ELIJAH J. MAGNIER: Os EUA temem o modelo chinês e seu impacto no Oriente Médio


        Apesar da China ser um participante relativamente “tímido” na política do Oriente Médio, a hegemonia americana, que reivindica exclusividade entre os países árabes mais “obedientes” (aqueles que se inserem em sua esfera estratégica de influência), é ameaçada por ela. O aspecto preocupante para os EUA é que Pequim busca apresentar um modelo diferente que integre e aproveite as experiências militares fracassadas dos EUA em muitas guerras e tentativas de interferência política direta nas últimas décadas.

        A China aspira um avanço político-econômico não agressivo no Oriente Médio através de um modelo menos feroz e menos explícito do que o americano. A China tem grandes chances de sucesso devido à crescente conscientização naquela parte do mundo da necessidade dos Estados do Oriente Médio diversificarem suas relações internacionais e fontes de equipamento militar e comércio. Isso reforça o contexto dos esforços dos Estados do Oriente Médio para reduzir a dependência dos EUA e demais países do Ocidente.

        Além disso, o efeito devastador das intervenções dos EUA e o grande número de mortes causadas pelas forças americanas criaram um ressentimento significativo entre muitas populações, a ponto da comunicação moderna e das redes sociais não conseguirem mais esconder as evidências das irregularidades dos EUA. Por outro lado, Pequim tem seguido a abordagem de não ingerência nos assuntos de outros Estados, procurando alcançar uma política de “zero inimigos“, não obstante algumas (modestas) intervenções militares em diferentes partes do mundo. No entanto, a China não ameaçou nenhum país com ações militares ou sanções. Ao contrário de Washington, a China nunca esteve em posição de agitar a carta de “defesa dos direitos humanos” (abandonada por Donald Trump) para intimidar Estados, usando esta pressão para reafirmar sua influência quando necessário.

        A liderança chinesa observa a política e a dinâmica internacional, os países e povos que enfrentam a força militar mais poderosa do mundo e como eles se rebelaram e desafiaram a hegemonia dos EUA. Consequentemente, a China não acessou o Oriente Médio para “saquear” o que Washington recolheu em sua “cesta”. Em vez disso, exige parceria com países relativamente pobres, mas ricos em petróleo, que possuem a fonte de energia primária necessária para as indústrias chinesas. Além disso, a China está à procura de múltiplos mercados para suas indústrias e produtos.

        O que Pequim acredita se encaixa nas aspirações da maioria dos países do Oriente Médio. A China acredita que a estabilidade no Oriente Médio requer dinamismo econômico, assegurando oportunidades de emprego, construindo infraestrutura vital e fornecendo educação e serviços de saúde para todos. Isso, na perspectiva visível da China, ajuda os países a crescer e evitar a migração de suas populações para o Ocidente ou para países ricos em petróleo. Como o vizinho continente europeu é o mais afetado pelo fluxo de imigrantes, os objetivos chineses se encaixam no desejo dos países europeus de apoiar os habitantes do Oriente Médio, mas sem apoiar a hegemonia dos EUA. Através de financiamentos e empréstimos do Banco Mundial, dominado pelos EUA, os americanos espalharam sua influência opressiva sobre os países mais pobres da África e do Oriente Médio.

        Além disso, ao explorar o medo do Irã e a preocupação com seus tronos (para certos reinos), os EUA estabeleceram bases militares e as distribuíram por muitos países do Oriente Médio (e do resto do mundo). Além disso, visando os países empobrecidos, impuseram duras sanções para desestabilizar os Estados mais fracos. No final das contas, os EUA acabaram por não alcançar esses objetivos, permitindo que a China aprendesse com os inúmeros erros de Washington e os evitasse.

        É natural para a China temer as tentativas dos EUA de desestabilizar sua unidade e segurança interna, usando as cartas de “democracia” e “direitos humanos”. Mas os EUA têm uma relação bem estabelecida com muitos ditadores e severos governantes monárquicos. Entretanto, a “carta humanista” é politizada em vez de defendida como um princípio. Os temores de Pequim são legítimos porque Washington ganhou uma longa experiência encorajando “revoluções coloridas” para derrubar regimes em todo o mundo. Ainda sim, os EUA falharam em alcançar a paz em qualquer lugar onde seus soldados estivessem envolvidos em uma guerra.

        A incapacidade da China de lançar uma mídia sólida nacional ou internacional que apóie sua política, promova as centenas de projetos essenciais em que está envolvida em todo o mundo, ou apresente o modelo chinês em virtude do fracassado modelo americano, é visível por sua relativa ausência no Oriente Médio.




A história da China com o Mundo Árabe


        Há dois mil anos, a Dinastia Han tinha fortes laços com o Oriente Médio, que nunca deixou de utilizar as antigas rotas comerciais conhecidas como “Rota da Seda“, ligando o Oriente com o Ocidente. Após a fundação da República Popular da China em 1949, a Era Mao Tsé-Tung recuou em direção ao interior e seus arredores como prioridade. Essa política enfraqueceu a relação com o Oriente Médio até que Deng Xiaoping (1978-1989) assumiu a liderança do País e começou a melhorar esse relacionamento após as lentas reformas econômicas domésticas. A necessidade de petróleo da China (60% de seu petróleo vem do Oriente Médio) e o poder de compra dos países árabes e dos países da Ásia Ocidental, em geral, levou a liderança chinesa a dar mais atenção a esta parte do mundo para a exportação de suas mercadorias. Consequentemente, a China emergiu do isolamento que havia imposto a si mesma.

        Quando o Presidente Hu Jintao chegou ao poder em 2002, a China concluiu acordos de livre comércio com os países do Conselho de Cooperação do Golfo. O Fórum de Cooperação da China e dos Países Árabes (CASCF) foi estabelecido em 2004 e, subsequentemente, a proporção do comércio e dos investimentos chineses com o Oriente Médio subiu de um bilhão em 2005 para 11 bilhões em 2009.




A “Nova China”


        Em 2013, o Presidente Xi Jinping apresentou sua estratégia econômica mais importante e ambiciosa para reavivar e ampliar a antiga “Rota da Seda”. Ele a chamou de “Iniciativa Cinturão e Rota” (ICR) para conectar a China com a Afro-Eurásia, ligando mais de 60% da população mundial. Esse projeto colossal permitiria à China superar a União Europeia e os EUA, que dominam o poderio econômico global há muito tempo.

        A iniciativa da China visava quebrar o ciclo que os EUA haviam tentado estabelecer em torno de suas águas com o “Colar das Pérolas”, conectando dezenas de portos no Pacífico Ocidental/Ásia Oriental com o Oceano Índico, África e Europa. Isso permitiria que a China ganhasse uma base na Afro-Eurásia e aumentasse seu soft power ao longo das rotas comerciais mais movimentadas. De fato, 90% das importações chinesas de petróleo são entregues por meio dessa rota, vindo da África e do Oriente Médio. Além disso, o fluxo comercial anual através do Mar do Sul da China é estimado em 5 trilhões de dólares, representando mais da metade do volume comercial total do mundo.

        Consequentemente, o Oriente Médio é considerado uma “região estratégica com prioridade máxima” para que a China tenha um papel ainda mais significativo. Seus investimentos no Oriente Médio já somam 177 bilhões, incluindo 70 bilhões somente com os países do Conselho de Cooperação do Golfo.

        Sem dúvida, os países do Oriente Médio precisam da China e vice-versa. Pequim deu muitos passos adiante e tentou energicamente entrar no Líbano e no Iraque, apresentando conceitos tentadores para projetos que os dois países exigiam e necessitavam. Entretanto, o momento de oferecer projetos de grande importância não foi apropriado para cada país: temiam a reação dos EUA e a cólera em potencial que isso poderia causar. Os EUA se recusaram a “ceder” à China em muitos países do Oriente Médio por medo da comparação óbvia que inevitavelmente abalaria o País e sua posição naquela parte do mundo.

        Os EUA selecionaram os tipos de apoio oferecidos a seus “aliados” que estavam ausentes de qualquer projeto significativo relacionado à infraestrutura necessária naqueles países (isto é, Líbano e Iraque) onde os americanos são parcialmente dominantes. Isso gerou uma considerável insatisfação entre a população. Essa estratégia desastrada, ignorando a infraestrutura, oferece uma oportunidade para a China buscar intervenções civis e não governamentais como acesso justificável para retornar a esses países para investir e estabelecer uma base de apoio. A China encontrará muitos Estados sedentos por uma alternativa devido à natureza não dominante de seu modelo de desenvolvimento apresentado dentro e fora do círculo de influência dos EUA e em contraste com ele.

        A China, que tem um papel comercial global e uma função política significativa como membro permanente das Nações Unidas, amplia seu papel coordenando com a Rússia em várias questões do Oriente Médio. As mais recentes intervenções russo-chinesas no Conselho de Segurança da ONU foram relacionadas à Líbia, Síria e ao Acordo Nuclear iraniano. Ocasionalmente, os EUA dependem da Rússia e da China para desempenhar um papel positivo na negociação da questão nuclear com o Irã e impedir que este alcance uma capacidade nuclear militar. Por outro lado, a oposição chinesa e russa a muitas resoluções de projetos dos EUA impediu muitas sanções agressivas e ações militares do Oriente Médio.

        Militarmente, Pequim participou das Forças de Manutenção da Paz no Líbano em 2016. A China enviou seus navios para o Golfo de Aden para participar de operações antipirataria, por decisão das Nações Unidas, sem tomar partido ou se envolver de outra forma em quaisquer conflitos do Oriente Médio. A China estabeleceu boas relações com o Hamas, Hezbollah, Israel, Irã e Arábia Saudita, além de ter assinado acordos comerciais com mais de 15 países árabes.

        Além disso, a China está mostrando sua capacidade militar. Conduziu exercícios navais conjuntos no Golfo de Aden com o Irã e a Rússia pela primeira vez para demonstrar que se tornou ainda mais visível. Além disso, o Senegal pediu à China que interviesse para combater o terrorismo no Sahel. A China investiu mais de 200 bilhões de dólares na África, e a segurança do continente é uma fonte de preocupação e importância para Pequim. A China construiu um impressionante arsenal militar, naval e de mísseis, tendo testado recentemente a capacidade espacial mais avançada (com mísseis hipersônicos, que podem constituir um óbvio dissuasor para qualquer país que queira atacá-la).

        A China também se dirigiu à África para construir relações com o Egito e vários países africanos. Construiu uma base naval no Djibouti em 2017 e contribuiu para as Forças de Manutenção da Paz no Mali e no Sudão. Os “navios dragões” chineses chegaram às costas sírias de Tartus e Lataquia durante a ocupação dos EUA no nordeste da Síria.

        A China é forte o suficiente para intimidar qualquer potência estrangeira tentada a atacá-la por possuir algumas centenas de mísseis nucleares. Ainda assim, está longe de competir com a quantidade de bombas atômicas dos EUA, mesmo que o número de armas seja irrelevante — os EUA usaram apenas duas bombas em Hiroshima e Nagasaki durante a Segunda Guerra Mundial e elas foram suficientes para destruir duas cidades japonesas e mostrar a capacidade destrutiva dos EUA em relação às populações civis em caso de guerra.




Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB)


        Durante a Guerra Fria, a China se beneficiou da corrida nuclear EUA-Rússia para impulsionar sua economia e alcançar seu objetivo. A riqueza chinesa permitiu que se iniciassem projetos colossais que afetavam a economia e as finanças mundiais.

        Em 2013, a China anunciou a criação do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB), com um capital de 100 bilhões de dólares e operando a partir de Pequim com 104 membros, incluindo Arábia Saudita, Egito, Jordânia, Irã, Kuwait, Omã, Catar, Emirados Árabes Unidos e Bahrein. Ela compete com a influência do Banco Mundial, que os EUA estabeleceram para impor sua política econômica e se envolver com os assuntos político-econômicos do resto do mundo — um impacto mais significativo do que qualquer intervenção militar.

        Significativamente, a China existe como um Estado ativo dentro dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e é membro da Organização de Cooperação de Xangai (China, Índia, Cazaquistão, Quirguistão, Paquistão, Rússia, Tajiquistão, Uzbequistão e Irã). Pequim está tentando construir parcerias e aliados para a prosperidade econômica e para fortalecer sua posição no mundo.




Conclusão


        Ao contrário da base política dos EUA, a China está baseando seu objetivo atual em renovadas “estratégias de parceria” com os países do Oriente Médio, e não no colonialismo explícito que alimenta diferenças e conflitos internos e sectários. A China opera como uma superpotência, criando uma posição internacional que a protege de interferências em seus assuntos internos. Depois de fechar as portas sobre si mesma durante décadas, ela aprendeu lições dos erros de outras grandes potências como a União Soviética e os Estados Unidos da América. Ficou provado que as soluções militares nem sempre levam aos objetivos desejados.

        No momento, falta à China a experiência e a decisão necessárias para conquistar os corações e mentes dos países do Oriente Médio, que estão ansiosos para lidar com uma superpotência econômica mais visível e que não procura apenas explorar o que há em seus bolsos. No entanto, a política da China é, sem dúvida, de se mover lenta mas firmemente e consolidar sua posição no mundo inteiro antes de se tornar um ator proeminente em diferentes direções, países e campos.

        Isso está provocando ansiedade no coração da administração dos EUA, que agora deve se preocupar com a intensa concorrência à sua hegemonia por parte da Rússia e da China. Logicamente, Washington deveria compreender que a era do unilateralismo terminou e que a era atual da multipolaridade se tornou inevitavelmente uma realidade.

        A maioria dos países do Oriente Médio não está acostumada a governar a si mesmos sem interferência externa que os faça desempenhar o papel coletivo de “uma orquestra”. No entanto, o maestro americano certamente era, e ainda é, parte do problema. Portanto, a questão permanece: A China pode desempenhar o papel de maestro (de uma forma mais racional do que os Estados Unidos) sem necessariamente demonstrar sua força militar e confiando principalmente no poder econômico?



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