade nacional judaica e a democracia, incluindo os direitos das minorias palestinas. 
         Lamento, mas isso não irá acontecer, como a tragédia atual, que começou em Jerusalém Oriental, mostra de forma clara. 
         A Via Dolorosa continua — como todos nós observamos com horror. Imagine os níveis ocidentais intergalácticos de histeria se a Rússia ou a China bombardeassem, disparassem projéteis e mísseis e matassem crianças em zonas residenciais. Não admira que o Império do Caos — e das Mentiras, pose como uma "democracia liberal" enquanto permite o projeto sionista assassino, esteja firmemente a flertar com o caixote do lixo da História. 

 

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