No dia 28 de dezembro de 2021 o ministro da Defesa do Estado sionista de Israel recebeu em sua casa o Presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, do grupo Fatah. Foi o primeiro encontro entre ambos em 10 anos. O encontro representou a capitulação vergonhosa da AP frente a Israel, que ocupa a Palestina militarmente impondo uma brutal ditadura fascista há mais de 50 anos. No mesmo dia, Hazem Qassem, um dos porta-vozes do Hamas, afirmou que ao se reunir com Gantz, Abbas estava encorajando a ocupação militar.
Além disso, a reunião aconteceu em meio a uma intensificação da repressão de Israel aos territórios ocupados — só na noite de Natal mais de 300 palestinos foram feridos pelas Forças de Defesa de Israel (Tzahal) e mais casas palestinas foram destruídas. Após o ataque, o Hamas declarou: “O inimigo deve preparar-se para uma batalha integral com todo o nosso povo que está lutando para derrotar a ocupação e erradicá-la”. Ao contrário do Fatah capitulador, o Hamas se mostra como o verdadeiro partido da luta do povo palestino por sua libertação.
A luta dos povos do Oriente Médio
A luta do povo árabe por sua libertação muitas vezes é mal compreendida no Brasil devido a propaganda imperialista do “terrorismo”, em conjunto com a adaptação da esquerda pequeno-burguesa à política da direita. O caso mais emblemático foi a recente vitória do Talibã sob o imperialismo: algo que deveria ser comemorado por todos os povos do mundo e pelas organizações que lutam por sua libertação, foi mal recebido pela esquerda brasileira. Muitos setores chegaram ao ponto de defender a ocupação dos EUA em nome da “democracia” ou dos direitos das mulheres.
O caso do Hamas é semelhante ao do Talibã, a organização é o um partido nacionalista armado com um embasamento religioso que luta contra a ocupação militar do imperialismo. O Afeganistão esteve em uma guerra quase que ininterrupta desde 1979, e o caso palestino ainda é pior. A invasão do território e a criação do Estado de Israel aconteceu em 1948, criando uma divisão semelhante a atual, com Israel no centro e a Faixa de Gaza e a Cisjordânia divididas compondo o Estado Palestino. Contundo, em 1967, o Exército Sionista ocupou militarmente a Palestina impondo uma brutal ditadura que dura até os dias de hoje. Se a guerra do povo afegão durou 42 anos, a dos palestinos já ultrapassou os 54.
A ascensão do Hamas
O Hamas, acrônimo árabe para Movimento de Resistência Islâmico, foi fundado formalmente em 1988, após 20 anos de ocupação militar, e participou das principais lutas do povo palestino desde então. Com destaque para as duas Intifadas, como ficaram conhecidos os dois maiores levantes palestinos contra a ocupação de Israel, que duraram de 1987 até 1993 e de 2000 até 2006. Nestes primeiros anos de intensa mobilização o partido se fortaleceu principalmente no território mais oprimido da Palestina, a faixa de Gaza, uma área de 365 km² com cerca de dois milhões de pessoas, em sua maioria crianças, sob bloqueio de todos os lados e que já foi descrita como a maior prisão ao céu aberto do mundo.
Durante os seus primeiros 18 anos, o Hamas boicotou ambas as eleições — em 1996 e também em 2005 — apesar de participar amplamente da luta política nas ruas. Mas resolveu participar das eleições que ocorreram em janeiro de 2006, ano final do segundo grande levante, e o resultado foi estarrecedor. O Hamas superou o Fatah, partido do recém-falecido Yasser Arafat, que havia sido a principal organização dos palestinos anteriormente, recebendo 44.45% dos votos e assim garantindo 74 dos 132 parlamentares. Após a grande vitória do Hamas, Israel, a “única democracia do Oriente Médio” nunca mais permitiu que uma eleição se realizasse nos territórios que ela ocupa militarmente há 50 anos.
Após a vitória eleitoral o imperialismo impôs um bloqueio ainda maior sobre a Palestina, assim impedindo que o Hamas assumisse o Governo em todo o território palestino e utilizando o Fatah como seu aliado para impedir a ascensão do seu principal inimigo. Em 2007, após um ano de confronto, o Hamas havia tomado o poder apenas na Faixa de Gaza, ou seja, o partido que venceu democraticamente as eleições até hoje controla apenas 6,5% do território da Palestina. O ministro da Defesa, em agosto de 2021, deixou claro qual a política do imperialismo: “Se a Autoridade Palestina for mais forte (Fatah), o Hamas ficará mais fraco. Quando a Autoridade Palestina tiver mais capacidade de fazer cumprir a ordem, haverá mais segurança e nossa mão será menos pesada”.
A opressão dos palestinos
Aqui é preciso parar um pouco para descrever o nível da opressão que sofrem os palestinos sob a ocupação militar de Israel, financiada diretamente pelos EUA. Para resumir a opressão histórica dos palestinos, desde a criação do Estado de Israel em 1948, gostaria de apresentar apenas uma imagem ao leitor, não será uma foto sangrenta com crianças famintas, adolescentes presos, mulheres estupradas e homens mutilados, apesar destas serem abundantes, mas sim um quadro que retrata o Massacre de Sabra e Chatila do artista iraquiano Dia al-Azzawi sobre o acontecimento em 1982 que levou mais de 3000 palestinos a morte em 2 dias no campo de refugiados de Chatila (fundado em 1949!) no bairro de Sabra no Líbano.
Nem o quadro, nem o número a seguir permitirão ao leitor compreender tamanho a opressão e o sofrimento do povo palestino. Somente em 2012, 319 palestinos foram assassinados — 86 deles crianças — pelo Exército Israelense. Em Gaza, nos dados de 2018, 70% da juventude estava desempregada, neste ano, que marcou 70 anos da criação da ocupação da Palestina pelo Estado de Israel, houve grandes atos. Mais de 200 palestinos foram mortos e 23.000 feridos apenas nas manifestações. Dos milhares de presos políticos palestinos, em prisões israelenses, 95% sofreram algum tipo de tortura, de acordo com a Sociedade dos Presos Palestinos.
Isso tudo sem contar com as terríveis condições em que vive a esmagadora maioria do povo, sem saneamento básico, em favelas cercadas de enormes muros com torres guarnecidas de soldados com fuzis de alta tecnologia que protegem os condomínios dos assentamentos Israelenses. Cerca de 600 mil colonos israelenses vivem na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, ocupadas pelo Exército Sionista, enquanto na Faixa de Gaza, controlada pelo Hamas, não há mais assentamentos desde 2005. O atual regime existente no Estado de Israel, onde 20% da população é palestina, é basicamente de um apartheid — e no caso da Palestina propriamente a situação é muito pior.
Em defesa do Hamas
Mesmo com a brutal opressão de Israel, o povo palestino não abaixou a cabeça, está em constante confronto com a ocupação fascista e, por meio da sua luta, conseguiu transformar a questão palestina em uma questão discutida internacionalmente. A luta dos palestinos contra o imperialismo inspira a solidariedade em povos de todo o mundo, e ao mesmo tempo uma ampla repressão do imperialismo a todos que se declaram solidários. O caso de Jeremy Corbyn, líder trabalhista da Inglaterra é emblemático, tendo sofrido uma gigantesca campanha persecutória da imprensa imperialista, chegando a ser acusado na justiça de antissemitismo. Seu crime? Ele afirmou que num evento do parlamento havia convidado os “amigos do Hezbollah e também os amigos do Hamas” para discutir a política no Oriente Médio. O partido mais popular do Líbano (recentemente banido da Alemanha) e o partido mais popular da Palestina nem sequer podem ser convidados para uma conversa amigável no democrático Reino Unido.
A campanha internacional da burguesia contra o Hamas, o Hezbollah, os Houthis, o Talibã e todas as organizações nacionalistas muçulmanas é uma campanha pela dominação do Oriente Médio pelo imperialismo. É uma campanha pela opressão brutal que sofrem os afegãos, os iraquianos, os iemenitas, os sauditas, os egípcios, os sírios, os libaneses, os líbios, os somalis, os argelinos, os jordanianos, os palestinos e todos os povos do Oriente Médio. É uma campanha para manter de pé o regime capitalista decadente que impõe a fome e a miséria também na América Latina, na África, na Europa e em todo o mundo. Todos os que lutam contra esse regime brutal são nossos amigos, nossos companheiros na luta pela libertação na humanidade.
Uma derrota do imperialismo é uma vitória para todos os povos, não importa se aquele que os lidera seja um sindicalista rodoviário na Venezuela, ou um ex-guerrilheiro na Nicarágua, um metalúrgico no Brasil, o Aiatolá no Irã, um Mulá no Afeganistão, um ex-agente secreto na Rússia, o neto de um revolucionário na Coréia do Norte ou quem quer que seja. Na luta contra o imperialismo, estamos no lado da nação oprimida. O Hamas é o principal partido político que lidera o povo palestino na luta por sua libertação. Mesmo sob um bloqueio genocida e um dos regimes mais repressivos da história, o partido segue de pé por estar diretamente ligado à mobilização dos trabalhadores do País. Ao Hamas eu dirijo meu mais profundo respeito, fosse eu palestino, mesmo militando em um partido revolucionário, lutaria ombro a ombro com os militantes do Hamas pela derrota do maior máquina de opressão da história da humanidade, o imperialismo.
Viva o Hamas! Viva a luta do povo palestino! Viva a luta de todos os povos do Oriente Médio!
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