A consequência de muitas décadas de idéias terríveis começou agora a impor seu peso total sobre a nave unipolar do Estado, se vendo inclinada para um redemoinho autoinduzido. Os capitães que comandavam este navio teriam sido capazes de prever facilmente esse mergulho trágico há muito tempo, se não tivessem optado por se embriagar com a hegemonia em meio à era cult do consumismo e da miopia hedonista que transformou nossa sociedade há 50 anos. Essas conchas vazias de estadistas que alcançaram proeminência na era pós-verdade mostraram-se tão distantes de qualquer aparência de humildade ou autoconsciência que o Presidente Joe Biden não encontrou constrangimento em defender uma Cúpula Mundial pela Democracia em 9 e 10 de dezembro.
Além do fato de que esta “cúpula pela democracia” optou de forma não democrática por não convidar quase metade das nações da Terra — incluindo China e Rússia —, os EUA ainda estão de alguma forma projetando a imagem de liderança da livre e democrática ordem internacional baseada em regras. O fato é que nenhuma nação fez mais trabalho para minar democracias, espalhar guerras e assassinatos nos últimos 70 anos do que os EUA — e apenas um zumbi muito superficial, vivendo em uma câmara de eco autocongratulatória, deixaria de notar esse fato.
Infelizmente, à medida que os desenvolvimentos recentes em torno da corrida desastrosa pelo fim dos combustíveis fósseis (em meio a uma terrível crise de energia que ameaça milhões de vidas) e pelo confronto militar com a Rússia e a China, o Ocidente não sofre de falta de zumbis superficiais vivendo em câmaras de eco autocongratulatórias.
75 anos de bombardeios em nome dos valores democráticos
Hoje, o legado de caos e assassinato desenfreado causado pela ação militar americana resultou em 201 conflitos armados induzidos (de um total de 248 registrados) desde o início da Guerra Fria. Isso representa impressionantes 81% de todos os conflitos militares registrados desde a Segunda Guerra Mundial, com 90% das mortes ocorrendo entre civis inocentes.
1945 é um ponto de partida justo, pois foi o fim da última guerra que poderia ser justificado de maneira racional (embora nenhum bom argumento possa ser feito para justificar o motivo pelo qual os banqueiros de Wall Street ou de Londres tiveram que financiar o fascismo antes e durante a guerra, mas isso é uma história para outro lugar).
Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA perderam completamente qualquer reivindicação de uma posição moral elevada, já que a bela visão de Franklin Roosevelt para o desenvolvimento global em cooperação com a Rússia e a China foi sabotada por cobras do Deep State à espreita pela primeira chance de assumir o controle do navio do Estado.
Esta máquina fascista dentro dos EUA contra a qual Roosevelt lutou implacavelmente desde 1932 foi convocada pelo ex-Vice-Presidente Henry Wallace, que afirmou em 1946: “O fascismo no pós-Guerra inevitavelmente pressionará continuamente pelo imperialismo anglo-saxão e, eventualmente, pela guerra com a Rússia. Os fascistas americanos já estão falando e escrevendo sobre este conflito e usando-o como uma desculpa para seus ódios internos e intolerâncias em relação a certas raças, credos e classes”.
Neste momento trágico, Wallace foi demitido do gabinete de Harry S. Truman, e uma nova recolonização anglo-americana do mundo começou sob o pretexto de “parar o comunismo ateu”. As bombas nucleares que Roosevelt jamais permitiria serem usadas — especialmente em uma nação derrotada como o Japão — foram rapidamente lançadas por um homenzinho racista que nem mesmo era confiável o suficiente para ser informado de sua existência enquanto Vice-Presidente. Truman não só não sabia do Projeto Manhattan, mas também não tinha moralidade ou força mental para entender o que Roosevelt planejava para a era do pós-Guerra, e logo liderou um expurgo de todos os patriotas do OSS, que foi dissolvido em setembro de 1945 para reconsolidar uma nova agência de guerra clandestina chamada CIA, em 1947.
Sob esta nova era de bipolarismo da Guerra Fria, as artes sombrias da guerra híbrida, dos assassinatos e dos golpes coordenados pela CIA e pelo MI6 foram aperfeiçoados. Nações proeminentes visadas desde o início por este novo pacto diabólico incluem Grécia (1947), Síria (1949), Irã (1953), Guatemala (1954), Laos (1960), República Dominicana (1961), Congo (1961, 1965), Sul Vietnã (1963), Brasil (1964), Bolívia (1971), Chile (1973) e Argentina (1976) — para citar apenas alguns.
A Guerra da Coréia prontamente levou à morte de mais de 3 milhões de civis e um número ainda maior de refugiados, deixando a infraestrutura do País em total desordem. Posteriormente, a Guerra do Vietnã resultou na morte de pelo menos dois milhões de civis, 1,1 milhão de soldados norte-vietnamitas, 300 mil soldados sul-vietnamitas e 58 mil soldados americanos, segundo dados de 1995 do Governo vietnamita.
É difícil estimar a perda de vidas causadas, direta e indiretamente, pelas intervenções dos Estados Unidos entre 1945 e o presente. Na última categoria, pode-se incluir o renascimento das redes fascistas na Europa por meio da Operação Gladio, na América Latina por meio da Operação Condor, e a criação de organizações terroristas islâmicas radicais sob a Operação Ciclone de Brzezinski .
Os assassinatos cometidos a estadistas nacionalistas que buscam defender seu povo do mal não foram reservados somente aos países pobres, mas também incluíram importantes figuras morais dentro dos governos ocidentais. Entre este agrupamento encontram-se o Secretário-Geral da ONU, Dag Hammarskjold, o industrial Enrico Mattei, o Presidente John F. Kennedy, Malcolm X, Martin Luther King Jr. e Bobby Kennedy. Este último certamente teria sido eleito Presidente em 1968, se a bala de um assassino não tivesse atingido sua nuca à queima-roupa.
Para que não esqueçamos que a Guerra Imperial não se limita ao lançamento de bombas, golpes de Estado ou revoluções coloridas, John Perkins demonstrou em seu livro “As Confissões de um Assassino Econômico”, de 2004, que a pior forma de guerra sempre foi de natureza econômica. Há muito se sabe que mais danos podem ser causados por um golpe da caneta de um economista do que mil grupos paramilitares.
Depois que essa doutrina de terra arrasada destruiu várias gerações, uma resistência finalmente emergiu poderosa o suficiente para começar a desafiar este Império do Caos, como vimos com a subversão russa das operações golpistas na Síria. Não apenas vemos resistência, mas também a criação de uma nova ordem econômica viável, necessária para proporcionar um desenvolvimento real às nações do mundo. Onde a “ordem baseada em regras” ofereceu bombas humanitárias e democráticas revoluções coloridas ao mundo, a liderança da Ordem Multipolar está oferecendo cooperação pacífica e infraestrutura em larga escala.
China e Rússia entram em cena
Pela primeira vez em décadas, projetos de infraestrutura vinculadas à Iniciativa Cinturão e Rota (ICR) estão surgindo no sudoeste da Ásia. Ferrovias que conectam o Iraque ao Irã (como a ferrovia Shalamcheh-Baçorá) estão sendo construídas, o Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC) transformou milhões de vidas no Paquistão e abriu novas filiais que podem facilmente estender o desenvolvimento ao Afeganistão e além. Por meio da diplomacia russa e chinesa, a Síria está sendo readmitida na Liga Árabe e as discussões estão em andamento para estender uma conexão da ICR do Sul através do Irã, Iraque, Síria, Líbano e Turquia, como parte de um programa de reconstrução mais amplo.
Nos últimos sete anos uma nova arquitetura econômica financeira alternativa foi cuidadosamente construída fora da esfera de influência do FMI e do Banco Mundial. Esse sistema alternativo está se desdolarizando em ritmo acelerado e emitindo empréstimos de longo prazo com juros baixos e sem condicionalidades usurárias para o desenvolvimento genuíno.
Enquanto o Deep State anglo-americano estava ocupado com a obsessão de conduzir uma revolução colorida para destituir um Presidente democraticamente eleito dentro dos próprios Estados Unidos entre 2016-2020, a Rússia e a China estavam ocupadas lançando uma grande estratégia de brilho diplomático em todo o Sul Global. Até 2020, mais de 135 nações assinaram memorandos de entendimento para aderir à Nova Rota da Seda (ICR), com 17 países árabes, 17 ibero-americanos e 50 africanos embarcando no bote salva-vidas.
A fórmula usada pela Rússia e pela China é simples, embora impossível um para um liberal moderno entendê-la:
- Fornecer apoio inabalável para a soberania de cada nação participante;
- Promover o não intervencionismo militar absoluto em outro Estado;
- Incentivar o planejamento econômico de longo prazo a fim de harmonizar todos os interesses em uma comunidade de interesses compartilhados.
Se a população americana estivesse mais ciente de sua própria história, veria rapidamente que essa perspectiva é inteiramente compatível com uma tradição que o Ocidente uma vez incorporou em tempos mais sãos.
Democratas progressistas reais como Franklin Roosevelt e John F. Kennedy morreram defendendo esse paradigma de soma diferente de zero de cooperação ganha-ganha em todo o mundo.
Essas figuras compreenderam, como autômatos dominantes entre a multidão tecnológica iluminada baseada em regras hoje, não podem conceber, que a única base viável sobre a qual os ideais democráticos podem ser nutridos é quando cada Estado participante é respeitado como uma nação soberana. Ao ser respeitado como uma nação soberana, cada membro pode ser confiável para agir de acordo com seus verdadeiros próprios interesses. Ao agir de acordo com seu verdadeiros próprios interesses, a elevação dos padrões de vida e das necessidades universais de paz, de segurança, de liberdade de viver sem penúrias e as metas de melhoria econômica podem ser promovidas. Quando esses ideais são apresentados, a fé na bondade da humanidade pode florescer em bases sólidas e a cooperação entre as divisões culturais, étnicas, nacionais e religiosas pode unir os membros de cada nação em uma família. Este foi o significado da perspectiva de política externa do Presidente John Quincy Adams, quando ele imaginou uma "comunidade de princípios”.
Na medida em que os bonecos de corda tecnofeudais continuam a promover a “democracia”, enquanto exigem que o mundo permaneça firmemente sob o controle de uma hegemonia unipolar, então nenhuma “cúpula da democracia” terá valor.
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