Compreender os recentes fenômenos que dão contorno ao surgimento de um modo de produção de nível superior na China utilizando a obra de um economista brasileiro não é um ato em si mesmo. É uma rebeldia intelectual contra a colonização intelectual que afeta as ciências humanas e sociais no Brasil. Na verdade, existe a coincidência entre o déficit de produção de teorias dentro e fora do Brasil e o surgimento da ciência do projetamento pelas tintas de Rangel.
O marxismo de Rangel nada tem a ver com as teorias estruturalistas do desenvolvimento e, mesmo, com qualquer teoria da dependência — de direita e de esquerda. O marxismo de Rangel é o Lênin que reelabora o conceito de formação econômico-social. O marxismo da busca do universal no particular. Mas não é exatamente disso que se trata. Evidente, Rangel foi o único pensador marxista brasileiro a entregar um quadro analítico de conjunto para interpretar o Brasil. Seu marxismo radical o impedia de aplicar teorias gerais a casos específicos. Qual pensador marxista brasileiro pode, a partir de uma leitura da dinâmica da formação social brasileira, construir uma teoria da moeda endógena? Ou entregar uma contribuição única sobre o funcionamento de nosso sistema de preços?
Mas Rangel não foi somente o gênio leniniano que interpretou o Brasil. A ele seu livro mais importante chama-se “Elementos de Economia do Projetamento”. Um complicado livro de economia para engenheiros cheio de segredos embutidos dentro do formalismo tecnicista do mestre. Rangel estava, ao analisar o projeto Sputinik e a reconstrução europeia, observando o surgimento de uma convergência de “leis de funcionamento” nas economias soviética e da Europa Ocidental. A arte de elaborar e executar projetos deveria ser alçada ao grau de ciência.
Economia de Projetamento é uma forma de organização da grande produção baseada na mais sofisticada técnica à disposição da sociedade. São os projetos os grandes instrumentos de ação humana como o Princípio da Demanda Efetiva e a socialização dos meios de produção. É a superação da anarquia da produção e do curto prazismo empresarial. É totalidade entre macroeconomia e microeconomia, entre plano e mercado. É o primeiro passo da libertação do ser humano do fetiche por si mesmo.
O neoliberalismo, o fim da URSS e o recrudescimento do keynesianismo militarizado nos EUA levaram ao fim as primeiras experiências de projetamento. Após buscar explicações às formas como a China estava reagindo à Crise de 2008 me reencontrei com Rangel. As teorias convencionais de desenvolvimento não são capazes de relacionar o papel do surgimento de tecnologias disruptivas com a elevação da capacidade de planificar da economia chinesa. Mais, impossível a elas perceber o papel do projeto de seus profissionais no processo de elaboração e execução de milhares de projetos de forma simultânea. Algo inédito na história humana. Neste aspecto, Rangel antecipou-se em mais de 50 anos a todos teóricos do desenvolvimento. Não somente por isso.
Mas por fazer perceber que a URSS era a vanguarda desta Economia de Projetamento, pois somente a concentração nas mãos do Estado de imensas forças produtivas proporcionaria a capacidade necessária para executar imensos e milhares de projetos simultaneamente. Na China, a Economia do Projetamento ressurge. Não mais como propunha Rangel, como auxiliar do planejamento, mas como forma histórica de nível superior da própria planificação econômica e do socialismo.
Essa Nova Economia de Projetamento só se conforma como uma forma histórica distinta na medida em que a China, por meio dela, responde às demandas crescentes de sua sociedade. Mais do que isso, fica um interessante desafio intelectual. Nenhum país do mundo seria capaz de executar milhares de projetos simultaneamente sem um poder político de novo tipo e uma base produtiva e financeira hegemonizada pela propriedade pública. Daí a luz de Rangel ser fundamental. É instrumento de rebeldia. Por conseguinte, ciência.
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