Vindo diretamente do Presidente Putin, isto soa como um raio caído do céu: “Precisamos de garantias a longo prazo juridicamente vinculativas, mesmo sabendo que nelas não se pode confiar, pois os EUA frequentemente retiram-se de tratados que se tornam desinteressantes para eles. Mas isto ao menos é alguma coisa, não apenas garantias verbais".
E é assim que as relações Rússia-EUA chegam à crise definitiva — após uma série interminável de polidos alertas vermelhos vindos de Moscou.
Putin teve de especificar mais uma vez que a Rússia procura uma “segurança indivisível e equitativa” – um princípio estabelecido desde Helsinque em 1975 — apesar de já não encarar os EUA como um “parceiro” confiável, aquela delicadeza diplomática tão degradada pelo Império desde o fim da URSS.
O trecho da “retirada frequente dos tratados” pode facilmente referir-se ao modo como Washington em 2002, sob a égide de Bush Jr., retirou-se do Tratado sobre Mísseis Balísticos (ABM) que fora assinado entre os EUA e a URSS em 1972. Ou pode referir-se ao modo como os EUA, sob Trump, destruíram o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA) assinado com o Irã e garantido pela ONU. Os precedentes são abundantes.
Putin estava mais uma vez exercendo a paciência taoísta tão característica do ministro das Relações Exteriores Sergey Lavrov — explicando o óbvio não só a um público russo mas também a um público global. O Sul Global pode facilmente compreender esta referência: “Quando o Direito Internacional e a Carta da ONU interferem, eles [os EUA] declaram tudo como obsoleto e desnecessário”.
Anteriormente, o vice-ministro das Relações Exteriores, Alexander Grushko, fora invulgarmente assertivo — sem deixar nada para a imaginação: “Simplesmente deixamos claro que estamos prontos para falar sobre a transição de um cenário militar ou militar-técnico para um processo político que reforce a segurança de todos os países na área da OCSE, Euro-Atlântico e Eurásia. Se isso não funcionar, sinalizaremos a eles [OTAN] que também passaremos a criar contra-ameaças, mas então será tarde demais para nos perguntarem por que tomamos essas decisões e por que razão implantamos estes sistemas”.
Assim, no final das contas, os europeus enfrentam “a perspectiva de transformar o continente num campo de confrontação militar”. Esta será a consequência inevitável de uma “decisão” da OTAN na realidade decidida em Washington.
A propósito: qualquer possível e futura “contra-ameaça” será coordenada entre a Rússia e a China.
O Sr. Zircon está na linha, Senhor
Todos os seres sencientes, desde as costas atlânticas até as estepes eurasiáticas, agora já sabem o conteúdo dos rascunhos russos de acordos sobre garantias de segurança apresentados aos americanos, tais como pormenorizados pelo vice-ministro das Relações Exteriores Sergey Ryabkov.
As principais disposições incluem a paralização da expansão da OTAN; a não admissão da Ucrânia na organização; o fim das travessuras da OTAN na Ucrânia, Europa Oriental, Transcaucásia e Ásia Central; o acordo entre a Rússia e a OTAN no sentido de não instalarem mísseis de médio e curto alcance em áreas onde seja possível atingir o território um do outro; a criação de linhas diretas (hotlines); e o Conselho OTAN-Rússia ativamente envolvido na resolução de litígios.
O Ministério das Relações Exteriores da Rússia reiterou amplamente que os americanos receberam “explicações pormenorizadas sobre a lógica da abordagem russa”, de modo que agora a bola está no lado de Washington do campo.
Bem, o conselheiro de Segurança Nacional Jake Sullivan a princípio pareceu chutar a bola quando admitiu, em ata, que Putin pode não querer “invadir” a Ucrânia.
Em seguida, espalharam-se rumores de que os americanos voltariam a Moscou esta semana com as suas próprias “propostas concretas de segurança”, depois de terem escrito o roteiro de seus lacaios da OTAN, invariavelmente transmitido de forma espetacularmente medíocre pelo secretário-geral Jens Stoltenberg.
A narrativa da Ucrânia não mudou nem um centímetro: “medidas severas” — de natureza econômica e financeira — permanecem em aberto se a Rússia se envolver em uma nova “agressão” na Ucrânia.
Moscou não se deixou enganar. Ryabkow teve de especificar, mais uma vez, que as propostas russas eram bilaterais. Tradução: falamos apenas com quem tem poder de decisão, não com lacaios. O envolvimento de outros países, segundo Ryabkov, “os privará de seu significado".
Desde o início, a resposta da OTAN era previsivelmente óbvia: A Rússia está conduzindo um “aumento militar substancial, não provocada e injustificado” ao longo da sua fronteira com a Ucrânia e está fazendo “falsas... alegações de provocações ucranianas e da OTAN”.
Isso provou mais uma vez que é uma monumental perda de tempo discutir com chihuahuas tagarelas como Stoltenberg, para quem “a expansão da OTAN vai continuar, quer a Rússia goste ou não”.
De fato, quer os funcionários dos EUA e da OTAN gostem ou não, o que está realmente ocorrendo no reino da realpolitk é que a Rússia está ditando novos termos a partir de uma posição de poder. Em resumo: podem aprender o novo jogo de uma maneira pacífica, incluindo o diálogo civilizado, ou aprenderão do modo mais difícil através de um diálogo com o Sr. Iskandr, o Sr. Kalibr, o Sr. Khinzal e o Sr. Zircon.
O inestimável Andrei Martyanov analisou extensamente durante anos todos os pormenores da dominância militar esmagadora da Rússia, hipersônica ou não, em todo o espaço europeu — bem como as consequências terríveis que seriam desencadeadas caso os lacaios dos EUA e da OTAN “decidirem que querem continuar se fazendo de idiotas”.
Martyanov observou também que a Rússia “compreende a divisão com o Ocidente e está pronta a assumir quaisquer consequências, incluindo a retração do comércio, já em declínio, e a redução do fornecimento de hidrocarbonetos à UE".
É aí que todo o balé em torno das garantias de segurança se cruza com o ângulo crucial do Gasodutistão. Para resumir tudo: sair do Nord Stream 2, entrar no Power of Siberia 2.
Então devemos reexaminar por que a catástrofe energética que se avizinha da UE não está tirando o sono de ninguém na Rússia.
Dançando na noite siberiana
Uma das principais conclusões da videoconferência estratégica Putin-Xi na semana passada foi o futuro imediato do Power of Siberia 2 — atravessará a Mongólia para fornecer até 50 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano à China.
Assim, não foi por acaso que Putin recebeu o Presidente mongol Ukhnaagiin Khurelsukh no Kremlin, no dia seguinte à sua conversa com Xi, para discutir o Power of Siberia 2. Os parâmetros-chave do gasoduto já foram estabelecidos, um estudo de viabilidade será concluído no início de 2022 e o acordo — fora os ajustes de preços de última hora — está praticamente concluído.
O Power of Siberia 2 segue-se ao Power of Siberia 1 com 2.200 km de comprimento, lançado em 2019 da Sibéria Oriental para o norte da China e o foco de um acordo de US$400 mil milhões fechado entre a Gazprom e o CNPC da China. A plena capacidade do Power of Sibéria 1 será atingida em 2025, quando estará fornecendo 38 bilhões de metros cúbicos de gás por ano.
O Power of Siberia 2, uma operação muito maior, foi planejado há anos, mas foi difícil encontrar consenso sobre a rota final. A Gazprom queria uma rota da Sibéria Ocidental para Xinjiang através das montanhas de Altai. Os chineses queriam uma rota da Mongólia diretamente para o centro da China. Os chineses acabaram por prevalecer. A rota final através da Mongólia foi decidida há apenas dois meses atrás. A construção deve começar em 2024.
Trata-se de um gigantesco jogo geoeconômico, totalmente alinhado com a cada vez mais sofisticada parceria estratégica Rússia-China. Mas é também extremamente importante do ponto de vista geopolítico (lembre-se de Xi: a China apoia os “interesses fundamentais” da Rússia).
O gás para o Power of Siberia 2 virá dos mesmos campos que abastecem atualmente o mercado da UE. Sejam quais forem as invenções dementes que a Comissão Europeia — e o novo Governo alemão — possam aplicar no retardamento da operação do Nord Stream 2, o foco principal da Gazprom será a China.
Não importa para a Gazprom que a China, como cliente no futuro próximo, não venha a substituir totalmente todo o mercado da UE. O que importa é o fluxo comercial estável e a ausência de politicagem infantil. Para a China, o que importa é uma rota extra e garantida de fornecimento terrestre, impulsionando a sua estratégia de “fuga [do estreito] de Malaca”: a possibilidade, no caso de uma escalada da Guerra Fria 2.0, de que a Marinha americana acabe por bloquear o transporte marítimo de fontes de energia através do Sudeste Asiático para a China.
Pequim, claro, está em toda parte quando se trata de comprar gás natural russo. Os chineses têm uma participação de 30% no projeto Yamal de US$27 bilhões da Novatek, e uma participação de 20% no projeto de US$21 bilhões no Ártico.
Portanto, bem-vindos a 2022 e às novas altas apostas do Realpolitik Great Game.
As elites dos EUA tinham medo de jogar a Rússia contra a China por temerem que isso levasse a Alemanha a se aliar com a Rússia e com a China — deixando o Império do Caos no frio.
E isso leva ao “mistério” dentro do enigma de todo o caso ucraniano: usar a Ucrânia para forçar a UE a afastar-se dos recursos naturais russos.
A Rússia está virando todo o espectáculo de cabeça para baixo. Como superpotência energética, ao invés de uma UE corroída internamente e comandada pela OTAN, a Rússia ficará concentrada sobretudo nos seus clientes asiáticos.
Em paralelo, a superpotência militar russa, farta da intimidação EUA-OTAN, está agora ditando os termos de um novo acordo. Lavrov confirmou que a primeira rodada de negociações Rússia-EUA sobre garantias de segurança será realizada no início de 2022.
Seriam ultimatos? Na verdade, não. Parece que Ryabkov, com um didatismo notável, terá de continuar a explicar infinitamente: “Não falamos com ninguém na linguagem dos ultimatos. Temos uma atitude responsável em relação à nossa própria segurança e à segurança dos outros. A questão não é que tenhamos emitido um ultimato, de forma alguma, mas que a seriedade da nossa advertência não deve ser subestimada”.
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