O Afeganistão esteve no centro das atenções da 17ª Sessão Extraordinária do Conselho de Ministros das Relações Exteriores, representando 57 nações na Organização para a Cooperação Islâmica (OIC). Coube ao Primeiro-Ministro Paquistanês Imran Khan proferir o discurso principal da sessão, realizada em 19 de dezembro no Parlamento em Islamabade. Ele se mostrou à altura da ocasião: “Se o mundo não agir esta será a maior crise provocada pelo homem que está se desdobrando em nossa frente”. Imran Khan não estava discursando perante apenas representantes de terras islamicas, mas também funcionários da ONU, as proverbiais “instituições financeiras globais”, dezenas de ONGs, um grupo de burocratas americanos, europeus e japoneses e, principalmente, o ministro das Relações Exteriores Talibã, Amir Khan Muttaqi. Nenhuma nação ou organização até o momento reconheceu formalmente o Talibã como o novo e legítimo governo afegão. E alguns estão francamente mais interessados em se envolver em um kabuki elaborado, fingindo fornecer algum tipo de ajuda à economia afegã, devastada após 20 anos de ocupação EUA/OTAN, em vez de realmente coordenar pacotes de ajuda à Cabul. Os números são terríveis, e pouco revelam sobre a extensão total do drama. De acordo com o PNUD, 22,8 milhões de cidadãos afegãos — mais da metade da população do Afeganistão — enfrentam escassez de alimentos e, em breve, enfrentarão fome aguda; enquanto nada menos que 97% dos afegãos logo cairão abaixo da linha de pobreza. Além disso, o Programa Alimenar Mundial enfatiza que 3,2 milhões de crianças afegãs estão em risco de desnutrição aguda. Imran Khan enfatizou que a OIC tinha um “dever religioso” de ajudar o Afeganistão. Quanto à “Hiperpotência” que surpreendeu o mundo com seu humilhante show de retirada após 20 anos de ocupação, ele foi inflexível: Washington deve “desvincular” quaisquer ressentimentos que possua contra o Governo do Talibã e o destino dos 40 milhões de cidadãos afegãos. Imran Khan cutucou algumas feridas afegãs — a começar pelo ex-Presidente Hamid Karzai — quando observou que “a ideia dos direitos humanos é diferente em cada sociedade”, referindo-se à província de Khyber Pakhtunkhwa, que faz fronteira com o Afeganistão. “A cultura da cidade é completamente diferente da cultura das áreas rurais”, disse ele. “Damos subsídios aos pais de meninas para que eles as mandem à escola. Mas nos distritos que fazem fronteira com o Afeganistão, se não formos sensíveis às normas culturais, eles não as mandarão à escola, apesar de receberem o dobro da quantia. Temos que ser sensíveis quanto aos direitos humanos e direitos das mulheres”. Isto foi interpretado em alguns quadrantes como interferência paquistanesa — parte de uma narrativa estratégica secreta e tortuosa. Na verdade, não. O Primeiro-Ministro estava declarando um fato, como sabe qualquer pessoa familiarizada com áreas tribais. Até mesmo o ministro afegão das Relações Exteriores, Muttaqi, disse que as palavras do Primeiro-Ministro não eram “insutuosas”. Imran Khan também observou que já existem mais de três milhões de refugiados afegãos no Paquistão. Além disso, Islamabade está abrigando mais de 200 mil refugiados com vistos vencidos. “Eles não podem voltar. Já estamos sofrendo com o impacto da pandemia de COVID-19. Não estamos em condições de lidar com um fluxo maciço de refugiados”.
Depois, há o último osso duro de roer: a dinâmica interna do Talibã. Fontes diplomáticas confirmam oficialmente que há uma luta incessante para convencer diferentes camadas da liderança do Talibã a permitir algumas concessões. As discussões com o bloco da OTAN estão, para todos os efeitos práticos, mortas: francamente, não haverá ajuda sem concessões visíveis sobre a educação feminina, os direitos das mulheres e o cerne da questão — sobre o qual todos concordam, inclusive os russos, os chineses e os centro-asiáticos — um governo mais inclusivo em Cabul. Até agora, os talibãs pragmáticos — liderados pelo escritório político de Doha — estão perdendo essa batalha.
A reunião da OIC ao menos apresentou sugestões práticas envolvendo bancos islâmicos de desenvolvimento. O ministro das Relações Exteriores do Paquistão, Shah Mehmood Qureshi, fez questão de enfatizar a necessidade de fazer com que Cabul tenha acesso aos serviços bancários. Este é o cerne do problema: não há canais bancários sólidos após a saída da OTAN. Portanto, é tecnicamente impossível transferir ajuda financeira para o sistema e depois distribuí-la pelas províncias mais afetadas. No entanto, mais uma vez, isso está relacionado, em última análise, às promessas ocidentais de ajuda humanitária repletas de condicionalidades. No final, Qureshi, juntamente com o Secretário-Geral da OIC, Hissein Brahim Taha, anunciou que um “fundo fiduciário humanitário” será estabelecido o mais rápido possível, sob a égide do Banco Islâmico de Desenvolvimento. O fundo deve ser capaz de incorporar parceiros internacionais, incluindo ocidentais não politizados. Qureshi mostrou sua face mais corajosa, enfatizando que “sente-se a necessidade de forjar uma parceria entre a OIC e a ONU”. Taha, por sua vez, foi bastante realista. Nenhum fundo foi prometo até o momento para esta nova operação humanitária da OIC. Como Qureshi mencionou, há uma coisa com a qual a Rússia, China, Irã, Paquistão e outros atores podem ajudar decisivamente: investimento “no povo do Afeganistão, bilateralmente ou através da OIC, em áreas como educação, saúde e habilidades técnicas e vocacionais para a juventude afegã”. Portanto, agora vem a hora do aperto. Cabe à OCI desempenhar o papel de liderança em termos de aliviar o terrível drama humanitário do Afeganistão. A declaração oficial conclamando todos os Estados-membros da OIC, instituições financeiras islâmicas, doadores e “parceiros internacionais” não identificados para anunciar promessas ao fundo fiduciário humanitário para o Afeganistão terá que ir muito além do floreado retórico. Pelo menos, é quase certo que, de agora em diante, caberá às terras islâmicas ajudar de forma decisiva o Afeganistão. Uma OTAN amarga, derrotada, vingativa e internamente corroída simplesmente não é confiável. Ninguém hoje se lembra que o Império inventou sua própria versão da Nova Rota da Seda há mais de 10 anos, anunciada pela então secretária de Estado Hillary Clinton em Chennai, em julho de 2001. Não era uma “comunidade de futuro compartilhado para a humanidade”, mas uma obsessão muito estreita em capturar recursos energéticos no Cazaquistão e no Turcomenistão; “estabilizar” o Afeganistão, como perpetuação da ocupação; dar um impulso à Índia; e “isolar” o Irã. As rotas de fornecimento de energia para o Ocidente deveriam passar pelo Mar Cáspio e, em seguida, pelo Azerbaijão, Geórgia e Turquia — os três atores do gasoduto BTC —, evitando assim a Rússia, que já estava sendo retratada no Ocidente como uma “ameaça”. Tudo isso está morto e enterrado, já que o Afeganistão pós-ocupação ao lado dos cinco “istãos” da Ásia Central está de volta como um dos principais focos de interesse da parceria estratégica Rússia-China: o coração de uma Grande Eurásia que se estende de Xangai, no leste, até São Petersburgo, no oeste. No entanto, para que isso aconteça, é imperativo que a OIC ajude o Afeganistão tanto quanto o Talibã deve ajudar a si mesmo.
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