PEPE ESCOBAR: Rússia e Ocidente — Penetrando a névoa da histeria

 


         Um espectro assombra o Ocidente coletivo: zumbificação total, cortesia de uma psyop ativa 24/7, impondo a inevitabilidade da “agressão russa”.

         Vamos furar a névoa da histeria perguntando ao ministro da Defesa ucraniano, Reznikov, o que está acontecendo: “Posso absolutamente dizer que até hoje, as Forças Armadas russas não criaram um grupo de ataque que pudesse fazer uma invasão forçada da Ucrânia”.

         Bem, Reznikov obviamente não está ciente de que a Casa Branca, com acesso a informações indiscutivelmente privilegiadas, está convencida de que a Rússia invadirá “a qualquer minuto”.

         O Pentágono admite: “É muito claro que os russos não têm a intenção, neste momento, de desescalar”. Por isso, a necessidade, expressa pelo porta-voz John Kirby, de preparar uma força multinacional de resposta da OTAN (NRF) de 40 mil soldados: “Caso seja acionada… para derrotar a agressão, se necessário”.

         Portanto, “a agressão” é uma certeza. A Casa Branca está “refinando” os planos militares — 18 na última contagem — para todas as formas de “agressão”. Quanto a responder — por escrito — às propostas russas sobre garantias de segurança, bem, isso é muito complexo.

         Não há “data exata” para enviar a resposta a Moscou. E os proverbiais “oficiais” imploraram a seus homólogos russos que não a tornassem pública. Afinal de contas, uma carta não é algo muito sexy. No entanto, a “agressão” vende. Especialmente quando isso pode acontecer “a qualquer minuto”.

         Os “analistas” gritam que Putin “está agora quase certo” de realizar um “ataque limitado” nos “próximos dez dias”, complementado com um ataque a Kiev: isso configura o cenário de uma “guerra quase inevitável”.

         Vladimir Dzhabarov, primeiro vice-presidente do Comitê de Assuntos Internacionais da Rússia, prefere se aproximar da realidade: os Estados Unidos estão preparando uma provocação para empurrar Kiev para “ações imprudentes” contra a Rússia no Donbass. Isso se relaciona com os soldados da infantaria da República Popular de Lugansk, relatando que “grupos subversivos preparados por instrutores britânicos” chegaram à área de Lisichansk.

         Figuras como Ursula von der Leyen da Comissão Europeia, Jens Stoltenberg da OTAN e “líderes” do Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Polônia anunciaram, após uma videoconferência, que “um pacote de sanções sem precedentes” está quase pronto no caso da Rússia “invadir”.

         Eles o anunciaram como “unidade internacional diante da crescente hostilidade da Rússia”. Tradução: OTANistão implorando à Rússia que por favor invada o quanto antes.

         Dos 27 membros da UE, 21 são membros da OTAN. Os Estados Unidos dominam todos. Assim, quando a UE anuncia que “qualquer nova agressão militar contra a Ucrânia ocasionará em consequências muito graves para a Rússia”, são os EUA dizendo à OTAN para dizer à UE: “o que dizemos, vai acontecer”. E sob esta estratégia de ambiente de tensão, “o que nós dizemos” significa aplicar cruamente o dividir para governar imperial para manter a Europa totalmente subjugada.




Os erros fatais do Ocidente


         Nunca se deve esquecer que Maidan em 2014 foi uma operação supervisionada por Obama/Biden. No entanto, ainda há muitos negócios inacabados — quando se trata de atolar a Rússia. Portanto, o visceralmente russófobo Partido de Guerra em D.C. agora faz de tudo para ordenar ao OTANistão que incite Kiev a iniciar uma guerra quente — e assim emboscar a Rússia. Zelensky, o comediante, chegou até mesmo a registrar querer “ir para a ofensiva”.

         Portanto, é hora de soltar as bandeiras falsas.

         O indispensável Alastair Crooke delineou como o “o ‘cerco’ e a ‘contenção’ se tornaram efetivamente a política externa padrão de Biden”. Não “Biden”, efetivamente — mas a combinação amorfa por trás do fantoche controlado por ponto/teleprompter que tenho designado há mais de um ano como Boneco de Pano (Crash Test Dummy).

         Crooke acrescenta que “a tentativa de cimentar essa metadoutrina está atualmente sendo decretada via Rússia (como o passo inicial). A adesão essencial da Europa é a ‘peça fundamental’ para a contenção física e o cerco da Rússia”.

         “Cerco” e “contenção” têm sido a base excepcionalista, sob vários disfarces, durante décadas. A noção alimentada pelo Partido de Guerra de que é possível realizar ambos através de uma frente triangular — contra Rússia, China e Irã — é tão infantil para tornar qualquer análise ociosa. Exige uma bebida e uma boa risada.

         Quanto às sanções extras para a “agressão russa” imaginária, algumas almas benevolentes tiveram que lembrar ao pequeno Tony Blinken e a outros participantes do combo “Biden” que os europeus seriam muito mais letalmente afetados do que os russos; sem mencionar que essas sanções turbinariam a crise econômica do Ocidente coletivo.

         Uma breve recapitulação é essencial para enquadrar como acabamos atolados no atual pântano de histeria.

         O Ocidente coletivo desperdiçou a chance que tinha de construir uma parceria construtiva com a Rússia semelhante à parceria que fez com a Alemanha depois de 1945.

         O Ocidente coletivo também estragou tudo ao reduzir a Rússia ao papel de uma entidade menor e dócil, impondo que há apenas uma esfera de influência no planeta: O OTANistão, é claro.

         E o Império arruinou tudo quando visou o enfrentamento com a Rússia, mesmo depois de ter alegadamente “vencido” a URSS.

         Durante as décadas de 1990 e 2000, em vez de ser convidada a participar da construção da “casa comum europeia” — com todas as suas falhas gritantes — a Rússia pós-soviética foi forçada a ficar do lado de fora olhando para a forma como essa “casa” seria atualizada e decorada.

         Ao contrário de todas as promessas feitas a Gorbachev por diversos líderes ocidentais, a tradicional esfera de influência russa — e até mesmo o território da antiga URSS — tornou-se objeto de disputa na pilhagem da “herança soviética”: meramente um espaço a ser colonizado pelas estruturas militares da OTAN.

         Ao contrário da esperança de Gorbachev — que estava ingenuamente convencido de que o Ocidente compartilharia com ele os benefícios dos “dividendos da paz” — foi imposto um modelo neoliberal anglo-americano hardcore sobre a economia russa. Somado às consequências desastrosas dessa transição estava o sentimento de frustração nacional de uma sociedade que foi humilhada e tratada como uma nação derrotada na Guerra Fria, ou 3GM.

         Este foi o erro fatal do Excepcionalistão: acreditar que, com o desaparecimento da URSS, a Rússia como uma realidade histórica, econômica e estratégica também desapareceria das relações internacionais.

         O novo Pacto de Aço

         E é por isso que a War Inc., o Partido da Guerra, o Deep State, ou como você quiser chamá-los, está pirando agora — e muito.

         Eles descartaram Putin quando ele formulou um novo paradigma em Munique em 2007 — ou quando voltou para o Kremlin em 2012.

         Putin deixou muito claro que os legítimos interesses estratégicos da Rússia teriam que ser respeitados novamente. E que a Rússia estava prestes a recuperar seus “direitos de veto” de facto na gestão dos assuntos mundiais. Bem, a doutrina Putin já estava sendo implementada desde o caso georgiano em 2008.

         A Ucrânia é uma colcha de retalhos que pertenceu até recentemente a diferentes impérios — Austro-Húngaro e Russo — bem como a várias nações, como a Rússia, Polônia e Romênia. Ela reagrupa o catolicismo e a ortodoxia, e tem milhões de russos étnicos e falantes de russo com profundos laços históricos, culturais e econômicos com a Rússia.

         Portanto, a Ucrânia era de fato uma nova Iugoslávia.

         O erro fatal cometido por Bruxelas em 2014 foi forçar Kiev, assim como a população ucraniana como um todo, a fazer uma escolha impossível entre a Europa e a Rússia.

         O resultado inevitável teria que ser Maidan, completamente manipulada pela inteligência americana, mesmo quando os russos viram claramente como a UE mudou da posição de mediador honesto para o relés papel de chihuahuas dos americanos.

         Os falcões russófobos dos EUA nunca renunciarão ao espetáculo de seu adversário histórico atolado em uma lenta guerra fratricida no espaço pós-soviético. Por mais que nunca renunciem ao dividir para governar imposto sobre uma Europa debilitada. Por mais que nunca cedam “esferas de influência” a qualquer ator geopolítico.

         Sem sua marca tóxica, 2014 poderia ter sido bem diferente.

         Para dissuadir Putin de devolver a Crimeia ao seu lugar de direito — a Rússia — teria sido necessário duas coisas: que a Ucrânia fosse administrada decentemente depois de 1992 e não  fosse forçada a escolher o campo ocidental, para que pudesse se tornar uma ponte, ao estilo da Finlândia ou da Áustria.

         Depois de Maidan, os Acordos de Minsk foram o mais próximo possível de uma solução viável: vamos acabar com o conflito em Donbass, vamos desarmar os protagonistas e vamos restabelecer o controle das fronteiras da Ucrânia, ao mesmo tempo em que proporcionamos verdadeira autonomia ao Leste da Ucrânia.

         Para que tudo isso acontecesse, a Ucrânia precisaria de um status neutro e de uma dupla garantia de segurança, por parte da Rússia e da OTAN, tornando o acordo de associação entre a Ucrânia e a UE compatível com os estreitos laços entre o Leste da Ucrânia e a economia russa.

         Tudo isso teria talvez configurado uma visão europeia de relações futuras decentes com a Rússia.

         No entanto, o Deep State russófobo nunca permitiria isso. E o mesmo se aplicava à Casa Branca. Barack Obama, aquele cínico oportunista, estava envolvido demais pelo duvidoso contexto polonês de Chicago e não estava livre da obsessão excepcionalista com o antagonismo profundo para poder construir uma relação construtiva com a Rússia.

         Depois há o fator decisivo, revelado por uma fonte da inteligência americana de alto nível.

         Em 2013, o falecido Zbigniew “Grande Tabuleiro” Brzezinski foi presenteado com um relatório confidencial sobre avançados mísseis russos. Ele se assustou. E respondeu com a conceitualização de Maidan em 2014 — para atrair a Rússia para uma guerra de guerrilhas, como ele havia feito com o Afeganistão nos anos 1980.

         E aqui estamos nós agora: é tudo uma questão de negócios inacabados.

         Uma palavra final sobre as pedras e flechas da fortuna ultrajante. No século XIII, o Império Mongol estabeleceu sua soberania sobre a Rússia de Kiev — ou seja, sobre os principados cristãos ortodoxos que correspondem hoje ao norte da Ucrânia, Bielorrússia e parte da Rússia contemporânea.

         O jugo tártaro sobre a Rússia — de 1240 a 1552, quando Ivan, o Terrível conquistou Kazan — está profundamente impresso na consciência histórica russa e no debate sobre a identidade nacional.

         Os mongóis conquistaram separadamente vastas extensões da China, Rússia e Irã. Séculos depois da Pax Mongolica, ironicamente o novo Pacto de Aço entre esses três principais atores eurasianos é agora um obstáculo geopolítico intransponível, esmagando todos os planos elaborados por um bando de arrivistas históricos transatlânticos.




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