A administração colonial formada pelos Estados Unidos e pela União Europeia que desde 2014 gere a Ucrânia, com apoio de entidades neonazistas saudosistas de Hitler, criou a maior plataforma de guerra e de provocação que ameaça toda a Europa ao mesmo tempo que transformou o País num grande campo de miséria.
Desde 2014, à luz do golpe da Praça Maidan dado em nome “da democracia”, Washington e Bruxelas vêm militarizando a Ucrânia, recorrendo, sem rebuço nem vergonha, a uma máfia política mergulhada em corrupção e em traficâncias neoliberais; criando assim condições para conduzir uma guerra interna contra as populações russófonas da região do Donbass e desenvolvendo uma atmosfera de hostilidade contra a Rússia e a Bielorrússia propícia às manobras agressivas e provocatórias da OTAN.
Nas operações internas tem-se distinguido, pela crueldade exercida contra as populações civis, o braço armado do regime, a Guarda Nacional, corpo criado a partir do Golpe de 2014 integrando estruturas retintamente neonazistas, como é o caso do batalhão Azov. Notícias vindas regularmente a público, mas que não cabem nos pacotes propagandísticos da mídia corporativa, dão conta de que estes grupos hitlerianos frequentam as ações de formação ministradas por altos quadros militares norte-americanos e europeus em situação de reserva, mas realmente integrados nas estruturas da OTAN.
Já em novembro deste ano, o regime de Kiev recebeu mais 60 milhões de dólares em material militar, incluindo 80 toneladas de munições, da Administração Biden — a quarta remessa desde agosto enviada por Washington. Joseph Biden, então como Vice-Presidente de Obama, foi um dos principais operacionais do Golpe de Maidan, recorrendo principalmente aos serviços de campo de Victoria Nuland, quadro superior do Departamento de Estado envolvida diretamente na conspiração, na ação e na formação dos primeiros governos do regime. A respeito desta manobra, na qual os Estados Unidos fizeram questão de exercer exclusividade absoluta, Nuland pronunciou a célebre frase “fuck the EU”, um escândalo diplomático entre “aliados” que Bruxelas, fiel à sua subserviência em relação a Washington, reduziu a um não acontecimento. A expressão foi proferida numa conversa com o então embaixador norte-americano em Kiev, Geoffrey E. Pyatt, agora em Atenas conduzindo as ações de conspiração e provocação nos Balcãs.
O atual Presidente norte-americano tem uma forte ligação “sentimental” à Ucrânia. Utilizando o filho Hunter Biden como testa de ferro, Joseph Biden entrou em força nos negócios de petróleo e gás do País; no seu atual Governo colocou na mais elevada das posições — a de secretário de Estado —, o norte-americano e ucraniano Anthony Blinken. De 2014 para cá, têm passado pela administração ucraniana vários ministros e ministras de nacionalidade e ascendência norte-americana, ou mesmo indivíduos com formação nos Estados Unidos e que já foram presidentes de outros países, como o caso do georgiano corrupto Shakashwili.
Desde o Golpe de 2014, segundo o atual secretário da Defesa norte-americano, Lloyd Austin, os Estados Unidos injetaram na Ucrânia mais de 2,5 bilhões de dólares em material militar, incluindo recentemente os mísseis antitanque Javelin, que já foram utilizados na guerra contra o Donbass, de acordo com Kyrilo Budanov, chefe da espionagem militar de Kiev. Confirmando-se assim que o Governo ucraniano tem como política a violação dos acordos de Minsk, que determinam uma solução política e desmilitarizada para o conflito na região.
Budanov foi mais longe e assegurou que os mísseis Javelin foram usados igualmente “contra forças russas”. Esta afirmação deve ler-se, porém, à luz do fato de Kiev considerar as forças militarizadas de autodefesa do Donbass como “parte do Exército Russo”. Uma asserção que faz parte do discurso provocatório oficial ucraniano.
Há de realçar ainda que o equipamento das forças militares de influência neonazista da Ucrânia foi ainda reforçado recentemente com drones ofensivos Bayraktar, de fabricação turca. O ditador Erdogan é um dos pilares internacionais de sustentação do regime autocrático de Kiev, apesar da crescente degradação das condições econômicas do seu País.
Provocação em curso
Há pouco mais de uma semana, os serviços de espionagem norte-americanos municiaram a Comissão Europeia com supostas “informações secretas”, segundo as quais a Rússia estaria se preparando para invadir a Ucrânia no início do próximo ano, designadamente a partir da Crimeia e da Bielorrússia.
Embora fazendo parte da alimentação permanente da hostilidade da União Europeia para com a Rússia, esta diligência pode traduzir um novo nível da agressividade da OTAN em relação a Moscoh. Há poucos dias, tirando proveito da situação criada com o problema dos refugiados entre a Bielorrússia e a Polônia, a Aliança Atlântica reforçou com mais umas dezenas de tanques o seu dispositivo de guerra alegadamente contra Minsk, mas que, em última análise, tem a Rússia como alvo principal.
Na sequência das mais recentes operações militares de Kiev contra o Donbass, utilizando nomeadamente os mísseis de fabricação norte-americana Javelin, como confirmado pelo chefe da espionagem militar ucraniana, o Exército Russo reforçou os dispositivos militares na fronteira ucraniana. Algo que Moscou já fizera anteriormente e que dissuadiu então as forças de Kiev de prosseguirem uma das frequentes ofensivas contra o Leste do País.
Os Estados Unidos pretendem que se interpretem estas movimentações como uma ameaça iminente de invasão da Ucrânia pela Rússia. Washington e a OTAN, que se caracterizam por fazer manobras militares agressivas em praticamente todo o mundo, onde dispõem de 800 bases militares muito para além das suas próprias fronteiras, têm assim a desfaçatez de qualificar como indícios de agressão as movimentações militares a que outros países procedem, de maneira soberana, exclusivamente no interior dos seus territórios. A Rússia, recorda-se, está cercada pela presença exorbitante de tropas da OTAN em suas fronteiras, oriundas até de nações muito distantes.
As acusações de Kiev e da OTAN pronunciadas a propósito de supostas intenções agressivas de Moscou são entre outras coisas, e como é fácil de perceber, cortinas de fumaça para tentar resolver militarmente a guerra contra o Donbass e para o reforço cada vez mais intenso do massivo dispositivo da Aliança Atlântica ameaçando a Rússia.
Um regime de miséria
Entre 2013 e 2021 a Ucrânia transformou-se, como um todo, numa das maiores bases militares da OTAN. Os armamentos e as capacidades militares presentes no País são absolutamente desproporcionadas e insultuosas em relação às grandes necessidades da esmagadora maioria da população, cada vez mais desprovida de condições essenciais de vida e até de sobrevivência.
O sistema autocrático e castrense instituído em Kiev pela administração colonial de Washington e Bruxelas, em nome “da democracia” e da “ameaça russa”, é um regime de autêntica miséria, com estratos sociais reduzidos a uma penúria degradante. A “libertação” consumada a partir da Revolução Colorida de Maidan, que rapidamente se tornou sangrenta através da ação das tropas de choque neonazistas, conduziu a Ucrânia à cauda da Europa em matéria de condições sociais, econômicas e humanas.
Através de dados recolhidos em fontes como o FMI, o Banco Mundial, o Serviço Oficial de Estatísticas de Kiev e o Banco Central da Ucrânia é possível perceber o estado dramático do País, um cenário inversamente proporcional à riqueza das suas aptidões militares.
De 2013 até 2020, a população da Ucrânia reduziu-se de 45,5 milhões de pessoas para 30,1 milhões — ou mesmo para 28 milhões, segundo fontes diferenciadas.
Dessa redução de 15 milhões na população, cerca de 10 milhões deixaram o País em busca de melhores condições de vida em países da União Europeia e na Rússia. Grande parte dessas pessoas adquiriram já as nacionalidades dos países de acolhimento e chamaram suas respectivas famílias. Deixaram, em grande parte, de contribuir para a economia ucraniana.
Os restantes cinco milhões de pessoas a menos traduzem o aumento de mortalidade em relação aos valores médios registados até 2013.
Segundo elementos fornecidos pelo FMI e pelo Banco Mundial, o Produto Interno Bruto (PIB) ucraniano desceu de 183,3 bilhões de dólares em 2013 para 155,5 bilhões em 2020, ou seja uma queda da ordem dos 15% desde a instauração “da democracia” por Washington e UE.
O rendimento médio per capita caiu em média de 4.030 dólares em 2013 para 3.725 dólares em 2020 — 310 dólares por mês (menos de 300 euros). No entanto, a grande maioria da população, cerca de 70%, tem um rendimento mensal de 210 a 215 dólares, isto é, mais ou menos 200 euros. Naturalmente o poder de compra baixou cerca de 20%. Os preços da alimentação e dos medicamentos são os mais elevados em comparação com os dos países vizinhos.
Dados oficiais revelam ainda que um terço da população, 10 milhões de pessoas, sofre de subnutrição; e dois milhões passam fome num país onde as desigualdades continuam a crescer, como é próprio das ditaduras neoliberais.
A indústria ucraniana colapsou 25% e a dependência energética em combustíveis fósseis e eletricidade continua a aumentar, sobretudo em relação à Rússia, país com o qual a Ucrânia se diz “em guerra”, e à Bielorrússia, país contra o qual funciona como plataforma de conspiração e de atividades subversivas.
Apesar da Ucrânia se ter transformado num paraíso neoliberal, nem sequer se consegue afirmar como um farol para o investimento estrangeiro — pelo contrário: esse valor desceu de 5.6 bilhões de dólares em 2013 para 800 milhões de dólares em 2020, isto é, sete vezes menos do que antes do Golpe.
Neste quadro verdadeiramente trágico, a publicação anual Doing Business, do Banco Mundial, conseguiu encontrar em 2020 um rating de “sucesso” para a Ucrânia. O resultado foi tão pouco convincente que o próprio Banco Mundial veio a considerá-lo depois como “distorcido”, levantando assim suspeitas de que teria sido fabricado graças a incentivos financeiros irregulares. O regime ucraniano, de tão protegido pelos seus gestores internacionais, consegue até exportar corrupção, revelando grandes aptidões na matéria.
Entre a riqueza armamentista e a miséria social, este país a funcionar como base militar da OTAN, mesmo sem pertencer formalmente à organização, transformou-se no pavio da guerra, talvez o mais inquietante, suscetível de incendiar a Europa e o mundo.
Basta uma fagulha. E a OTAN, com a colaboração prestimosa da União Europeia, parece andar à procura da maneira de a atear. Condições e marionetes não faltam na Ucrânia.
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