GLENN GREENWALD: Kyle Rittenhouse, Project Veritas e a incapacidade de pensar em termos de princípios


        O FBI executou uma série de mandados de busca tendo como alvo as casas e telefones celulares do fundador do Project Veritas, James O'Keefe, e de vários outros associados a essa organização. Não deve ser necessário nenhum esforço para entender por que é motivo de preocupação que um governo democrata esteja usando o FBI para atacar agressivamente uma organização dedicada a obter e relatar informações incriminatórias sobre líderes do Partido Democrata e seus aliados liberais.

        Isso não significa que a investigação do FBI seja inerentemente imprópria. Os jornalistas não têm mais direito do que qualquer outro cidadão de cometer crimes. Se houverem motivos razoáveis ​​para acreditar que O'Keefe e seus associados cometeram crimes federais, uma investigação do FBI é justificada como em qualquer outro caso. Mas não houve nenhuma evidência apresentada de que os funcionários da O'Keefe ou do Project Veritas tenham feito algo desse tipo, nem qualquer explicação fornecida para justificar essas buscas invasivas. O que deveríamos nos atentar é evidente: se o FBI da Trump tivesse executado mandados de busca e apreensão nas redações do New York Times ou da NBC News, estaríamos exigindo evidências para comprovar que esse procedimento era legalmente justificado. Ainda assim, virtualmente nada foi fornecido para justificar por qual motivo o FBI colocou O'Keefe e seus colegas em sua mira, e o pouco que foi divulgado para justificar isso não faz sentido.

        A investigação do FBI diz respeito ao roubo do diário da filha de Joe Biden, Ashley, no ano passado. Embora o Project Veritas admitisse ter recebido uma cópia de uma fonte anônima, optou por não publicar o diário porque não foi capaz de verificá-lo. Ninguém e nada até agora sugere que o Project Veritas desempenhou qualquer papel em sua aquisição, legal ou ilegalmente. Há uma referência enigmática no mandado de busca à transmissão de material roubado entre estados, mas não é ilegal para jornalistas receber e utilizar material adquirido ilegalmente por uma fonte — a maioria das organizações convencionais passou o último mês divulgando documentos furtados do Facebook por sua heróica denunciante Frances Haugen.

        Na segunda-feira à noite, produzimos um relatório detalhado em vídeo examinando a ação do FBI contra O'Keefe e o Project Veritas e os perigos que isso representa. Um dos principais tópicos de nosso relatório foi a tática autoritária que normalmente é usada para justificar ataques governamentais contra aqueles que relatam notícias e divulgam informações — ou seja, decretar que o alvo não é um “jornalista de verdade” e, portanto, não tem o direito de reivindicar a garantia da Primeira Emenda à liberdade de imprensa.

        Essa tática de “jornalista de verdade” foi e continua sendo a principal teoria usada por aqueles que justificam a tentativa em andamento de aprisionar Julian Assange. Ao exigir a acusação de Assange sob a Lei de Espionagem, a senadora democrata Dianne Feinstein escreveu no Wall Street Journal: “O Sr. Assange afirma ser jornalista e sem dúvida confiaria na Primeira Emenda para defender suas ações”. Ainda assim, a senadora de cinco mandatos insistiu: “mas ele não é um jornalista: ele é um agitador que pretende prejudicar nosso Governo, cujas políticas ele discorda, independentemente de quem se machuque”.

        Essa tática também foi utilizada pela CIA e pela mídia corporativa contra mim e meus colegas nas reportagens sobre Snowden que fizemos em 2013, bem como na tentativa fracassada de me processar criminalmente em 2020 pelas denúncias que fizemos no Brasil: puni-los não é um ataque à liberdade de imprensa porque eles não são jornalistas e o que eles fizeram não é jornalismo .

        O que é mais impressionante sobre essa arma é que — como a campanha pelo aumento da censura — ela é liderada por jornalistas. É a mídia corporativa que insiste mais agressivamente que aqueles que são independentes, aqueles que são outsiders, aqueles que não se submetem às suas estruturas institucionais, não são “jornalistas de verdade” como eles e, portanto, não têm direito às proteções da Primeira Emenda . A fim de criar uma estrutura para negar o status de jornalista do Project Veritas, o New York Times afirmou na semana passada que qualquer pessoa que use investigações secretas (como a Veritas faz) automaticamente um não é um jornalista porque isso implica mentir — mesmo que, apenas dois anos antes, o mesmo jornal listou positivamente diversos meios de comunicação, como Al Jazeera e Mother Jones, por utilizarem investigações secretas para realizar o que chamaram de reportagem “convincente”.

        Conheço muito bem essa tática repressiva de tentar decretar quem é e quem não é um jornalista de verdade para fins de proteção constitucional. Muitos se esqueceram — dados os prêmios que acabaram ganhando — que as reportagens NSA/Snowden que fizemos em 2013 foram originalmente criticadas como quase criminosas não apenas pelos membros do Conselho de Segurança Nacional de Obama, como James Clapper, mas também pelo New York Times. O primeiro perfil que o Paper of Record publicou sobre mim, um dia após o início da reportagem, se referia a mim na manchete como um “ativista antivigilância” e então, após a reação negativa causada, foi alterado para "blogueiro" (o título original desqualificante e sarcástico ainda pode ser visto no URL).

        Como a própria editora pública do New York Times na época objetou, ao negar-me propositalmente o rótulo de “jornalista”, o jornal estava conscientemente aumentando os riscos de que eu pudesse ser processado por minhas reportagens. De fato, reportagens recentes do Yahoo! News sobre os planos da CIA para sequestrar ou assassinar Julian Assange relataram que negar a Assange o rótulo de “jornalista” e, em seguida, redefinir eu e minha colega Laura Poitras de “jornalistas” para “information brokers”, permitiria ao Governo dos EUA espionar ou até mesmo nos processar sem ter que se preocupar com aquela garantia inconveniente de “liberdade de imprensa” da Primeira Emenda.

        Tudo isso demonstra como é perigoso invocar essa mesma tática de “jornalista de verdade” contra O'Keefe e o Project Veritas. No entanto, se alguém alertar sobre os perigos das ações do FBI, isto é exatamente o que se escutará dos liberais, dos democratas e de seus aliados na mídia: a mira do FBI para o Project Veritas não tem nada a ver com a liberdade de imprensa, já que eles não são jornalistas de verdade . Eles estão invocando a teoria autoritária que sustenta que o Estado (ou, neste caso, o FBI) ​​tem o poder de decretar quem é um “jornalista de verdade” — o que quer que isso signifique — e quem não é.

        Existem tantas ironias quanto ao uso dessa estrutura. Frequentemente, funcionários de corporações midiáticas que nunca divulgaram uma grande história em suas vidas — e nunca o farão — se deleitam em acusar jornalistas independentes que publicaram várias histórias importantes — como Assange — de não serem “jornalistas de verdade” . No auge da reportagem Snowden, fui ao Meet the Press, em julho de 2013, apenas para o apresentador David Gregory sugerir que eu deveria estar na prisão ao lado de minha fonte Edward Snowden, porque eu não era realmente um jornalista como David Gregory era. Na época, Frank Rich, na New York Magazine, notou como era bizarro que David Gregory, uma celebridade de TV, presumisse ser um “jornalista de verdade”, ao passo que eu não era um jornalista e merecia a prisão por causa de minhas reportagens, visto que Gregory — como a maioria dos funcionários de grandes corporações de mídia — nunca escreveu nenhuma história em toda sua vida. Rich usou um formato de perguntas e respostas com Eric Benson para enfatizar seu ponto:


        “No domingo,  o apresentador do Meet the Press, David Gregory, praticamente acusou Glenn Greenwald do Guardian de ajudar e encorajar os vazamentos de Edward Snowden, perguntando: ‘Por que você não deveria, Sr. Greenwald, ser acusado de um crime?’ E, falando em seu ponto mais amplo, você vê Greenwald como um jornalista ou um ativista neste episódio? E isso importa?

        David Gregory é jornalista? Como um experimento mental, cite um furo que ele divulgou, uma fonte que ele cobriu com distinção e todas as entrevistas memoráveis ​​que conduziu que não sejam com John McCain, Lindsey Graham, Dick Durbin ou Chuck Schumer. O Meet the Press foi superado pelo Face the Nation, da CBS, assim como o Today foi superado pelo Good Morning America, da ABC, e meu palpite é que Gregory não quis soar como Joe McCarthy (com um toque da oleosidade de Roy Cohn), mas estava apenas interpretando esse papel para fazer algum barulho. Em qualquer caso, sua acusação é absurda. Como colunista que publicou os vazamentos de Edward Snowden, Greenwald estava fazendo o trabalho de um jornalista — e o fato de ser um jornalista “ativista” (ou seja, um jornalista de opinião, como eu e um zilhão de outros) é irrelevante para essa função jornalística… É mais fácil para Gregory ir atrás de Greenwald, um autoproclamado outsider que provavelmente não comparecerá ao Jantar de Correspondentes da Casa Branca e trabalha para uma agência de notícias com sede em Londres. Presumivelmente, se Gregory estivesse há cerca de 40 anos atrás, ele também teria acusado o Times de ajudar e encorajar o inimigo quando publicou o vazamento maciço de Daniel Ellsberg dos documentos do Pentágono. Em qualquer caso, Greenwald demoliu Gregory no ar e no Twitter (‘Quem precisa que o governo tente criminalizar o jornalismo quando você tem David Gregory para fazer isso?’)”.


        Na época — tanto em termos da desavença com Gregory quanto de meu relatório geral sobre a NSA — eu tinha um apoio significativo da esquerda liberal (embora estivesse longe de ser universal, visto que estávamos expondo espionagem em massa, indiscriminada e ilegal por parte da Administração Obama). Mas poucos acreditavam que eu deveria ser processado com base no fato de que, de alguma forma, eu não era um “jornalista de verdade”.

        Então, por que tantos deles agora estão dispostos a endossar exatamente essa mesma teoria quando se trata de O'Keefe e do Project Veritas, ou mesmo para justificar a acusação de Julian Assange? A resposta é óbvia. Eles não querem e/ou não conseguem pensar em termos de princípios que se aplicam universalmente a todos, independentemente de sua ideologia. Seu processo de pensamento nunca chega a esse destino. Quando o assunto dos ataques do FBI a O'Keefe é levantado, ou a acusação de Assange pelo DOJ é discutida, eles fazem a si mesmos uma pergunta e apenas uma pergunta, e isso encerra o inquérito. É o fator exclusivo e determinante: gosto de James O'Keefe e de suas políticas? Gosto de Julian Assange e de suas políticas?

        Esse prisma primitivo, livre de princípios e orientado pelo personalismo é a única maneira pela qual eles são capazes de compreender o mundo. Por não gostarem de O'Keefe e/ou Assange, eles imediatamente ficam do lado de quem quer que os tenha como alvo — o FBI, o Departamento de Justiça, os serviços de segurança do Estado — e acreditam que qualquer um que os defenda está defendendo um extremista de direita em vez de defender o princípio não ideológico e universalmente aplicável da liberdade de imprensa. Eles pensam apenas em termos de personalidades, não de princípios.

        As ações do FBI contra o Project Veritas e O'Keefe são tão abertamente alarmantes que grupos de liberdade de imprensa, como o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) e a Fundação para a Liberdade de Imprensa (FPF) — cujo Conselho faço parte — expressaram sérias preocupações sobre isso, inclusive em suas contas de mídia social, para que todos possam ver. Até mesmo a União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) — que hoje em dia detesta falar em favor de qualquer pessoa ou grupo não apreciado por sua base de doadores liberais altamente partidários — emitiu uma declaração cuidadosamente vaga que deixou claro o quanto eles desprezam o Project Veritas, mas disse: “No entanto, o precedente estabelecido neste caso pode ter sérias consequências para a liberdade de imprensa” (pelo menos até agora, a ACLU apenas publicou discretamente esta declaração em seu site e não proferiu nenhuma palavra sobre isso em suas contas de mídia social, onde a maioria de seus doadores liberais rastreiam o que eles fazem, mas o fato de que se sentiram compelidos a dizer qualquer coisa em defesa deste boogieman de direita demonstra o quão extremistas são as ações do FBI). O juiz federal que supervisiona os mandados proibiu temporariamente o FBI de extrair mais informações dos telefones celulares apreendidos de O'Keefe e outros funcionários do Project Veritas enquanto se aguarda uma determinação de sua justificativa legal.

        A razão deste grave ataque à liberdade de imprensa é dupla. Em primeiro lugar, como indicado, qualquer tentativa de se ungir o árbitro de quem é ou não um “jornalista de verdade” para fins de proteção da Primeira Emenda é inerentemente tirânica. Quais instituições são suficientemente confiáveis ​​e competentes para decretar quem é um “jornalista de verdade” que merece a proteção da Primeira Emenda e quem fica de fora como outra coisa?

        Mas há um problema muito mais significativo com essa estrutura: a saber, a questão de quem é ou não um jornalista de verdade é completamente irrelevante para a Primeira Emenda. Nenhum dos direitos da Constituição, incluindo a liberdade de imprensa, pretendia ser aplicado apenas a um pequeno grupo de cidadãos enclausurados, credenciados e privilegiados. Na verdade, era exatamente o oposto: a única razão pela qual eles são valiosos como direitos é porque eles têm aplicação universal, protegendo todos os cidadãos .

        Na verdade, uma das queixas mais veementes dos colonos americanos era que ninguém tinha permissão para usar a imprensa, a menos que primeiro fosse licenciado pela Coroa britânica. Por outro lado, o jornalismo mais célebre da época foi realizado por pessoas como Thomas Paine — que nunca trabalhou para um meio jornalístico formal em sua vida — circulando o panfleto “Common Sense” que criticava os abusos do Rei. O que estava protegido pela Primeira Emenda não era uma casta pequena e privilegiada com o rótulo especial de “jornalistas”, mas sim a atividade de uma imprensa livre. A prova disso é clara e ampla, e está demonstrada no vídeo que produzimos segunda-feira à noite.

        Mas nada disso importa. Se você expressar preocupação com o fato do FBI perseguir O'Keefe, isso será imediatamente entendido não como uma preocupação com qualquer um desses princípios subjacentes, mas, em vez disso, como um endosso às opiniões políticas de O’Keefe, a seu jornalismo e a ele próprio. O mesmo ocorre no discurso em torno de Kyle Rittenhouse. Se você disser — depois de ter realmente assistido ao julgamento — que você acredita que o Estado falhou em provar sua culpa sem qualquer dúvida razoável à respeito de sua legítima defesa, muitos não acreditarão em sua sinceridade, insistirão que sua visão não se baseia em alguma avaliação apolítica das evidências ou princípios jurídicos sobre o que o Estado deve fazer para prender um cidadão, mas ao invés disso, que você deve ser um “apoiador” do próprio Rittenhouse, de sua ideologia (seja lá ela qual for), e do movimento político ao qual acreditam que ele está associado.

        Em algum nível, isso é pura projeção: aqueles que são incapazes de avaliar os conflitos políticos ou jurídicos através de um prisma de princípios em vez de personalismo presumem que todos são atormentados pela mesma deficiência. Desde que eles decidiram se apóiam ou se opõem às ações do FBI em relação a O'Keefe com base em sua visão pessoal sobre O'Keefe, em vez de por referência a quaisquer princípios, eles presumem que é assim que todos estão determinando seus pontos de vista sobre a situação. Da mesma forma, uma vez que eles baseiam suas opiniões sobre se Rittenhouse deve ser condenado ou absolvido com base em como eles se sentem pessoalmente sobre Rittenhouse e a percepção que têm de suas opiniões políticas, e não nas evidências apresentadas no julgamento (que a maioria deles não assistiu), eles presumem que qualquer um que esteja defendendo sua absolvição só pode estar fazendo isso porque gosta das opiniões políticas de Rittenhouse e acreditam que suas ações foram heróicas.

        Em suma, aqueles que vêem o mundo através de um prisma desprovido de princípios — seja devido à falta de capacidade intelectual, ética ou ambos — assumem que a visão de mundo de todos é igualmente covarde. É essa mesma mentalidade atrofiada que sobrecarrega nosso discurso com tantas suposições ilógicas e distorcidas, como a incapacidade de distinguir entre defender o direito de alguém expressar uma opinião particular e concordar com essa opinião. Em um mundo em que predomina a ideologia, a lealdade partidária, as afiliações tribais, a identidade de grupo e as avaliações orientadas pela personalidade, não há espaço para princípios, direitos universalmente aplicáveis ​​ou razão básica.

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