M. K. BHADRAKUMAR: O Cazaquistão torna-se uma sepultura tóxica para a diplomacia dos EUA



        O Ministério da Saúde do Cazaquistão emitiu uma declaração inócua isentando-se de responsabilidades, negando os relatos nas mídias sociais sobre a tomada de um “laboratório biológico militar perto de Almaty por pessoas não identificadas”.

        De acordo com a agência de notícias russa Tass, nas mídias sociais estava sendo especulado que especialistas em trajes de proteção química estavam trabalhando perto do laboratório quando ocorreu “um vazamento de patógenos perigosos”.

        O comunicado de imprensa cuidadosamente redigido pelo Ministério cazaque esclarece: “Isso não é verdade. A instalação está sendo protegida”. Ponto final.

        O intrigante relatório destaca a ponta de um iceberg que tem implicações para a saúde pública e possui graves ramificações geopolíticas.

        Desde o final dos anos 90, quando se soube que os EUA estavam constantemente estabelecendo e construindo parcerias em pesquisa biológica com várias ex-Repúblicas soviéticas, Moscou tem alegado reiteradamente que tal cooperação representa uma ameaça para a Rússia.

        Essas instalações de investigação biológica foram originalmente concebidas como parte do chamado Programa de Redução de Ameaças Biológicas Nunn-Lugar para impedir a proliferação de conhecimentos especializados, materiais, equipamentos e tecnologias que pudessem contribuir para o desenvolvimento de armas biológicas.

        Mas Moscou suspeitava que estava acontecendo exatamente o contrário — que na realidade, o Pentágono estava patrocinando, financiando generosamente e fornecendo assistência técnica a estes laboratórios onde “sob o pretexto de uma investigação pacífica” os EUA estão construindo seu “potencial biológico-militar”.

        Numa sensacional declaração em outubro de 2018, o Major-General Igor Kirillov, Comandante das Tropas de Defesa Radiológica, Química e Biológica da Rússia, chegou ao ponto de revelar um padrão discernível da rede de laboratórios do Pentágono localizada próxima das fronteiras da Rússia e da China.

        A parceria EUA-Cazaquistão nesse domínio remonta a 2003. O Cazaquistão tem sido um “ponto de acesso” interessante para a ocorrência e vigilância de doenças infecciosas, em parte devido à sua história, geografia e diversidade de espécies hospedeiras. O Cazaquistão mantém há muito tempo uma infraestrutura e uma rede hierarquizada para a vigilância de doenças infecciosas desde o tempo dos czares.

        Os projetos de investigação financiados pelos EUA centraram-se em estudos envolvendo agentes selecionados, incluindo zoonoses: antrax, peste, tularemia, gripe aviária altamente patogênica, brucelose etc. Estes projetos financiaram investigadores no Cazaquistão, enquanto colaboradores de projetos nos EUA e no Reino Unido orientaram e guiaram esses investigadores a desenvolverem e testarem as suas hipóteses.

        Tem sido um arranjo “ganha-ganha”. A equipe do instituto cazaque foi treinada em modernas técnicas de diagnóstico e gerenciamento de dados e fez trabalhos de pesquisa com generoso financiamento externo, enquanto o Pentágono obteve por meio de tais laboratórios valiosos insumos para programas secretos de armas biológicas dos EUA com aplicação militar direcionada especificamente contra grupos étnicos na Rússia e na China

        O despretensiosamente chamado Laboratório Central de Referência (CRL) em Almaty, que figura no relatório da Tass, foi originalmente planejado em 2013, tendo os EUA investido US$102 milhões num laboratório de biossegurança para estudar alguns dos agentes patogênicos mais mortíferos que poderiam ser potencialmente utilizados em ataques de bioterrorismo.

        Ao invés de localizar as novas instalações em alguma terra obscura de Nevada, o Pentágono escolheu deliberadamente um local perto de Almaty para armazenar em segurança e estudar as doenças de mais alto risco como a peste, o antraz e a cólera.

        A lógica era que o laboratório proporcionaria emprego remunerado a talentosos investigadores cazaques e iria tirá-los das ruas, por assim dizer — ou seja, iria desencorajá-los de venderem os seus conhecimentos científicos e serviços a grupos terroristas que pudessem dar uso a armas biológicas.

        Mas o CRL, agora operacional, está ancorado na cooperação institucional entre o Governo cazaque e a Agência de Redução de Ameaças (DTRA) da Defesa dos EUA, subordinada ao Pentágono, a qual está encarregada de proteger “os interesses de segurança nacional dos EUA num ambiente globalizado de ameaças em rápida evolução para permitir um maior entendimento dos nossos adversários e fornecer soluções para ameaças de armas de destruição em massa numa era de competição de grandes potências”.

        A propósito, a Alemanha também tem um acordo semelhante sob a rubrica Rede Alemã-Cazaque de Biossegurança, a qual é coadministrada pelo Instituto de Microbiologia de Bundeswehr (uma instalação de investigação militar das Forças Armadas da Alemanha para a defesa biológica médica).

        Porque é que o Cazaquistão é um parceiro procurado? Em termos simples, o Oaís fornece acesso único aos grupos étnicos russos e chineses como "

“espécimes” para a realização de investigação de campo envolvendo agentes de guerra biológica de potencial altamente patogênico. O Cazaquistão tem 13.364 quilômetros de fronteiras com os países vizinhos Rússia, China, Quirguistão, Uzbequistão e Turcomenistão.

        Estaria a China indiferente a tudo isso? Longe disso. A Beijing Review apresentou um relatório proveniente da BBC Monitoring em 2020, transmitindo as preocupações da China sobre o assunto. Recentemente, em novembro do ano passado, um comentarista russo da Astute News escreveu que esses laboratórios biológicos são bases virtuais do Pentágono e exigiu um inquérito internacional.

        Ele destacou que o Ministério da Educação e Ciência do Cazaquistão “agora trabalha principalmente em programas de investigação do Pentágono”.

        Como poderia o Cazaquistão, um membro da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO), ter adotado tal conduta? Isso precisa de algumas explicações.

        Paradoxalmente, esses laboratórios biológicos são exemplos vivos de algo sinistro que tem acontecido e que é sabido por toda a gente mas de que ninguém quer falar — nomeadamente, a extensa penetração das decadentes elites dirigentes do Cazaquistão pelos serviços secretos dos EUA.

        Essa penetração vem acontecendo há anos, mas aprofundou-se significativamente à medida que a liderança “prática” do ex-Ppresidente Nursultan Nazarbaev de 81 anos começou a afrouxar e membros da sua família e amigos começaram a fazer cada vez mais trapaças (sob o olhar benevolente do patriarca, é claro) — algo semelhante aos anos de Boris Yeltsin na Rússia.

        Infelizmente, trata-se de uma história familiar. As elites cazaques são notoriamente corruptas, mesmo para os padrões da Ásia Central, e preferem manter seus saques em refúgios seguros no mundo ocidental. Não surpreendentemente, estão irremediavelmente comprometidas com a inteligência dos EUA. É tão simples quanto isso.

        Certamente Moscovo sentiu que o descontentamento popular estava aumentando e o chão sob os pés de Nazarbaev, um amigo íntimo do Presidente russo Vladimir Putin, estava a mudar. Mas não interferiu — ou mais provavelmente não interferiria — uma vez que os EUA estavam operando através de poderosos elementos compradores que por acaso eram os membros da família e associados do patriarca envelhecido.

        Dadas as afiliações do clã naquela parte do mundo, Moscou provavelmente sentiu ser prudente guardar os seus conselhos para si. Um fator adicional teria sido o medo de que os EUA pudessem manipular as forças ultranacionalistas (como aconteceu na Ucrânia) para infligir danos à vulnerável minoria étnica russa de 3,5 milhões (18% da população).

        Acima de tudo, o fato é que a camarilha de Nazarbaev detinha as alavancas do poder estatal, especialmente sobre o seu aparelho de segurança, o que deu a Washington uma vantagem decisiva.

        Mas as coisas mudaram drasticamente na semana passada. Nazarbaev pode ainda ter alguma influência residual, mas não o suficiente para resgatar a elite que serve os interesses dos EUA. O Presidente Tokaev, um discreto diplomata de carreira, está finalmente caindo em si.

        Duas das medidas decisivas de Tokaev foram a substituição de Nazarbaev como Chefe do Conselho de Segurança Nacional e a demissão do poderoso Chefe dos Serviços Secretos do País, Karim Masimov (que desde então tem estado preso juntamente com outros suspeitos não identificados como parte de uma investigação de “alta traição").

        Na verdade, Washington tem muito com que se preocupar porque, no final das contas, o Cazaquistão permanece um assunto inacabado, a menos e até que uma revolução colorida possa provocar uma mudança de regime e instalar um governante pró-Ocidente, como na Ucrânia. A turbulência atual significou uma tentativa abortada de revolução colorida, que ricocheteou.

        Ao contrário do que acontece no Afeganistão, a CIA e o Pentágono não estão em posição de “evacuar” seus colaboradores. E o fluxo torrencial de eventos chocou o establishment de Washington. O Cazaquistão é um país grande (dois terços do tamanho da Índia) e escassamente povoado (18 milhões). As forças da CSTO que se moveram para lá estão bem equipadas e lideradas por um general duro e experiente que esmagou a insurreição apoiada pelos EUA na Chechênia.

        As forças russas levaram consigo o avançado sistema de guerra eletrônica Leer-3, o qual inclui drones Orlan-10 especialmente configurados, dispositivos de interferência etc. As fronteiras foram fechadas.

        O mandato das forças russas consiste em proteger “ativos estratégicos”. Presumivelmente, tais ativos incluem os laboratórios financiados pelo Pentágono no Cazaquistão.

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