A análise deste autor na semana passada sobre os “contornos estratégicos do pedido da Duma para que Putin reconheça as Repúblicas no Donbass” previu que ele poderia acabar tomando tão dramática decisão no caso de Kiev iniciar uma terceira rodada de hostilidades de guerra civil naquela região, que foi exatamente o que aconteceu nos três dias desde que a análise foi publicada. A crise humanitária que isso desencadeou foi suficientemente grave para que a Rússia recorresse rapidamente a uma aplicação tácita do conceito de “Responsabilidade de Proteger” (R2P) a fim de garantir a segurança dos habitantes dessas Repúblicas recém-reconhecidas, especialmente os mais de 700 mil que requereram e receberam cidadania russa. Além disso, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, em discurso na Conferência de Segurança de Munique, no fim de semana, afirmou que seu país pode começar a desenvolver armas nucleares, o que representa uma ameaça urgente para a Rússia.
O maior contexto em que esses céleres eventos estão se desenvolvendo é a não declarada crise dos mísseis da Europa, causada pela retirada dos EUA do Tratado sobre Mísseis Antibalísticos (ABM), do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF) e do Tratado de Céus Abertos (Open Skies). Esses acontecimentos ocorreram em paralelo com a contínua expansão para o Leste praticada pela OTAN — uma aliança militar explicitamente antirrussa que Moscou considera uma ameaça existencial — com o envio de armas e a implantação de “sistemas antimísseis” próximos às fronteiras da Rússia. O efeito cumulativo é que as capacidades de um contra-ataque nuclear da Rússia estavam em risco de serem corroídas, o que eventualmente colocaria o País em uma posição perpétua de chantagem nuclear vis-à-vis os EUA. Em resposta, a Rússia urgentemente fez seus pedidos de garantias de segurança em uma tentativa de alcançar uma resolução diplomática para a crise sem precedentes da Nova Guerra Fria.
Estes foram publicados no final de dezembro e tinham como objetivo revisar a arquitetura de segurança europeia, que até então apresentava viés contrário à Rússia, em violação aos princípios de segurança indivisível da Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) e não aumentando a segurança de ninguém. A resposta insatisfatória dos EUA a essas sensíveis questões revelou a Moscou que Washington não estava levando suas linhas vermelhas de segurança nacional a sério. O Presidente Putin, em discurso ao povo russo televisionado na segunda-feira à noite, descorreu sobre como os EUA conseguiram capturar o controle de todo o aparato estatal ucraniano a fim de transformá-lo em uma arma terceirizada de guerra híbrida de espectro total contra a Rússia. Ele também afirmou que os EUA/OTAN já tomaram a decisão de explorar a Ucrânia como uma plataforma nacional para “conter” a Rússia.
As Repúblicas do Donbass figuram de forma proeminente nesses grandes cálculos estratégicos desde que Kiev iniciou, com o apoio dos EUA, uma terceira rodada de hostilidades de guerra — adiada inexplicavelmente por alguns dias a partir de 16 de fevereiro, a data inicialmente planejada — que foi rapidamente presumida pela inteligência russa como um pretexto para aumentar o envio de armas americanas para países da região, podendo até eventualmente incluir mísseis hipersônicos que poderiam ser enviados também à Ucrânia um dia. Pior ainda, o Presidente Putin advertiu que o novo flerte da Ucrânia com a obtenção de armas nucleares representa uma ameaça muito crível e que poderia se materializar mais cedo do que tarde no caso de apoio estrangeiro para o projeto, o que presumivelmente viria do Ocidente. Sob estas circunstâncias de segurança extremamente tensas, o Presidente Putin decidiu reconhecer as Repúblicas do Donbass.
Fazer isso pode ser considerado uma “escalada” para alguns observadores estrangeiros que não têm uma compreensão adequada da grande dinâmica estratégica em jogo, como explicado anteriormente, mas na verdade é uma tentativa inteligente de mudar os cálculos político-militares locais. A decisão visa encorajar o Ocidente — especialmente os franceses, cada vez mais independentes — a entrar em uma série de acordos para resolver as duas crises de segurança interconectadas. A mais conhecida delas no Ocidente é a Guerra Civil Ucraniana, cuja falta de resolução há oito anos foi atribuída pelo Presidente Putin exclusivamente à recusa de Kiev, com apoio dos EUA, de implementar os Acordos de Minsk. Embora tais acordos sejam praticamente irrelevantes após sua decisão, espera-se que um acordo em substituição seja elaborado urgentemente por todas as partes interessadas, embora tal resultado certamente não possa ser assegurado se os Estados Unidos decidirem continuar a escalar essa crise.
O segundo e muito mais importante aspecto da crise europeia é a não declarada crise dos mísseis na Europa, provocada pelos EUA. Conforme Putin disse em seu discurso, essa crise só pode ser resolvida através de um pacote de acordos que inclua garantias juridicamente vinculativas para deter a expansão da OTAN para o leste, impedindo a implantação de mísseis perto das fronteiras da Rússia, e garantindo o retorno ao status quo militar continental a partir do Ato Fundador OTAN-Rússia de 1997. O desrespeito às três linhas vermelhas de segurança nacional mais urgentes da Rússia só agravará a crise atual para proporções potencialmente catastróficas. O reconhecimento das Repúblicas do Donbass mostra que o Presidente Putin quer que todos os interessados nessas crises interligadas cooperem urgentemente em um novo formato para acabar com a Guerra Civil Ucraniana e resolver a ameaça dos mísseis provocada pelos EUA que corre o risco de minar a capacidade de contra-ataque nuclear da Rússia.
O ato deve ser visto também pelo que obviamente é: um gesto humanitário motivado pelo desejo de garantir a segurança daqueles civis — e especialmente dos mais de 700 mil cidadãos russos entre eles — nas duas Repúblicas recém-reconhecidas que o Presidente Putin declarou na semana passada estarem sofrendo um genocídio apoiado pelos EUA por parte das tropas de Kiev. Se Washington não ordenar que seus terceirizados ucranianos se retirem, eles podem muito bem acabar entrando em confrontos diretos com os militares russos, o que, por sua vez, pode levar Moscou a neutralizar todas as ameaças iminentes vindas da direção ocidental daquele país. Se esse cenário se concretizar, não está claro se a Rússia recorreria à ação no terreno que o Ocidente tanto teme (uma “invasão”, mesmo que seja apenas uma “pequena incursão” na realidade) ou se confiaria no ar, na artilharia e/ou nos recursos de mísseis para realizar tais tarefas.
Vendo como o Presidente Putin articulou muito claramente a natureza da ameaça existencial rasteira que o projeto antirrusso dos EUA/OTAN na Ucrânia representa para seu Estado e civilização, há também a possibilidade de apoiar a chamada “mudança de regime” lá, mesmo que apenas estendendo o apoio político aos membros da oposição que podem potencialmente tomar o poder através de uma “revolução colorida” genuinamente popular organizada para forçar o renegado e terceirizado Governo fascista à paz com seu vizinho fraternal. Independentemente se esse cenário em particular se desenrolar ou não, ainda não se pode descartar que a Rússia possa ter decidido proteger de forma sustentável suas linhas vermelhas de segurança nacional através de uma variedade de meios muito além do simples reconhecimento das Repúblicas do Donbass depois que seu chefe de Estado explicou apaixonadamente ao mundo as ameaças multidimensionais — inclusive nucleares e terroristas — que emanam da Ucrânia.
O ônus agora é somente dos EUA, seja para escalar essas crises interconectadas ou para explorar sinceramente sua urgente desescalada, mesmo que esta última inclua ações para manter as aparências, como primeiro impor as chamadas “sanções sem precedentes” que antes ameaçavam impor, apesar de possivelmente ordenar aos seus terceirizados ucranianos que se retirassem, por enquanto, por simples autopreservação para reter algum elemento de controle sobre aquele país quando tudo estiver dito e feito. Não está claro no momento em que escrevo o que os EUA farão e quais fatores podem figurar em seus cálculos, mas tudo o que se sabe é que tudo mudou após o reconhecimento das Repúblicas do Donbass pelo Presidente Putin. A situação logo ficará muito pior ou, espera-se, ligeiramente melhor, dependendo das escolhas dos Estados Unidos no futuro imediato, mas o fato é que, mais uma vez, será sua a decisão de se a crise vai ou não escalar.
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