LEJEUNE MIRHAN: Glória eterna à memória do Major-General Qasem Soleimani



        Qasem Soleimani era comandante da Força Quds 1, do Exército de Guardiões da Revolução Islâmica do Irã. Seu assassinato se deu a mando pessoal do ex-Presidente Donald Trump, em uma absoluta operação de ódio e vingança contra um líder muçulmano, internacionalista e lutador anti-imperialista. Restam grandes memórias e lembranças sobre sua ação, que deixo aqui registrado.

        Apresento neste pequeno ensaio algumas reflexões, tanto sobre o Major-General, que foi promovido em 2011 à essa maior patente militar. Regra geral, em qualquer país do mundo, as maiores patentes, acima de general quatro estrelas, são de tenente-general e major-general. Soleimani, seguramente, se não fosse assassinado, seria o candidato das Forças Revolucionárias Islâmicas nas eleições de 2021.

        O candidato vencedor nessas eleições foi o Dr. Ebrahim Raisi, que tomou posse no dia 6 de agosto de 2021, após eleições históricas, com vários candidatos e com baixo nível de abstenção. Ele venceu já no primeiro turno, com mais de 60% dos votos válidos. O vencedor teve não só a preferência da maioria do povo iraniano, como do establishment que dirige o País desde fevereiro de 1979, quando ocorreu a Revolução Islâmica.

        Eu me lembro que na época, quando eu era um jovem estudante universitário de apenas 22 anos, nós fundamos na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas um Comitê de Solidariedade à Revolução Iraniana. Éramos jovens comunistas e internacionalistas e apoiamos abertamente a queda do regime fascista pró-EUA encabeçado pelo Xá Reza Pahlavi⁽¹⁾.

        Naquele momento, Soleimani era um jovem de 21 anos que iniciava sua carreira militar. Ele nasceu em 11 de março de 1957 e em 1979 já estava lutando contra o imperialismo. Eu, aqui no Brasil, sendo apenas três meses mais velho, lutava contra a Ditadura Militar. Soleimani nasceu na época do chamado Estado Imperial do Irã, na região da Carmânia, uma província do País.

        A Força Quds — unidade especial do Exército dos Guardiões da Revolução Islâmica — é uma espécie de força internacional de revolucionários anti-imperialistas, que são chamados a atuar em quaisquer lugares do mundo quando convocados por governos patrióticos que lutam contra o imperialismo e o sionismo.

        É evidente que os Estados Unidos, a União Europeia e todos os países imperialistas, não gostam de revolucionários que lutam contra eles, então os chamam de terroristas. Não! Eles são jovens como eu fui. Mas, nós comunistas, que no passado já atuamos no mundo inteiro, hoje não temos esta compreensão e a dedicação que esses jovens revolucionários da Força Quds têm.

        Portanto, eu me solidarizo com esta juventude que, muitas vezes, larga tudo — os pais, a família, a carreira — e vai morrer na luta por um ideal. Por certo, é um ideal revolucionário e anti-imperialista mas, ao mesmo tempo, não é um ideal separado de uma concepção islâmica de mundo que defende a igualdade, a justiça, e a liberdade.

        Eles são muçulmanos de linha xiita, e nessa condição não há diferença com a corrente majoritária do Islã, a sunita, pois eles oram no mesmo livro, o Alcorão. Diferente das bíblias cristãs com suas várias versões, o seu livro sagrado é único.

        Os xiitas defendem a volta do Imã oculto, que é o Imã Mahdi, o 12º. Diz-se que ele não morreu, mas que apenas desapareceu. Eles falam da volta desse Imã, que governaria o mundo junto com Jesus Cristo. São jovens que têm essa convicção religiosa, progressista, igualitária⁽²⁾.

        Há autores que dizem que o Islã é uma religião socialista. Um dos principais, é o filósofo Roger Garaudy (1913-2012), que foi do Partido Comunista Francês por 60 anos, tendo se convertido ao Islã em 1982, com quase 70 anos⁽³⁾.

        Assim, o General começou sua carreira militar como comandante do movimento revolucionário que derrotou a agressão que o Iraque impôs ao Irã durante oito anos, de 1980 a 1988, já tendo um papel destacado nessa época ⁽⁴⁾.

        A partir de 2011, o Major-General Soleimani teve também papel destacado na resistência e no triunfo sobre os terroristas que atacaram a Síria. Apesar de derrotados, esses terroristas — a soldo da Arábia Saudita — ainda mantêm algum foco de resistência nos 10 últimos anos.         Por quase nove anos, até a sua morte em 2020, ele foi solidário à luta anti-imperialista e antiterrorista da Síria, tendo comandado a resistência guerrilheira que atuou ao lado do Exército Árabe Sírio.

        Eu encerro esta parte dizendo uma coisa que poucos sabem. O funeral do General Soleimani, em 4 de janeiro, foi um dos maiores já registrados no mundo. O Irã é um país de quase 90 milhões de habitantes. Segundo algumas estatísticas, milhões de pessoas se reuniam nas ruas de Bagdá.

        Eu fiz alguns cálculos baseados em dados de satélites do Google e nas imagens aéreas de todas as maiores cidades do País. O que vimos foi um “mar” de seres humanos nas ruas. Supondo que velhos e crianças não tivessem saído às ruas, a minha estimativa, segundo tudo o que já estudei, aquele foi o maior evento com comparecimento às ruas em um evento específico, seja ele religioso, seja político, seja um funeral. A minha estimativa é de que cerca de 30 milhões de iranianos foram às ruas, o que dá a força e a dimensão de sua popularidade.

        O Irã, desde 6 de agosto de 2021 é presidido pelo Dr. Ebrahim Raisi, um homem da hierarquia religiosa, mas que vai administrar o Irã de forma civil. O País tem duas estruturas administrativas, uma civil e uma religiosa. O líder Ali Khamenei, é o chefe do Islã no País e é considerado seu líder espiritual.

        Ele é eleito — e não nomeado como muitos pensam — por um Conselho de Sábios composto de 88 membros que, por sua vez, são eleitos pelo voto direto do povo. É uma eleição dificílima e muito mais concorrida que a de um deputado ao Parlamento⁽⁵⁾.

        Essa é a democracia islâmica, que nós temos que respeitar, porque não existe um modelo único de democracia. É a democracia que eles construíram. Eles têm a sua constituição, têm as suas leis, têm o Poder Judiciário civil e o religioso.

        O Irã joga hoje um papel muito importante no mundo. A imprensa, durante as eleições de agosto passado, chamava o Dr. Ebrahim Raisi de ultraconservador. Por certo, ele é um “ultra”: não conservador, mas um ultra anti-imperialista.

        Dizem que no Irã não tem liberdade. Não é verdade. A única liberdade proibida no Irã é a de defender os Estados Unidos e o sionismo, considerados como os maiores inimigos da humanidade. Fora isso, o cidadão tem liberdade para tudo: religiosa, de imprensa, as mulheres têm papel destacado no País...

        E, nesse sentido, o Irã lidera o chamado Eixo da Resistência no Oriente Médio, região composta pelos países árabes ao redor de Israel — um Estado plantado ali para representar os EUA. Nesse Oriente Médio expandido (Grande Oriente Médio) se incluiria o Irã e a Turquia, que tem sido um país pendular — hora está de um lado, hora de outro.

        O Irã lidera a resistência anti-imperialista e antissionista no Eixo da Resistência em conjunto com países como Iraque, Síria e Líbano — que querem tirar da órbita da resistência, mas não conseguirão. O Eixo conta ainda com o Hezbollah, um partido muito forte no Líbano que conta com ministérios, parlamentares, redes de hospitais etc.

        É preciso dizer que, agora em setembro, o Irã socorreu o Líbano, mesmo no meio dessa crise, mandando o equivalente a 72 milhões de litros de gasolina para garantir o funcionamento do País. Enviado para seus irmãos do Hezbollah, o combustível foi distribuído para todos os postos⁽⁶⁾.

        Mas não é só isso. O Irã vem sendo solidário — principalmente no último ano — com a Revolução Bolivariana na Venezuela, tendo mandado, no mês de abril de 2021, 10 milhões de litros de gasolina em cinco petroleiros, rompendo o bloqueio naval feito pelos Estados Unidos no Mar do Caribe através da 4ª Frota da Marinha Estadunidense e entregou ainda mais do que o combustível. O Irã criou na Venezuela uma rede de supermercados para ajudar o País que hoje vive sob o bloqueio dos EUA⁽⁷⁾.

        Não há hoje qualquer bloqueio que consiga fazer com que o Irã se ajoelhe e se dobre aos EUA, assim como também não o farão à Rússia e à China. A política de sanções e bloqueios nunca funcionou, apenas servindo para impor sofrimentos aos povos dos países bloqueados. Cuba está aí como prova: comemorou 63 anos da sua gloriosa Revolução em 1º de janeiro de 2022, enfrentando um embargo que em fevereiro completará 60 anos e não consegue dobrar a vontade do povo cubano, com a qual a Revolução Islâmica é solidária.

        Esta revolução islâmica tem o apoio, inclusive, da China e da Rússia. Tanto que o País, em 17 de setembro, foi admitido como membro pleno da Organização de Cooperação de Xangai (OCX)⁽⁸⁾, que em 2021 completou 20 anos como a maior organização de cooperação militar, com 12 milhões de soldados na ativa e 6 milhões na reserva. A OCX luta contra o separatismo, o extremismo e o terrorismo, ou seja, tudo que os EUA apoiam. Essa é a marca da política externa estadunidense.

        Eu concluo fazendo uma saudação à memória do General Soleimani que, no momento de seu assassinato, não estava em missão militar, mas em uma missão diplomática, com o passaporte diplomático no bolso, levando uma mensagem do Irã ao Primeiro-Ministro do Iraque, que, por sua vez, foi intermediário de uma carta do Rei da Arábia Saudita.

        A resposta tratava sobre a consulta de como o Irã reagiria caso houvesse um pedido de reatamento das relações diplomáticas feito pela Arábia Saudita. Nós não sabemos o conteúdo da carta, isso não foi revelado. Mas eu não tenho dúvidas de que ele estava em missão de paz, levando a proposta de paz, dizendo que aceitaria de bom grado, não só da Arábia Saudita, como de todo e qualquer país do mundo que queira ter boas relações com a República Islâmica do Irã. Trump, quando decidiu dar a ordem para que o General fosse assassinado, matou o mensageiro da paz.

        Neste momento, o Irã trabalha para a retomada do Acordo Nuclear abandonado por Donald Trump, que os EUA tentam barrar, mas não vão conseguir. A única opção que restará a Joe Biden, que pouco mudou a política externa deixada pelo fascista Trump, será a de voltar ao acordo sem nenhuma pré-condição e com a suspensão de todas as sanções.

        Lembrar a memória do Major-General Qasem Soleimani é também analisar o papel destacado que o Irã cumpre hoje na luta contra o imperialismo em todo o mundo.

        Vida longa à Revolução Islâmica, patriótica, democrática e, verdadeiramente revolucionária e glória eterna à memória do General Qasem Soleimani.











Notas:

(1): O Xá Mohammad Reza Pahlavi sucedeu ao seu pai no trono do Império do Irã em 1941. 

(2): Por certo, o conceito do 12º Imã que voltará não é consenso no Islã. Os sunitas não creem nele dessa forma, pois não se registra no Alcorão, de forma literal, a sua vinda. Mas é a crença é aceita em várias correntes xiitas, sufis e mesmo sunitas. 

(3): Roger Garaudy foi membro da guerrilha comunista da resistência durante a ocupação nazista da França. Tem dois importantes livros sobre o Islã publicados no Brasil, em especial “Promessas do Islã”, onde menciona a religião como socialista. O livro no Brasil foi editado pela Editora Nova Fronteira, em 1989, com 191 páginas e só hoje pode ser encontrado em sebos.

(4): Essa foi uma das guerras mais fratricidas da história, quando o Iraque fez o jogo dos EUA. Do lado iraquiano estima-se que tenham morrido até 400 mil pessoas, enquanto do lado iraniano o Governo estima uma perda de 180 mil soldados e até 600 mil civis. O custo total da Guerra para os dois lados ultrapassou um trilhão de dólares. 

(5): Eu escrevi em julho de 2021 um longo ensaio sobre a temática do Irã e sua democracia. (Acesse).

(6): Essa foi uma notícia que surpreendeu o mundo, pois o Irã, em plena vigência de sanções e embargos imperialistas conseguiu socorrer um país irmão enviando-lhes combustível. 

(7): GIELOW, Igor. “Irã envia petroleiros para Venezuela e eleva tensão com os EUA”. Folha de S.Paulo, 19 de maio de 2020. Mundo. (Acesse)

(8): Houve uma grande repercussão na mídia corporativa mundial a essa adesão, como pode-se ler nesta reportagem do UOL (Acesse).

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