ELIJAH J. MAGNIER: Guerra da Rússia na Ucrânia... A decisão está nas mãos de Washington


         Acusar o Presidente russo Vladimir Putin de tentar reviver a antiga União Soviética é uma tentativa de camuflar o âmago da crise ucraniana, que se deve à expansão da OTAN e às provocações dos EUA à Rússia, que ultrapassaram os limites de tolerância do Presidente russo. Os EUA deveriam manter a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) longe da linha Oder-Neisse e se abster de estabelecer suas bases na Europa Oriental, principalmente nas antigas Repúblicas Soviéticas. Em vez disso, a OTAN se expandiu em muitas dessas ex-Repúblicas. Além disso, seus oficiais treinaram e prepararam tropas ucranianas e georgianas durante anos para atender às exigências de adesão à OTAN. Este movimento ousado foi considerado uma grave ameaça à Rússia e uma violação do acordo anteriormente alçado entre as duas superpotências. O Presidente Putin demonstra confiança em suas decisões e um excesso de poder ao reconhecer as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk com as fronteiras que tiveram enquanto regiões da Ucrânia. Ele está, entretanto, dando espaço à Europa para intervir antes que seja tarde demais e enviando uma mensagem aos EUA, líder efetivo da OTAN, de que a Rússia não negociará e não fará concessões sobre sua segurança.

         O Presidente russo está repetindo alto e claro que qualquer passo que represente uma ameaça a Moscou não será permitido, independentemente das ameaças ocidentais de consequências (sanções). As mensagens são atualmente para Kiev, mas são também para Tbilisi, a capital da Geórgia, que está na lista de perspectivas de expansão da OTAN. Mas será que os EUA, através da Ucrânia, conseguirão pressionar a Rússia a responder militarmente? A decisão está principalmente nas mãos da Ucrânia, que lutará sozinha no final das contas. É também decisão do residente da Casa Branca com os planos de seus generais de empurrar o Continente Europeu para a guerra. A situação atual está chegando perigosamente perto de uma posição sem retorno, a menos que a Europa tome a iniciativa e leve a Rússia e os Estados Unidos a uma desescalada antes que seja tarde demais.

         O Presidente Putin anunciou que os Acordos de Minsk expiraram. De fato, a Câmara Alta do Parlamento da Rússia concedeu permissão para que os militares do País fossem destacados para o exterior, seguindo o pedido do Presidente. Consequentemente, a Rússia ordenou que suas tropas defendessem o Donbass, o que é um desenvolvimento significativo.

         O que é mais problemático é a alegação de Putin de que a Ucrânia poderia desenvolver armas nucleares com a ajuda do Ocidente, o que representa uma ameaça devastadora para Moscou. Essa declaração do Presidente russo significa que a possibilidade de uma ação militar maior é altamente provável, a menos que a Ucrânia anuncie claramente que não aderirá à OTAN e ofereça as garantias necessárias. A Rússia já havia solicitado isso aos EUA nas semanas anteriores, antes de reconhecer as Repúblicas do Donbass como independentes. Washington ignorou os pontos essenciais das propostas russas, escolheu deliberadamente selecionar ou omitir alguns tópicos convenientes e não está disposta a “acordar em garantias firmes e juridicamente vinculativas“.

         Uma possível invasão da Ucrânia só trará consequências esmagadoras para a Europa. O vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia e ex-Presidente Dmitry Medvedev advertiu que o movimento alemão para suspender o projeto do gasoduto de 1.200 quilômetros Nord Stream 2, no Mar Báltico, forçará os cidadãos da UE a pagar 2.000 euros por mil metros cúbicos de gás. O Nord Stream ainda não foi inaugurado, mas qualquer sanção europeia contra a Rússia desencadeará uma reação semelhante por parte de Moscou, se necessário fazendo a Europa passar fome em relação a suas necessidades de gás. Além disso, o preço do petróleo poderia chegar a 150 dólares por barril. Aqueles que pagam o custo econômico mais elevado da queda de braço que os EUA decidiram empreender com a Rússia são os consumidores finais. Ambos os presidentes Donald Trump e Joe Biden — este quando era Vice-Presidente — fizeram uma vigorosa campanha contra o Nord Stream 2 para evitar uma maior aproximação entre a Europa e a Rússia.

         A UE ainda pretende ignorar as preocupações da Rússia com a expansão da OTAN e chamou o reconhecimento de Moscou das Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk de “um dos dias mais sombrios da história moderna da Europa“. Dada a história moderna da Europa, essa é uma afirmação e tanto. A UE concordou em sancionar mais de 351 deputados russos que votaram para reconhecer as duas Repúblicas separatistas do Donbass um dia depois de Putin anunciar que Moscou confirmaria sua independência.

         Moscou não precisa de uma zona-tampão, — as regiões de Lugansk e Donetsk — para proteger suas fronteiras, pois possui armas e mísseis precisos e destrutivos, capazes de atacar e eliminar alvos únicos ou múltiplos. Em vez disso, procura transmitir uma mensagem ao Ocidente — em particular aos EUA, que estão liderando a tensão atual — de que a Moscou de 2022 não é a Moscou de 1991-1997. O atual Czar do Kremlin vai resistir e não ficar calado sobre a expansão da OTAN como seus predecessores fizeram.

         Na década de 1990, o secretário de Estado americano James Baker garantiu ao Presidente Mikhail Gorbachev, segundo registros e correspondências em 1990 (publicados pela agência American National Security), que a OTAN não se estenderia além de suas fronteiras em direção aos países da antiga União Soviética. Em 1993, o Presidente Boris Yeltsin enfatizou em carta ao Presidente americano Bill Clinton sobre “a necessidade de reconsiderar a decisão de incluir os países do leste europeu na OTAN”. O secretário de Estado americano Warren Christopher viajou a Moscou, segundo escreveu em suas memórias, para explicar a Ieltsin que os EUA não apoiariam a adesão de novos membros à Aliança.

“A expansão quantitativa da OTAN dificilmente resolverá o problema [ameaça à Europa]. Também quero chamar a atenção para o fato de que o espírito do tratado assinado em setembro de 1990 proibindo o envio de tropas estrangeiras para as terras orientais da República Federal da Alemanha impede a opção de expandir a zona da OTAN para o Leste”, escreveu Ieltsin. O Presidente russo pediu a Clinton que considerasse o calor necessário para que a Rússia aderisse à OTAN com Moscou dando garantias aos países do Leste Europeu que enfatizassem o respeito a suas fronteiras internacionais.

         Mas em 1997, a OTAN convidou os antigos membros do “Pacto de Varsóvia” — a saber, Hungria, República Tcheca e Polônia — a aderirem à Aliança, o que veio a acontecer no ano de 1999. Em 2004, a Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia aderiram à OTAN. Esses países também foram seguidos pela Croácia, Montenegro, Albânia e Macedônia do Norte entre 2009 e 2020, que são os países que compunham a antiga Iugoslávia.

         Os acordos de 1990 estabelecidos e explicitados entre os Estados Unidos e a Rússia foram construídos sobre uma visão de que a OTAN e a Rússia não eram inimigas. Ieltsin também reiterou o mesmo ponto para Clinton. Enquanto o líder de fato da OTAN, o Presidente Joe Biden, descreveu seu homólogo russo como um “assassino” que “pagaria o preço”. Portanto, podemos dizer que a batalha não começou com o reconhecimento por Putin de uma província independente do Donbass. Na verdade, ela começou no dia em que Biden chegou à Casa Branca.

         O Presidente russo deu sinais claros e múltiplos aos Estados Unidos de que não aceitará a adesão da Ucrânia e da Geórgia à OTAN e que não negociará a segurança de Moscou. O Ocidente acreditava que poderia subjugar Putin, pois anteriormente havia ignorado Gorbachev e Ieltsin. Ou, na pior das hipóteses, a Casa Branca pensava que a Rússia entraria na guerra para ocupar a Ucrânia e que a experiência americana e o fracasso em permanecer no Afeganistão e no Iraque confirmariam que o ocupante poderia vencer a batalha, mas ainda assim não conseguiria preservar a terra.

         Entretanto, o Presidente russo reitera que não haverá estabilidade na Ucrânia se esta aderir à OTAN e, sem dúvida, reagirá da mesma forma se a Geórgia quiser sediar uma base da Organização. Putin disse que o Ocidente “imporá sanções de qualquer maneira”. De fato, o Presidente Biden impôs sanções iniciais à Rússia, mesmo antes do início da guerra.

         Portanto, a decisão de Putin provém da determinação de sua posição e da força com que sente que pode enfrentar o Ocidente. Além disso, a conclusão da paz e da guerra está agora nas mãos dos EUA: Biden vai empurrar a Ucrânia para um confronto para atrair uma resposta militar de Moscou? Provocações podem sem dúvida ocorrer, e Kiev não pode mais ser excluída da possibilidade de uma guerra total. Tal medida abalaria todo o Continente Europeu.

         A invasão ucraniana está em cima da mesa, e a mesa é russa. Ainda assim, a Europa não pode tomar nenhuma decisão para proteger seus interesses porque não pode se desligar das obsessões e objetivos de Washington. Os líderes europeus poderiam desescalar forçando a Ucrânia a anunciar sua rejeição da candidatura à OTAN. Essa seria uma decisão sábia, pois a Europa seria o cenário do teatro em caso de guerra.

         O Presidente Biden está virando a página sobre George “Frango à Kiev” Bush Pai. Joe Biden parece mais comprometido com Zbigniew Brzezinski, que declarou, em dezembro de 1992, que “a Ucrânia deveria se tornar um verdadeiro Estado da Europa Central e também parte da OTAN”. Para a Rússia, a ponta do iceberg foram os exercícios militares conjuntos EUA-Ucrânia como preparação para trazer Kiev para a OTAN e a prontidão de Putin para se opor a ela, independentemente das consequências. Os EUA estão fazendo tudo ao seu alcance para arrastar a Rússia para um pântano destrutivo e engajá-la em ataques frenéticos de sabotagem caso a invasão da Ucrânia ocorra. Isso será às custas do povo ucraniano e um pesado preço a pagar para a estabilidade da Europa

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